domingo, 11 de janeiro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Primeira Parte: Os Plantadores de Cacau(10)

A Pobreza do Homem como resultado da riqueza da terra

PRIMEIRA PARTE 

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas

     21. Os Plantadores de Cacau acendiam seus Charutos com Notas de Quinhentos Mil-Réis
          Durante longo tempo a Venezuela se identificou com o cacau, planta originária da América. “Os venezuelanos tínhamos sido feitos para vender cacau e distribuir em nosso solo as bugigangas do estrangeiro”, diz Rangel [1]. Os oligarcas do cacau, mais os agiotas e os comerciantes integravam “uma Santíssima Trindade do atraso”. Junto com o cacau, incluindo-se em seu cortejo, coexistiam a criação de gado nas planuras, o anil, o açúcar, o tabaco e também algumas minas; mas Gran Cacao foi o nome com que o povo batizou, acertadamente, a oligarquia escravista de Caracas. À custa do trabalho dos negros essa oligarquia enriqueceu abastecendo de cacau a oligarquia mineira do México e a metrópole espanhola. Em 1873, inaugurou-se na Venezuela uma idade do café; o café exigia, como o cacau, terras de vertentes ou vales cálidos. Apesar do surgimento do intruso, o cacau pôde persistir em sua expansão, invadindo os solos úmidos de Carúpano. A Venezuela continuou sendo agrícola, condenada aos calvários das quedas cíclicas dos preços do café e do cacau; os dois produtos alimentavam os capitais que tornavam possível a vida parasitária, puro esbanjamento de seus donos, seus mercadores, seus prestamistas. Até que, em 1922, o país subitamente se tornou um manancial do petróleo. Daí em diante, o petróleo dominou a vida do país. A explosão da nova fortuna veio dar razão, com mais de quatro séculos de atraso, às expectativas dos descobridores espanhóis: procurando em vão o príncipe que se banhava em ouro, tinham chegado à loucura de confundir uma aldeola de Maracaibo com Veneza, ilusão à qual a Venezuela deve o seu nome.; e Colombo acreditava que no golfo de Paria nascia o paraíso terrestre [2].
     Nas últimas décadas do século XIX, desencadeou-se a glutonaria dos europeus e norte-americanos pelo chocolate. O progresso da indústria deu um grande impulso às plantações de cacau no brasil e estimulou a produção das antigas plantações da Venezuela e do Equador. No Brasil, o cacau fez seu impetuoso ingresso no cenário econômico ao mesmo tempo em que a borracha e, como a borracha, deu trabalho aos camponeses do Nordeste. A cidade de Salvador, na Bahia de Todos os Santos, tinha sido uma das cidades mais importantes da América, como capital do brasil e do açúcar, e ressuscitou então como a capital do cacau. Ao sul da Bahia, do Recôncavo ao estado do Espírito Santo, entre as terras baixas do litoral e a cadeia de montanhas da costa, os latifúndios, em nossos dias, continuam proporcionando a matéria-prima de boa parte do chocolate que se consome no mundo. Como a cana-de açúcar, o cacau trouxe consigo a monocultura e a queimada das matas, a ditadura da cotação internacional e a penúria sem trégua dos trabalhadores. Os proprietários das plantações, que vivem nas praias do Rio de Janeiro e são mais comerciantes do que agricultores, proíbem que uma só polegada de terra seja destinada a outras culturas. Seus administradores costumam pagar os salários em espécie, charque, farinha, feijões; quando pagam em dinheiro, o camponês recebe por um dia inteiro de trabalho uma diária que equivale ao preço de um litro de cerveja, e deve trabalhar um dia e meio para poder comprar uma lata de leite em pó.
     O Brasil desfrutou durante um bom tempo os favores do mercado internacional. No entanto, sempre encontrou na África sérios competidores. Na década de 20, Gana já havia conquistado o primeiro lugar: os ingleses tinham desenvolvido a plantação de cacau em grande escala, com métodos modernos, nesse país que então era uma colônia e se chamava Costa do Ouro. O Brasil caiu para o segundo lugar e, anos depois, para o terceiro, como provedor mundial de cacau. Mas houve mais de um período em que ninguém teria acreditado que um destino medíocre aguardava as terras férteis do sul da Bahia. Intactos ao longo da época colonial, os solos multiplicavam seus frutos: os peões quebravam as bagas a golpes de facão e recolhiam as sementes nos carros para que os burros as conduzissem até o lugar da fermentação, e então era preciso derrubar cada vez mais árvores, abrir mais clareiras, conquistar novas terras a golpes de machado e tiros de fuzil. Os peões nada sabiam de preços ou mercados. Sequer sabiam quem governava o Brasil: até não faz muitos anos, ainda havia trabalhadores das fazendas convencidos de que D. Pedro II, o imperador, continuava no trono. Os senhores do café esfregavam as mãos: eles sim, sabiam, ou julgavam saber. O consumo do cacau aumentava e com ele aumentavam as cotações e os lucros. O porto de Ilhéus, onde era embarcado quase todo o cacau, chamava-se “a Rainha do Sul”, e embora hoje esteja a definhar, ali remanescem os sólidos palacetes que os fazendeiros mobiliaram com faustoso e péssimo gosto. Jorge Amado escreveu vários romances sobre o tema. Ele assim recria uma etapa da alta dos preços: “Ilhéus e a zona do cacau nadaram em ouro, banharam-se com champanhe e dormiram com as francesas que chegavam do Rio de Janeiro. No Trianon, o cabaré mais chique da cidade, o coronel Maneca Dantas acendia charutos com notas de 500 mil-réis, repetindo o gesto de todos os fazendeiros ricos do país nas altas anteriores do café, da borracha, do algodão e do açúcar” [3]. Com a alta de preços, a produção aumentava; e logo os preços baixavam. A instabilidade se tornou cada vez mais frenética e as terras foram trocando de dono. Começou o tempo dos “milionários mendigos”: os pioneiros das plantações deram lugar aos exportadores, que na execução de dívidas se apoderavam das terras.
     Em apenas três anos, de 1959 a 1961 – para ficar num único exemplo –, o preço internacional do cacau brasileiro em amêndoa se reduziu em uma terça parte. Posteriormente, a tendência de alta dos preços não foi capaz de abrir as portas da esperança; a CEPAL prevê vida curta para a curva de ascenso [4]. Os grandes consumidores de cacau – Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha Federal, Holanda, França –, para comer chocolate barato, instigam a competição entre o cacau africano e o produzido no Brasil e no Equador. E dispondo como dispõem dos preços, provocam períodos de depressão que atiram nas estradas os trabalhadores que o cacau expulsa. Os desempregados procuram árvores, debaixo das quais podem dormir, e bananas verdes para enganar o estômago: por certo não comem os finos chocolates europeus que o Brasil, terceiro produtor mundial do cacau, incrivelmente importa da França e da Suíça. Os chocolates valem cada vez mais; o cacau, em termos relativos, cada vez menos. Entre 1950 e 1960, as vendas de cacau do Equador aumentaram em mais de 30 por cento em volume, mas só 15 por cento em valor. Os 15 por cento restantes terão sido um presente do Equador para os países ricos, que no mesmo período lhe enviaram, a preços crescentes, seus produtos industrializados. A economia equatoriana depende das vendas de banana, café e cacau, três alimentos duramente submetidos às quedas dos preços. Segundo dados oficiais, de cada dez equatorianos, sete padecem de desnutrição básica, e o país tem um dos índices de mortalidade mais altos do mundo.

O Rei Açúcar e Outros Monarcas Agrícolas
Primeira Parte: Os Plantadores de Cacau(10)
__________________

[1] RANGEL, Domingo Alberto. El proceso del capitalismo contemporáneo en Venezuela. Caracas, 1968.
[2] RANGEL, Domingo Alberto. La Venezuela agraria. Capital y desarrollo. Caracas, 1969. t.1.
[3] O título de “coronel” é outorgado no Brasil, com facilidade, aos latifundiários tradicionais e, por extensão, a todas as pessoas importantes. O parágrafo pertence ao romance de Jorge Amado, São Jorge dos Ilhéus (Montevideo, 1946). Enquanto isso, “nem os meninos tocavam nos frutos do cacau. Tinham medo daqueles cocos amarelos, de caroços doces, que os mantinham prisioneiros desta vida de frutos da jaqueira e carne seca”. Porque no fundo “o cacau era um grande senhor temido até pelo coronel” (AMADO, Jorge. Cacao. Buenos Aires, 1935). Em outro romance, Gabriela, clavo y canela ( Buenos Aires, 1969), um personagem fala de Ilhéus em 1925, levantando um dedo categórico: “Na atualidade não existe no norte do país uma cidade de progresso mais rápido”. Atualmente, Ilhéus não é nem a sombra.
[4] Referindo-se aos aumentos do preço do cacau e do café, a Comissão Econômica para a América Latina das Nações Unidas, CEPAL, diz que “têm um caráter relativamente transitório” e que obedecem “em grande parte a contratempos ocasionais nas colheitas”. CEPAL. Estudio económico de América Latina. 1969, t.2: La economía de América Latina en 1969. Santiago de Chile, 1970.

Nenhum comentário:

Postar um comentário