segunda-feira, 20 de julho de 2026

Moby Dick: 70 - A esfinge

Moby Dick

Herman Melville

70 - A esfinge

     Não deveria ter sido omitido que, antes de esfolarem por completo o corpo do Leviatã, ele havia sido decapitado. Ora, a decapitação do Cachalote é uma proeza anatômica de ordem científica, da qual os experimentados cirurgiões de baleias se orgulham muito: e não sem motivo.
     Observe que a baleia não tem nada que possa propriamente ser chamado de pescoço; pelo contrário, a região onde sua cabeça e corpo parecem se juntar, ali, naquele ponto, encontramos sua parte mais grossa. Lembre-se também de que o cirurgião tem de operar do alto, com um espaço de cerca de oito a dez pés entre ele e o paciente, e que o paciente está quase oculto no mar opaco, ondulante e muitas vezes tumultuado. Também tenha em mente que, nessas circunstâncias pouco propícias, ele tem de fazer cortes profundos na carne; e que, desse modo subterrâneo, sem poder dar uma simples olhada na incisão, em contração contínua, ele deve evitar com habilidade todas as partes adjacentes e interditadas e dividir a espinha com exatidão num ponto crucial, junto à sua inserção no crânio. Pois então, não é surpreendente que Stubb, para sua glória, precisasse de apenas dez minutos para decapitar o Cachalote?
     Assim que é cortada, a cabeça cai para trás e é segura por um cabo, até que tirem a gordura do corpo. Feito isso, se ela pertencer a uma baleia pequena, ela é pendurada no convés para que se dê cabo dela adequadamente. Mas com um grande Leviatã, isso é impossível; pois a cabeça do Cachalote ocupa cerca de um terço de seu comprimento total, e suspender um volume desses, mesmo com as imensas talhas de um navio baleeiro, seria tão inútil quanto querer pesar um estábulo Holandês com uma balança de joalheiro.
     Estando a baleia do Pequod decapitada e seu corpo esfolado, sua cabeça foi içada contra o costado do navio – onde ficou meio suspensa na água, de modo que ainda podia, em grande parte, flutuar em seu elemento natural. Ali, com a embarcação tensionada e abruptamente inclinada sobre ela, devido à enorme tração para baixo exercida pelo topo do mastro, e todos os lais de verga daquele lado projetando-se como guindastes sobre as ondas; ali, a cabeça de sangue gotejante balançava no cintado do Pequod como a do gigante Holofernes no cinturão de Judite.
     Quando esta última tarefa foi cumprida era meio-dia, e os homens do mar foram para baixo almoçar. O silêncio reinava no convés outrora tumultuado, mas agora deserto. Uma intensa tranquilidade de cobre, como um universal lótus amarelo, abria aos poucos suas silenciosas e desmesuradas folhas sobre o oceano.
     Passou-se um curto espaço de tempo, e em meio àquele silêncio Ahab saiu sozinho de sua cabine. Dando algumas voltas no tombadilho, parou para observar além do costado e então, andando devagar por entre as correntes, pegou a pá comprida de Stubb – que ainda estava lá depois da degola – e, cravando-a na parte inferior da massa meio suspensa, colocou a outra ponta embaixo do braço como uma muleta e ficou assim, apoiado, com os olhos fixos e atentos voltados para a cabeça.
     Era uma cabeça negra e encapuzada; e pendurada ali no meio de uma calmaria tão intensa, ela parecia a da Esfinge no deserto. “Fala, extraordinária e venerável cabeça”, murmurou Ahab, “que, embora não agraciada com barbas, aqui e ali apresentas o musgo respeitável; fala, cabeça poderosa, conta-nos o segredo que guardas em ti. De todos os mergulhadores, tu mergulhaste mais fundo. Essa cabeça, sobre a qual o sol lá em cima brilha, moveu-se pelas fundações deste mundo. Onde nomes e navios esquecidos enferrujam, e esperanças e âncoras perdidas apodrecem; onde, em seu porão de morte, a nau terra encontra lastro nos ossos de milhões de afogados; ali, naquele terrível mundo aquático, ali era a tua moradia mais corriqueira. Estiveste onde sino e mergulhador jamais estiveram; dormiste ao lado de muitos marinheiros, onde mães insones teriam dado a vida para repousar. Viste os amantes abraçados saltando do navio em chamas; de corações unidos eles afundaram sob a onda triunfante; fiéis um ao outro, quando o céu lhes parecia falso. Viste o oficial assassinado, quando lançado do convés pelos piratas à meia-noite; durante horas caiu na mais profunda meia-noite de sua goela insaciável; e os assassinos continuaram navegando incólumes – enquanto raios velozes destroçavam o navio vizinho que podia estar trazendo um marido fiel para braços abertos e ansiosos. Ó, cabeça! Viste o suficiente para apartar os planetas e tornar Abraão descrente, e nem uma sílaba escuto de ti!”

“Vela à vista!”, gritou uma voz triunfal do alto do topo do mastro principal.
“É mesmo? Bem, isso sim é uma alegria”, gritou Ahab, aprumando-se de pronto, enquanto as nuvens tempestuosas se dissipavam de sua fronte. “Esse grito tão cheio de vida em meio a esse marasmo poderia converter um homem. – Onde está?”
“A três graus da proa, a estibordo, senhor, e trazendo a brisa com ela!”
“Cada vez melhor, meu rapaz. Que São Paulo também viesse junto e trouxesse com ele sua brisa para minha asfixia! Ó, natureza! Ó, alma do homem! Suas analogias vão além de todas as palavras! Nem o menor átomo se move ou vive na matéria sem que tenha uma sutil duplicata no espírito.”  

continua na página 337...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1  - Miragens
68 - A manta / 69 - O funeral / 70 - A esfinge /                            
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o  Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias. O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam. A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.

E você com o quê se identifica?

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