quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Braços Baratos para o Café(12)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     23. Braços Baratos para o Café
          Há quem garanta que o café, no mercado internacional, é tão importante quanto o petróleo. No princípio da década de 50, a América Latina abastecia quatro quintas partes do café que se consumia no mundo; a concorrência do café robusta, da África, de inferior qualidade, mas de preço mais baixo, reduziu a participação latino-americana nos anos seguintes. No entanto, a sexta parte das divisas que a região obtém atualmente no exterior provém do café. As flutuações dos preços afetam quinze países ao sul do rio Bravo. O Brasil é o maior produtor do mundo; do café, obtém cerca de metade de suas receitas oriundas de exportações. El Salvador, Guatemala, Costa Rita e Haiti também dependem em grande medida do café, que além disso provê dois terços das divisas da Colômbia.
     O café trouxe consigo a inflação para o Brasil; entre 1824 e 1854, o preço de um homem se multiplicou por dois. Nem o algodão do Norte nem o açúcar do Nordeste, esgotados já os ciclos de prosperidade, podiam pagar aqueles caros escravos. O Brasil se deslocou para o Sul. Além da mão de obra escrava, o café usou os braços dos imigrantes europeus, que entregavam aos proprietários metade de suas colheitas, num regime a meias que ainda hoje prevalece no interior do Brasil. Os turistas que hoje em dia atravessam os bosques da Tijuca para ir nadar nas águas da Barra ignoram que ali, nas montanhas que cercam o Rio de Janeiro, houve grandes cafezais já faz mais de um século. Pelos flancos da serra, as plantações, em sua desesperada busca do húmus de novas terras virgens, rumaram para São Paulo. Já agonizava o século quando os latifundiários cafezistas, convertidos na nova elite social do Brasil, apontaram os lápis e fizeram as contas: os salários de subsistência eram mais baratos do que a compra e a manutenção dos escassos escravos. Aboliu-se a escravidão em 1888, e assim se inauguraram as formas combinadas de servidão feudal e trabalho assalariado que persistem nos dias atuais. Legiões de braceiros “livres” acompanhariam, desde então, a peregrinação do café. O vale do rio Paraíba se tornou a zona mais rica do país, mas logo foi devastado por essa planta perecedoura que, cultivada num sistema destrutivo, ia deixando em seu rastro matas arrasadas, reservas naturais esgotadas e uma decadência geral. A erosão arruinava sem piedade as terras anteriormente intatas, e de saque em saque ia baixando seus rendimentos, debilitando as plantas e tornando-as vulneráveis às pragas. O latifúndio cafezista invadiu a vasta meseta purpúrea a ocidente de São Paulo; com métodos de exploração menos bestiais, transformou-a num “mar de café”, e continuou avançando para oeste. Chegou às ribeiras do Paraná; colidindo com as savanas do Mato Grosso, desviou-se para o sul e, nos últimos anos, retomou a marcha para o oeste, já ultrapassando as fronteiras do Paraguai.
     Atualmente, São Paulo é o estado mais desenvolvido do Brasil, é o centro industrial do país, mas em suas plantações de café ainda abundam os “moradores vassalos”, que pagam com seu trabalho e o de seus filhos o aluguel da terra.
     Nos anos prósperos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, a voracidade dos cafeicultores determinou a virtual abolição do sistema que permitia aos trabalhadores das plantações cultivar alimentos por conta própria. Agora, só podem fazê-lo em troca de valores que pagam trabalhando sem receber. Além disso, o latifundiário conta com colonos contratados que têm permissão para plantar e em troca têm de iniciar novos cafezais. Quatro anos depois, quando os grãos amarelos colorem a plantação, a terra já multiplicou seu valor e chega para o colono a hora de ser mandado embora.
     Na Guatemala as plantações de café pagam ainda menos do que as do algodão. Nas encostas do sul, os proprietários dizem que retribuem com quinze dólares mensais o trabalho de milhares de indígenas que a cada ano descem do altiplano rumo ao sul para vender seus braços nas colheitas. As fazendas contam com segurança privada; ali, como alguém me explicou, “um homem é mais barato que sua tumba”, e o aparato da repressão cuida para que continue sendo. Na região de Alta Verapaz, a situação é ainda pior. Ali não há caminhões nem carroças, os fazendeiros não precisam: sai mais barato transportar o café no lombo do índio.
     Para a economia de El Salvador, pequeno país nas mãos de um punhado de famílias oligárquicas, o café tem uma importância fundamental: a monocultura obriga à compra no exterior de feijões, única fonte de proteínas para a alimentação popular, milho, hortaliças e outros alimentos que, tradicionalmente, o país produzia. A quarta parte dos salvadorenhos morre vítima de avitaminose. O Haiti, por sua vez, tem a mais alta taxa de mortalidade da América Latina; mais de metade de sua população infantil padece de anemia. O salário legal, no Haiti, pertence aos domínios da ficção; nas plantações de café, o salário real oscila entre sete e quinze centavos de dólar por dia.
     Na Colômbia, o café desfruta da hegemonia. Segundo um informe publicado pela revista Time em 1962, os trabalhadores recebem, em salários, 5 por cento do preço total que o café obtém em sua viagem da mata aos lábios do consumidor norte-americano [1]. Diferentemente do Brasil, o café da Colômbia, em sua maior parte, não é produzido nos latifúndios, mas em minifúndios que tendem cada vez mais a pulverizar-se. Entre 1955 e 1960, surgiram 100 mil novas plantações, na maioria com áreas ínfimas, menos de um hectare. Pequenos e muito pequenos agricultores produzem três quartas partes do café que a Colômbia exporta; 96 por cento das plantações são minifúndios [2]. Juan Valdés sorri nos anúncios, mas a atomização da terra derruba o nível de vida dos agricultores, de rendimentos cada vez menores, e facilita as manobras da Federação Nacional de Cafeicultores, que representa os interesses dos grandes proprietários e virtualmente monopoliza a comercialização do produto. As parcelas de menos de um hectare geram uma renda de fome: em média, 130 dólares por ano [3].

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Braços Baratos para o Café(12)
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[1] ARRU LA, Mario. Estudios sobre el subdesarrollo colombiano. Medellín, 1969. O preço assim se estrutura: 40 por cento para os intermediários, exportadores e importadores; 10 por cento para os impostos dos dois governos; 10 por cento para os transportadores; 5 por cento para a propaganda do Escritório Panamericano do Café, em Washington; 30 por cento para os donos da plantações e 5 por cento para os salários dos trabalhadores.
[2]  anco Cafetero. La industria cafetera en Colombia. Bogotá, 1962.
[3Panorama económico latinoamericano. La Habana (87), setembro de 1963.

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