segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Moby Dick: 78 - A cisterna e os baldes

Moby Dick

Herman Melville

78 - A cisterna e os baldes 

     Lépido como um gato, Tashtego sobe no topo do mastro; e sem mudança em sua postura ereta corre sobre o lais da verga principal ao ponto onde esta mais exatamente se projeta sobre o Tonel suspenso. Leva consigo uma talha leve chamada candeliça, feita de duas partes apenas, que passa pelo cadernal de uma roldana. Amarrando o cadernal de modo a suspendê-lo do lais da verga, ele balança uma ponta da corda, até que um homem no convés consegue pegá-la e segurá-la com firmeza. Então, mão sobre mão, pela outra ponta da corda, o Índio se lança ao ar, até que pousa com agilidade no topo da cabeça. Naquele lugar– bem acima do resto da companhia, para a qual ele vivamente grita – ele se parece com um Muezim Turco chamando as pessoas de bem para as orações do alto de uma torre. Munido da pá afiada, o cabo curto, que lhe dão, ele procura com cuidado o lugar certo para começar a perfurar o Tonel. Esse trabalho ele realiza cheio de cuidados, como um caçador de tesouros numa mansão antiga, auscultando as paredes para encontrar o lugar onde o ouro está cimentado. Terminada tal sondagem cautelosa, um resistente balde de ferro, exatamente como um balde de poço, é amarrado a uma ponta da candeliça; enquanto a outra ponta, esticada sobre o convés, é segurada por dois ou três marinheiros atentos. Estes, então, colocam o balde ao alcance do Índio, a quem outra pessoa ergueu uma vara bem comprida. Inserindo a vara no balde, Tashtego o conduz para dentro do Tonel até que desapareça por inteiro; então, dando a ordem aos marinheiros com a candeliça, sobe o balde outra vez, tão espumante quanto um balde de leite fresco da moça do curral. Diligentemente descido de suas alturas, o recipiente repleto encontra as mãos de um marinheiro designado para isso e é rapidamente esvaziado numa enorme tina. Levado mais uma vez para o alto, o balde repete a mesma operação, até que a cisterna profunda não lhe ofereça mais nada. Próximo do fim, Tashtego tem de calcar sua vara mais e mais forte e mais e mais fundo dentro do Tonel, até que atinja uma profundidade de aproximadamente vinte pés.
     Ora, os homens do Pequod já baldeavam desse modo havia já um tempo; várias tinas apareciam repletas do espermacete perfumado; quando de súbito ocorreu um estranhíssimo acidente. Fosse porque Tashtego, o Índio selvagem, estivesse tão afoito e fosse tão descuidado a ponto de soltar por um instante o cabo das talhas grandes que seguravam a cabeça; ou porque o lugar onde ele estava fosse muito viscoso e traiçoeiro; ou porque o próprio Diabo tivesse preparado isso sem dar nenhuma explicação; como exatamente se sucedeu, não se soube; mas, de repente, enquanto o octogésimo ou nonagésimo balde vinha sendo puxado – meu Deus, coitado do Tashtego! – como o balde complementar num poço verdadeiro, ele caiu de cabeça no Grande Tonel de Heidelberg e, num horrível borbulhar de óleo, desapareceu de vista!

“Homem ao mar!”, gritou Daggoo, que em meio à consternação geral foi o primeiro a recobrar o juízo. “Mandem o balde para cá!”, e colocando um pé dentro dele, de modo a segurar melhor o cabo da candeliça escorregadia, os içadores o ergueram para o topo da cabeça, antes mesmo que Tashtego pudesse ter chegado ao fundo. Enquanto isso, criou-se um terrível tumulto. Olhando sobre o costado, eles viam a cabeça outrora sem vida palpitando e surgindo à superfície do mar, como se subitamente acometida de uma idéia importante; quando, no entanto, era apenas o coitado do Índio revelando inconscientemente por seus golpes a perigosa profundidade a que havia afundado.

     Naquele instante, enquanto Daggoo, no topo da cabeça, soltava a candeliça – que havia de alguma forma se enredado nas grandes talhas de cortar –, ouviu-se um barulho nítido de alguma coisa se quebrando; e, para o terror inenarrável de todos, um dos ganchos imensos que seguravam a cabeça se soltou, e com imensa trepidação a massa enorme balançou para os lados, até que o navio bêbado cambaleou e sacudiu como se tivesse sido atingido por um iceberg. O gancho que restava, sobre o qual estava todo o peso, parecia estar a ponto de ceder a qualquer momento; algo ainda mais provável devido aos movimentos violentos da cabeça.

“Desce daí! Desce daí!”, gritavam os marinheiros para Daggoo, mas segurando o cabo das talhas pesadas com uma das mãos, de modo que se a cabeça caísse ele continuaria suspenso; e, tendo desfeito o embaraço da linha, o negro então socou o balde para dentro do poço em colapso, sugerindo que o arpoador enterrado o agarrasse e assim pudesse ser puxado para fora.
“Pelo amor de Deus, homem!”, gritou Stubb, “O que você está socando? Um cartucho? Pare! Como você acha que vai ajudá-lo: acertando esse balde de ferro na cabeça dele? Pare!”
“Cuidado com a talha!”, gritou uma voz explosiva como um foguete.

     Quase no mesmo instante, com o estrondo de um trovão, a massa enorme caiu no mar, como a rocha de Niágara no redemoinho; o casco subitamente liberado se afastou para longe, afundando em seu cobre reluzente; e todos suspenderam a respiração quando, meio que balançando – ora sobre as cabeças dos marinheiros, ora sobre a água –, Daggoo, em meio a uma espessa névoa de vapor, se agarrava às talhas bambas, enquanto o pobre Tashtego, sepultado vivo, descia irremediavelmente às profundezas do mar! Contudo, mal havia se dissipado a neblina, um vulto nu com um sabre de abordagem na mão foi visto por um brevíssimo instante procurando equilíbrio sobre a amurada. Em seguida, um mergulho barulhento na água anunciava que meu corajoso Queequeg havia mergulhado para o salvamento. Uma horda avançou para o costado, e todos os olhos contavam cada onda, como um instante após o outro, e não havia sinal de afogado ou mergulhador. Alguns marinheiros pularam num bote ao lado e remaram um pouco para longe do navio.

“Ah! Ah!”, gritou Daggoo, de repente, do alto de seu agora calmo e balançante poleiro; e, olhando mais além do costado, vimos um braço retesado em meio às ondas azuis; uma visão estranha, como se fosse um braço retesado em meio à grama de uma sepultura.
“Os dois! Os dois! – São os dois!”, gritou Daggoo outra vez com alegria; e logo depois Queequeg foi visto buscando impulso corajosamente com uma mão, enquanto a outra agarrava o cabelo comprido do Índio. Puxados para o bote que os esperava, foram levados de pronto ao convés; mas Tashtego demorava a recobrar os sentidos, e Queequeg não parecia muito animado.

     Pois bem, como se realizara esse corajoso salvamento? Ora, mergulhando atrás da cabeça que afundava lentamente, Queequeg, com seu sabre bem afiado, desferira estocadas laterais nas proximidades de sua base, como se ali abrisse uma larga escotilha; então, soltando o sabre, forçou o braço para dentro e para cima e desse modo puxou o coitado do Tashtego para fora pela cabeça. Confessou que, quando enfiara o braço pela primeira vez, encontrara uma perna; mas bem sabendo que não deveria proceder desse modo, que isso poderia causar problemas, enfiara, então, a perna de volta, e, com hábeis e esforçados gestos, manobrara o corpo do Índio; de tal modo que na tentativa seguinte ele veio à luz da boa e velha maneira – com a cabeça em primeiro lugar. Quanto à cabeça grande, essa havia se comportado tão bem quanto se podia esperar.
     E assim, graças à coragem e à grande habilidade de Queequeg em obstetrícia, o parto, ou melhor, a libertação de Tashtego foi bem-sucedida, ainda que entre os dentes dos mais desfavoráveis e aparentemente intransponíveis impedimentos; o que é uma lição que não deve ser de modo algum esquecida. O ofício da parteira deveria ser ensinado tal como a esgrima, o pugilismo, a equitação e o remo.
     Sei que essa estranhíssima aventura do índio de Gay Head parecerá inacreditável para alguns homens terrestres, ainda que tenham visto, ou escutado histórias sobre pessoas que caíram em cisternas em terra; um acidente que raro acontece, por muito menos do que com o Índio, dada a condição excessivamente escorregadia da borda do poço do Cachalote.
     Mas, talvez se alegará com astúcia, como é possível? Pensávamos que a cabeça do Cachalote, sedosa e porosa, fosse sua parte mais leve, mais afeita à cortiça; mas tu a fazes afundar num elemento de densidade muito superior à dela. Pegamos-te. De modo algum, fui eu quem vos pegou; pois quando o coitado do Tash caiu lá dentro o estojo estava quase vazio de seus conteúdos mais leves, restando pouco mais do que a parede densa e tendinosa do poço – uma substância duas vezes unida e batida, como disse antes, muito mais pesada que a água do mar, um bloco da qual afunda quase como chumbo. Mas a tendência dessa substância para afundar rapidamente foi neutralizada pelo fato de se manter ligada às outras partes da cabeça, de tal modo que afundou devagar, dando uma boa chance para Queequeg fazer seu rápido trabalho de obstetra, como se pode dizer. Pois sim, foi um parto rápido, e como.
     Ora, se Tashtego tivesse morrido naquela cabeça, teria sido uma morte muito valorosa; sufocado no perfume do espermacete mais alvo e delicado; posto no ataúde, levado em cortejo fúnebre, e enterrado na câmara secreta do templo mais sagrado da baleia. Apenas um fim mais encantador pode de pronto ser lembrado – a morte deliciosa do caçador de abelhas de Ohio, que ao procurar mel na forquilha de uma árvore oca encontrou tamanho reservatório que, de muito debruçar-se sobre este, foi sugado e morreu embalsamado. Quantos outros, pensai, terão caído da mesma maneira na cabeça de mel de Platão, para ali morrer docemente?
continua na página 375...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete / 77 - O Grande Tonel de Heidelberg / 78 - A cisterna e os baldes /       
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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