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terça-feira, 1 de julho de 2025

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXXXV - Sganarelo

Cruz e Sousa


Obra Completa
Volume 1
POESIA


O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos


DISPERSAS 

SGANARELO 

Esse que eu agora rimo 
É viscoso como a lesma 
Pegajosa sobre o limo, 
Sinistro como aventesma.

Feia coisa, enorme bicho, 
Pavoroso mastodonte 
Feito do horror a capricho, 
Com cornos rijos na fronte.

Todo o ventre se lhe estufa 
De obesidade lasciva, 
e fala a voz urra e bufa 
Lembrando a locomotiva.

Na terrível carantonha 
Retorcida, escalavrada, 
Lhe estruge, às vezes medonha, 
Formidável gargalhada.

E à luz do sol, que corusca, 
Nas praças, à luz do dia, 
A sua presença brusca 
Tem uma ardente ironia.

A língua rubra e convulsa 
Sai-lhe da boca em espasmo, 
Enquanto no olhar lhe pulsa 
A blasfêmia do sarcasmo.

Capra figura profunda, 
Atroz e amedrontadora, 
Que larga entranha fecunda 
Foi a tua geradora?! 

Que aborto de ventre estranho 
Pode gerar esse aborto 
Assim feroz e tamanho, 
Peludo, estroncado e torto?

De que idades tão antigas, 
Pré-históricas vieste? 
Mais hostil do que as urtigas, 
Mais nefando de que a peste! 

Trazes a pata esmagante, 
A pata do bronze trazes; 
Que é no espírito diamante 
E que é nas almas lilases. 

Possuis o sangue da verve 
Resplandecente, infinita, 
Que ruge, palpita e ferve 
E canta e soluça e grita. 

Vens como imagem da Morte, 
Da Morte hedionda e nefasta, 
Das iras ao vento forte, 
Do desespero à vergasta. 

Desmancha-te em cabriolas 
De doido polichinelo, 
Que os teus membros lembrem molas 
Como um palhaço amarelo. 

Faz nos músculos esgrimas, 
Pula trapézios e barras 
E salta saltando estas rimas 
Que vão saltando bizarras. 

Acrobata da miséria 
Estica os nervos, estica 
E ri, ri tu da matéria 
Da gente fidalga e rica. 

És medonho?! isso que importa? 
Ri! mas ri alto na praça, 
Se a desgraça não foi morta, 
Ah! deixem rir a desgraça! 

Satanás sujo e potrudo 
Nas cambalhotas te inspire. 
Eia! vá! desdém por tudo, 
Por tudo, e o tempo que gire! 

Faz que o século se agite 
De eternas risadas grossas 
E como com dinamite 
Arromba o mundo com troças. 

Fura o estúrdio Sancho Pança 
Com estocadas de riso 
E mete-o também na dança 
Dos saltos, se for preciso. 

Destrói tudo, vai, desaba, 
De tudo faz estilhaços 
E a golpes de riso acaba 
Os erros córneos e crassos. 

Fura os ventres mais rotundos 
Com aguilhões de chacota 
E manda ao Mestre dos mundos 
Um exemplar da risota. 

Na tal luxúria gorducha, 
Na velha e calva luxúria 
Rebente risos em ducha, 
Com toda a sátira e fúria. 

Ri! até que se transforme, 
Ó rebelado do inferno! 
O riso num facho enorme 
Aceso no sol moderno! 

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Leia também:
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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.
__________________________

Organização e Estudo
Lauro Junkes
Presidente da Academia Catarinense de Letras
© Copyright 2008
Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Projeto Gráfico, Editoração e Capa
ESPAÇO CRIAÇÃO ARQUITETURA DESIGN E COMPUTAÇÃO GRÁFICA LTDA.
www.espacoecriacao.com.br
Fone/Fax: (48) 3028.7799
Revisão Linguístico-Ortográfica
PROFª Drª TEREZINHA KUHN JUNKES
PROF. Dr. LAURO JUNKES
Impressão e Acabamento
Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Formato
14 x 21cm

FICHA CATALOGRÁFICA

Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167
S725o      Sousa, Cruz e, 1861-1898
                        Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização
                  e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
                         v. 1 (612 p.)
                         Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
                  traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.
                            1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
                  Junkes, Lauro. II. Titulo.
                                                                                      CDU: 869.0(816.4)-1

"A gente só tem saída na poesia."

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXXXIV - Sapo humano

Cruz e Sousa


Obra Completa
Volume 1
POESIA


O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos


DISPERSAS 

SAPO HUMANO 
(A Emiliano Perneta)

Oh sapo! eu vou cantar tuas misérias, sapo, 
Vou tirar, nesse lodo onde habitas de rastros, 
Umas vivas canções do teu nojento papo, 
Da crosta esverdeada umas centelhas de astros. 

E canções de tal forma e tais e tais centelhas, 
Que todas possam ir, miraculosamente, 
Transformadas, pelo ar, em rútilas abelhas 
Com o íris voador de cada asa fulgente. 

Que tu, tredo animal, tu, triste sapo hediondo, 
Não és o vil, o torpe, o irracional, que a lama 
Em camadas envolve o atro ventre redondo, 
Dos tempos imortais nessa fecunda chama. 

Não és o sapo histrião de imundas esterqueiras, 
O sombrio Caim nos lamaçais errantes, 
O clown gargalhador das charnecas rasteiras, 
Que ri-se para o sol com riso ironizante. 

Não és o sapo atroz, coaxador, visguento, 
Que rouco ruge e raiva à noite os seus horrores, 
E para o constelado e mudo firmamento 
Faz ecoar os mais surdos e ásperos tambores. 

Mas és o sapo humano, esse asqueroso e feio, 
Nascido de roldão na lúgubre miséria 
E que do mundo vão no pavoroso seio 
Lembra o negro sarcasmo enorme da Matéria. 

Mas és o sapo humano, o sapo mais abjeto 
Do crime aterrador, do tenebroso vício, 
Mas que ainda possuis o brilho de um afeto 
Que te livra, talvez, do eterno precipício.

Por ora na tua alma a noite cruel, cerrada, 
Não caiu de uma vez, como terrível fora; 
Nela ainda há clarões de límpida alvorada, 
Um prenúncio feliz de aurora redentora. 

Ainda tens coração que pulsa no teu peito 
Por uns filhos gentis, ingênuos, pequeninos, 
Que são o grande amor, o sentimento eleito 
Vencendo esses fatais instintos assassinos. 

Tu semelhas de um charco a superfície nua 
E vítrea, que no campo, aos ares, adormece, 
Que se em cheio lhe bate a luz do sol, da lua, 
Para a vasta amplidão cintila e resplandece. 

Pois no teu organismo, assim sinistro e torvo, 
Repleto de vibriões do vício – essas crianças, 
Sorriem virginais, oh! solitário corvo, 
Com sorrisos de luzes e barcarolas mansas. 

O amor que regenera os ínfimos bandidos, 
Não reduziu, enfim, tu’alma a ignóbil trapo. 
E eis por que, num viver de pântano e gemidos, 
Cantam dentro de ti aves e estrelas, sapo!



DIANTE DO MAR 

Para matar o letargo 
Da vida, e o profundo tédio, 
Fui, em busca de remédio, 
Ao cais arejado e largo. 

E vi o mar formidando, 
Cheio de mastros e velas, 
Ocultos clarins vibrando 
Pela boca das procelas. 

Vi tropéis e tropéis bruscos 
De ondas revoltas e crespas 
Com rijos ferrões de vespas 
Ferreteando os ares fuscos. 

Vi os límpidos navios 
Jogados do mar incerto 
Como seres erradios 
Por inóspito deserto. 

Vi tudo nublado, tudo, 
Céus e mares e horizontes; 
E sobre a linha dos montes 
Cair o silêncio mudo. 

E eu lembrei-me quando a aurora 
Sobre aquelas esverdeadas 
Águas jorrava sonora 
A luz em puras golfadas. 

Lembrei-me desses supremos 
Dias acres de alegria 
Na vaga loura e macia 
As leves palmas dos remos.

Do resplendor das viagens 
Num encanto matutino, 
À doçura das aragens, 
Por sobre o mar cristalino. 

A bicar às doces ilhas 
De pedra, musgos e flores, 
Cheias de ervas e frescores 
E naturais maravilhas. 

Que ela a tudo perfumasse 
Como um rosal que floresce 
Que tudo que nela houvesse 
Resplandecesse e cantasse. 

Ou ver na frente das casas, 
Dos vales e das colinas 
Os pombos batendo as asas, 
Entre festões de boninas. 

Ir à pesca alegre e fresca, 
Por suavíssimos luares, 
Numa lua pitoresca, 
Em cima dos salsos mares. 

Quando flexível canoa 
Vai deixando um vivo rastro, 
Fundo, aberto, feito de astro, 
Na vaga que brilha e soa. 

Quando na margem campestre 
De rios indefinidos 
Sente-se o aroma silvestre 
Dos aloendros floridos. 

Lembrei-me até das regatas 
Numa hora deliciosa 
De manhã cheirando a rosa, 
Toda de fúlgidas pratas.

D’embarcar, como um fidalgo, 
Para aventuras de caça, 
Em companhia do galgo 
Que é das caçadas a graça. 

Ir d’espingarda e d’estilo, 
Por madrugadas serenas, 
Sem males, sem dor, sem penas, 
Peito bizarro e tranquilo. 

Bater as aves no mato 
Por entre arvoredos graves, 
Ou da beira de um regato 
Ver saltar em bando as aves. 

E da ventura nos jorros 
Voltar da caça repleto 
Vendo ao longe o rubro teto 
Da casa e o verde dos morros. 

Ou então ir como um duque 
Nas praias de mais beleza 
Gozar na choça de estuque 
Uns olhos de camponesa. 

Sentir do equóreo elemento, 
Sobre as serras verdejantes, 
Ruflantes e sussurrantes 
As ventarolas do vento. 

Deixar o espírito, avaro 
De vida, saúde e força, 
Disparar – alada corça – 
Pelo azul radioso, claro. 

Assim, talvez que o Nirvana 
Do tédio e letargo imenso 
Não fosse uma dor humana, 
Dentre um nevoeiro tão denso.


BRUMOSA

Inglesa! Por toda a parte 
Onde vás, chamam-te inglesa 
E cobrem de pompas de arte 
A pompa dessa beleza. 

Mas tu, num soberbo encanto 
De nevada e fria rosa, 
Ó meu pálido amaranto! 
Não és inglesa, és brumosa. 

A tua carne alvorece 
Em lactescências de opala, 
Brilha, fulge e resplandece 
E um fino aroma trescala. 

És a límpida camélia 
Nos jardins reais plantada 
Ou essa lânguida Ofélia 
Melancólica e nevada. 

O teu corpo imaculado, 
Flor de místicas origens, 
Parece um luar velado 
E lembra florestas virgens. 

Com o teu amor ilumina 
A minh’alma envolta em crepe, 
Ó vaporosa neblina, 
Ó branca e gelada estepe!

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Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXXXIV - Sapo humano
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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.
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Organização e Estudo
Lauro Junkes
Presidente da Academia Catarinense de Letras
© Copyright 2008
Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Projeto Gráfico, Editoração e Capa
ESPAÇO CRIAÇÃO ARQUITETURA DESIGN E COMPUTAÇÃO GRÁFICA LTDA.
www.espacoecriacao.com.br
Fone/Fax: (48) 3028.7799
Revisão Linguístico-Ortográfica
PROFª Drª TEREZINHA KUHN JUNKES
PROF. Dr. LAURO JUNKES
Impressão e Acabamento
Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Formato
14 x 21cm

FICHA CATALOGRÁFICA

Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167
S725o      Sousa, Cruz e, 1861-1898
                        Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização
                  e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
                         v. 1 (612 p.)
                         Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
                  traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.
                            1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
                  Junkes, Lauro. II. Titulo.
                                                                                      CDU: 869.0(816.4)-1

"A gente só tem saída na poesia."

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXXXIII - Imutável

Cruz e Sousa


Obra Completa
Volume 1
POESIA


O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos


DISPERSAS 

IMUTÁVEL 
(Revista do Norte, 1 ago., 1902)

Morrem as virgens, nos seus leitos castos, 
Entre a mole e finíssima cambraia... 
E a lua fria nos espaços vastos 
Serenamente dentre as nuvens raia. 

O ocaso da velhice a fronte enturva 
E faz entristecer como um outono... 
E o sol na doce e fulgente curva 
Surge acordando os vegetais do sono. 

A Dor lanceia os peitos lutadores 
E rasga fundo a carne nas entranhas... 
Pelas campinas vão brotando flores, 
Brotam flores pelo alto das montanhas. 

Brilha o sorriso cândido da infância 
Na pequenina boca perfumada... 
O espinho, o cardo, as urzes sem fragrância 
Brilham também aos cantos de alvorada. 

As lágrimas rebentam-nos dos olhos 
Em turvos rios de atros sentimentos... 
O mar bravio ruge nos escolhos 
E estoura sob as convulsões do vento. 

As mães, no berço, embalam docemente 
Os filhos, com os mais íntimos carinhos... 
Nas árvores do campo recendente 
Vão as serpentes devorando os ninhos. 

Passa na estrada um límpido noivado 
Cheiroso a rosa e a flor de laranjeira... 
O coveiro, já velho e encarquilhado 
Abre uma cova à sombra da nogueira. 

Ó profundo contraste incomparável, 
Eterna lei, ciclópica ironia... 
Como tu és estranha e formidável! 
Força impassível! Natureza fria! 


O SOL E O CORAÇÃO

Sol, coração do Espaço que flamejas, 
O coração é qual tu, sol de utopias... 
Mas, coração, dize-me: – Que desejas?... 

Foram-se já todas as alegrias, 
Ó Sol! E tu, coração, que ainda adejas, 
Que fazes sobre as mortas fantasias?!... 

Podes brilhar, ó Sol, vivo e fulgente! 
E tu, coração, que me iludiste, 
Também podes bater, inutilmente. 

Crença, Ilusão, Amor, já nada existe, 
Não mais levarás sobre a corrente 
Da tenebrosa dúvida mais triste. 

Longe, mui longe, em regiões caladas, 
Emudecidos pelo Esquecimento, 
Estão hoje esses sonhos de alvoradas. 

Foram-se, há muito, soltos pelo vento 
Entre as grandes ruínas derrocadas 
Do meu amargo e pobre pensamento, 

Entre as profundas, tétricas ruínas 
Em que o doce fantasma desses sonhos 
Atravessou em lágrimas divinas. 

Fantasma ideal, de cânticos risonhos, 
Que da vida encontrei pelas colinas 
E hoje vaga entre bulcões medonhos! 

Fantasma que eu amei, visão errante 
Que sempre junto a mim vivia perto, 
Por mais longe que eu fosse e mais distante.  

Visão que era como a água do deserto 
Para o meu coração sempre anelante, 
Sequioso de amor e sempre aberto... 

Ó pobre coração, em vão te agitas, 
Em vão tu bates, coração estreito, 
Tal qual tu, Sol, nos páramos crepitas. 

Nada mais, para mim, de satisfeito 
Brilha com o Sol nas plagas infinitas, 
Como não canta o coração no peito... 

Podes, enfim, sumir-te nos Espaços, 
Sol! E tu, coração, sempre batendo, 
Quebrar da terra os “Transitórios Laços” 
Eternamente desaparecendo!... 



Primeira comunhão





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Leia também:
Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXXXIII - Imutável
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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.
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Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Projeto Gráfico, Editoração e Capa
ESPAÇO CRIAÇÃO ARQUITETURA DESIGN E COMPUTAÇÃO GRÁFICA LTDA.
www.espacoecriacao.com.br
Fone/Fax: (48) 3028.7799
Revisão Linguístico-Ortográfica
PROFª Drª TEREZINHA KUHN JUNKES
PROF. Dr. LAURO JUNKES
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Formato
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FICHA CATALOGRÁFICA

Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167
S725o      Sousa, Cruz e, 1861-1898
                        Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização
                  e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
                         v. 1 (612 p.)
                         Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
                  traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.
                            1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
                  Junkes, Lauro. II. Titulo.
                                                                                      CDU: 869.0(816.4)-1

"A gente só tem saída na poesia."

sábado, 26 de outubro de 2024

Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXXXII - O Duque

Cruz e Sousa


Obra Completa
Volume 1
POESIA


O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos

Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos


DISPERSAS 

O DUQUE 

Quando o duque voltava da caçada 
Alegre num clarim d’aço vibrante 
De alacridade moça e evigorada 
Dum ruidoso e trêfego estudante. 

Quando ele vinha com seu ar bizarro 
De atravessar os vales e as colinas, 
Sadio aspecto fresco como um jarro 
Cheio de leite às horas matutinas. 

Em toda a aristocrática varanda 
Alta e vistosa, ampla, aberta em janelas, 
Ele vibrava, de uma e outra banda, 
Canções de amor, nostálgicas e belas. 

Do salão nobre entre tapeçarias 
De Gobelins, riquíssimas e raras, 
Iam vibrando aladas harmonias 
Da sua voz, esplêndidas e claras. 

Todas as fluidas, leves, calmas, frescas 
Manhãs azuis, serenas e formosas, 
Loura mulher das regiões tudescas 
O seu bom-dia era mandar-lhe rosas. 

Floria, é certo, em grande amor, floria 
Gerado pelo eflúvio dessas flores, 
Pois quando o duque não as recebia 
Era o mais infeliz dos caçadores. 

Tão doce amor lembrava aquelas lendas 
Dos medievais castelos esquecidos, 
Quando visões de nuvens e de rendas 
Apareciam nos balcões floridos.

A caça, a caça, eternamente a caça! 
Quanto melhor, mais fácil não lhe fora 
A conquista das aves do que a graça 
De conquistar essa beleza loura! 

Para possuí-la como noiva amada, 
Aceso há muito nas paixões insanas, 
Arrostaria a caça mais ousada 
Dos javalis nas selvas africanas. 

E sempre as lindas rosas matutinas 
Vinham-no perfumar todos os dias, 
Quando saltava aos vales e às colinas, 
Bizarro e são, dentre as tapeçarias. 

Tempos passaram sobre tais amores! 
Mas depois de casado fez surpresa 
Saber que o duque, o rei dos caçadores, 
Não tinha o mesmo amor pela duquesa. 


A ESPADA 

Cavalheiros, os tempos já passados, 
De pagens, de canzéis, de fidalguia, 
De castelos, de remos brasonados. 

Ar cortesão de graça e fantasia 
Através dos olhares e dos beijos 
– No silêncio de cada galeria... 

Foi nesse bravo tempo dos lampejos 
De espadas, de punhais e de couraças 
Por combater frementes de desejos. 

No tempo dos floreios e das caças 
Dos assaltos alegres e bizarros 
Como as sonoras vibrações das taças. 

Em que as almas airosas como jarros, 
Cheios de vinho espumejante e ardente 
Eram de glória vencedores carros! 

Foi no tempo fidalgo e refulgente, 
Quando o heroísmo fantasioso amava 
A linha e a chama de luzida gente, 

Que esta cena galharda se passava, 
Quando um donzel partia para guerra 
Como a nobreza do solar mandava. 

O pai, um tronco transudando a terra, 
Forte e viril, presença de profeta 
Que no seu flanco a valentia encerra. 

Barbas serenas de bondoso asceta 
Em cuja alvura doce e veneranda 
Vê-se a vontade e a intrepidez completa. 

Fronte banhada de meiguice branda 
A que o dever e os ríspidos conselhos 
Dão sempre a austeridade que age e manda. 

Lembra um ocaso de clarões vermelhos, 
Musgoso, triste, desolado muro, 
Por onde o luar abre fulgor d’espelhos. 

E esse semblante que parece duro, 
Áspero e torvo, trouxe-o dos combates, 
Do torvelinho do nevoeiro escuro. 

Dos pelouros sangüíneos escarlates, 
De fogo aberto em turbilhões, vorazes, 
Dos impulsivos, bélicos rebates. 

Mas, bem olhadas, as feições audazes 
Desse velho patriarca destemido 
Tinham a suavidade dos lilases. 

Nos olhos, um passado consumido 
Entre aventuras e colóquios belos 
Como que faz um verdadeiro ruído... 

Sentem-se neles noites de castelos 
Gozadas em amores dadivosos, 
Em madrigais, em íntimos desvelos. 

Cavalgadas, torneios donairosos, 
Sonho feliz de rica mocidade, 
Requintes ideais, cavalheirosos. 

Tudo se sente na tranquilidade 
Desse deus varonil da força antiga 
Feito com o rijo bloco da Verdade. 

Tudo se sente nessa paz amiga 
Que as crenças do passado às outras crenças 
Vagas, futuras, para sempre liga. 

Tudo se sente vir das névoas densas 
E da ridente e cândida meiguice 
Das suas barbas límpidas e imensas. 

Sim! tudo da quase criancice 
Que dão aos homens esses tons nevoentos 
Da enregelada e trêmula velhice. 

Porém, reatando aéreos pensamentos... 
Comecemos na cena detalhada 
Que já das eras se espalhou nos ventos. 

É nada mais que a história duma espada, 
História curta, mas interessante 
Duma espelhante lâmina timbrada. 

Não é pelo aço ou lâmina espelhante 
Que irei contar, pois são comuns os aços, 
Mas pelo nobre e original rompante. 

Pelo ardimento que os primeiros braços 
Que a manejaram com pujança e brio 
Nela gravaram, com profundos traços. 

II 
O velho, em pé, atlético e sombrio 
Diante do filho armado cavaleiro, 
No aspecto dum leão ruivo e bravio, 

Fala-lhe claro, d’alto e sobranceiro, 
Numa solene e enérgica atitude 
De quem nos prélios sempre foi primeiro. 

O filho, grave o escuta e atende a rude 
Lhanez estóica da palavra augusta 
Que dos lábios lhe sai, com tal saúde.

Calmo, sem se mover, firme a robusta 
Figura solarenga do estoicismo, 
O velho disse esta nobreza justa: 

“Aqui tens esta espada que o heroísmo 
Dos teus avós honrou nessas campanhas, 
Com o mais ousado, intrépido civismo. 

Freme ainda hoje em convulsões estranhas, 
Palpita e anseia dentro da bainha 
Sonhando a luta, as implacáveis sanhas. 

Tu, para a teres, como eu sempre a tinha, 
Num triunfo imortal, quase divino, 
De gládio que o valor maior continha; 

É necessário um grande ardor leonino, 
Que sejas bem idólatra do nome 
Que fez de mim o extremo paladino. 

A ferrugem, tu vês, o aço consome... 
Porém, neste aço que ainda aqui fulgura, 
Se houver ferrugem, tira-a com o renome. 

Aqui tens, pois, a lâmina segura, 
Alma e brasão da nossa velha casa 
Coberta de ovações, famosa e pura”. 

Calou-se um instante, como a ave que a asa 
Fechou no voar, já quase que abatida, 
Caindo exausta junto à moita rasa. 

O filho, mudo e respeitoso, erguida 
A valente cabeça leal de moço, 
Formoso estava, porejando vida. 

E enquanto o velho, impávido colosso, 
Calara-se um momento, emocionado 
Ficara o filho em íntimo alvoroço. 

Mas de repente, como iluminado 
Por um clarão de glórias já extintas, 
Tornou o velho, aos poucos transformado: 

“Podes partir! Porém nunca desmintas 
Nas pelejas o dom da nossa fama, 
Por menos força que no peito sintas. 

Como um clarim, por toda a parte aclama 
O vigor deste ferro e do teu pulso 
No combate que ruja, ulule e brama”. 

E cada vez mais pálido e convulso, 
Mais nervoso e febril e mais altivo 
Bradou ainda, num tremendo impulso: 

“Se tu, que és da minh’alma o exemplo vivo, 
Meu filho, tens de ser como um cobarde, 
Como um vilão abjeto e repulsivo; 

Não faças mais de fidalguia alarde, 
Pega esta espada, meu Afonso, pega 
E quebra-a de uma vez, que não é tarde. 

Pois em lugar de fazer dela entrega 
Aos sequiosos, feros inimigos, 
Antes a quebre a cólera mais cega. 

Ei-la, aqui tens, a leoa dos perigos, 
Que como outrora em minha mão lampeja 
Da bravura e da fama nos abrigos. 

Se não a tens de honrar nessa peleja 
Escuta bem, ó meu amado filho, 
Quebra-a, e o teu nome nem manchado seja. 

Como eu faria noutra idade e brilho, 
Com outras energias musculares, 
Segue-me tu no denodado trilho”. 

E assim falando, em gestos singulares, 
O agigantado corpo retesando 
E um tom sinistro esparso nos olhares; 

A cabeça nos ares agitando 
Numa alucinação – enorme ereto, 
Como heróica visão, deblaterando... 

Fitando bem o filho predileto, 
Como se de repente lhe brotasse 
A força hercúlea dum poder secreto. 

O velho, qual um templo que abalasse, 
A mão crispada, lívida e nervosa, 
Com todo o esforço a lhe afluir na face, 
Partiu no joelho a espada vitoriosa. 


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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.
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FICHA CATALOGRÁFICA

Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167
S725o      Sousa, Cruz e, 1861-1898
                        Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização
                  e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
                         v. 1 (612 p.)
                         Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
                  traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.
                            1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
                  Junkes, Lauro. II. Titulo.
                                                                                      CDU: 869.0(816.4)-1

"A gente só tem saída na poesia."