quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Outros Sonetos XXII - Símiles

Cruz e Sousa

Obra Completa
Volume 1
POESIA



O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos




OUTROS SONETOS 






SÍMILES

              (Desterro)    


Pedro traiu a fé do Apostolado. 
Madalena chorou de arrependida; 
E nessa mágoa triste e indefinida 
Havia ainda uns laivos de pecado.

Tudo que a Bíblia tinha decretado, 
Tudo o que a lenda humilde e dolorida 
De Jesus Cristo apregoou na vida 
Cumpriu-se à risca, foi executado.

O filho-Deus da cândida Maria, 
Da flor de Jericó, na cruz sombria 
Os seus dias amáveis terminou.

Pedro traiu a fé dos companheiros. 
Madalena chorou sob os olmeiros; 
Jesus Cristo sofreu e... perdoou.





EXILADA



Bela viajante dos países frios 
Não te seduzam nunca estes aspectos 
Destas paisagens tropicais – secretos, 
– Os teus receios devem ser sombrios.

És branca e és loura e tens os amavios 
Os incógnitos filtros prediletos 
Que podem produzir ondas de afetos 
Nos mais sensíveis corações doentios.

Loura Visão, Ofélia desmaiada, 
Deixa esta febre de ouro, a febre ansiada 
Que nos venenos deste sol consiste.

Emigra destes cálidos países, 
Foge de amargas, fundas cicatrizes, 
Das alucinações de um vinho triste...





SONETOS



Do som, da luz entre os joviais duetos, 
Como uma chusma alada de gaivotas, 
Vindas das largas amplidões remotas, 
Batem as asas todos os sonetos.

Vão – por estradas, por difíceis rotas, 
Quatorze versos – entre dois quartetos 
E duas belas e luzidas frotas 
Rijas, seguras, de mais dois tercetos.

Com a brunida lâmina da rima, 
Vão céus radiosos, horizonte acima, 
Pelas paragens límpidas, gentis,

Atravessando o campo das quimeras, 
Aberto ao sol das flóreas primaveras, 
Todo estrelado de áureos colibris.





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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu
corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.



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