sábado, 26 de setembro de 2026

Moby Dick: 76 - O aríete

Moby Dick

Herman Melville

76 - O aríete 

     Antes de deixar, por ora, a cabeça do Cachalote, gostaria que você, na condição de fisiologista prudente, apenas – particularmente reparasse no aspecto da fronte, em toda sua coesão e calma. Gostaria que a examinasse agora com o único objetivo de fazer uma avaliação inteligente e nada exagerada da força de aríete que possa estar contida ali. É uma questão crucial; pois ou você aceita esse evento como inquestionável, ou permanece descrente para todo o sempre de um dos fatos mais estarrecedores, porém verdadeiros, que receberam registro nos autos da história.
     Observe que, em sua posição comum de nado, a testa do Cachalote fica num plano quase totalmente vertical em relação à água; observe que a parte inferior de sua testa se inclina bem para trás, como se fosse um abrigo para o encaixe comprido que recebe a verga de sua mandíbula inferior; observe que a boca dele está por completo embaixo da cabeça, mais ou menos como se sua própria boca estivesse inteiramente sob seu queixo. Ademais, observe que a baleia não tem um nariz externo; e que o nariz que tem – o orifício do jato – fica no topo de sua cabeça; observe que seus olhos e orelhas ficam do lado da cabeça, a aproximadamente um terço do comprimento de seu corpo a partir da cabeça. Com isso, você deve ter percebido que a testa da cabeça do Cachalote é uma parede insensível e desprovida de aberturas, sem um único órgão ou protuberância frágil de qualquer espécie. Além disso, lembre-se de que apenas na parte inferior extrema da testa, inclinada para trás, existe algum vestígio de osso; e de que, antes de chegar a uns vinte pés da testa, você não encontrará um pleno desenvolvimento do crânio. Portanto, essa massa imensa e desossada é somente uma almofada. Como será revelado, enfim, seu conteúdo constitui-se, em parte, do óleo mais refinado; entretanto, agora você será informado da natureza da substância que reveste de modo tão inexpugnável toda essa aparente efeminação. Nalgum lugar acima, descrevi como a gordura envolve o corpo da baleia, à maneira da casca que envolve a laranja. Assim se dá com a cabeça; mas com esta particularidade: perto da cabeça, tal invólucro, embora não tão espesso, se faz de uma dureza desossada, inimaginável para alguém que jamais tenha tocado nele. O arpão mais afiado, a lança mais incisiva atirada pelo mais forte dos braços humanos, nela ricocheteiam impotentes. É como se a testa do Cachalote fosse pavimentada com cascos de cavalos. Não creio que qualquer sensibilidade exista ali.
     Considere ainda uma outra coisa. Quando dois avantajados e carregados navios mercantes da rota da Índia se empurram e se espremem nas docas, o que é que os marinheiros fazem? Não colocam entre eles, no ponto de contato, nenhuma substância rija como ferro ou madeira. Não, eles suspendem ali um enchimento grande e redondo de estopa e cortiça, enrolado no mais espesso e duro couro de boi. Este, valente e livre de dano, recebe a compressão que teria arrebentado escoras de carvalho e alavancas de ferro. Isso basta para demonstrar o fato óbvio a que me refiro. Mas, somando-se a esse fato, ocorreu-me a hipótese de que, como o peixe comum tem uma bexiga natatória, capaz de aumentar ou diminuir à vontade; e como o Cachalote, tanto quanto sei, não dispõe de tal recurso; considerando a maneira de outro modo inexplicável com que ora afunda inteiramente sua cabeça abaixo da superfície, ora nada com a cabeça bem elevada para fora da água; considerando a elasticidade jamais obstruída de seu invólucro; considerando a especialíssima parte interna de sua cabeça; ocorreu-me a hipótese, repito, de que seus misteriosos e alveolares favos pulmonares possam ter uma, até o presente momento, desconhecida e insuspeitada relação com o ar exterior, de modo a serem suscetíveis à expansão e contração atmosférica. Se assim for, imagine quão irresistível é tal poder, que conta com a contribuição do mais inalcançável e destrutivo de todos os elementos.
     Agora, atenção. Impelindo de modo implacável essa parede insensível, inexpugnável, invencível, e essa coisa que flutua dentro dela; ali nada, por trás de tudo isso, uma gigantesca massa de vida, que só pode ser adequadamente calculada como lenha empilhada – em cordéis; e que obedece a uma única vontade, como o menor inseto. De modo que, quando, mais adiante, eu explicar em detalhes todas as peculiaridades e concentrações de energia escondidas pelo corpo desse monstro expansível; quando eu mostrar algumas de suas mais ordinárias proezas craniais; creio que você renunciará a toda a incredulidade ignorante e estará pronto para aceitar isto: que ainda que o Cachalote arrebentasse uma passagem através do Istmo de Darien, misturando o Atlântico ao Pacífico, você não perderia um fio de cabelo. Pois, se não reconhecer uma baleia, você será apenas um provinciano e sentimentalista diante da Verdade. Mas a Verdade cristalina é uma coisa com a qual só as salamandras gigantes se deparam; como são pequenas, então, as chances de um provinciano! O que aconteceu com o jovem infirme que levantou o véu da temível deusa em Sais?

continua na página 369...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / 
76 - O aríete / 77 - O Grande Tonel de Heidelberg /      
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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