PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
22. Braços Baratos para o Algodão
O Brasil ocupa o quarto lugar no mundo como produtor de
algodão; o México, o quinto. Em conjunto, provém da
América Latina mais do que a quinta parte do algodão que a
indústria têxtil consome em todo o planeta. No fim do
século XVIII, o algodão já se tornara a matéria-prima mais
importante dos viveiros industriais da Europa; a Inglaterra,
em 30 anos, multiplicou por cinco suas compras dessa fibra
natural. O fuso que Arkwright inventou ao mesmo tempo em
que Watt patenteava sua máquina a vapor e a posterior
criação do tear mecânico de Cartwright incrementaram com
decisivo vigor a fabricação de tecidos e proporcionaram ao
algodão, planta nativa da América, ávidos mercados no
ultramar. O porto de São Luiz do Maranhão, que dormira
uma longa sesta tropical apenas interrompida por um par de
navios ao ano, foi bruscamente despertado pela euforia do
algodão: afluíram os escravos negros para as plantações do
norte do Brasil,
e
entre 150 e 200 navios partiam
anualmente de São Luiz, carregando um milhão de libras de
matéria-prima têxtil. Enquanto nascia o século passado, a
crise da economia mineira proporcionava ao algodão mão
de obra escrava em abundância; esgotados o ouro e os
diamantes do Sul, o Brasil parecia ressuscitar no Norte. O
porto floresceu, produziu poetas em tal medida que até
poderia pleitear que o chamassem A Atenas do Brasil
[1],
mas com a prosperidade chegou a fome à região do
Maranhão, onde ninguém se ocupava de cultivar alimentos.
Em alguns períodos houve arroz para comer
[2]. A história
terminou como havia começado: o colapso chegou de
repente. A plantação de algodão em grande escala nas
plantações do sul dos Estados Unidos, com terras de melhor
qualidade e meios mecânicos para descaroçar e enfardar o
produto, baixou os preços à terça parte, e o Brasil ficou de
fora na concorrência. Uma nova etapa se abriu com a
Guerra da Secessão, que interrompeu o fornecimento norte
americano, mas durou pouco. Já no século XX, entre 1934 e
1939, a produção brasileira aumentou num ritmo
impressionante: de 126 mil toneladas passou a mais de 320
mil. Sobreveio então novo desastre: os Estados Unidos
lançaram seus excedentes no mercado mundial e o preço
desabou.
Os excedentes agrícolas norte-americanos, como se
sabe, resultam dos robustos subsídios que o Estado outorga
aos produtores; a preços de dumping e como parte de
programas de ajuda exterior, os excedentes se derramam
no mundo. Assim, o algodão foi o principal produto de
exportação do Paraguai, até que a concorrência ruinosa do
algodão norte-americano o excluiu dos mercados, e a
produção paraguaia, desde 1952, reduziu-se à metade.
Assim perdeu o Uruguai o mercado canadense para seu
arroz. Assim o trigo da Argentina, um país que tinha sido o
celeiro do planeta, perdeu um peso decisivo nos mercados
internacionais. O dumping norte-americano do algodão não
impediu que uma empresa norte-americana, a Anderson
Clayton and Co., detivesse o império deste produto na
América Latina, e tampouco impediu que, através dela, os
Estados Unidos comprassem algodão mexicano para
revendê-lo a outros países.
O algodão latino-americano, mal ou bem, continua vivo
no comércio mundial, graças a seus baixíssimos custos de
produção. Contudo, o miserável nível da retribuição do
trabalho é acusado até pelos números oficiais, que
costumam mascarar a realidade. Nas plantações do Brasil,
os salários de fome alternam com o trabalho servil; nas
plantações da Guatemala, os proprietários se orgulham de
pagar salários de dezenove quetzais (o quetzal equivale
nominalmente ao dólar), e como se isto fosse muito, eles
mesmos advertem que a maior parte é quitada em espécie,
a preços por eles fixados
[3]; no México, os diaristas que
deambulam de safra em safra, recebendo um dólar e meio
por jornada, não só padecem o subemprego, mas também,
e como consequência, a subnutrição, e muito pior é a
situação dos trabalhadores do algodão na Nicarágua; os
salvadorenhos que fornecem algodão para as indústrias
têxteis do Japão consomem menos calorias e proteínas do
que os famélicos hindus. Para a economia do Peru, o
algodão é a segunda fonte agrícola de divisas. José Carlos
Mariátegui havia observado que o capitalismo estrangeiro,
em sua perene busca de terras, braços e mercados, tendia a
apoderar-se das culturas de exportação do Peru, através da
execução de hipotecas dos endividados terras-tenentes
[4].
Em 1968, quando o general nacionalista Velasco Alvarado
chegou ao poder, encontrava-se em exploração menos da
sexta parte das terras do país aptas à exploração intensiva,
a renda per capita da população era 15 vezes menor do que
nos Estados Unidos, e o consumo de calorias era um dos
mais baixos do mundo, mas a produção de algodão, como a
do açúcar, continuava regida por critérios alheios ao Peru,
como denunciou Mariátegui. As melhores terras, as
campinas da costa, pertenciam a empresas norte
americanas ou a terras-tenentes que tão só eram nacionais
em sentido geográfico, assim como a burguesia limenha.
Cinco grandes empresas – entre elas duas norte
americanas, a Anderson Clayton e a Grace – tinham em
suas mãos a exportação de algodão e de açúcar, e
contavam também com seus próprios “complexos
agroindustriais” de produção. As plantações de açúcar e
algodão da costa, supostos focos de prosperidade e
progresso por oposição aos latifúndios da serra, pagavam
aos peões salários de fome, até que a reforma agrária de
1969 as expropriou e as entregou aos trabalhadores, em
regime de cooperativa. Segundo o Comitê Interamericano
de Desenvolvimento Agrícola, a renda de cada membro das
famílias de assalariados da costa chegava somente a cinco
dólares mensais
[5].
A Anderson Clayton and Co. mantém 30 empresas filiais
na América Latina, e se dedica não só à venda de algodão,
como também – monopólio horizontal – dispõe de uma rede
que abrange o financiamento e a industrialização da fibra e
seus derivados, além de produzir alimentos em grande
escala. No México, por exemplo, ainda que não possua
terras, exerce de todos os modos seu domínio na produção
de algodão; em suas mãos estão, de fato, os 800 mil
mexicanos que o colhem. A empresa compra a preço vil a
excelente fibra do algodão mexicano porque, previamente,
concede crédito aos produtores, com a obrigação de que lhe
vendam as colheitas por valores de abrir mercado. Aos
adiantamentos em dinheiro soma-se o fornecimento de
fertilizantes, sementes, inseticidas; a empresa reserva-se o
direito de supervisionar os trabalhos de fertilização,
semeadura e colheita. Fixa a tarifa que lhe convém para
descaroçar o algodão. Usa as sementes em suas fábricas de
azeite, graxas e margarinas. Nos últimos anos, “não
contente com o domínio no comércio do algodão, invadiu
até a produção de doces e chocolates, comprando
recentemente a notória empresa Lexus
[6]. Na atualidade, a
Anderson Clayton é a principal firma exportadora do café do Brasil. Em 1950, interessou-se pelo negócio. Três anos
depois, já havia destronado a American Coffee Corporation.
De resto, é a primeira produtora de alimentos do Brasil, e
figura entre as 35 mais poderosas empresas do país.continua na página 159...
____________________
____________________
Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Braços Baratos para o Algodão(11)
__________________
[1] SIMONSEN. op. cit.
[2] PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo, 1942.
[3] Comité Interamericano de Desarrollo Agrícola. Guatemala. Tenencia de la
tierra y desarrollo socioeconómico del sector agrícola. Washington, 1965.
[4] MARIÁTEGUI, José Carlos. Siete ensayos de interpretación de la realidad
peruana. Montevideo, 1970.
[5] Comité Interamericano de Desarrollo Agrícola. Peru. Tenencia de la tierra y
desarrollo socioeconómico del sector agrícola. Washington, 1966.
[6] AGUILAR M., Alonso & CARMONA, Fernando. México: riqueza y miseria.
México, 1968.
Nenhum comentário:
Postar um comentário