PRIMEIRA PARTE
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
23. Braços Baratos para o Café
Há quem garanta que o café, no mercado internacional, é
tão importante quanto o petróleo. No princípio da década de
50, a América Latina abastecia quatro quintas partes do
café que se consumia no mundo; a concorrência do café
robusta, da África, de inferior qualidade, mas de preço mais
baixo, reduziu a participação latino-americana nos anos
seguintes. No entanto, a sexta parte das divisas que a
região obtém atualmente no exterior provém do café. As
flutuações dos preços afetam quinze países ao sul do rio Bravo. O Brasil é o maior produtor do mundo; do café,
obtém cerca de metade de suas receitas oriundas de
exportações. El Salvador, Guatemala, Costa Rita e Haiti
também dependem em grande medida do café, que além
disso provê dois terços das divisas da Colômbia.
O café trouxe consigo a inflação para o Brasil; entre
1824 e 1854, o preço de um homem se multiplicou por dois.
Nem o algodão do Norte nem o açúcar do Nordeste,
esgotados já os ciclos de prosperidade, podiam pagar
aqueles caros escravos. O Brasil se deslocou para o Sul.
Além da mão de obra escrava, o café usou os braços dos
imigrantes europeus, que entregavam aos proprietários
metade de suas colheitas, num regime a meias que ainda
hoje prevalece no interior do Brasil. Os turistas que hoje em
dia atravessam os bosques da Tijuca para ir nadar nas
águas da Barra ignoram que ali, nas montanhas que cercam
o Rio de Janeiro, houve grandes cafezais já faz mais de um
século. Pelos flancos da serra, as plantações, em sua
desesperada busca do húmus de novas terras virgens,
rumaram para São Paulo. Já agonizava o século quando os
latifundiários cafezistas, convertidos na nova elite social do Brasil, apontaram os lápis e fizeram as contas: os salários
de subsistência eram mais baratos do que a compra e a
manutenção dos escassos escravos. Aboliu-se a escravidão
em 1888, e assim se inauguraram as formas combinadas de
servidão feudal e trabalho assalariado que persistem nos
dias atuais. Legiões de braceiros “livres” acompanhariam,
desde então, a peregrinação do café. O vale do rio Paraíba
se tornou a zona mais rica do país, mas logo foi devastado
por essa planta perecedoura que, cultivada num sistema
destrutivo, ia deixando em seu rastro matas arrasadas,
reservas naturais esgotadas e uma decadência geral. A
erosão arruinava sem piedade as terras anteriormente
intatas, e de saque em saque ia baixando seus rendimentos,
debilitando as plantas e tornando-as vulneráveis às pragas.
O latifúndio cafezista invadiu a vasta meseta purpúrea a
ocidente de São Paulo; com métodos de exploração menos
bestiais, transformou-a num “mar de café”, e continuou
avançando para oeste. Chegou às ribeiras do Paraná;
colidindo com as savanas do Mato Grosso, desviou-se para o
sul e, nos últimos anos, retomou a marcha para o oeste, já
ultrapassando as fronteiras do Paraguai.
Atualmente, São Paulo é o estado mais desenvolvido do Brasil, é o centro industrial do país, mas em suas plantações
de café ainda abundam os “moradores vassalos”, que
pagam com seu trabalho e o de seus filhos o aluguel da
terra.
Nos anos prósperos que se seguiram à Primeira Guerra
Mundial, a voracidade dos cafeicultores determinou a virtual
abolição do sistema que permitia aos trabalhadores das
plantações cultivar alimentos por conta própria. Agora, só
podem fazê-lo em troca de valores que pagam trabalhando
sem receber. Além disso, o latifundiário conta com colonos
contratados que têm permissão para plantar e em troca têm
de iniciar novos cafezais. Quatro anos depois, quando os
grãos amarelos colorem a plantação, a terra já multiplicou
seu valor e chega para o colono a hora de ser mandado
embora.
Na Guatemala as plantações de café pagam ainda
menos do que as do algodão. Nas encostas do sul, os
proprietários dizem que retribuem com quinze dólares
mensais o trabalho de milhares de indígenas que a cada
ano descem do altiplano rumo ao sul para vender seus
braços nas colheitas. As fazendas contam com segurança
privada; ali, como alguém me explicou, “um homem é mais
barato que sua tumba”, e o aparato da repressão cuida para
que continue sendo. Na região de Alta Verapaz, a situação é
ainda pior. Ali não há caminhões nem carroças, os
fazendeiros não precisam: sai mais barato transportar o
café no lombo do índio.
Para a economia de El Salvador, pequeno país nas mãos
de um punhado de famílias oligárquicas, o café tem uma
importância fundamental: a monocultura obriga à compra
no exterior de feijões, única fonte de proteínas para a
alimentação popular, milho, hortaliças e outros alimentos
que, tradicionalmente, o país produzia. A quarta parte dos
salvadorenhos morre vítima de avitaminose. O Haiti, por sua
vez, tem a mais alta taxa de mortalidade da América Latina;
mais de metade de sua população infantil padece de
anemia. O salário legal, no Haiti, pertence aos domínios da
ficção; nas plantações de café, o salário real oscila entre
sete e quinze centavos de dólar por dia.
Na Colômbia, o café desfruta da hegemonia. Segundo
um informe publicado pela revista Time em 1962, os
trabalhadores recebem, em salários, 5 por cento do preço
total que o café obtém em sua viagem da mata aos lábios
do consumidor norte-americano
[1].
Diferentemente do Brasil, o café da Colômbia, em sua maior parte, não é
produzido nos latifúndios, mas em minifúndios que tendem
cada vez mais a pulverizar-se. Entre 1955 e 1960, surgiram
100 mil novas plantações, na maioria com áreas ínfimas,
menos de um hectare. Pequenos e muito pequenos
agricultores produzem três quartas partes do café que a
Colômbia exporta; 96 por cento das plantações são
minifúndios
[2]. Juan Valdés sorri nos anúncios, mas a
atomização da terra derruba o nível de vida dos
agricultores, de rendimentos cada vez menores, e facilita as
manobras da Federação Nacional de Cafeicultores, que
representa os interesses dos grandes proprietários e
virtualmente monopoliza a comercialização do produto. As
parcelas de menos de um hectare geram uma renda de
fome: em média, 130 dólares por ano
[3].
continua na página 163...
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Febre do Ouro, Febre da Prata
O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Braços Baratos para o Café(12)
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[1] ARRU LA, Mario. Estudios sobre el subdesarrollo colombiano. Medellín,
1969. O preço assim se estrutura: 40 por cento para os intermediários,
exportadores e importadores; 10 por cento para os impostos dos dois governos;
10 por cento para os transportadores; 5 por cento para a propaganda do
Escritório Panamericano do Café, em Washington; 30 por cento para os donos da
plantações e 5 por cento para os salários dos trabalhadores.
[2] anco Cafetero. La industria cafetera en Colombia. Bogotá, 1962.
[3] Panorama económico latinoamericano. La Habana (87), setembro de 1963.
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