terça-feira, 15 de setembro de 2026

Moby Dick: 75 - A cabeça da Baleia Franca - Um exame comparativo

Moby Dick

Herman Melville

75 - A cabeça da Baleia Franca - Um exame comparativo

     Cruzando o convés, vamos agora dedicar toda nossa atenção à cabeça da Baleia Franca.
     Assim como, em seu formato geral, a cabeça aristocrática do Cachalote poderia ser comparada com uma biga Romana (especialmente se vista de frente, onde é tão amplamente arredondada), também a cabeça da Baleia Franca, grosso modo, guarda uma semelhança não muito elegante com um gigantesco sapato de bico de galeota. Há duzentos anos, um velho viajante Holandês comparou sua figura à forma de um sapateiro. E nessa mesma forma ou sapato aquela velha senhora do conto infantil com sua cria desmedida poderia ter se acomodado confortavelmente, ela e toda sua prole.
     Mas, quando você se aproxima desta enorme cabeça, ela começa a assumir diferentes aspectos, segundo seu ângulo de visão. Se você ficar em seu cume e olhar para os dois orifícios do jato e sua forma em “F”, você tomará a cabeça por um grande contrabaixo, e seus espiráculos, as aberturas da sua caixa de ressonância. Mas se você fixar os olhos nessa incrustação estranha, cristada, semelhante a um pente no topo da massa essa coisa verde com crustáceos, a que os Groenlandeses chamam de “coroa” e os pescadores do Sul de “gorro” da Baleia Franca; fixando os olhos apenas nisso, você tomaria a cabeça pelo tronco de um carvalho enorme, com um ninho de passarinhos na forquilha. Sem dúvida, quando você observa esses caranguejos vivos aninhados nesse gorro, tal ideia certamente lhe ocorrerá; a menos que sua imaginação tenha se fixado no termo técnico “coroa”, que também lhe foi atribuído; nesse caso, parecer-lhe-á interessante imaginar que esse monstro poderoso, na verdade, é um rei diademado do oceano, cuja coroa verde foi feita para ele desse extraordinário modo. Mas, se esse cetáceo for mesmo um rei, é um sujeito muito intratável para ser adornado por uma coroa. Veja seu lábio inferior dependurado! Quanto mau humor, e que tromba! É um mau humor e uma tromba, segundo as medidas de um carpinteiro, de vinte pés de comprimento e cinco pés de profundidade; um mau humor e uma tromba que poderiam produzir cerca de 500 galões de óleo, se não mais.
     É lamentável, ora, que essa baleia desafortunada tenha um lábio leporino. A fenda tem cerca de um pé de comprimento. É provável que a mãe estivesse nadando na costa Peruana, num período importante, quando terremotos fizeram a praia se abrir. Por esse lábio, como por uma soleira ardilosa, vamos agora escorregar para dentro da boca. Dou minha palavra; estivesse eu em Mackinaw, teria aproveitado a oportunidade para adentrar uma tenda indígena. Meu Deus! Foi esse o caminho que Jonas trilhou? O telhado tem cerca de doze pés de altura e faz um ângulo agudo, como se tivesse uma viga mestra comum; enquanto as laterais reforçadas, ogivadas e felpudas, nos oferecem ripas de barbatanas maravilhosas, meio verticais, semelhantes às cimitarras, umas trezentas de um lado, que, suspensas na parte superior da cabeça ou osso da coroa, formam aquelas venezianas já mencionadas sucintamente em outro lugar. As bordas das barbatanas são guarnecidas por fibras felpudas, com as quais a Baleia Franca filtra a água e em cujos emaranhados retém os peixes pequenos, quando de boca escancarada ela atravessa oceanos de brit na época de se alimentar. Nas venezianas centrais da cartilagem, quando se conservam na ordem natural, há certas marcas curiosas, curvas, buracos e arestas, pelas quais alguns baleeiros calculam a idade do animal, como a idade de um carvalho se calcula por seus anéis circulares. Embora a exatidão desse critério esteja longe do demonstrável, tem a graça da probabilidade analógica. De qualquer modo, se o aceitamos, temos de atribuir à Baleia Franca uma idade muito superior àquela que pareceria razoável à primeira vista.
     Parece que outrora existiam as fantasias mais curiosas a respeito dessas venezianas. Em Purchas, um viajante as denomina as espetaculares “suíças” de dentro da boca da baleia¹; um outro, “escovões”; um terceiro cavalheiro, de Hackluyt, usa as elegantes palavras a seguir: “São cerca de duzentos e cinquenta barbatanas que nascem em cada lado de seu morso superior, que arquejam sobre sua língua em cada lado de sua boca”.

[1] Isso nos faz lembrar que a Baleia Franca tem mesmo algo próximo às suíças, ou melhor, ao bigode, que consiste em alguns fios de cabelo branco espalhados na parte superior da ponta exterior da mandíbula inferior. Por vezes, esses tufos dão um aspecto de bandoleira à sua de outro modo solene fisionomia. [N. A.]

     Como todo mundo sabe, esses mesmos “escovões”, “barbatanas”, “suíças”, “venezianas”, ou como queira, fornecem às senhoras seus corpetes e outros enrijecidos artifícios. Mas nesse particular a demanda vem há algum tempo diminuindo. Foi no tempo da rainha Anne que o osso conheceu a glória, quando as anquinhas ditavam a moda. E como aquelas senhoras de outrora se moviam com alegria, embora nas mandíbulas da baleia, por assim dizer; do mesmo modo, nós, hoje em dia, num dia de chuva nos abrigamos sob a proteção das mesmas mandíbulas; sendo o guarda-chuva uma tenda aberta sobre o mesmo osso.
     Mas esqueça tudo sobre venezianas e suíças por um momento e, de frente para a boca da Baleia Franca, observe-a mais uma vez. Ao ver todas essas colunatas de ossos tão metodicamente dispostas, você não se suspeitaria dentro do fabuloso órgão de Haarlem, admirado de seus milhares de tubos? À guisa de tapete para o órgão, temos o mais macio dos tapetes Turcos – a língua, colada, como se assim fosse, ao rés da boca. É muito opulenta e tenra, capaz de desfazer-se em pedaços quando içada ao convés. Essa língua em especial, agora diante de nós; num passar de olhos eu diria que é uma “seis barris”; ou seja, poderia render essa quantidade de óleo.
     Antes disso, você deve ter percebido com clareza a verdade do que eu disse no início – que o Cachalote e a Baleia Franca têm cabeças quase que inteiramente diferentes. Resumindo, pois: na Baleia Franca não se encontra um bom poço de espermacete; nem dentes de marfim; nem uma longa e delgada mandíbula inferior, como a do Cachalote. Também não há no Cachalote algo como venezianas de barbatana; nenhum lábio inferior imenso; e quase nada de língua. Além disso, a Baleia Franca tem dois orifícios externos de sopro, e o Cachalote apenas um.
     Olhe, agora, uma última vez para essas respeitáveis cabeças encapuzadas, enquanto ainda aparecem juntas; pois, em breve, uma afundará no mar sem epitáfio; e a outra não tardará em segui-la.
     Você consegue perceber a expressão do Cachalote ali? É a mesma de quando morreu, apenas algumas das rugas compridas de sua fronte parecem ter desbotado. Creio que essa fronte imensa está repleta de uma placidez campestre, nascida de uma indiferença especulativa diante da morte. Mas observe a expressão da outra cabeça. Veja aquele espantoso lábio inferior, comprimido por acidente contra o costado do navio, de modo a segurar com firmeza a mandíbula. A cabeça inteira não parece expressar uma grande e resoluta decisão de enfrentar a morte? Essa Baleia Franca eu julgo ter sido uma Estóica; e o Cachalote, um Platônico, que em seus últimos anos de vida se dedicou a Espinosa.

continua na página 366...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
76 - O aríete /     
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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