O SOBREVIVENTE
O Sobrevivente
O momento do sobreviver é o momento do poder. O horror ante a visão da morte desfaz-se em satisfação pelo fato de não se ser o morto. Este jaz, ao passo que o sobrevivente permanece de pé. É, pois, como se anteriormente tivesse havido uma luta, e o próprio sobrevivente houvesse abatido o morto. Em se tratando de sobreviver, todos são inimigos de todos; comparado a esse triunfo elementar, toda dor é pequena. Importante é, contudo, que o sobrevivente se defronte sozinho com o morto ou os mortos. Ele se vê sozinho, sente-se sozinho, e, no que diz respeito ao poder que esse momento lhe confere, não é lícito esquecer jamais que tal poder deriva dessa sua unicidade, e somente dela.
Todos os desígnios humanos com vistas à imortalidade contêm algo
da ânsia de sobreviver. Não se quer apenas existir para sempre: quer-se
existir quando outros já não mais existirem. Cada um quer ser o mais
velho e sabê-lo; e quando ele próprio não mais existir, hão de conhecer
lhe o nome.
A forma mais baixa do sobreviver é o matar. Assim como o homem mata o animal de que se alimenta; assim como este jaz indefeso diante dele, que pode cortá-lo em pedaços e reparti-lo, na qualidade da presa que incorpora para si e para os seus, assim também ele quer matar o ser humano que lhe atravesse o caminho, que o enfrente e que, ereto, se apresente como seu inimigo. Quer matá-lo para sentir que segue existindo, ao passo que ele não mais. O morto, porém, não deve desaparecer por completo: sua presença física como cadáver é imprescindível a esse sentimento de triunfo. Agora pode-se fazer com ele o que se quiser, sem que ele seja capaz de fazer mal algum. O morto jaz e jazerá para sempre; jamais tornará a levantar-se. Pode-se tomar-lhe a arma; podem-se cortar fora pedaços de seu corpo e conservá-los para sempre como troféus. Esse momento da confrontação com aquele a quem matou impregna o sobrevivente de uma espécie de força bastante singular, não comparável a nenhum outro tipo de força. Não há momento que mais clame por seu próprio retorno.
A forma mais baixa do sobreviver é o matar. Assim como o homem mata o animal de que se alimenta; assim como este jaz indefeso diante dele, que pode cortá-lo em pedaços e reparti-lo, na qualidade da presa que incorpora para si e para os seus, assim também ele quer matar o ser humano que lhe atravesse o caminho, que o enfrente e que, ereto, se apresente como seu inimigo. Quer matá-lo para sentir que segue existindo, ao passo que ele não mais. O morto, porém, não deve desaparecer por completo: sua presença física como cadáver é imprescindível a esse sentimento de triunfo. Agora pode-se fazer com ele o que se quiser, sem que ele seja capaz de fazer mal algum. O morto jaz e jazerá para sempre; jamais tornará a levantar-se. Pode-se tomar-lhe a arma; podem-se cortar fora pedaços de seu corpo e conservá-los para sempre como troféus. Esse momento da confrontação com aquele a quem matou impregna o sobrevivente de uma espécie de força bastante singular, não comparável a nenhum outro tipo de força. Não há momento que mais clame por seu próprio retorno.
E isso porque o sobrevivente sabe de muitas mortes. Se esteve
presente a uma batalha, assistiu aos outros tombando à sua volta. Partiu
para a batalha com o propósito muito consciente de afirmar-se perante
os inimigos. Seu objetivo declarado era abater o maior número possível
deles, e somente logrará vencer se consegui-lo. Para ele, vitória e
sobrevivência são uma só coisa. Contudo, também os vitoriosos têm seu
preço a pagar. Em meio aos mortos, jazem muitos dos seus. O campo de
batalha compõe-se de uma mescla de amigos e inimigos; o amontoado
dos mortos é um só. Nas batalhas, por vezes ocorre de não se poder
separar os mortos de ambos os lados: uma vala comum reunirá, então,
os restos de todos.
A esse amontoado de mortos que o cerca, o sobrevivente contrapõe
se como o felizardo e o preferido. Que ele disponha ainda de sua vida,
quando tantos outros que o acompanhavam momentos antes já não a
têm mais, constitui um fato monstruoso. Os mortos jazem
desamparados; dentre eles, ereto, ergue-se o sobrevivente; é como se a
batalha houvesse sido travada para que ele sobrevivesse. A morte foi
desviada dele para os outros. Não que ele houvesse evitado o perigo; em
meio a seus amigos, ele enfrentou a morte. Aqueles tombaram; ele
permanece de pé, e se gaba.
Todos os que já estiveram numa guerra conhecem esse sentimento de
grandeza diante dos mortos. O luto pelos camaradas pode ocultá-lo;
mas destes há poucos, ao passo que os mortos são sempre muitos. A
sensação de força por, contrariamente a estes últimos, se estar vivo e de
pé é, no fundo, mais vigorosa do que qualquer pesar; trata-se do
sentimento de se ter sido eleito dentre muitos cujo destino é
manifestamente idêntico. De algum modo, e simplesmente pelo fato de
ainda estar vivo, o sobrevivente sente-se o melhor. Ele provou o seu
valor, pois vive ainda. E provou-o dentre muitos, pois todos quantos
jazem no chão não vivem mais. Aquele que obtém êxito frequente nesse
sobreviver é um herói. Ele é mais forte. Possui mais vida em si. Os
poderes superiores lhe têm afeto.
continua página 341...
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
continua página 341...
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Leia também:
Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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