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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Moby Dick: 79 - A Pradaria

Moby Dick

Herman Melville

79 - A Pradaria 

     Examinar com atenção as linhas do rosto, ou mexer nas protuberâncias da cabeça desse Leviatã; essas são ocupações que nenhum Fisionomista ou Frenologista tomou para si até agora. Tal iniciativa pareceria tão propícia quanto para Lavater a de analisar as dobraduras do Rochedo de Gibraltar, ou para Gall a de subir numa escada e tocar a Cúpula do Panteão. Não obstante, em sua obra famosa, Lavater não apenas discorre sobre os vários rostos dos homens, como também estuda com cuidado os rostos dos cavalos, pássaros, serpentes e peixes; detendo-se com minúcia nas alternâncias de expressão que consegue discernir. Tampouco Gall e seu discípulo Spurzheim deixaram de fazer observações sobre as características frenológicas de outras criaturas que não os homens. Por isso, apesar de ser pouco qualificado para um pioneiro, na aplicação dessas duas semiciências à baleia farei minha tentativa. Experimento de tudo; e termino o que posso.
     Do ponto de vista fisiognomônico, o Cachalote é uma criatura anômala. Ele não possui um nariz de verdade. E uma vez que o nariz é o mais importante e conspícuo dos predicados; e que talvez seja o que mais modifica e controla, por fim, a expressão; assim poderia parecer que sua absoluta ausência, como prolongamento externo, deve influir muito na fisionomia da baleia. Pois, como na jardinagem paisagística, um cálamo, uma cúpula, um monumento, ou uma torre qualquer, são julgados quase indispensáveis para o acabamento de um cenário; assim também um rosto não pode ser fisiognomonicamente harmonioso sem o soberbo campanário ornamental do nariz. Quebre o nariz do Jove marmóreo de Fídias e veja que triste espólio nos resta! Não obstante, o Leviatã possui tão elevada magnitude, suas proporções são tão imponentes, que a mesma deficiência, hedionda em um Jove esculpido, nele não constituiria imperfeição. Pelo contrário, trata-se de um esplendor a mais. Um nariz para a baleia seria um descalabro. Quando, em sua viagem fisiognomônica, você navegar em seu bote de serviço ao redor de sua cabeça enorme, seus nobres pensamentos sobre ela jamais serão insultados pela ideia de que ela tenha um nariz a ser esticado. Um pensamento nocivo, que amiúde se intromete mesmo quando se contempla o mais poderoso arauto real em seu trono.
     Num certo sentido, talvez a perspectiva mais imponente do Cachalote, do ponto de vista fisiognomônico, seja a de sua cabeça observada de frente. Essa imagem é sublime.
     Em meio a pensamentos, uma bela fronte humana é como o Oriente atormentado pelo amanhecer. No repouso da pastagem, a fronte franzida do touro tem um toque de grandeza. Carregando canhões pesados por desfiladeiros e montanhas, a fronte do elefante é majestosa. Humana ou animal, a fronte mística é como o grande selo dourado afixado pelos imperadores Germânicos em seus decretos. Significa – “Deus: hoje feito por minha mão”. Mas na maior parte das criaturas, e também no próprio homem, a fronte é muito amiúde somente uma faixa de terra alpina ao longo da divisa de neve. Raras são as frontes, como as de Shakespeare ou a de Melanchton, que sobem tão alto e descem tão baixo que os próprios olhos parecem ser lagos das montanhas, claros, eternos e sem marés; e, acima deles, nos vincos da testa, poder-se-ia seguir-lhes o rastro dos pensamentos chifrados que descem para aí beber, como os caçadores da Highland seguem o rastro das pegadas dos veados na neve. Mas no enorme Cachalote essa elevada e pujante dignidade divina, inerente à fronte, é tão imensamente ampliada que, contemplando-a de frente, você sentirá a Divindade e os poderes do horror com mais força do que junto a qualquer outro ser vivo da natureza. Pois você não encontrará nenhum ponto preciso; nenhuma característica diferente é revelada; nem nariz, nem olhos, nem orelhas, nem boca; nem rosto; ele não tem nada que seja propriamente um rosto; nada além do imenso firmamento que é a fronte, franzida de enigmas; mergulhando com indiferença diante da destruição de botes, navios e homens. Nem de perfil essa fronte assombrosa diminui; embora vista desse ângulo sua grandeza não lhe seja tão evidente. De perfil, você perceberá claramente no meio da fronte a depressão horizontal em meia-lua, que, segundo Lavater, é a marca do gênio no homem.
     Mas como? Gênio no Cachalote? O Cachalote já escreveu livros ou fez discursos? Não, seu grande gênio manifesta-se no simples fato de não fazer nada de específico para prová-lo. Manifesta-se, além disso, em seu silêncio piramidal. E isso me faz lembrar que, fosse o Cachalote conhecido do ingênuo Mundo Oriental, ele teria sido divinizado pela infantilidade mágica do pensamento de seus homens. Eles divinizaram o crocodilo do Nilo, porque o crocodilo não tem língua; e o Cachalote também não a tem; ou melhor, tem uma língua tão incrivelmente pequena que é incapaz de botá-la para fora. Se, doravante, uma nação muito poética e erudita atrair de volta ao seu direito hereditário os antigos deuses alegres do mês de maio; e entronizá-los vivos de novo no céu, hoje egoísta; na montanha, hoje deserta; então, esteja certo, elevado ao trono de Jove, o grande Cachalote há de ser senhor.
     Champollion decifrou os hieróglifos cortados no granito. Mas não existe Champollion que decifre o Egito do rosto de cada homem e de cada ser. A fisiognomia, como todas as ciências humanas, é apenas uma fábula passageira. Se Sir William Jones, que lia em trinta línguas, não sabia ler o rosto de um humilde camponês em seu significado mais profundo e sutil, como poderia o iletrado Ishmael esperar ler o apavorante Caldeu da fronte do Cachalote? Tudo o que posso fazer é colocar tal fronte diante de você. Leia-a, se puder.
continua na página 378...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Moby Dick: 78 - A cisterna e os baldes

Moby Dick

Herman Melville

78 - A cisterna e os baldes 

     Lépido como um gato, Tashtego sobe no topo do mastro; e sem mudança em sua postura ereta corre sobre o lais da verga principal ao ponto onde esta mais exatamente se projeta sobre o Tonel suspenso. Leva consigo uma talha leve chamada candeliça, feita de duas partes apenas, que passa pelo cadernal de uma roldana. Amarrando o cadernal de modo a suspendê-lo do lais da verga, ele balança uma ponta da corda, até que um homem no convés consegue pegá-la e segurá-la com firmeza. Então, mão sobre mão, pela outra ponta da corda, o Índio se lança ao ar, até que pousa com agilidade no topo da cabeça. Naquele lugar– bem acima do resto da companhia, para a qual ele vivamente grita – ele se parece com um Muezim Turco chamando as pessoas de bem para as orações do alto de uma torre. Munido da pá afiada, o cabo curto, que lhe dão, ele procura com cuidado o lugar certo para começar a perfurar o Tonel. Esse trabalho ele realiza cheio de cuidados, como um caçador de tesouros numa mansão antiga, auscultando as paredes para encontrar o lugar onde o ouro está cimentado. Terminada tal sondagem cautelosa, um resistente balde de ferro, exatamente como um balde de poço, é amarrado a uma ponta da candeliça; enquanto a outra ponta, esticada sobre o convés, é segurada por dois ou três marinheiros atentos. Estes, então, colocam o balde ao alcance do Índio, a quem outra pessoa ergueu uma vara bem comprida. Inserindo a vara no balde, Tashtego o conduz para dentro do Tonel até que desapareça por inteiro; então, dando a ordem aos marinheiros com a candeliça, sobe o balde outra vez, tão espumante quanto um balde de leite fresco da moça do curral. Diligentemente descido de suas alturas, o recipiente repleto encontra as mãos de um marinheiro designado para isso e é rapidamente esvaziado numa enorme tina. Levado mais uma vez para o alto, o balde repete a mesma operação, até que a cisterna profunda não lhe ofereça mais nada. Próximo do fim, Tashtego tem de calcar sua vara mais e mais forte e mais e mais fundo dentro do Tonel, até que atinja uma profundidade de aproximadamente vinte pés.
     Ora, os homens do Pequod já baldeavam desse modo havia já um tempo; várias tinas apareciam repletas do espermacete perfumado; quando de súbito ocorreu um estranhíssimo acidente. Fosse porque Tashtego, o Índio selvagem, estivesse tão afoito e fosse tão descuidado a ponto de soltar por um instante o cabo das talhas grandes que seguravam a cabeça; ou porque o lugar onde ele estava fosse muito viscoso e traiçoeiro; ou porque o próprio Diabo tivesse preparado isso sem dar nenhuma explicação; como exatamente se sucedeu, não se soube; mas, de repente, enquanto o octogésimo ou nonagésimo balde vinha sendo puxado – meu Deus, coitado do Tashtego! – como o balde complementar num poço verdadeiro, ele caiu de cabeça no Grande Tonel de Heidelberg e, num horrível borbulhar de óleo, desapareceu de vista!

“Homem ao mar!”, gritou Daggoo, que em meio à consternação geral foi o primeiro a recobrar o juízo. “Mandem o balde para cá!”, e colocando um pé dentro dele, de modo a segurar melhor o cabo da candeliça escorregadia, os içadores o ergueram para o topo da cabeça, antes mesmo que Tashtego pudesse ter chegado ao fundo. Enquanto isso, criou-se um terrível tumulto. Olhando sobre o costado, eles viam a cabeça outrora sem vida palpitando e surgindo à superfície do mar, como se subitamente acometida de uma idéia importante; quando, no entanto, era apenas o coitado do Índio revelando inconscientemente por seus golpes a perigosa profundidade a que havia afundado.

     Naquele instante, enquanto Daggoo, no topo da cabeça, soltava a candeliça – que havia de alguma forma se enredado nas grandes talhas de cortar –, ouviu-se um barulho nítido de alguma coisa se quebrando; e, para o terror inenarrável de todos, um dos ganchos imensos que seguravam a cabeça se soltou, e com imensa trepidação a massa enorme balançou para os lados, até que o navio bêbado cambaleou e sacudiu como se tivesse sido atingido por um iceberg. O gancho que restava, sobre o qual estava todo o peso, parecia estar a ponto de ceder a qualquer momento; algo ainda mais provável devido aos movimentos violentos da cabeça.

“Desce daí! Desce daí!”, gritavam os marinheiros para Daggoo, mas segurando o cabo das talhas pesadas com uma das mãos, de modo que se a cabeça caísse ele continuaria suspenso; e, tendo desfeito o embaraço da linha, o negro então socou o balde para dentro do poço em colapso, sugerindo que o arpoador enterrado o agarrasse e assim pudesse ser puxado para fora.
“Pelo amor de Deus, homem!”, gritou Stubb, “O que você está socando? Um cartucho? Pare! Como você acha que vai ajudá-lo: acertando esse balde de ferro na cabeça dele? Pare!”
“Cuidado com a talha!”, gritou uma voz explosiva como um foguete.

     Quase no mesmo instante, com o estrondo de um trovão, a massa enorme caiu no mar, como a rocha de Niágara no redemoinho; o casco subitamente liberado se afastou para longe, afundando em seu cobre reluzente; e todos suspenderam a respiração quando, meio que balançando – ora sobre as cabeças dos marinheiros, ora sobre a água –, Daggoo, em meio a uma espessa névoa de vapor, se agarrava às talhas bambas, enquanto o pobre Tashtego, sepultado vivo, descia irremediavelmente às profundezas do mar! Contudo, mal havia se dissipado a neblina, um vulto nu com um sabre de abordagem na mão foi visto por um brevíssimo instante procurando equilíbrio sobre a amurada. Em seguida, um mergulho barulhento na água anunciava que meu corajoso Queequeg havia mergulhado para o salvamento. Uma horda avançou para o costado, e todos os olhos contavam cada onda, como um instante após o outro, e não havia sinal de afogado ou mergulhador. Alguns marinheiros pularam num bote ao lado e remaram um pouco para longe do navio.

“Ah! Ah!”, gritou Daggoo, de repente, do alto de seu agora calmo e balançante poleiro; e, olhando mais além do costado, vimos um braço retesado em meio às ondas azuis; uma visão estranha, como se fosse um braço retesado em meio à grama de uma sepultura.
“Os dois! Os dois! – São os dois!”, gritou Daggoo outra vez com alegria; e logo depois Queequeg foi visto buscando impulso corajosamente com uma mão, enquanto a outra agarrava o cabelo comprido do Índio. Puxados para o bote que os esperava, foram levados de pronto ao convés; mas Tashtego demorava a recobrar os sentidos, e Queequeg não parecia muito animado.

     Pois bem, como se realizara esse corajoso salvamento? Ora, mergulhando atrás da cabeça que afundava lentamente, Queequeg, com seu sabre bem afiado, desferira estocadas laterais nas proximidades de sua base, como se ali abrisse uma larga escotilha; então, soltando o sabre, forçou o braço para dentro e para cima e desse modo puxou o coitado do Tashtego para fora pela cabeça. Confessou que, quando enfiara o braço pela primeira vez, encontrara uma perna; mas bem sabendo que não deveria proceder desse modo, que isso poderia causar problemas, enfiara, então, a perna de volta, e, com hábeis e esforçados gestos, manobrara o corpo do Índio; de tal modo que na tentativa seguinte ele veio à luz da boa e velha maneira – com a cabeça em primeiro lugar. Quanto à cabeça grande, essa havia se comportado tão bem quanto se podia esperar.
     E assim, graças à coragem e à grande habilidade de Queequeg em obstetrícia, o parto, ou melhor, a libertação de Tashtego foi bem-sucedida, ainda que entre os dentes dos mais desfavoráveis e aparentemente intransponíveis impedimentos; o que é uma lição que não deve ser de modo algum esquecida. O ofício da parteira deveria ser ensinado tal como a esgrima, o pugilismo, a equitação e o remo.
     Sei que essa estranhíssima aventura do índio de Gay Head parecerá inacreditável para alguns homens terrestres, ainda que tenham visto, ou escutado histórias sobre pessoas que caíram em cisternas em terra; um acidente que raro acontece, por muito menos do que com o Índio, dada a condição excessivamente escorregadia da borda do poço do Cachalote.
     Mas, talvez se alegará com astúcia, como é possível? Pensávamos que a cabeça do Cachalote, sedosa e porosa, fosse sua parte mais leve, mais afeita à cortiça; mas tu a fazes afundar num elemento de densidade muito superior à dela. Pegamos-te. De modo algum, fui eu quem vos pegou; pois quando o coitado do Tash caiu lá dentro o estojo estava quase vazio de seus conteúdos mais leves, restando pouco mais do que a parede densa e tendinosa do poço – uma substância duas vezes unida e batida, como disse antes, muito mais pesada que a água do mar, um bloco da qual afunda quase como chumbo. Mas a tendência dessa substância para afundar rapidamente foi neutralizada pelo fato de se manter ligada às outras partes da cabeça, de tal modo que afundou devagar, dando uma boa chance para Queequeg fazer seu rápido trabalho de obstetra, como se pode dizer. Pois sim, foi um parto rápido, e como.
     Ora, se Tashtego tivesse morrido naquela cabeça, teria sido uma morte muito valorosa; sufocado no perfume do espermacete mais alvo e delicado; posto no ataúde, levado em cortejo fúnebre, e enterrado na câmara secreta do templo mais sagrado da baleia. Apenas um fim mais encantador pode de pronto ser lembrado – a morte deliciosa do caçador de abelhas de Ohio, que ao procurar mel na forquilha de uma árvore oca encontrou tamanho reservatório que, de muito debruçar-se sobre este, foi sugado e morreu embalsamado. Quantos outros, pensai, terão caído da mesma maneira na cabeça de mel de Platão, para ali morrer docemente?
continua na página 375...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete / 77 - O Grande Tonel de Heidelberg / 78 - A cisterna e os baldes / 79 - A Pradaria /         
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Moby Dick: 77 - O Grande Tonel de Heidelberg

Moby Dick

Herman Melville

77 - O Grande Tonel de Heidelberg 

     Chegamos agora ao Baldear do Estojo. Mas para compreendê-lo bem é preciso que você saiba algo sobre a curiosa estrutura interna da coisa sobre a qual vamos trabalhar.
     Caso considerasse a cabeça do Cachalote como um sólido oblongo, você poderia, em um plano inclinado, lateralmente dividi-la em duas cunhas de mastaréu¹, sendo a inferior a estrutura óssea que forma o crânio e as mandíbulas, e a superior, uma massa gordurosa destituída de ossos; com sua ampla extremidade dianteira constituindo a fronte visível, vertical e expandida, da baleia. Subdivida horizontalmente, no centro da fronte, a cunha superior, e você terá duas partes quase iguais, antes naturalmente divididas por uma parede interna de espessa substância tendínea.
     A subdivisão inferior, chamada de refugo, é um imenso favo de óleo, formado pelo cruzamento e recruzamento, em dez mil alvéolos infiltrados, de firmes e elásticas fibras brancas em toda sua extensão. A parte superior, conhecida como Estojo, pode ser entendida como Grande Tonel de Heidelberg do Cachalote. Da mesma forma que esse recipiente famoso é misteriosamente esculpido na frente, assim a imensa testa franzida da baleia forma incontáveis e estranhos desenhos para a ornato emblemático de seu magnífico tonel. Além disso, tal como o Tonel de Heidelberg sempre esteve repleto do melhor vinho do vale do Reno, também o tonel da baleia contém o mais precioso dos óleos de sua vindima; a saber, o estimadíssimo espermacete, em seu estado puro, límpido e perfumado. Essa substância preciosa não se encontra, íntegra, em nenhuma outra parte da criatura. Embora quando em vida se mantenha em perfeita fluidez, exposta ao ar depois da morte, começa a ganhar solidez; assumindo a forma de belíssimos botões cristalinos, como os primeiros pedaços delicados de gelo que se formam na água. O estojo de uma baleia grande produz cerca de quinhentos galões de espermacete, embora, por circunstâncias inevitáveis, uma grande parte derrame, vaze, goteje ou, de outro modo, se perca irrevogavelmente na delicada operação de transportar o que é possível.
     Não sei de que fino e dispendioso material o Tonel de Heidelberg foi revestido por dentro, mas em sua riqueza superlativa tal revestimento não se poderia deixar comparar com a membrana sedosa e perolada, semelhante ao forro de uma peliça, que constitui a superfície interna do estojo do Cachalote.
     Teremos visto que o Tonel de Heidelberg do Cachalote compreende a extensão total de todo o topo da cabeça; e visto que – como já disse noutro lugar – a cabeça compreende um terço da extensão total da criatura, se estabelecermos que a extensão de uma baleia de bom tamanho é de oitenta pés, chega-se a mais de vinte e seis pés de profundidade do tonel, quando se encontra suspenso em posição vertical junto ao costado do navio.
     Como, ao decapitar a baleia, o instrumento do cirurgião é levado para perto do lugar onde depois será aberta uma entrada para o depósito do espermacete; ele tem, destarte, de ser muito cuidadoso para que um inoportuno golpe não invada o santuário e desperdice seu inestimável conteúdo. É essa extremidade decapitada da cabeça que, por fim, é retirada da água e mantida nessa posição pelas enormes talhas de cortar, cujas combinações do cânhamo, num dos lados, criam uma verdadeira selva de cordas naquele lugar.
     Dito tudo isso, preste atenção, assim o peço, à maravilhosa e – nesse caso específico – quase fatal operação pela qual o Grande Tonel de Heidelberg do Cachalote é esvaziado.

[1] A cunha do mastaréu [quoin] não é um termo Euclidiano. Pertence à mais pura matemática náutica. Não conheço nenhuma definição anterior. Um cunho é um sólido que difere de uma cunha comum [wedge] por ter a extremidade aguda formada pela inclinação íngreme de um lado, e não pelo afunilamento dos dois lados. [N. A.]
continua na página 371...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete / 77 - O Grande Tonel de Heidelberg / 78 - A cisterna e os baldes /       
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

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sábado, 26 de setembro de 2026

Moby Dick: 76 - O aríete

Moby Dick

Herman Melville

76 - O aríete 

     Antes de deixar, por ora, a cabeça do Cachalote, gostaria que você, na condição de fisiologista prudente, apenas – particularmente reparasse no aspecto da fronte, em toda sua coesão e calma. Gostaria que a examinasse agora com o único objetivo de fazer uma avaliação inteligente e nada exagerada da força de aríete que possa estar contida ali. É uma questão crucial; pois ou você aceita esse evento como inquestionável, ou permanece descrente para todo o sempre de um dos fatos mais estarrecedores, porém verdadeiros, que receberam registro nos autos da história.
     Observe que, em sua posição comum de nado, a testa do Cachalote fica num plano quase totalmente vertical em relação à água; observe que a parte inferior de sua testa se inclina bem para trás, como se fosse um abrigo para o encaixe comprido que recebe a verga de sua mandíbula inferior; observe que a boca dele está por completo embaixo da cabeça, mais ou menos como se sua própria boca estivesse inteiramente sob seu queixo. Ademais, observe que a baleia não tem um nariz externo; e que o nariz que tem – o orifício do jato – fica no topo de sua cabeça; observe que seus olhos e orelhas ficam do lado da cabeça, a aproximadamente um terço do comprimento de seu corpo a partir da cabeça. Com isso, você deve ter percebido que a testa da cabeça do Cachalote é uma parede insensível e desprovida de aberturas, sem um único órgão ou protuberância frágil de qualquer espécie. Além disso, lembre-se de que apenas na parte inferior extrema da testa, inclinada para trás, existe algum vestígio de osso; e de que, antes de chegar a uns vinte pés da testa, você não encontrará um pleno desenvolvimento do crânio. Portanto, essa massa imensa e desossada é somente uma almofada. Como será revelado, enfim, seu conteúdo constitui-se, em parte, do óleo mais refinado; entretanto, agora você será informado da natureza da substância que reveste de modo tão inexpugnável toda essa aparente efeminação. Nalgum lugar acima, descrevi como a gordura envolve o corpo da baleia, à maneira da casca que envolve a laranja. Assim se dá com a cabeça; mas com esta particularidade: perto da cabeça, tal invólucro, embora não tão espesso, se faz de uma dureza desossada, inimaginável para alguém que jamais tenha tocado nele. O arpão mais afiado, a lança mais incisiva atirada pelo mais forte dos braços humanos, nela ricocheteiam impotentes. É como se a testa do Cachalote fosse pavimentada com cascos de cavalos. Não creio que qualquer sensibilidade exista ali.
     Considere ainda uma outra coisa. Quando dois avantajados e carregados navios mercantes da rota da Índia se empurram e se espremem nas docas, o que é que os marinheiros fazem? Não colocam entre eles, no ponto de contato, nenhuma substância rija como ferro ou madeira. Não, eles suspendem ali um enchimento grande e redondo de estopa e cortiça, enrolado no mais espesso e duro couro de boi. Este, valente e livre de dano, recebe a compressão que teria arrebentado escoras de carvalho e alavancas de ferro. Isso basta para demonstrar o fato óbvio a que me refiro. Mas, somando-se a esse fato, ocorreu-me a hipótese de que, como o peixe comum tem uma bexiga natatória, capaz de aumentar ou diminuir à vontade; e como o Cachalote, tanto quanto sei, não dispõe de tal recurso; considerando a maneira de outro modo inexplicável com que ora afunda inteiramente sua cabeça abaixo da superfície, ora nada com a cabeça bem elevada para fora da água; considerando a elasticidade jamais obstruída de seu invólucro; considerando a especialíssima parte interna de sua cabeça; ocorreu-me a hipótese, repito, de que seus misteriosos e alveolares favos pulmonares possam ter uma, até o presente momento, desconhecida e insuspeitada relação com o ar exterior, de modo a serem suscetíveis à expansão e contração atmosférica. Se assim for, imagine quão irresistível é tal poder, que conta com a contribuição do mais inalcançável e destrutivo de todos os elementos.
     Agora, atenção. Impelindo de modo implacável essa parede insensível, inexpugnável, invencível, e essa coisa que flutua dentro dela; ali nada, por trás de tudo isso, uma gigantesca massa de vida, que só pode ser adequadamente calculada como lenha empilhada – em cordéis; e que obedece a uma única vontade, como o menor inseto. De modo que, quando, mais adiante, eu explicar em detalhes todas as peculiaridades e concentrações de energia escondidas pelo corpo desse monstro expansível; quando eu mostrar algumas de suas mais ordinárias proezas craniais; creio que você renunciará a toda a incredulidade ignorante e estará pronto para aceitar isto: que ainda que o Cachalote arrebentasse uma passagem através do Istmo de Darien, misturando o Atlântico ao Pacífico, você não perderia um fio de cabelo. Pois, se não reconhecer uma baleia, você será apenas um provinciano e sentimentalista diante da Verdade. Mas a Verdade cristalina é uma coisa com a qual só as salamandras gigantes se deparam; como são pequenas, então, as chances de um provinciano! O que aconteceu com o jovem infirme que levantou o véu da temível deusa em Sais?

continua na página 369...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete / 77 - O Grande Tonel de Heidelberg /      
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Moby Dick: 75 - A cabeça da Baleia Franca - Um exame comparativo

Moby Dick

Herman Melville

75 - A cabeça da Baleia Franca - Um exame comparativo

     Cruzando o convés, vamos agora dedicar toda nossa atenção à cabeça da Baleia Franca.
     Assim como, em seu formato geral, a cabeça aristocrática do Cachalote poderia ser comparada com uma biga Romana (especialmente se vista de frente, onde é tão amplamente arredondada), também a cabeça da Baleia Franca, grosso modo, guarda uma semelhança não muito elegante com um gigantesco sapato de bico de galeota. Há duzentos anos, um velho viajante Holandês comparou sua figura à forma de um sapateiro. E nessa mesma forma ou sapato aquela velha senhora do conto infantil com sua cria desmedida poderia ter se acomodado confortavelmente, ela e toda sua prole.
     Mas, quando você se aproxima desta enorme cabeça, ela começa a assumir diferentes aspectos, segundo seu ângulo de visão. Se você ficar em seu cume e olhar para os dois orifícios do jato e sua forma em “F”, você tomará a cabeça por um grande contrabaixo, e seus espiráculos, as aberturas da sua caixa de ressonância. Mas se você fixar os olhos nessa incrustação estranha, cristada, semelhante a um pente no topo da massa essa coisa verde com crustáceos, a que os Groenlandeses chamam de “coroa” e os pescadores do Sul de “gorro” da Baleia Franca; fixando os olhos apenas nisso, você tomaria a cabeça pelo tronco de um carvalho enorme, com um ninho de passarinhos na forquilha. Sem dúvida, quando você observa esses caranguejos vivos aninhados nesse gorro, tal ideia certamente lhe ocorrerá; a menos que sua imaginação tenha se fixado no termo técnico “coroa”, que também lhe foi atribuído; nesse caso, parecer-lhe-á interessante imaginar que esse monstro poderoso, na verdade, é um rei diademado do oceano, cuja coroa verde foi feita para ele desse extraordinário modo. Mas, se esse cetáceo for mesmo um rei, é um sujeito muito intratável para ser adornado por uma coroa. Veja seu lábio inferior dependurado! Quanto mau humor, e que tromba! É um mau humor e uma tromba, segundo as medidas de um carpinteiro, de vinte pés de comprimento e cinco pés de profundidade; um mau humor e uma tromba que poderiam produzir cerca de 500 galões de óleo, se não mais.
     É lamentável, ora, que essa baleia desafortunada tenha um lábio leporino. A fenda tem cerca de um pé de comprimento. É provável que a mãe estivesse nadando na costa Peruana, num período importante, quando terremotos fizeram a praia se abrir. Por esse lábio, como por uma soleira ardilosa, vamos agora escorregar para dentro da boca. Dou minha palavra; estivesse eu em Mackinaw, teria aproveitado a oportunidade para adentrar uma tenda indígena. Meu Deus! Foi esse o caminho que Jonas trilhou? O telhado tem cerca de doze pés de altura e faz um ângulo agudo, como se tivesse uma viga mestra comum; enquanto as laterais reforçadas, ogivadas e felpudas, nos oferecem ripas de barbatanas maravilhosas, meio verticais, semelhantes às cimitarras, umas trezentas de um lado, que, suspensas na parte superior da cabeça ou osso da coroa, formam aquelas venezianas já mencionadas sucintamente em outro lugar. As bordas das barbatanas são guarnecidas por fibras felpudas, com as quais a Baleia Franca filtra a água e em cujos emaranhados retém os peixes pequenos, quando de boca escancarada ela atravessa oceanos de brit na época de se alimentar. Nas venezianas centrais da cartilagem, quando se conservam na ordem natural, há certas marcas curiosas, curvas, buracos e arestas, pelas quais alguns baleeiros calculam a idade do animal, como a idade de um carvalho se calcula por seus anéis circulares. Embora a exatidão desse critério esteja longe do demonstrável, tem a graça da probabilidade analógica. De qualquer modo, se o aceitamos, temos de atribuir à Baleia Franca uma idade muito superior àquela que pareceria razoável à primeira vista.
     Parece que outrora existiam as fantasias mais curiosas a respeito dessas venezianas. Em Purchas, um viajante as denomina as espetaculares “suíças” de dentro da boca da baleia¹; um outro, “escovões”; um terceiro cavalheiro, de Hackluyt, usa as elegantes palavras a seguir: “São cerca de duzentos e cinquenta barbatanas que nascem em cada lado de seu morso superior, que arquejam sobre sua língua em cada lado de sua boca”.

[1] Isso nos faz lembrar que a Baleia Franca tem mesmo algo próximo às suíças, ou melhor, ao bigode, que consiste em alguns fios de cabelo branco espalhados na parte superior da ponta exterior da mandíbula inferior. Por vezes, esses tufos dão um aspecto de bandoleira à sua de outro modo solene fisionomia. [N. A.]

     Como todo mundo sabe, esses mesmos “escovões”, “barbatanas”, “suíças”, “venezianas”, ou como queira, fornecem às senhoras seus corpetes e outros enrijecidos artifícios. Mas nesse particular a demanda vem há algum tempo diminuindo. Foi no tempo da rainha Anne que o osso conheceu a glória, quando as anquinhas ditavam a moda. E como aquelas senhoras de outrora se moviam com alegria, embora nas mandíbulas da baleia, por assim dizer; do mesmo modo, nós, hoje em dia, num dia de chuva nos abrigamos sob a proteção das mesmas mandíbulas; sendo o guarda-chuva uma tenda aberta sobre o mesmo osso.
     Mas esqueça tudo sobre venezianas e suíças por um momento e, de frente para a boca da Baleia Franca, observe-a mais uma vez. Ao ver todas essas colunatas de ossos tão metodicamente dispostas, você não se suspeitaria dentro do fabuloso órgão de Haarlem, admirado de seus milhares de tubos? À guisa de tapete para o órgão, temos o mais macio dos tapetes Turcos – a língua, colada, como se assim fosse, ao rés da boca. É muito opulenta e tenra, capaz de desfazer-se em pedaços quando içada ao convés. Essa língua em especial, agora diante de nós; num passar de olhos eu diria que é uma “seis barris”; ou seja, poderia render essa quantidade de óleo.
     Antes disso, você deve ter percebido com clareza a verdade do que eu disse no início – que o Cachalote e a Baleia Franca têm cabeças quase que inteiramente diferentes. Resumindo, pois: na Baleia Franca não se encontra um bom poço de espermacete; nem dentes de marfim; nem uma longa e delgada mandíbula inferior, como a do Cachalote. Também não há no Cachalote algo como venezianas de barbatana; nenhum lábio inferior imenso; e quase nada de língua. Além disso, a Baleia Franca tem dois orifícios externos de sopro, e o Cachalote apenas um.
     Olhe, agora, uma última vez para essas respeitáveis cabeças encapuzadas, enquanto ainda aparecem juntas; pois, em breve, uma afundará no mar sem epitáfio; e a outra não tardará em segui-la.
     Você consegue perceber a expressão do Cachalote ali? É a mesma de quando morreu, apenas algumas das rugas compridas de sua fronte parecem ter desbotado. Creio que essa fronte imensa está repleta de uma placidez campestre, nascida de uma indiferença especulativa diante da morte. Mas observe a expressão da outra cabeça. Veja aquele espantoso lábio inferior, comprimido por acidente contra o costado do navio, de modo a segurar com firmeza a mandíbula. A cabeça inteira não parece expressar uma grande e resoluta decisão de enfrentar a morte? Essa Baleia Franca eu julgo ter sido uma Estóica; e o Cachalote, um Platônico, que em seus últimos anos de vida se dedicou a Espinosa.

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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
76 - O aríete /     
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Moby Dick: 74 - A cabeça do cachalote - Um exame comparativo

Moby Dick

Herman Melville

74 - A cabeça do cachalote - Um exame comparativo

     Eis aqui, então, duas grandes baleias, com as cabeças emparelhadas; aproximemo-nos delas e unamos a elas nossas próprias cabeças.
     Na grande ordem dos Leviatãs in-fólio, o Cachalote e a Baleia Franca são de longe os mais notáveis. São as únicas baleias regularmente caçadas pelo homem. Para o nativo de Nantucket, elas representam os dois extremos das variedades conhecidas da baleia. Como as suas diferenças exteriores se observam melhor nas cabeças; e como as cabeças de uma e de outra estão balançando agora no costado do Pequod; e como podemos ir à vontade de uma a outra, pelo simples atravessar do convés: – onde, gostaria eu de saber, você conseguiria oportunidade melhor de estudar Cetologia na prática?
     Em primeiro lugar, chamará sua atenção o contraste geral entre as cabeças. Em sã consciência, as duas são imensas; mas há uma certa simetria matemática no Cachalote que à Baleia Franca lamentavelmente falta. Há mais personalidade na cabeça do Cachalote. Contemplando-o, involuntariamente se reconhece nele uma enorme superioridade, a da dignidade que o permeia. No presente caso, também, tal dignidade ganha realce pela cor de sal e pimenta de sua testa, índice de idade avançada e larga experiência. Em suma, ele é o que os pescadores tecnicamente chamam de “baleia grisalha”.
     Observemos agora o que é menos desigual nessas cabeças nomeadamente, os dois órgãos mais importantes, o olho e o ouvido. Bem atrás, na parte lateral da cabeça, embaixo, perto de cada articulação do maxilar da baleia, se olhar com atenção, você verá, por fim, um olho sem cílios, que pensaria ser o olho de um potro jovem; tão fora de proporção que está em relação à magnitude da cabeça.
     Ora, dessa posição lateral dos olhos da baleia, é claro que ela não consegue ver nenhum objeto que esteja à sua frente, assim como não pode ver o que está exatamente atrás. Em resumo, a posição dos olhos da baleia corresponde à posição das orelhas do homem; e você pode imaginar, por si, como seria se você tivesse que olhar os objetos de lado, com as orelhas. Descobriria que só tem domínio de uns trinta graus de visão para a frente da linha reta perpendicular à vista; e mais uns trinta graus para trás. Se seu inimigo figadal estivesse andando em sua direção em linha reta, com um punhal na mão em plena luz do dia, você não conseguiria vê-lo, assim como não o veria se o estivesse assaltando por trás. Em suma, você teria duas costas, por assim dizer, mas também, ao mesmo tempo, duas frontes (frontes laterais): pois o que faz o rosto de um homem – o que, de fato, senão seus olhos?
     Além disso, na maior parte dos animais dos quais consigo me lembrar, os olhos estão colocados de modo a fundir imperceptivelmente seu poder visual, produzindo uma imagem, e não duas, no cérebro; a posição peculiar dos olhos da baleia, efetivamente separados como são por muitos pés cúbicos de cabeça sólida, que se impõem entre eles como uma imensa montanha separando dois lagos no vale; essa, é claro, deve separar inteiramente as impressões que cada órgão independente recebe. A baleia, por isso, deve enxergar uma imagem distinta de um lado, e uma outra imagem distinta do outro lado; enquanto entre eles tudo deva ser escuridão profunda e nada. Com efeito, pode-se dizer que o homem olha para o mundo de uma guarita com dois caixilhos unidos servindo de janelas. Mas para a baleia os dois caixilhos foram postos separados, criando duas janelas separadas, que lamentavelmente lhe prejudicam a visão. Essa característica dos olhos da baleia é algo que sempre se deve ter em mente na pesca; e que deve ser lembrado pelo leitor em cenas que virão a seguir.
     Uma questão curiosa e intrigante poderia ser levantada no que concerne a esse assunto da visão do Leviatã. Mas devo me contentar em fazer apenas uma alusão. Desde que os olhos de um homem se abram para a luz, o ato de ver é involuntário; ou seja, ele não pode deixar de ver mecanicamente os objetos que estão diante dele. Não obstante, a experiência de qualquer um lhe ensinará que, embora possa perceber um conjunto indiscriminado de coisas num relance, lhe é quase impossível examinar com atenção e exatidão duas coisas diferentes – não importando quão grandes ou pequenas – ao mesmo tempo; não importando que estejam lado a lado e tocando uma a outra. Mas se você separar os dois objetos, colocando ao redor de cada um deles um círculo de uma escuridão profunda; então, para poder ver um deles, para que sua mente possa entrar em contato com ele, o outro objeto será totalmente excluído de sua consciência coetânea. Como se passa isso, então, com a baleia? Em verdade, seus dois olhos devem agir simultaneamente por si mesmos; mas seria seu cérebro tão mais completo, associativo e astuto do que o do homem, de modo que possa, ao mesmo tempo, examinar com atenção dois cenários diferentes, um de um lado e o outro na direção exatamente oposta? Se for possível, então isso é uma das maravilhas da baleia, como se um homem fosse capaz de fazer simultaneamente demonstrações de dois problemas diferentes de Euclides. Se estritamente investigada, não há nenhuma incongruência nessa comparação.
     Talvez seja apenas um capricho ocioso, mas sempre me pareceu que as extraordinárias hesitações de movimento que algumas baleias demonstram quando cercadas por três ou quatro botes; a timidez e a propensão a temores estranhos, tão comuns em tais baleias; penso eu que tudo isso indiretamente advém da perplexidade fatal de sua vontade, que certamente está ligada à sua visão dividida e diametralmente oposta.
     Mas o ouvido da baleia é tão curioso quanto seus olhos. Se você está inteiramente alheio à sua raça, você poderia persegui-lo nessas cabeças por horas a fio e nunca descobri-lo. O ouvido não tem nenhum lobo externo; e dentro do próprio buraco você mal consegue fazer passar uma pena, tão incrivelmente diminuto ele é. Está localizado um pouco atrás do olho. Em relação aos ouvidos, há uma diferença importante a ser observada entre o Cachalote e a baleia franca. Enquanto no primeiro o ouvido tem uma abertura externa, o ouvido da última é totalmente coberto por uma membrana, e por isso quase imperceptível do lado de fora.
     Não é curioso que um ser tão imenso quanto a baleia veja o mundo com um olho tão pequeno, e escute o trovão com um ouvido menor do que o de uma lebre? Mas se seus olhos fossem tão grandes quanto as lentes do grande telescópio de Herschel; e seus ouvidos tão amplos quanto os pórticos das catedrais; teria por isso um alcance maior da visão ou ficaria com o ouvido mais apurado? De modo algum. – Por que, então, você procura “ampliar” sua mente? Aprimore-a.
     Viremos ao contrário, então, com quaisquer alavancas e motores a vapor que tenhamos à mão, a cabeça do Cachalote; em seguida, subindo ao topo com uma escada, espiemos sua boca; e não estivesse seu corpo completamente separado dela, com uma lamparina poderíamos descer à grande caverna de Kentucky Mammoth de seu estômago. Mas fiquemos por aqui, perto deste dente, e procuremos saber onde estamos. Que boca de compleição mais linda e casta! Do chão ao teto, revestida, ou melhor, envolta numa membrana branca reluzente, brilhante como o cetim das noivas.
     Mas agora saiamos e olhemos para esse portentoso maxilar inferior, que se parece com a tampa estreita e comprida de uma enorme caixa de rapé, com a dobradiça numa extremidade, em vez de estar num dos lados. Se você a ergue, para que fique no alto e exiba suas fileiras de dentes, parece mais uma terrível ponte levadiça: como, ai!, provam ser para muitos dos valentes da pesca, que tais escápulas empalam com força brutal. Mas muito mais terrível é de se observar quando, braças abaixo da superfície da água, você surpreende uma baleia furiosa, seu flutuar ali em suspenso, com sua prodigiosa mandíbula, de uns quinze pés de comprimento, descaindo de seu corpo em ângulo reto, afigurando-se tal como o pau da bujarrona de um navio. Essa baleia não está morta; está apenas sem vigor; enfraquecida, talvez; melancólica; e tão sorumbática que as articulações de sua mandíbula relaxaram, deixando-a ali numa espécie de desajeitado apuro, um descrédito para toda a sua tribo, que, sem dúvida, deve amaldiçoá-la com trismos.
     Na maioria dos casos, essa mandíbula – facilmente destravada por um artesão experiente – é decepada e içada ao convés com o propósito de extrair os dentes de marfim e de fazer um suprimento do branco e rijo osso de baleia, com o qual os pescadores elaboram variados artigos interessantes, incluindo bengalas, cabos de guarda-chuvas e pegadeiras para açoites de montaria.
     Com um demorado e aborrecido içamento, a mandíbula é arrastada a bordo, como se fosse uma âncora; e quando chega a hora certa – alguns dias depois do outro trabalho –, Queequeg, Daggoo e Tashtego, todos dentistas respeitáveis, metem-se a arrancar os dentes. Com uma afiada pá de corte, Queequeg realiza incisões na gengiva; em seguida, a mandíbula é atada a arganéus e, estando a talha presa ao cordame do alto, ele arranca esses dentes, como bois de Michigan puxam pedaços de carvalhos velhos para fora das florestas selvagens. Em geral, são ao todo quarenta e dois dentes; nas baleias velhas, estão todos bem gastos, mas sem cáries; nem preenchidos com nossas obturações artificiais. A mandíbula por fim é serrada em placas, que são empilhadas como vigas para a construção de casas.

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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Moby Dick: 73 - Stubb e Flask matam uma Baleia Franca

Moby Dick

Herman Melville

73 - Stubb e Flask matam uma baleia Franca; e depois conversam a respeito dela

     É preciso ter em mente que, durante todo esse tempo, tivemos uma prodigiosa cabeça de Cachalote balançando no costado do Pequod. Mas será preciso deixá-la ali pendurada por algum tempo até que tenhamos condições de lhe dar atenção. No momento, outros são os assuntos urgentes, e o melhor que podemos fazer pela cabeça, por ora, é rezar aos céus para que as talhas aguentem.
     Ora, durante a noite e pela manhã, o Pequod havia sido levado aos poucos para um mar que, por suas áreas ocasionais de brit amarelo, revelava indícios inusitados da presença de Baleias Francas nos arredores, uma espécie do Leviatã que poucos imaginavam àquela época estar se movendo em quaisquer imediações. Embora, em geral, os marinheiros desprezassem a captura daquelas criaturas inferiores; embora o Pequod não estivesse autorizado a persegui-las, e embora tivesse encontrado várias delas perto das ilhas Crozet sem ter descido os botes; no entanto, uma vez que um Cachalote havia sido levado para o navio e decapitado, para a surpresa de todos, foi anunciado que uma Baleia Franca deveria ser capturada naquele dia, caso houvesse oportunidade.
     E a oportunidade não tardou. Jatos altos foram vistos a sotavento; e dois botes, os de Stubb e Flask, foram destacados para a perseguição. Vogando sempre para longe, eles por fim ficaram praticamente invisíveis para os homens no topo do mastro. Mas subitamente, a distância, avistaram uma grande quantidade de água branca em movimento, e em seguida notícias do topo informavam que um dos botes ou ambos deviam estar indo depressa. Passado um tempo, os botes surgiram inteiros aos olhos dos gajeiros, ambos arrastados em direção ao navio pela baleia rebocadora. Tão perto a baleia chegou do casco que, de início, parecia que tinha intenções malignas; mas afundando de repente num redemoinho, a cerca de cinquenta pés das pranchas, ela desapareceu completamente da vista, como se mergulhasse sob a quilha. “Cortar, cortar!”, foi o grito que saiu do navio para os botes, que, por um instante, pareciam a ponto de se chocar mortalmente contra o costado do veleiro. Mas, havendo linha suficiente nas selhas, e a baleia não tendo mergulhado muito depressa, soltaram a corda em abundância e, ao mesmo tempo, remaram com toda a força para ficar à frente do navio. Por alguns minutos, a luta foi intensamente travada; pois, enquanto ainda afrouxavam a linha esticada em uma direção, e ainda impunham aos remos a contrária, a tração conflituosa ameaçava afundá-los. Mas ganhar alguns metros na dianteira era tudo o que queriam. E insistiram até que os ganharam; quando, subitamente, se sentiu um breve tremor correndo como um relâmpago ao longo da quilha, enquanto a ostaxa esticada, arranhando a base do navio, reapareceu de repente sob a proa, estalando e vibrando; e lançando tão violentamente suas gotas d’água que elas caíam como cacos de vidro na água, enquanto a baleia mais adiante também reaparecia, e mais uma vez os botes ficavam livres para correr. Mas a baleia cansada diminuiu a velocidade e, alterando seu rumo às cegas, deu a volta na popa do navio rebocando os dois botes, de forma que percorreram um circuito completo.
     No entretempo, eles puxaram mais e mais suas ostaxas, até que, flanqueando a baleia de perto pelos dois lados, Stubb e Flask arremessaram suas lanças; e assim, a batalha continuou, dando voltas no Pequod, enquanto as multidões de tubarões que antes nadavam em torno do corpo do Cachalote correram para o sangue fresco que derramava, bebendo-o com sede a cada novo corte, como os ávidos Israelitas o fizeram nas fontes novas que brotaram da rocha fendida.
     Por fim seu sopro ficou espesso e, com um tranco e um vômito horrível, a baleia virou de costas, um cadáver.
     Enquanto os dois oficiais se ocupavam de amarrar as cordas à cauda da baleia, nesse sentido cuidando para que a massa pudesse ser rebocada, iniciaram uma conversa.

“O que será que o velho deseja com esse monte de banha fétida?”, disse Stubb, não sem alguma aversão à ideia de ter de lidar com um Leviatã tão desprezível. 
“O que deseja?”, disse Flask, enrolando a ostaxa sobressalente na proa do bote, “você nunca escutou falar que desde que um navio traga a cabeça de um Cachalote pendurada a estibordo, e ao mesmo tempo a de uma Baleia Franca a bombordo; Stubb, você nunca escutou que esse navio nunca mais poderá naufragar?” 
“Por que não?”
“Eu não sei, mas escutei Fedallah, aquele fantasma amarelo, dizer isso e parece que sabe tudo a respeito de feitiços de navios. Mas às vezes acho que ele vai enfeitiçar o navio com maldade. Não gosto nem um pouco daquele sujeito, Stubb. Você já percebeu que aquela presa dele parece entalhada na cabeça de uma cobra, Stubb?” 
“Afogue-o! Nunca olho para ele; mas se eu tiver uma oportunidade, numa noite escura, e ele estiver ocupado em sua vigília na amurada, com ninguém por perto; olha lá, Flask” – apontando para o mar com um gesto específico de ambas as mãos – “Sim, eu o faço! Flask, tenho para mim que Fedallah é o demônio disfarçado. Você acredita naquela história sem pé nem cabeça de que ele veio a bordo como clandestino? Ele é o demônio, vá por mim. A gente só não vê o rabo dele porque ele o esconde; acho que enrolado em seu bolso. Maldito seja! Pensando nisso, ele sempre pede estopa para colocar na ponta das suas botas.”
“Ele dorme em suas botas, não é? Ele não tem rede; mas eu já dei com ele deitado sobre um rolo de cordame.” 
“Sem dúvida, e isso é por causa de seu maldito rabo; ele o deixa enrolado no olho do cordame.” 
“O que será que o velho tanto quer com ele?” 
“Uma troca ou uma barganha, creio.” 
“Barganha? – de quê?”
“Ora, preste atenção, o velho está empenhado na caça da Baleia Branca, e o diabo está tentando envolvê-lo, aliciá-lo em troca de seu relógio de prata, ou de sua alma, ou de qualquer coisa do gênero, para depois lhe entregar Moby Dick.” 
“Ora essa! Stubb, você está de brincadeira; como Fedallah pode fazer uma coisa dessas?” 
“Não sei, Flask, mas o diabo é um sujeito curioso e bem malvado, posso lhe garantir. Pois bem, dizem que certa vez foi dar um passeio numa velha nau capitânia, abanando a cauda de modo diabólico e cavalheiresco e perguntando se o velho comandante estava em casa. Bem, ele estava em casa e perguntou ao diabo o que queria. O diabo, batendo os cascos, se levanta e diz, ‘Quero o John’. ‘Para quê?’, pergunta o velho comandante. ‘O que você tem com isso?’, disse o diabo, ficando irritado, – ‘Quero usá-lo!’. ‘Leve-o’, diz o comandante – e, pelo amor de Deus, Flask, se o diabo não castigou John com a cólera Asiática antes de acabar com ele, eu como essa baleia em uma bocada. Mas cuidado – você ainda não ‘tá pronto? Bem, puxe daí, e vamos deixar a baleia ao longo do costado.”
“Acho que me lembro de uma história como essa que você contou”, disse Flask, quando, por fim, os dois botes avançavam lentamente com a carga em direção ao navio, “mas não consigo me lembrar de onde.” 
“Nos Três espanhóis? As aventuras dos três soldados sanguinários? Você leu ali, Flask? Acho que sim.” 
“Não: nunca vi tal livro; já ouvi falar dele, de todo modo. Mas agora me diga uma coisa, Stubb, você acha que o diabo de quem você estava falando agora é o mesmo que você diz estar a bordo do Pequod?”
“Sou o mesmo homem que ajudou a matar essa baleia? O diabo não vive para sempre? Quem já ouviu falar que o diabo morreu? Você já viu algum padre enlutado por causa do diabo? Se o diabo tem uma chave de cadeado para entrar na cabine do almirante, você não acha que ele pode rastejar pela vigia? Responda, senhor Flask.” 
“Quantos anos você acha que Fedallah tem, Stubb?”
“Você está vendo o mastro principal ali?”, apontando para o navio; “bem, esse é o número um; agora pegue todos os aros do porão do Pequod e os coloque enfileirados atrás do mastro, no lugar dos zeros, entendeu? Bem, isso não daria para o começo da idade de Fedallah. Nem todos os toneleiros trabalhando juntos poderiam oferecer aros em número suficiente para tantos zeros.” 
“Mas vê bem, Stubb, agora mesmo achava você um pouco cheio de bravata, quando disse que jogaria Fedallah ao mar, se houvesse oportunidade. Ora, se ele é tão velho quanto esses seus aros dizem, se ele vai viver para sempre, de que adiantaria jogá-lo ao mar – quer me dizer?”
“Ele ao menos ganharia um bom mergulho.” 
“Mas ele voltaria.” 
“E que ele mergulhasse de novo; e assim continuasse, mergulho após mergulho.” 
“E se ele tivesse a ideia de fazer você mergulhar também – sim, e afogá-lo –, e então?”
“Gostaria de vê-lo tentar; eu lhe daria dois olhos tão roxos que ele não ousaria mais mostrar seu rosto na cabine do almirante por um bom tempo, muito menos naquele bailéu, onde ele vive, e no tombadilho, por onde se move sorrateiro. Dane-se o diabo, Flask; você pensa que tenho medo do diabo? Quem tem medo dele, a não ser o velho comandante, que não ousa agarrá-lo e algemá-lo, como merece, mas o deixa andar por aí roubando pessoas? Sim, e assinou um contrato com ele permitindo que fritasse todas as pessoas que tivesse roubado. Que comandante!” 
“Você acredita que Fedallah queira roubar o Capitão Ahab?”
“Se acredito? Logo vai saber, Flask. Mas agora vou ficar de olho nele; e, se eu vir alguma coisa suspeita acontecendo, vou agarrá-lo pelo colarinho e dizer – Olha aqui, Belzebu, você não vai fazer isso; e se ele fizer algum estardalhaço, juro por Deus que tiro o rabo dele do bolso, levo para o cabrestante e dou-lhe tantos puxões e trancos que seu rabo vai ficar tão pequeno quanto um coto – entendeu? E depois disso, creio que quando se vir atracado daquele jeito esquisito, decepado, vai rastejar daqui sem nem ao menos sentir alegria de ter o rabo entre as pernas.” 
“E o que você vai fazer com o rabo, Stubb?”
“O que vou fazer? Vendê-lo como um chicote de boi quando voltarmos para casa – o que mais?” 
“Ora, você está falando a sério? Você está falando a sério desde o começo, Stubb?” 
“Sério ou não, agora chegamos ao navio.”

     Os botes foram chamados para rebocar a baleia para o costado de bombordo, onde correntes para a cauda e outros apetrechos haviam sido preparados para prendê-la.

“Não falei?”, disse Flask; “sim, em breve você vai ver a cabeça dessa baleia franca pendurada do lado oposto à do Cachalote.”

     Não muito depois, as palavras de Flask provaram ser verdadeiras. Antes o Pequod havia se inclinado abruptamente na direção da cabeça do Cachalote; agora, com o contrapeso das duas cabeças, a quilha retomou a posição de sempre; embora isso lhe custasse muito esforço, acredite. Assim, quando você iça de um lado a cabeça de Locke, vai-se para esse lado; mas então erga a cabeça de Kant do outro lado, e você volta à posição anterior; mas num estado deplorável. Desse modo, certas mentes estão sempre tentando retomar o prumo. Ó, insensatos! Jogai ao mar todas essas cabeças retumbantes e navegareis direto e reto.
     Arrumando o corpo de uma baleia franca, quando trazida para o costado do navio, segue-se o mesmo procedimento preliminar dedicado ao Cachalote; apenas, no caso do último, a cabeça é cortada por inteiro, enquanto no primeiro lábios e língua são retirados e pendurados separadamente no convés, com a conhecida barbatana escura presa à chamada coroa. Mas, nesse caso, nada disso foi feito. As carcaças das duas baleias foram deixadas para trás; e o navio levando as duas cabeças parecia uma mula carregando dois cestos muito pesados.
     Enquanto isso, Fedallah olhava tranquilamente para a cabeça da baleia franca, e, de vez em quando, seus olhos passavam das rugas profundas do animal para as linhas de sua própria mão. E Ahab estava numa posição tal, que o Parse ocupava sua sombra; enquanto, se é que o Parse tinha uma sombra, esta se fundiu com a de Ahab, encompridando-a. Enquanto os marinheiros trabalhavam, faziam conjecturas Lapônicas a respeito de todas as coisas acontecidas.

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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
73 - Stubb e Flask matam uma Baleia Franca / 74 - A cabeça do cachalote /                                   
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Moby Dick: 72 - A corda de macaco

Moby Dick

Herman Melville

72 - A corda de macaco

     No trabalho tumultuado de cortar e de cuidar da baleia, há muita correria de lá para cá em meio à tripulação. Ora os marinheiros são necessários em um lugar, ora são chamados em outro lugar. Ninguém para em lugar algum; pois tudo tem de ser feito ao mesmo tempo e em toda parte. Acontece o mesmo com quem pretende descrever a cena. É preciso que voltemos um pouco. Foi mencionado que antes de começar a cortar o dorso da baleia se coloca um gancho no buraco original feito pelas pás dos imediatos. Mas como se pode fixar o gancho no buraco de um volume tão desajeitado e pesado? Ele foi colocado ali pelo meu dileto amigo Queequeg, cujo dever, como arpoador, era subir no dorso do monstro com o referido propósito. Mas em muitos casos as circunstâncias exigem que o arpoador permaneça na baleia até que a operação de despelar e de esfolar termine. A baleia, bom que se observe, está quase inteiramente submersa, salvo as partes nas quais se está trabalhando. Ali, portanto, a dez pés abaixo do nível do convés, o pobre arpoador mal se sustenta, parte sobre a baleia e parte na água, enquanto a enorme massa se revolve como um moinho abaixo dele. Nessa presente ocasião, Queequeg vestia roupas da Highland – uma saia e meias– nas quais aos meus olhos, pelo menos, parecia insolitamente elegante; e ninguém teve oportunidade melhor de observá-lo, como se verá em seguida.
     Sendo o proeiro do selvagem, ou seja, o sujeito que manobrava o remo de proa em seu bote (o segundo da frente para trás), era meu prazeroso dever ajudá-lo em sua difícil escalada sobre o dorso da baleia morta. Você já viu meninos italianos tocadores de realejo segurando um macaquinho com um cordão comprido. Do mesmo jeito, do costado íngreme do navio, segurei Queequeg lá embaixo no mar, por meio do que, na pescaria, é tecnicamente chamado de corda de macaco, presa a um cinto de lona forte amarrado ao redor de sua cintura.
     Era uma tarefa engraçada e perigosa para nós dois. Pois, antes de prosseguir, é preciso dizer que a corda de macaco estava presa às duas extremidades; presa ao cinto largo de lona de Queequeg e presa ao meu cinto estreito de couro. De modo que, para o bem ou para o mal, nós dois, naquele momento, estávamos unidos; e caso o coitado do Queequeg afundasse para não voltar mais, tanto o costume quanto a honra exigiam que, em vez de cortar a corda, ela deveria me arrastar junto a ele. Assim, portanto, uma alongada ligadura Siamesa nos unia. Queequeg era meu inseparável irmão gêmeo; nem podia eu, de forma alguma, livrar-me das perigosas responsabilidades que o liame de cânhamo envolvia.
     De modo tão intenso e metafísico eu compreendia minha situação que, enquanto vigiava diligentemente seus movimentos, parecia perceber com clareza que minha própria individualidade havia se fundido com outra numa sociedade conjunta de ações: que meu livre-arbítrio recebera um golpe mortal; e que o erro ou azar do outro poderia me dragar, um inocente como eu, para um desastre ou morte imerecida. Consequentemente, vi que aquilo era uma espécie de interregno da Providência; pois sua justiça sempre presente jamais poderia ter sancionado uma injustiça tão flagrante. E seguindo adiante em meus pensamentos – enquanto às vezes o puxava de entre a baleia e o navio, que ameaçava esmagá-lo –, repito, seguindo adiante em meus pensamentos, percebi que essa minha situação era rigorosamente igual à de todo mortal que respira; apenas, na maioria dos casos, de um modo ou de outro ele tem essa ligação Siamesa com vários outros mortais. Se seu banqueiro falir, você quebra; se seu boticário por engano colocar veneno em suas pílulas, você morre. Claro, você pode achar que, com extremo cuidado, possivelmente se escapa dessas e de uma infinidade de outras fatalidades da vida. Mas, mesmo lidando tão cuidadosamente com a corda de macaco de Queequeg quanto possível, às vezes ele lhe dava trancos tão fortes que fiquei muito perto de cair para fora do barco. Tampouco podia esquecer que, fizesse o que fosse, eu tinha apenas o controle de uma das suas pontas.¹

[1] Todos os navios baleeiros têm cordas de macacos, mas apenas no Pequod o macaco e seu auxiliar ficavam amarrados dessa forma. O aperfeiçoamento do costume original foi feito por ninguém menos do que Stubb, para proporcionar ao arpoador em perigo uma garantia quanto à fidelidade e à vigilância de seu auxiliar com a corda. [N. A.]

     Antes dei a entender que tinha de puxar com frequência o coitado do Queequeg de entre a baleia e o navio – onde vez por outra caía por conta do incessante balançar e rolar de ambos. Mas esse não era o único risco de ser esmagado a que estava exposto. Em nada amedrontados pelo massacre perpetrado à noite, os tubarões, refeitos em suas forças e ainda mais atraídos pelo sangue outrora encerrado que começava a fluir da carcaça as furiosas criaturas se aglomeravam em torno da carcaça como abelhas em torno da colmeia.
     E bem no centro desses tubarões estava Queequeg; que muitas vezes tentava afastá-los batendo com seus pés instáveis. Uma coisa incrível é que, se não atraído por uma presa como uma baleia morta, o de outro modo ecumenicamente carnívoro tubarão raras vezes ataca o homem.
     Não obstante, pode-se bem acreditar que, uma vez que tivessem se posto ali com tanta voracidade, seria prudente ficar bem atento a eles. Portanto, além da corda de macaco, com a qual vez por outra eu puxava o pobre coitado para afastá-lo das imediações de uma goela que pudesse pertencer a um tubarão especialmente feroz – ele ainda dispunha de outra proteção. Suspensos junto ao costado numa das plataformas, Tashtego e Daggoo brandiam sem parar duas afiadas pás de baleia sobre sua cabeça, com as quais abatiam tantos tubarões quantos pudessem alcançar. Era certo que tal gesto viesse da benevolência e da abnegação desses homens. Eles queriam o bem de Queequeg, tenho de concordar; mas em sua ânsia precipitada de ajudá-lo, e porque Queequeg e os tubarões, por vezes, ficavam às vezes meio escondidos na água turvada de sangue, aquelas suas pás imprudentes pareciam mais propensas a amputar uma perna do que uma cauda. Mas ao coitado do Queequeg, imagino eu, arfando e entregando toda sua força àquele gancho de ferro imenso – ao coitado do Queequeg, imagino eu, só lhe restou rezar para seu Yojo e entregar a própria vida às mãos de seus deuses.
     Bem, bem, meu dileto amigo e irmão gêmeo, pensei eu, enquanto trazia e então lentamente soltava a corda a cada onda do mar – o que importa, afinal de contas? Você não é a preciosa imagem de todos nós, homens, nesse mundo baleeiro? O oceano insondável no qual você está ofegante é a Vida; aqueles tubarões, seus inimigos; aquelas pás, seus amigos; e entre tubarões e pás você está em aperto e apuro, meu pobre rapaz.
     Mas, coragem! Um estoque de alegria ainda te aguarda, Queequeg. Pois quando, de lábios azuis e olhos vermelhos de sangue, o exausto selvagem por fim subiu pelas correntes, ele inteiro pingando e tremendo sobre o costado; o camareiro avança, e com um olhar benevolente e consolador lhe oferece – O quê? Um conhaque quente? Não! Ó, deuses, não! Ele lhe oferece uma xícara de gengibre quente com água!

“Gengibre? É cheiro de gengibre?”, perguntou Stubb, desconfiado, aproximando-se. “Sim, deve ser gengibre”, espiando a ainda intocada xícara. Depois, parado por uns instantes como se não acreditasse, seguiu calmamente na direção do camareiro estupefato dizendo-lhe pausadamente: “Gengibre? Gengibre? Quer ter a bondade de me explicar, senhor Dough-Boy, de que serve o gengibre? Gengibre! Seria o gengibre uma espécie de combustível que se usa, Dough-Boy, para acender o fogo desse canibal trêmulo? Gengibre! – Que diabos vem a ser o gengibre? Carvão do mar? – Lenha? – Fósforos de Lúcifer? – Isca? – Pólvora? – O que vem a ser esse gengibre, repito, que você oferece a este nosso coitado Queequeg?”.
“Há um movimento dissimulado da Sociedade da Abstinência nisso”, acrescentou de repente, aproximando-se de Starbuck, que acabava de chegar da proa. “O senhor poderia dar uma olhada nesta kannakin; por favor, sinta o cheiro.” Depois, observando a expressão do oficial, acrescentou: “Senhor Starbuck, o camareiro teve o desplante de oferecer calomelano com jalapa ao Queequeg, aqui, neste instante saído da baleia. Seria o camareiro um boticário, senhor? Posso saber se isso é um tipo de fole com o qual espera trazer de volta a respiração de um homem que quase se afogou?
“Não creio que seja”, disse Starbuck, “é muito pouca coisa.”
“Sim, sim, camareiro”, gritou Stubb, “vamos lhe ensinar como medicar um arpoador; nada desses seus remédios de boticário aqui; queres nos envenenar, não é? Tens apólices de seguro sobre nossas vidas e quer nos assassinar a todos para embolsar a grana, não é?”
“Não fui eu!”, gritou Dough-Boy, “Foi a tia Charity que trouxe o gengibre a bordo; e ordenou-me que nunca desse álcool aos arpoadores, apenas um trago de gengibre – como ela mesma disse.”
“Trago de gengibre! Seu tratante de gengibre! Toma isto! Corre para os armários e me traz algo melhor. Espero não estar errado, senhor Starbuck. São ordens do capitão – grog para o arpoador que vier da baleia.”
“Basta”, respondeu Starbuck, “não batas nele outra vez, senão –”
“Oras, eu nunca machuco quando bato, a não ser que seja uma baleia ou algo parecido; esse sujeito é uma fuinha. O que o senhor dizia?”
“Apenas isto: desce com ele e pega o que tu queres.”

     Quando Stubb voltou, veio com um frasco escuro numa mão, e uma espécie de caixa de chá na outra. O primeiro continha uma bebida forte e foi entregue a Queequeg; a segunda era o presente de tia Charity, que foi oferecido gratuitamente às ondas.

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O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?