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sábado, 25 de abril de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(c)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
continuando...

          No reino de Uganda, encontrou-se uma maneira de manter na terra, junto de seus devotados súditos, o espírito do rei morto. Ele não podia perecer; não era mandado embora: ele tinha de permanecer neste mundo. Após a sua morte, nomeava-se um médium — um “mandwa” — no qual o espírito do rei se instalava. O médium, cuja função era a de um sacerdote, tinha de parecer-se com o rei e comportar-se exatamente como ele. Imitava-lhe as peculiaridades da fala e, em se tratando de um rei de tempos remotos, valia-se da língua arcaica de trezentos anos antes, conforme se atestou com segurança em um caso. E isso porque, quando o médium morria, o espírito do rei passava-se para um outro membro do mesmo clã. Assim, um “mandwa” herdava de outro o seu posto, e o espírito do rei tinha sempre uma morada. Podia, pois, ocorrer de um médium utilizar palavras que ninguém mais entendia, nem mesmo seus colegas.
     Não se deve, porém, imaginar que o médium representava continuamente o papel do rei. De tempos em tempos, “o rei tomava conta de sua cabeça”, como se dizia. O médium mergulhava num estado de possessão e incorporava o morto em todos os seus detalhes. Nos clãs responsáveis pelo provimento dos médiuns, as peculiaridades do rei à época de sua morte eram transmitidas por meio da palavra e da imitação. O rei Kigala morrera em idade bastante avançada; seu médium era um homem muito jovem. Quando, porém, o rei “tomava conta de sua cabeça”, o jovem transformava-se num velho: seu rosto se enrugava, a saliva escorara-lhe pela boca e ele mancava.
     Tais acessos eram encarados com o maior respeito. Tinha-se por uma honra presenciá-los; estava-se na presença do rei morto e se reconhecia esse rei. O próprio rei, por sua vez, podendo manifestar-se à vontade no corpo de um homem cuja função era essa e que servia unicamente a esse propósito, decerto não sentia o rancor do “sobrevivido” na mesma medida em que o sentem outros, banidos completamente de nosso mundo.
     Extremamente rico em consequências faz-se o desenvolvimento do culto aos antepassados entre os chineses. A m de se compreender o que representa para eles um antepassado, é necessário examinar em maior detalhe suas concepções da alma.
     Os chineses acreditavam que todo homem possui duas almas. A primeira, po, originando-se do esperma e existente, portanto, desde o momento da concepção; a ela atribuía-se a memória. A outra alma, hun, originando-se do ar aspirado após o nascimento e constituindo-se, então, pouco a pouco. Esta última possuía a forma do corpo que animava, mas era invisível. A inteligência, a seu cargo, crescia juntamente com ela, que constituía a alma superior.
     Após a morte, essa alma da respiração subia ao céu, ao passo que a alma do esperma permanecia junto do corpo na cova. Era essa alma, a inferior, a que mais se temia. Ela era malvada, invejosa e buscava arrastar os vivos consigo para a morte. À medida que o corpo se decompunha, também a alma do esperma dissolvia-se gradualmente, perdendo, por fim, o poder de causar dano.
     A alma superior da respiração, ao contrário, seguia existindo. Ela precisava de alimento, pois seu caminho rumo ao mundo dos mortos era longo. Se seus descendentes não lhe ofereciam comida alguma, ela sofria terrivelmente. Não logrando encontrar o caminho, fficava infeliz, tornando-se, então, tão perigosa quanto a alma do esperma.
     Os ritos fúnebres tinham um duplo objetivo: pretendiam proteger os vivos da ação dos mortos e, ao mesmo tempo, assegurar às almas destes últimos a sobrevivência. E isso porque, partindo dos mortos a iniciativa, a conexão com seu mundo era perigosa. Propícia, porém, era essa conexão quando se manifestava sob a forma do culto aos antepassados, organizado em conformidade com o prescrito pela tradição e cumprido nas épocas adequadas.
     A sobrevivência da alma dependia da força física e moral que ela adquirira ao longo da vida. Adquiria-se essa força por meio da alimentação e do estudo. Particularmente importante era a diferença entre a alma do senhor de terra, que havia sido um “comedor de carne” e se alimentara bem durante toda a vida, e aquela do camponês comum, pouco e mal nutrido. Granet afirma:

   Somente os senhores de terra possuem uma alma, no verdadeiro sentido da palavra. Mesmo a idade não desgasta essa alma, mas enriquece-a. O senhor prepara-se para a morte fartando-se de requintadas comidas e de bebidas que o animam. No decorrer de sua vida, ele incorporou um sem-número de essências, numa quantidade proporcional à vastidão e à opulência de seus domínios. Ele multiplicou ainda mais a rica substância de seus antepassados, também estes plenamente saciados de carne e de caça. Ao morrer, sua alma não se dispersou feito uma alma comum, mas partiu-lhe do corpo cheia de energia.
   Se o senhor levou sua vida em consonância com as regras de sua posição, sua alma — ainda mais enobrecida e purificada pelos ritos fúnebres — possui, após a morte, um poder sublime e luminoso. Dispõe, assim, da força benfazeja de um espírito protetor, preservando simultaneamente todas as características de uma personalidade duradoura e santa. Transformou-se numa alma ancestral.

     A essa alma dedica-se, então, num templo especial, um culto próprio. Ela participa das cerimônias relativas às estações do ano da vida da natureza e da vida da terra. Quando a caça é abundante ela é bem alimentada. E jejua quando a colheita é ruim. A alma ancestral alimenta-se de grãos, carne e da caça nos domínios senhoriais, que são o seu lar. Contudo, por mais rica que seja a personalidade de uma tal alma ancestral e por mais que ela siga vivendo com toda a sua energia reunida em si, também para ela chegará o momento da dispersão e da extinção. Após quatro ou cinco gerações, a tábua de ancestrais à qual a vinculavam certos ritos perde o seu direito a um santuário especial. Ela é depositada num cofre de pedra, juntando-se às tábuas de todos os antepassados mais antigos, cuja memória pessoal já se perdeu. O antepassado que ela representava e do qual carregava o nome não é mais reverenciado como um senhor. Sua vigorosa individualidade, que tão nítida e longamente se destacou, desaparece. Sua carreira terminou, e seu papel como antepassado já foi cumprido. Graças ao culto de que foi objeto, escapou por longos anos do destino dos mortos comuns. Agora, retorna à massa de todos os demais mortos e torna-se tão anônima quanto estes.
     Nem todos os antepassados sobrevivem por quatro ou cinco gerações. Se sua tábua será mantida ou não por muito tempo, se se invoca ou não a alma, rogando-lhe que aceite o alimento, isso depende da posição hierárquica particular do antepassado. Algumas são já removidas após uma única geração. Durem, porém, o tempo que for, o fato de simplesmente existirem altera em muitos aspectos o caráter da sobrevivência.
     Para o filho, já não mais se trata de modo algum de um triunfo secreto o fato de ele estar vivo e o pai não. Afinal, na qualidade de antepassado, o pai permanece presente; o filho agradece-lhe por tudo o que tem e precisa preservar-lhe a disposição favorável. Mesmo estando o pai morto, ele tem de alimentá-lo, e certamente evitará ser arrogante para com ele. De todo modo, enquanto o filho viver, também a alma ancestral do pai estará presente, e, como se viu aqui, ela conserva todos os traços de uma determinada pessoa à qual se pode reconhecer. Ao pai, porém, importa muito ser respeitado e alimentado. É fundamental para sua nova existência como antepassado que seu filho esteja vivo: não tivesse ele descendentes, não haveria ninguém para reverenciá-lo. É seu desejo que o filho e outras gerações sobrevivam a ele. Deseja, ademais, que estejam passando bem, pois de sua prosperidade depende sua própria existência como antepassado. Enquanto estiverem dispostos a lembrá-lo, o pai demanda que vivam. Nasce aí uma conexão íntima e feliz entre a forma moderada de sobrevivência que os antepassados obtêm e o orgulho dos descendentes, que existem para propiciar-lhes aquela sobrevivência. 
      É igualmente importante que os antepassados permaneçam individualizados por algumas gerações. É como indivíduos que são conhecidos, e é também como tal que são reverenciados; somente os de um passado mais distante confluem para formar uma massa. O descendente, vivendo no presente, encontra-se apartado da massa de seus antepassados, e graças justamente a todos aqueles que, como indivíduos isolados e bem delimitados — como o pai e o avô, por exemplo —, interpõem-se entre ele e aquela massa. Se uma satisfação pelo fato de estar vivo influi na veneração do filho, sua natureza é branda e moderada. Em função da própria natureza da relação, ela não será capaz de estimulá-lo a multiplicar o número dos mortos. Ele próprio é quem irá aumentar em uma unidade esse número, e seu desejo é que isso demore a acontecer. A situação da sobrevivência despe-se assim de todo e qualquer traço aparentado à massa. Como paixão, ela seria paradoxal e incompreensível; a sobrevivência perdeu todos os seus traços assassinos. A memória e a dignidade pessoal selaram uma aliança. Uma influenciou a outra, mas o melhor de ambas preservou-se.
     Quem contempla a figura do detentor de poder ideal, conforme ela se desenvolveu na história e no pensamento dos chineses, sente-se afetado por sua humanidade. É de se supor que a ausência de violência desse quadro se deva a essa espécie particular de veneração dos antepassados.

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Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(c)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(b)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
continuando...

          Junto aos zulus, na África do Sul, esse convívio com os antepassados assume uma forma particularmente íntima. Os relatos que, há aproximadamente cem anos, o missionário inglês Callaway ali coletou e publicou constituem o testemunho mais genuíno que se pode encontrar a respeito do culto aos antepassados entre os zulus. Callaway deixa que seus informantes falem e registra-lhes as declarações na própria língua deles. Seu livro, The Religious System of the Amazulu, é raro e, por esse motivo, muito pouco conhecido; trata-se de um dos documentos fundamentais da humanidade.
     Os antepassados dos zulus transformam-se em cobras e andam debaixo da terra. Contrariamente ao que se poderia supor, porém, não são cobras míticas, que jamais se chega a ver. São espécimes bem conhecidos e apreciam perambular pelas proximidades das cabanas, as quais, aliás, adentram com frequência. As características físicas de algumas dessas cobras lembram antepassados específicos, reconhecidos como esses pelos vivos.
     Mas não são apenas cobras, pois, nos sonhos, aparecem para os vivos sob forma humana e conversam com eles. As pessoas esperam por esses sonhos, sem os quais a existência dos homens faz-se desagradável. Elas querem falar com seus mortos; fazem questão de, em seus sonhos, vê-los clara e nitidamente. Por vezes, a imagem dos antepassados se turva, tornando-se escura; tem-se então de, mediante determinados ritos, cuidar para que ela se faça novamente clara. De tempos em tempos — e, muito particularmente, em todas as ocasiões importantes —, sacrifícios são-lhes oferecidos. Cabras e bois são abatidos em sua homenagem e, de modo solene, os antepassados são invocados para que deles se sirvam. São chamados em voz alta e por seus títulos de glória, aos quais atribuem grande valor; são deveras pundonorosos, sendo considerado ofensivo esquecer ou omitir-lhes o respectivo título. O animal sacrificado deve berrar, a fim de que eles o ouçam; os antepassados adoram esse grito. Por isso mesmo, ovelhas, que morrem caladas, não devem ser utilizadas como vítimas. O sacrifício nada mais é aí do que uma refeição da qual compartilham mortos e vivos, uma espécie de comunhão destes com aqueles.
     Se se vive como os antepassados estavam acostumados a viver, conservando inalterados os velhos usos e costumes; se se oferecem regularmente sacrifícios a eles, ficam satisfeitos e favorecem a prosperidade de seus descendentes. Mas, tão logo alguém adoece ele saberá que provocou a insatisfação de um de seus antepassados e fará de tudo para descobrir o motivo dessa insatisfação.
     Os mortos nem sempre são justos. Foram seres humanos que as pessoas conheceram e de cujas fraquezas e erros elas se lembram bem. Nos sonhos, eles figuram em consonância com o caráter que tinham. Vale a pena destacar aqui um caso registrado com algum detalhe no livro de Callaway. Tal caso mostra que um rancor pelos que ficaram assalta até mesmo aqueles mortos bem assistidos e louvados, e isso simplesmente pelo fato de não estarem mais vivos. A história de um tal rancor, conforme se lerá a seguir, corresponde, traduzida para o nosso contexto, ao curso de uma doença perigosa.
     Um primogênito morreu. Suas posses e, muito particularmente, todo o seu gado — que é o que se considera sua verdadeira propriedade — passaram para o irmão mais novo. Tal ordem de sucessão é a usual; o irmão mais novo, que tomou posse da herança e realizou devidamente todos os sacrifícios, não tem consciência de ter cometido qualquer falta para com o morto. De súbito, porém, fica gravemente enfermo e, em sonho, aparece-lhe o irmão mais velho.
     “Sonhei que ele me batia e dizia: ‘Como pode você não saber mais quem eu sou?’. E eu respondi: ‘O que posso fazer para que você veja que eu te conheço? Sei que você é meu irmão!’. E ele perguntou: ‘Quando você sacrifica teus bois, por que você não me chama?’. E eu lhe disse: ‘Mas é claro que te chamo, e te honro com teu título de glória. Diga-me qual foi o boi que matei sem te chamar’. Ao que ele respondeu: ‘Eu quero carne’. Recusei-lhe a carne dizendo-lhe: ‘Não, meu irmão. Não tenho nenhum boi. Você está vendo algum no curral?’. ‘Mesmo que haja só um’, disse ele, ‘eu o exijo.’ Quando acordei, sentia uma dor no anco. Tentei respirar, mas não consegui: estava sem fôlego.”
     O homem era teimoso e não queria sacrificar boi algum. Disse: “Estou realmente doente e conheço a doença que está me abatendo”. As pessoas disseram-lhe: “Se você a conhece, por que não se livra dela? Pode um homem provocar deliberadamente a sua doença? Quando sabe que doença é essa, ele quer morrer? Sim pois quando o espírito está irado com alguém ele o destrói”.
     O homem, então, retrucou: “Não, meus senhores! Foi um homem que me fez doente. Eu o vejo quando durmo, quando me deito. Só porque sente vontade de comer carne ele me vem com artimanhas e diz que não o chamo quando mato o gado. Isso me deixa bastante surpreso, pois já matei tanto gado e nem uma única vez deixei de chamá-lo. Se ele quer carne, poderia simplesmente me dizer: ‘Meu irmão, eu queria carne’. Mas, em vez disso, diz que não o honro. Estou com raiva dele e acho que ele só quer me matar”.
     As pessoas, então, disseram: “Você acredita que o espírito ainda é capaz de entender, quando se fala com ele? Onde é que ele está, para que possamos dizer-lhe a nossa opinião? Estivemos sempre presentes nas ocasiões em que você abateu o gado. Você o louvou e chamou-o por seu título de glória, título que ele recebeu por sua valentia. Nós ouvimos e, se fosse possível a esse teu irmão ou a qualquer outro homem morto ressuscitar, nós conversaríamos com ele e lhe perguntaríamos: ‘Por que você diz essas coisas?’”.
     Ao que o doente respondeu: “Ora, meu irmão comporta-se dessa forma jactanciosa porque é o mais velho. Sou mais novo que ele. Espanto-me quando ele exige que eu acabe com o gado todo. Ele próprio não deixou o gado como herança ao morrer?”.
     E as pessoas disseram: “O homem morreu. Nós, porém, estamos falando com você de verdade, e teus olhos ainda nos fitam de fato. Por isso, no que se refere a ele, te dizemos: converse com ele calmamente e, ainda que você tenha apenas uma cabra, ofereça essa cabra a ele. É uma vergonha que ele venha e te mate. Por que você continua sempre vendo teu irmão ao dormir e fica doente? Um homem deveria sonhar com seu irmão e acordar saudável”.
     Então, o irmão mais novo respondeu: “Está bem, meus senhores. Vou dar a ele a carne que ele adora. Ele exige carne e está me matando. Está cometendo uma injustiça comigo. Sonho com ele todo dia e acordo com dores. Ele não é um homem; foi sempre um pobre coitado, um arruaceiro. Sim, porque ele era assim mesmo: a cada palavra, um soco. Quando alguém falava com ele, ele logo partia para o ataque. Então havia briga; ele a provocara e batia. Nunca compreendeu nem admitiu: ‘Cometi um erro e não deveria ter lutado com essas pessoas’. Seu espírito é como ele era. É mau e está sempre irado. Mas vou dar a ele a carne que ele exige. Se vir que ele vai me deixar em paz e que eu vou ficar saudável, amanhã vou abater o gado para ele. Ele deve deixar que eu me cure e respire, se é ele a causa de tudo isso. Minha respiração não deve mais me cortar como agora”.
     As pessoas concordaram: “Isso. Se amanhã você estiver bom, então saberemos que foi o espírito de teu irmão. Mas se você ainda estiver doente, então não diremos que foi teu irmão a causa da doença: diremos que se trata de uma doença comum”.
     Quando o sol se pôs, o irmão mais novo reclamou ainda das dores. Quando, porém, chegou a hora de ordenhar as vacas pediu comida. Pediu um caldo aguado e conseguiu engolir um pouco dele. Então, disse: “Me deem um pouco de cerveja. Estou com sede”. Suas mulheres deram-lhe cerveja e sentiram-se confiantes. Alegraram-se, pois haviam sentido muito medo e se perguntado: “Será que a doença é tão ruim a ponto de ele não comer nada?”. Alegraram-se em silêncio; não manifestaram sua alegria, mas apenas se entreolharam. Ele bebeu a cerveja e disse: “Me deem um pouco de rapé. Quero cheirar um pouquinho só”. Deram-lhe o rapé, ele o cheirou e deitou-se. Então, adormeceu.
     De noite, o irmão veio e lhe disse: “E então, você já separou o gado para mim? Vai matá-lo amanhã cedo?”.
     E, dormindo, ele lhe respondeu: “Sim, vou matar uma cabeça de gado para você. Por que você diz, meu irmão, que eu não te chamo, se sempre te honrei com teu título de glória ao matar o gado? Anal, você era corajoso e um bom guerreiro”.
     Ao que o irmão replicou: “Digo-o com razão, se tenho vontade de comer carne. Afinal, morri e te deixei uma aldeia. Você tem uma grande aldeia”. 
     “Está bem, está bem, meu irmão. Você me deixou uma aldeia. Mas ao deixá-la para mim e morrer, você matou todo o teu gado?” 
     “Não, não matei todo ele.” 
     “E agora, então, filho de meu pai, você exige de mim que eu acabe com tudo?” 
     “Não, não exijo que você acabe com tudo. Digo-te apenas: mate, para que tua aldeia seja grande!” 
     O irmão mais novo acordou; sentia-se bem e a dor passara. Sentou-se e cutucou a mulher: “Levanta, acenda o fogo”. A mulher acordou, atiçou o fogo e perguntou-lhe como se sentia. “Fique tranquila”, disse ele. “Ao acordar, senti um alívio no corpo. Falei com meu irmão. Quando acordei, estava curado.” Cheirou, então, um pouco de rapé e adormeceu de novo. O espírito do irmão retornou, dizendo-lhe: “Está vendo? Eu te curei. Mate o gado pela manhã!”.
     De manhã, ele se levantou e foi até o curral. Tinha ainda outros irmãos mais novos, que o acompanharam. “Digo a vocês que agora estou curado. Meu irmão diz que me curou.” Depois, mandou que trouxessem um boi. Eles o trouxeram. “Tragam aquela vaca estéril!” Trouxeram ambos. Foram até a parte de cima do curral e postaram-se ali, ao lado dele, que começou a rezar nos seguintes termos: “Comei, pois, gente da nossa casa. Que um espírito bom esteja conosco, para que as crianças cresçam e as pessoas permaneçam com saúde. Pergunto a ti, que és meu irmão, por que segues vindo até mim quando durmo. Por que sonho contigo e fico doente? Um bom espírito chega e traz boas notícias. Mas eu tenho de queixar-me o tempo todo de doenças. Que gado é esse que precisa devorar seu dono, pondo-o constantemente doente? Eu te digo: para com isso! Para de me fazer adoecer! E digo-te: venha até mim quando durmo, fale com calma e diga-me o que quiseres! — Mas tu vens para me matar! É evidente que, em vida, foste um mau sujeito. Mas segues sendo um mau sujeito embaixo da terra? Nunca esperei que teu espírito me visitasse amistosamente, trazendo me boas notícias. Mas por que vens com maldade? — tu, meu irmão mais velho, que deverias trazer coisas boas à aldeia, para que nada de mau lhe acontecesse; tu, que és, afinal, o dono da aldeia!”.
     Ao que, então, dando graças, disse ainda as seguintes palavras sobre o gado: “Aí está o gado que te ofereço. Eis aí um boi vermelho; eis aí uma vaca estéril, vermelha e branca. Mata-os! Digo-te: conversa amistosamente comigo, para que eu acorde sem dores. Digo-te: deixa que todos os espíritos desta casa se reúnam em torno de ti, que gostas tanto de carne!”.
     E ordenou: “Matem-nos!”. Um de seus irmãos pegou uma lança e cravou-a na vaca estéril, que caiu. Enfiou-a ainda no boi, que tombou também. Ambos berravam. Ele os matou; estavam mortos. Ordenou, então, que lhes tirassem o couro. Ambos foram despelados; o couro foi lhes tirado. Comeram os animais no curral. Os homens todos se reuniram e pediram comida. Levaram embora pedaço por pedaço. Comeram e estavam satisfeitos. Agradeceram e disseram: “Nós te agradecemos, filho de fulano de tal. Se um espírito te deixar doente, saberemos que se trata de teu irmão miserável. Não sabíamos, ao longo de tua grave enfermidade, se ainda comeríamos carne em tua companhia. Vemos agora que o miserável quer te matar. Alegra-nos que você esteja saudável novamente”.
     “Afinal, morri”, diz o irmão mais velho, e nessa afirmação encontra-se resumido o cerne da disputa, da perigosa enfermidade, do relato em si. Como quer que o morto se apresente, o que quer que demande, ele morreu e tem, assim, razão de sobra para a amargura. “Deixei-te uma aldeia”, afirma, logo acrescentando: “Você tem uma grande aldeia.” A vida do outro é essa aldeia, de modo que o morto poderia igualmente ter dito: “Eu estou morto e você continua vivo”.
     É essa reprimenda que o vivo teme, e, sonhando com ela, ele dá razão ao morto: sobreviveu a ele. A amplitude dessa injustiça, ao lado da qual todas as demais empalidecem, confere ao morto o poder de transformar reprimenda e amargura numa doença grave. “Ele quer me matar”, diz o irmão mais novo — pois está morto, pensa consigo. Sabe, pois, muito bem por que razão teme o irmão, e, para apaziguá-lo, concorda afinal com o sacrifício.
     Como se vê, a sobrevivência dos mortos vincula-se, para os que ficaram, a um considerável desconforto. Mesmo onde se estabeleceu uma forma de veneração regular, não se pode confiar inteiramente neles. Quanto mais poderoso foi o morto entre os homens na terra, tanto maior e mais perigoso é seu rancor no além.

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Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(b)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

terça-feira, 14 de abril de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(a)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
          Ninguém que se ocupe dos testemunhos originais da vida religiosa deixará de espantar-se com o poder dos mortos. A existência de muitas tribos apresenta-se inteiramente impregnada de ritos a eles relacionados.
     O que chama a atenção em primeiro lugar e por toda parte é o medo que se tem dos mortos. Estes estão insatisfeitos e repletos de inveja dos parentes que deixaram para trás. Tentam vingar-se deles, às vezes por ofensas que lhes foram impingidas ainda em vida, mas, com frequência, também pelo simples fato de não estarem mais vivos. É a inveja dos mortos o que os vivos mais temem. Procuram atenuá-la adulando-os e oferecendo-lhes alimento. Dão-lhes tudo aquilo de que precisam para o caminho rumo à terra dos mortos, e o fazem apenas para que eles se mantenham bem distantes e não voltem mais para causar dano e atormentar os que ficaram. Os espíritos dos mortos enviam doenças ou trazem-nas eles próprios; exercem influência sobre o crescimento dos animais e o sucesso da colheita; interferem, enfim, de centenas de maneiras na vida dos homens.
     Uma sua verdadeira paixão que vive a manifestar-se é aquela de vir buscar os vivos. Como os invejam pelos objetos todos da vida cotidiana que tiveram de deixar para trás, era costume não conservar coisa alguma destes, ou apenas o mínimo possível. Eram todos colocados na cova ou incinerados junto com os mortos. Abandonava-se a cabana onde estes haviam morado e jamais se voltava lá. Com frequência, enterravam-se os mortos em sua própria casa, juntamente com todos os seus pertences, a fim de deixar-lhes claro que não se pretendia ficar com estes últimos. Tampouco isso bastava, porém, para desviar-lhes inteiramente a ira, pois a inveja maior dos mortos não se dirigia aos objetos — que podiam ser novamente produzidos ou adquiridos —, mas sim à própria vida.
     É, por certo, notável que, por toda parte, sob as mais variadas circunstâncias, se atribua aos mortos essa mesma disposição. Aparentemente, o mesmo sentimento domina os mortos de todos os povos. Eles sempre teriam preferido permanecer vivos. Aos olhos dos que ainda o estão, todo aquele que não está mais vivo sofreu uma derrota, a qual consiste no fato de se ter sobrevivido a ele. O morto não é capaz de conformar-se com isso, e é natural que deseje ele próprio impingir a outros essa dor suprema que lhe foi impingida.
     Todo morto é, portanto, alguém a quem se sobreviveu. Somente naquelas grandes e relativamente raras catástrofes nas quais todos sucumbem juntos é que tal situação se modifica. A morte solitária, aquela que nos interessa aqui, dá-se de modo a arrancar um único ser humano do seio de sua família e de seu grupo. Ele deixa para trás todo um bando de sobreviventes, e todos quantos possuem algum direito sobre o morto formam uma malta de pesar a lamentar por ele. Ao sentimento de enfraquecimento por sua morte vem juntar-se aquele do amor que se tinha por ele, e ambos esses sentimentos são amiúde inseparáveis. Lamenta-se pelo morto da maneira mais apaixonada, e, em seu cerne, tal lamento certamente constitui um sentimento genuíno. Se os que estão de fora tendem a suspeitar das manifestações desse lamento, tal se deve à natureza complexa, à multiplicidade de sentidos da própria situação.
     E isso porque as mesmas pessoas que têm motivo para lamentar-se são também sobreviventes. Elas lamentam na qualidade de pessoas que sofreram uma perda, mas, na condição de sobreviventes, sentem uma espécie de satisfação. Em geral, não admitirão nem mesmo para si próprias esse seu sentimento inadequado. Mas sempre saberão precisamente de que forma o morto o sente. Este só pode odiá-las, pois a vida de que elas desfrutam, ele não a tem mais. Chamam de volta sua alma a fim de convencê-lo de que não queriam sua morte. Lembram-no como foram boas para ele, quando ele estava ainda entre elas. Enumeram as provas concretas de que fazem tudo da maneira como ele teria desejado. Os últimos e manifestos desejos do morto, elas os cumprem de modo consciencioso. Em muitos lugares, esse último desejo tem força de lei. Em tudo o que as pessoas fazem encontra-se inabalavelmente pressuposta uma única coisa: o rancor do morto pelo fato de elas terem sobrevivido.
     Em Demerara, um menino índio adquirira o hábito de comer areia, o que o levou à morte. Seu corpo jazia num esquife aberto que seu pai encomendara a um marceneiro da vizinhança. Antes do sepultamento, a avó do menino postou-se ao lado do esquife e disse com voz lamentosa: “Meu filho, eu sempre te disse que você não devia comer areia. Eu nunca te dei areia, pois sabia que não te faria bem. Mas você sempre a procurou por conta própria. Eu te disse que isso era ruim. Agora você está vendo: a areia te matou. Não me faça nenhum mal; foi você mesmo quem se fez mal; alguma coisa ruim te fez comer areia. Veja: estou colocando uma flecha e um arco a teu lado, para que você se contente com eles. Eu sempre fui boa para você. Agora seja bom para mim também e não me faça nada”.
     Então, chorando, a mãe juntou-se à avó e, numa espécie de cantilena, disse: “Meu filho, eu te trouxe ao mundo para que você visse todas as coisas boas e se alegrasse com elas. Este peito te alimentou todas as vezes que você o pediu. Fiz coisas bonitas e belas camisas para você. Cuidei de você, te alimentei, brinquei com você e nunca te bati. Você tem que ser bom e não trazer nada de ruim para mim”.
     O pai da criança aproximou-se também, dizendo: “Meu filho, quando eu te disse que a areia ia te matar você não quis me ouvir, e agora veja: você está morto. Eu saí e arranjei um belo caixão para você. Vou ter de trabalhar para pagá-lo. Cavei tua cova num lugar bonito, onde você gostava de brincar. Vou te enterrar e te dar areia para comer, pois agora ela não poderá mais te fazer mal, e eu sei como você gosta de areia. Você não pode me trazer nenhuma desgraça; o melhor é que você vá atrás de quem te fez comer areia”.
     A avó, a mãe e o pai amaram essa criança, e, embora ela seja tão pequena, temem o seu rancor, pois eles continuam vivos. Garantem-lhe que não tiveram culpa por sua morte. A avó dá-lhe um arco e uma flecha. O pai comprou-lhe um caixão caro e colocará areia na cova para o filho comer, porque sabe o quanto ele gostava. O carinho singelo que demonstram para com a criança é comovente; e, no entanto, ele tem algo de sinistro, pois está impregnado de medo.
     Da crença na continuidade da vida dos mortos originou-se em alguns povos um culto aos antepassados. Onde quer que tal culto tenha assumido formas fixas a impressão que causa é a de que as pessoas souberam do mar os próprios mortos que são os que lhes importam. Concedendo-lhes regularmente aquilo que desejam — honra e alimento —, elas os mantêm satisfeitos. Se observado de acordo com todas as regras da tradição, esse cuidar dos mortos os transforma em aliados. O que foram nesta vida é o que serão também mais tarde; eles ocupam sua antiga posição. Quem, na terra, foi um poderoso cacique, isso é o que será também debaixo da terra. Nos sacrifícios e evocações, seu nome será citado em primeiro lugar. Sua suscetibilidade é prudentemente poupada; se ferida, ele pode tornar-se bastante perigoso. O morto interessa-se pela prosperidade de sua descendência; muita coisa depende dele, e seu bom humor é imprescindível. Gosta de deter-se nas proximidades de seus descendentes, e não se pode fazer coisa alguma para expulsá-lo dali.

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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(a)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

domingo, 29 de março de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (c)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos
 
continuando...

          Como alguém consegue salvar-se na guerra, quando todos os que lhe são aparentados pereceram? E como se sente esse único alguém? A esse respeito, informa-nos uma passagem de um mito indígena anotado por Koch-Grünberg junto aos taulipangues, na América do Sul.

Os inimigos vieram e os atacaram. Chegaram à aldeia, que se compunha de cinco casas, e, à noite, incendiaram-na em dois lugares, a m de que, em razão da claridade, os habitantes não pudessem fugir no escuro. Com seus tacapes, mataram muitos deles, no momento mesmo em que pretendiam escapar de suas casas.
     Um homem chamado Maitchaule deitou-se ileso em meio a um amontoado de mortos e, com o intuito de enganar os inimigos, lambuzou o rosto e o corpo de sangue. Acreditando que estavam todos mortos, eles foram embora. Restou somente aquele homem. Ele se foi, banhou-se e caminhou até uma outra casa, não muito distante. Pensou que houvesse gente ali, mas não achou ninguém. Todos haviam fugido. Encontrou apenas bolo de mandioca e carne assada, e comeu. Pôs-se, então, a refletir; deixou a casa e afastou-se. Sentou-se e seguiu pensando. Pensou no pai e na mãe, que haviam sido mortos pelos inimigos, e que agora não tinha mais ninguém no mundo. Então disse: “Vou me deitar ao lado de meus companheiros, que estão mortos!”. E, com muito medo, retornou à aldeia incendiada. Encontrou nela uma grande quantidade de abutres. Maitchaule era um feiticeiro e havia sonhado com uma linda moça. Espantou os abutres e deitou-se ao lado dos companheiros mortos. Lambuzara-se novamente de sangue. A m de poder usá-las a qualquer momento, manteve as mãos junto à cabeça. Os abutres, então, voltaram e puseram-se a disputar os cadáveres. Em seguida, chegou a filha do rei dos abutres. E o que fez, então, a filha do rei? Pousou sobre o peito de Maitchaule e, quando ia bicar-lhe o corpo, ele a agarrou. Os abutres bateram em retirada. Maitchaule disse à filha do rei dos abutres: “Transforma-te numa mulher! Estou tão sozinho aqui, sem ninguém que me ajude”. E levou-a consigo para a casa abandonada. Lá, cuidou dela como de um pássaro domesticado. Disse-lhe: “Agora vou pescar. Quando voltar, quero encontrar-te transformada numa mulher!”.

     Primeiramente, Maitchaule deita-se entre os mortos, para escapar. Faz-se de morto para não ser descoberto. Depois, descobre ser o único que restou, sentindo-se triste e amedrontado. Decide, assim, deitar-se novamente entre os companheiros mortos. De início, talvez entretenha o pensamento de compartilhar de seu destino. Muito seriamente, porém, não o faz, pois sonhou com uma linda moça, e, não vendo nenhum outro ser vivo em torno de si senão abutres, toma um abutre para ser sua mulher. Pode-se acrescentar ainda que, atendendo ao seu desejo, o pássaro de fato se transforma numa mulher.
     É notável o número de tribos — e, aliás, por todo o mundo — oriundas de um casal que é o único a permanecer vivo após uma grande catástrofe. O caso do bem conhecido dilúvio bíblico é atenuado pelo direito que tem Noé a toda a sua família. É-lhe permitido levar consigo na arca toda a sua estirpe, além de um casal de cada espécie de ser vivo. Mas o agraciado com a misericórdia divina é ele próprio; a virtude da sobrevivência — nesse caso, uma virtude religiosa — pertence a ele, e é somente por causa dele que os demais podem entrar na arca. Há exemplos mais crus dessa mesma lenda, narrativas nas quais, à exceção do casal primordial, todos os demais homens perecem. Nem sempre tais narrativas encontram-se vinculadas à ideia de um dilúvio. Frequentemente, é em consequência de epidemias que os homens todos perecem, à exceção de um único, que, vagando em busca de uma mulher, acaba por encontrar uma única, às vezes duas, com as quais se casa, fundando assim uma nova estirpe.
     É parte da força e da glória desse antepassado que, um dia, ele tenha restado como o único homem sobre a terra. Ainda que não se afirme explicitamente, constitui uma espécie de mérito seu o fato de não ter sucumbido junto com os outros. Ao prestígio de que ele desfruta por ser o antepassado de todos quantos vieram depois dele junta-se o respeito pela afortunada força de sua sobrevivência. Enquanto vivia ainda entre muitos dos seus, é possível que não se tenha distinguido de forma tão particular: era um homem como todos os outros. De súbito, porém, está totalmente sozinho. A época de sua peregrinação solitária é descrita em muitos detalhes. O espaço mais amplo ocupa aí sua busca por seres vivos, em lugar dos quais encontra apenas cadáveres por toda parte. A certeza crescente de que, além dele, não há de fato mais ninguém o impregna de desespero. Contudo, uma outra nota soa aí também, inequívoca: a humanidade que com ele recomeça repousa tão somente nele; sem ele, e sem sua coragem de recomeçar sozinho, ela absolutamente não existiria.
     Das narrativas dessa espécie que nos foram transmitidas, uma das mais simples é a da origem dos kutenais. Seu texto é o que se segue.

As pessoas viviam ali e, de repente, veio uma epidemia. Estavam morrendo. Morriam todas. Puseram-se a vagar, levando a notícia umas às outras. Entre a totalidade dos kutenais reinava a doença. Por toda parte era a mesma coisa. Num determinado lugar não encontraram ninguém. Estavam todos mortos. Restara uma única pessoa. Um dia, essa pessoa que restara se curou. Tratava-se de um homem, e ele estava sozinho. Então, pensou: “Vou vagar pelo mundo para ver se encontro alguém em alguma parte. Se não encontrar ninguém, não vou mais querer regressar. Não há ninguém no mundo, e ninguém jamais virá me visitar”. O homem partiu em sua canoa e chegou ao último acampamento dos kutenais. Chegando lá, onde normalmente se viam pessoas à beira do rio, não encontrou ninguém; e, andando pelas redondezas, viu apenas mortos — nenhum sinal de vida em parte alguma. Tornou a partir em sua canoa e, chegando a uma outra localidade, desembarcou, mais uma vez encontrando apenas mortos. Não havia ninguém ali. Tomou, então, o caminho de volta. Alcançou o último povoado onde os kutenais tinham vivido. Entrou no povoado. Nas tendas, havia tão somente cadáveres amontoados. Vagou, pois, sem parar e viu que todos haviam morrido. Chorava ao caminhar. “Sou o único que restou”, disse para si mesmo; “até mesmo os cães estão mortos.” Ao chegar à aldeia mais longínqua, viu pegadas humanas. Havia uma tenda ali. Em seu interior, não havia cadáveres. Mais adiante cava a aldeia. Soube, então, que duas ou três pessoas ainda estavam vivas. Viu pegadas maiores e menores, e não saberia dizer se eram de três pessoas. Mas alguém se salvara. Seguiu adiante em sua canoa e pensou: “Remarei naquela direção. Os que viviam aqui costumavam remar para lá. Se se trata de um homem, talvez ele se tenha mudado para mais adiante”. 
     Assim, sentado em sua canoa, viu mais acima, a uma certa distância, dois ursos pretos comendo pequenas frutas. Pensou: “Vou atirar neles e, se os acertar, eu os como. Porei sua carne para secar e, então, darei uma olhada por aí, para ver se sobrou alguém vivo. Primeiro, ponho a carne para secar; depois, vou procurar as pessoas. Anal, vi pegadas de gente. Talvez sejam homens ou mulheres famintas. Precisam também de algo para comer”. Caminhou rumo aos ursos. Ao aproximar-se, viu que não eram ursos, mas mulheres. Uma era mais velha; a outra, uma moça. Pensou consigo: “Fico contente de ver seres humanos. Tomarei esta mulher por esposa”. Adiantou-se, pois, e pegou a moça, que disse a sua mãe: “Mãe, estou vendo um homem”. A mãe ergueu os olhos e viu que sua filha estava falando a verdade. Viu um homem pegando sua filha. Então, a mulher, a moça e o jovem homem choraram, pois os kutenais haviam morrido todos. Fitando-se uns aos outros, choraram juntos. A mulher disse: “Não leve minha filha. Ela ainda é pequena. Leve a mim. Você será o meu homem. No futuro, quando minha filha crescer, ela será tua mulher. Então você terá filhos”. O jovem casou se com a mulher mais velha. Não tardou muito até que ela lhe dissesse: “Agora minha filha está adulta. Agora ela pode ser tua mulher. É bom que vocês tenham filhos. O ventre dela agora está forte”. O jovem, então, tomou a moça por esposa, e, daí em diante, os kutenais se multiplicaram.

     Uma terceira espécie de catástrofe — o suicídio em massa —, consequência, por vezes, da epidemia e da guerra, produziu também seus sobreviventes. A seguir, apresenta-se aqui uma lenda dos ba-ilas, um povo banto da Rodésia.
     Dois clãs dos ba-ilas, um dos quais denominando-se o das cabras e o outro o dos vespões, encontravam-se em grave disputa. O motivo da discórdia era a qual deles cabia o direito à ocupação do posto de cacique. O clã das cabras, que já desfrutara da primazia, perdera o posto e, em razão do orgulho ferido, seus membros decidiram afogar-se todos juntos no lago. Homens, mulheres e crianças confeccionaram uma corda bastante comprida. Reuniram-se, então, à beira do lago, ataram todos, um por um, a corda ao pescoço e mergulharam juntos na água. Um homem oriundo de um terceiro clã, o dos leões, desposara uma mulher do clã das cabras. Tentou, pois, impedi-la de suicidar-se e, não conseguindo, decidiu morrer junto com ela. Coincidentemente, haviam sido ambos os últimos a atarem-se à corda. Foram, assim, arrastados juntamente com os outros e estavam para se afogar quando, subitamente, o homem sentiu pena e cortou a corda, libertando-se a si próprio e a sua mulher. Tentando livrar-se dele ela gritou: “Me solta! Me solta!”. Ele, porém, não cedeu, trazendo-a de volta para a terra. Por essa razão, até hoje a gente do clã dos leões diz àqueles do clã das cabras: “Nós salvamos vocês da extinção. Nós!”.
     Por fim, cumpre ainda considerar aqui um emprego consciente dos sobreviventes proveniente de tempos históricos e muito bem atestado. Numa luta de aniquilação travada por duas tribos indígenas da América do Sul, um único representante do lado dos derrotados é mantido com vida pelos inimigos e enviado de volta para sua gente. Deveria contar lhes o que vira e retirar-lhes toda a coragem de prosseguir lutando. Ouçamos, nas palavras de Humboldt, o relato acerca desse mensageiro do terror:

Após o ano de 1720, a longa resistência que, reunidos sob o comando de um líder valente, os cabres haviam oposto aos caraíbas arruinara os primeiros. Haviam derrotado o inimigo na foz do rio; uma porção de caraíbas foi morta em fuga, entre as corredeiras e uma ilha. Os prisioneiros foram devorados; mas, com aquela refinada astúcia e crueldade que é própria dos povos das Américas do Sul e do Norte, deixaram um único caraíba com vida o qual, afim de testemunhar o bárbaro acontecimento, foi obrigado a subir numa árvore para, imediatamente depois, dar conhecimento aos derrotados do que vira. Contudo, o êxtase vitorioso do chefe dos cabres foi de curta duração. Os caraíbas retornaram em massas tamanhas que dos cabres antropófagos restaram apenas uns míseros resquícios.

     Esse único sobrevivente, deixado escarnecedoramente com vida, vê, de cima de uma árvore, sua gente ser devorada. Todos os guerreiros juntamente com os quais ele partira para a batalha tombaram em combate ou foram parar no estômago dos inimigos. Na condição de sobrevivente compulsório, tendo diante dos olhos as imagens do terror, ele é enviado de volta a sua gente. O sentido de sua mensagem, conforme a concebem os inimigos, seria: “Somos tão poderosos que restou um único de vocês. Não ousem lutar conosco novamente!”. Contudo, a força do que viu é tão grande em seu interior, sua unicidade compulsória é tão impressionante que ele, contrariamente ao esperado, incita sua gente à vingança. Os caraíbas acorrem em massas provindas de toda parte e dão para sempre um fim nos cabres.
     Essa história, que não é a única em seu gênero, mostra a clareza com que os povos primitivos veem o sobrevivente. Têm plena consciência da singularidade de sua situação. Contam com essa singularidade e procuram empregá-la para seus objetivos particulares. Para ambos os lados, junto aos inimigos e aos amigos, o caraíba que esteve em cima da árvore representou seu papel corretamente. Refletindo-se corajosamente sobre essa sua dupla função, pode-se aprender uma infinidade de coisas.

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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (c) 

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

domingo, 22 de março de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (b)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos
 
continuando...

          Há mitos, entretanto, nos quais se reconhece claramente a conexão dessa gura de luz com os amontoados de cadáveres, e não apenas daqueles de seus inimigos. O mais concentrado desses mitos provém de um povo sul-americano: os uitotos. Pode-se encontrá-lo na importante coletânea de K. Th. Preuss, à qual não se deu ainda a devida atenção. Segue-se, de forma abreviada e na medida de sua relação com o nosso assunto, a exposição desse mito.

     Um dia, duas moças que moravam com seu pai à beira de um rio viram na água uma bonita e minúscula cobra e tentaram, então, apanhá-la. A cobra escapava-lhes sempre, até que, a pedido delas, o pai teceu uma rede de malhas bem nas. Nela, capturaram o animalzinho e o trouxeram para casa. Puseram-no num pequeno vaso com água e ofereceram-lhe todo tipo de comida, mas ele rejeitava tudo. Somente quando, num sonho, o pai teve a ideia de alimentar a cobra com um amido especial é que ela começou a comer direito. Ficou gorda como um fio; depois, como a ponta de um dedo, e as moças colocaram-na então num vaso maior. O animal seguiu comendo o amido e ficou gordo feito um braço. Puseram-no, então, num pequeno lago. Ele comia com avidez cada vez maior o amido, e, na hora de ser alimentado, estava tão faminto que, juntamente com a comida, enfiava pela goela a mão e o braço da moça que lhe dava de comer. Logo estava grande feito uma árvore caída na água. Começou, então, a vir até a beira do lago e a devorar veados e outros animais, mas, ao chamado sedutor, vinha sempre deglutir a gigantesca quantidade de amido que as irmãs lhe preparavam. A cobra fez, então, uma cova sob as aldeias e tribos e começou a devorar os antepassados dos homens, os primeiros habitantes do mundo. “Querida, venha comer”, chamaram as moças certa vez, ao que a cobra surgiu, pegou o recipiente com o amido que uma das irmãs sustentava no braço e que se erguia até sua cabeça, engoliu a moça e a levou consigo.
     A outra irmã foi chorando contar ao pai, que decidiu vingar-se. Ele lambeu o tabaco, como se costuma fazer entre essa gente quando se decide matar uma criatura, embriagou-se e, em sonho, ocorreu-lhe um meio de vingar-se. Preparou amido para dar de comer à cobra, chamou-a — a ela, que tinha devorado sua filha — e disse-lhe: “Engula-me!”. Estava disposto a suportar tudo e, afim de matá-la, bebeu do recipiente de tabaco que trazia pendurado ao pescoço. Ao seu chamado, a cobra apareceu e apanhou o recipiente com amido que ele lhe estendia. O pai saltou-lhe, então, goela adentro e ali se sentou. “Eu o matei”, pensou a cobra, arrastando-o consigo para longe.
     Em seguida, devorou uma tribo inteira, e os homens apodreceram sobre o corpo do pai. Depois, pôs-se a engolir uma outra tribo, que apodreceu também sobre seu corpo. Sentado ali, o pai tinha de suportar o fedor dos homens decompondo-se. A cobra devorou todas as tribos ao longo do rio, aniquilando-as, de modo que não sobrou uma única sequer. O pai trouxera uma concha de casa, afim de, com ela, abrir a barriga da cobra, mas cortou-a e abriu-a só um pouquinho, ao que a cobra sentiu dores. Devorou, então, as tribos à beira de um outro rio. Os homens tinham medo e, em vez de sair para as plantações, cavam sempre em casa. Nem sequer era possível andar pela redondeza, pois a cova da cobra cava no meio do caminho; quando alguém voltava do campo, ela o apanhava e o levava consigo. As pessoas choravam e tinham medo que a cobra devorasse alguém, razão pela qual não saíam mais de casa. Só de sair da rede temiam já que a cobra tivesse ali a sua cova, apanhando-as e as arrastando consigo.
     Sobre o corpo do pai, os homens fediam e decompunham-se. Ele bebeu do suco de tabaco no recipiente e fez cortes no meio do ventre da cobra, causando lhe fortes dores. “O que há comigo? Engoli Deihoma, o ‘cortador’, e sinto dores”, disse ela, e soltou um grito.
     Foi-se, então, para uma outra tribo, ergueu-se da terra e apanhou a todos. As pessoas não podiam ir a parte alguma, e não se aproximavam do rio. Se iam buscar água no porto, a cobra as agarrava e arrastava consigo. Já ao pisarem no chão pela manhã, a cobra as apanhava e levava embora. O pai abria a barriga da cobra com a concha e ela gritava: “Como posso estar sentindo dores? Engoli Deihoma, o cortador, e é por isso que me dói”.
     Então, os espíritos protetores advertiram-no: “Deihoma, este não é ainda o porto do rio onde moras; sê cuidadoso com teus cortes. Teu porto está ainda bem distante daqui”. E, ao ouvir essas palavras, o pai parou com seus cortes. A cobra, por sua vez, voltou a alimentar-se dos povos que já tinha devorado anteriormente, e os apanhou de imediato. “Ela ainda não acabou! Que será de nós? Ela acabou com nossa gente”, diziam os habitantes das aldeias, que emagreciam cada vez mais, pois o que haveriam de comer?
     Os homens pereciam e apodreciam sobre o corpo de Deihoma. Enquanto isso, ele seguia bebendo de seu tabaco e cortando o ventre da cobra, sempre sentado em seu interior. Desde tempos imemoriais o desafortunado não comia coisa alguma, bebendo apenas o suco do tabaco. Afinal, o que haveria de comer? Bebia o suco e permanecia quieto em seu lugar, a despeito do fedor da putrefação.
     Não havia mais tribos; a cobra comera os corpos de todos os que viviam à beira do rio ao pé do céu, de modo que não restara mais ninguém. Seus espíritos protetores disseram então a Deihoma: “Deihoma, este é o porto do rio onde moras. Corta a cobra com força e, duas curvas à frente, estarás em casa”. Deihoma pôs-se então a cortar. “Corta, Deihoma, corta com força!”, exclamaram eles. No porto, Deihoma cortou o couro do ventre da cobra, rasgou-o e abriu-lhe o ventre, saltando para fora dela pela abertura.
     Uma vez do lado de fora, ele se sentou. Sua cabeça despelara-se inteira e ele estava careca. A cobra revolvia-se de um lado para o outro. Deihoma estava de volta, após o longo período de infelicidade no interior da cobra. Lavou-se inteiro em seu porto, chegou a sua cabana e tornou a ver suas filhas, que se alegraram com o retorno do pai.

     Na íntegra desse mito, que foi aqui consideravelmente resumido, descreve-se em nada menos que quinze passagens distintas o modo como, no interior da cobra, os homens apodrecem sobre o herói. Essa imagem premente possui algo de compulsório: ao lado do devorar, é a imagem que mais frequentemente se repete no mito. Deihoma mantém-se vivo bebendo de seu suco de tabaco. Sua calma e imperturbabilidade em meio à putrefação caracterizam o herói. Todos os homens do mundo poderiam apodrecer sobre sua cabeça — ele permaneceria sempre ali, sozinho em meio à podridão geral, ereto e voltado para sua meta. É, se assim se deseja, um herói inocente, pois não carrega em sua consciência nenhum dos que ali apodrecem. Mas suporta a podridão; está no meio dela. Esta não o abate; constitui, poder-se-ia dizer, aquilo que o mantém ereto. A densidade desse mito, onde tudo o que realmente importa desenrola-se no ventre da cobra, é incontestável: o mito é a própria verdade.
     O herói é aquele que, diante de situações perigosas, sobrevive sempre matando. Mas não é apenas o herói que sobrevive. Um fenômeno equivalente verifica-se na massa de sua própria gente, e precisamente quando esta sucumbiu já em sua totalidade.

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Leia também:

Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (b)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."