segunda-feira, 20 de julho de 2026

Massa e Poder - A Ordem: Contragolpe e medo de mandar

Elias Canetti

A ORDEM

     Contragolpe e medo de mandar

          Uma ordem é como uma flecha. Ela é disparada e acerta. O mandatário faz pontaria antes de dispará-la. Ele irá acertar um alvo muito determinado com sua ordem; e a flecha também sempre tem uma direção que foi previamente escolhida.
     A ordem permanece cravada em quem foi atingido; este precisa extraí-1a e atirá-la por sua vez para livrar-se de sua ameaça. Na verdade o processo da transmissão de ordens se desenvolve como se o destinatário extraísse a ordem de si mesmo, retesasse seu próprio arco e voltasse a disparar outra vez a mesma a qual foi atingido. A ferida no seu próprio corpo sara deixando porém uma cicatriz. Cada cicatriz tem uma história e a marca deixada por uma determinada flecha.
     Mas o mandatário que dispara a flecha percebe um ligeiro contragolpe ao fazê-lo. O próprio efeito, por assim dizer, o contragolpe psíquico, ele o sente quando percebe que atingiu o alvo. Neste ponto termina a analogia com a flecha física. Mas é muito mais importante observar as marcas que o disparo bem-sucedido deixa no atirador contente.
     A satisfação pelas ordens cumpridas, ou seja, pelas ordens dadas com êxito, engana em grande parte sobre o que acontece com o atirador. Existe sempre como que a percepção de um contragolpe; o que a pessoa fez fica também estampado nela, não apenas na vítima. Muitos contragolpes se acumulam dando origem ao medo. Trata-se de um tipo especial de medo aquele que resulta da frequente repetição de ordens; por este motivo prefiro denominá-lo o medo de mandar. Ele é menor na pessoa que apenas transmite ordens. É tanto maior quanto mais perto esteja quem dá as ordens da fonte de mando propriamente dita.
     Não é difícil compreender como se produz este medo de mandar. Um disparo que mata um ser isolado não deixa após si perigo algum. O morto já não nos pode causar mal algum. Uma ordem que ameaça de morte, mas que apesar disso não mata, deixa a recordação da ameaça. Algumas ameaças se perdem e outras atingem o alvo; são justamente estas que jamais são esquecidas. Quem fugiu perante a ameaça ou quem cedeu a ela certamente irá se vingar. Pessoas nestas situações sempre se vingam quando chega o momento adequado e aquele de quem partiu a ameaça tem plena consciência disso; ele precisa fazer tudo o que lhe for possível para impedir que ocorra uma inversão dos papéis.
     Há um sentimento de perigo que consiste em saber que todo aquele a quem se deram ordens, a quem se ameaçou de morte, vive e se recorda; nesse perigo se sentiria alguém, se todos os que foram ameaçados de morte se unissem contra ele. Trata-se de um sentimento profundamente motivado, que no entanto é impreciso porque nunca se sabe quando os ameaçados passarão da lembrança para a ação. Este torturante, inesgotável e ilimitado sentimento de perigo eu defino como medo de mandar.
     Ele é tanto maior quanto mais elevada for a posição da pessoa. Na fonte da ordem, na pessoa que dá as ordens a partir de si mesma, que não as recebe de qualquer outra pessoa, que por assim dizer gera as próprias ordens, a concentração do medo de mandar alcança sua densidade máxima. Esse medo pode permanecer durante muito tempo domesticado e oculto nos detentores do poder. Ele pode ir aumentando no decorrer da vida de um governante, e manifestar-se numa espécie de delírio cesarista.

continua ...
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?

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