sábado, 17 de janeiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Braços Baratos para o Algodão(11)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     22. Braços Baratos para o Algodão
          O Brasil ocupa o quarto lugar no mundo como produtor de algodão; o México, o quinto. Em conjunto, provém da América Latina mais do que a quinta parte do algodão que a indústria têxtil consome em todo o planeta. No fim do século XVIII, o algodão já se tornara a matéria-prima mais importante dos viveiros industriais da Europa; a Inglaterra, em 30 anos, multiplicou por cinco suas compras dessa fibra natural. O fuso que Arkwright inventou ao mesmo tempo em que Watt patenteava sua máquina a vapor e a posterior criação do tear mecânico de Cartwright incrementaram com decisivo vigor a fabricação de tecidos e proporcionaram ao algodão, planta nativa da América, ávidos mercados no ultramar. O porto de São Luiz do Maranhão, que dormira uma longa sesta tropical apenas interrompida por um par de navios ao ano, foi bruscamente despertado pela euforia do algodão: afluíram os escravos negros para as plantações do norte do Brasil, e entre 150 e 200 navios partiam anualmente de São Luiz, carregando um milhão de libras de matéria-prima têxtil. Enquanto nascia o século passado, a crise da economia mineira proporcionava ao algodão mão de obra escrava em abundância; esgotados o ouro e os diamantes do Sul, o Brasil parecia ressuscitar no Norte. O porto floresceu, produziu poetas em tal medida que até poderia pleitear que o chamassem A Atenas do Brasil [1], mas com a prosperidade chegou a fome à região do Maranhão, onde ninguém se ocupava de cultivar alimentos. Em alguns períodos houve arroz para comer [2]. A história terminou como havia começado: o colapso chegou de repente. A plantação de algodão em grande escala nas plantações do sul dos Estados Unidos, com terras de melhor qualidade e meios mecânicos para descaroçar e enfardar o produto, baixou os preços à terça parte, e o Brasil ficou de fora na concorrência. Uma nova etapa se abriu com a Guerra da Secessão, que interrompeu o fornecimento norte americano, mas durou pouco. Já no século XX, entre 1934 e 1939, a produção brasileira aumentou num ritmo impressionante: de 126 mil toneladas passou a mais de 320 mil. Sobreveio então novo desastre: os Estados Unidos lançaram seus excedentes no mercado mundial e o preço desabou.
     Os excedentes agrícolas norte-americanos, como se sabe, resultam dos robustos subsídios que o Estado outorga aos produtores; a preços de dumping e como parte de programas de ajuda exterior, os excedentes se derramam no mundo. Assim, o algodão foi o principal produto de exportação do Paraguai, até que a concorrência ruinosa do algodão norte-americano o excluiu dos mercados, e a produção paraguaia, desde 1952, reduziu-se à metade. Assim perdeu o Uruguai o mercado canadense para seu arroz. Assim o trigo da Argentina, um país que tinha sido o celeiro do planeta, perdeu um peso decisivo nos mercados internacionais. O dumping norte-americano do algodão não impediu que uma empresa norte-americana, a Anderson Clayton and Co., detivesse o império deste produto na América Latina, e tampouco impediu que, através dela, os Estados Unidos comprassem algodão mexicano para revendê-lo a outros países.
     O algodão latino-americano, mal ou bem, continua vivo no comércio mundial, graças a seus baixíssimos custos de produção. Contudo, o miserável nível da retribuição do trabalho é acusado até pelos números oficiais, que costumam mascarar a realidade. Nas plantações do Brasil, os salários de fome alternam com o trabalho servil; nas plantações da Guatemala, os proprietários se orgulham de pagar salários de dezenove quetzais (o quetzal equivale nominalmente ao dólar), e como se isto fosse muito, eles mesmos advertem que a maior parte é quitada em espécie, a preços por eles fixados [3]; no México, os diaristas que deambulam de safra em safra, recebendo um dólar e meio por jornada, não só padecem o subemprego, mas também, e como consequência, a subnutrição, e muito pior é a situação dos trabalhadores do algodão na Nicarágua; os salvadorenhos que fornecem algodão para as indústrias têxteis do Japão consomem menos calorias e proteínas do que os famélicos hindus. Para a economia do Peru, o algodão é a segunda fonte agrícola de divisas. José Carlos Mariátegui havia observado que o capitalismo estrangeiro, em sua perene busca de terras, braços e mercados, tendia a apoderar-se das culturas de exportação do Peru, através da execução de hipotecas dos endividados terras-tenentes [4]. Em 1968, quando o general nacionalista Velasco Alvarado chegou ao poder, encontrava-se em exploração menos da sexta parte das terras do país aptas à exploração intensiva, a renda per capita da população era 15 vezes menor do que nos Estados Unidos, e o consumo de calorias era um dos mais baixos do mundo, mas a produção de algodão, como a do açúcar, continuava regida por critérios alheios ao Peru, como denunciou Mariátegui. As melhores terras, as campinas da costa, pertenciam a empresas norte americanas ou a terras-tenentes que tão só eram nacionais em sentido geográfico, assim como a burguesia limenha. Cinco grandes empresas – entre elas duas norte americanas, a Anderson Clayton e a Grace – tinham em suas mãos a exportação de algodão e de açúcar, e contavam também com seus próprios “complexos agroindustriais” de produção. As plantações de açúcar e algodão da costa, supostos focos de prosperidade e progresso por oposição aos latifúndios da serra, pagavam aos peões salários de fome, até que a reforma agrária de 1969 as expropriou e as entregou aos trabalhadores, em regime de cooperativa. Segundo o Comitê Interamericano de Desenvolvimento Agrícola, a renda de cada membro das famílias de assalariados da costa chegava somente a cinco dólares mensais [5].
     A Anderson Clayton and Co. mantém 30 empresas filiais na América Latina, e se dedica não só à venda de algodão, como também – monopólio horizontal – dispõe de uma rede que abrange o financiamento e a industrialização da fibra e seus derivados, além de produzir alimentos em grande escala. No México, por exemplo, ainda que não possua terras, exerce de todos os modos seu domínio na produção de algodão; em suas mãos estão, de fato, os 800 mil mexicanos que o colhem. A empresa compra a preço vil a excelente fibra do algodão mexicano porque, previamente, concede crédito aos produtores, com a obrigação de que lhe vendam as colheitas por valores de abrir mercado. Aos adiantamentos em dinheiro soma-se o fornecimento de fertilizantes, sementes, inseticidas; a empresa reserva-se o direito de supervisionar os trabalhos de fertilização, semeadura e colheita. Fixa a tarifa que lhe convém para descaroçar o algodão. Usa as sementes em suas fábricas de azeite, graxas e margarinas. Nos últimos anos, “não contente com o domínio no comércio do algodão, invadiu até a produção de doces e chocolates, comprando recentemente a notória empresa Lexus [6]. Na atualidade, a Anderson Clayton é a principal firma exportadora do café do Brasil. Em 1950, interessou-se pelo negócio. Três anos depois, já havia destronado a American Coffee Corporation. De resto, é a primeira produtora de alimentos do Brasil, e figura entre as 35 mais poderosas empresas do país.

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Braços Baratos para o Algodão(11)
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[1] SIMONSEN. op. cit.
[2] PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo, 1942.
[3] Comité Interamericano de Desarrollo Agrícola. Guatemala. Tenencia de la tierra y desarrollo socioeconómico del sector agrícola. Washington, 1965.
[4] MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad peruana. Montevideo, 1970.
[5] Comité Interamericano de Desarrollo Agrícola. Peru. Tenencia de la tierra y desarrollo socioeconómico del sector agrícola. Washington, 1966.
[6] AGUILAR M., Alonso & CARMONA, Fernando. México: riqueza y miseria. México, 1968.

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