Moby Dick
Herman Melville50 - O Bote e a Tripulação de Ahab - Fedallah
“Quem teria imaginado uma coisas dessas, Flask!”,
exclamou Stubb; “se eu tivesse apenas uma perna, você não
me veria num bote, a não ser talvez para tapar um buraco
com a minha perna de pau. Ah! Ele é um velho formidável!”
“Não acho nada de surpreendente, por conta disso”, disse Flask. “Se a perna
dele fosse cortada até os quadris, aí seria diferente. Isso o tornaria inválido; mas,
você sabe, ele tem um dos joelhos e boa parte do outro.”
“Não sei, não, meu pequeno; nunca o vi de joelhos.”
*****
Entre os conhecedores de baleias, discute-se muito se, considerando a importância fundamental de sua vida para o êxito da viagem, é certo um capitão baleeiro arriscar essa vida tomando parte ativa nos perigos da pesca. Assim os soldados de Tamerlão sempre discutiam, com lágrimas nos olhos, se aquela vida valiosa deveria ser exposta ao fragor da batalha.
Mas com Ahab a questão assumia um aspecto diverso. Considerando-se que em
duas pernas o homem é apenas uma criatura claudicante diante do perigo;
considerando-se que a perseguição de baleias se dá sempre em grandes e
extraordinárias dificuldades; que cada momento isolado, de fato, assim encerra
um risco; sob tais circunstâncias será prudente um aleijado subir num bote
baleeiro durante a caçada? De um modo geral, os proprietários do Pequod
deveriam achar que não.
Ahab bem sabia que seus amigos em terra não se preocupariam com o fato de
ele entrar num bote em meio às vicissitudes relativamente inócuas da caçada, só
para estar perto da ação e dar ordens pessoalmente, mas ter um bote
exclusivamente à sua disposição para conduzir a caçada – e, além disso, equipado
com cinco homens adicionais, para tripular este bote, o Capitão Ahab bem sabia
que tais conceitos generosos jamais passariam pela cabeça dos proprietários do
Pequod. Portanto, não havia solicitado a eles uma tripulação para o bote, nem de
forma alguma havia demonstrado seus desejos nesse sentido. Não obstante, havia
tomado em particular todas as providências necessárias quanto ao caso. Até se
tornar pública a descoberta de Archy, os marinheiros mal poderiam imaginar tal
coisa, embora pouco depois de deixarem o porto, todos tendo terminado a rotina
de preparar os botes para o serviço, algum tempo depois disso, Ahab tivesse sido
visto ocupado com a preparação de toletes para o bote que se considerava de
reserva com as próprias mãos, e até mesmo cortando pequenos espetos de
madeira, que são fixados na ranhura da proa para deixar correr a corda: quando
viram tudo isso, e, em especial, sua solicitude ao colocar um forro suplementar
para revestir o fundo do bote, como que para fazê-lo suportar melhor a pressão
aguda de sua perna de marfim, e também a ansiedade que demonstrou ao
modelar com precisão a tábua de coxa, como é chamada às vezes a peça
horizontal da proa do bote para segurar o joelho quando se atira a lança contra a
baleia; quando viram quantas vezes ele subia naquele bote e ficava com o seu
único joelho preso na concavidade semicircular da tábua, e com um cinzel de
carpinteiro tirando um pouco ali, acertando um pouco aqui; todas essas coisas,
repito, despertaram muito interesse e curiosidade. Mas quase todos pensaram que
esses cuidados especiais preparatórios de Ahab visavam apenas à caçada final de
Moby Dick; pois ele já havia revelado sua intenção de dar caça ao monstro mortal
pessoalmente. Mas tal suposição de modo algum envolvia a mais remota suspeita
de que houvesse uma tripulação designada para aquele bote.
Ora, com os fantasmas subalternos, qualquer mistério que ainda houvesse logo
se dissipou; pois num baleeiro os mistérios logo mínguam. Além disso, vez por
outra, chega uma indefinível miscelânea oriunda de estranhas nações, dos mais
remotos tugúrios e covis da terra para guarnecer os baleeiros de foragidos
flutuantes; e os próprios navios muitas vezes recolhem estranhas criaturas à
deriva no mar aberto, a se debater sobre tábuas, restos de naufrágios, remos,
botes, canoas, juncos japoneses destroçados, e não sei mais o quê; tanto que o
próprio Belzebu poderia subir pelo costado e entrar na cabine para conversar com
o capitão, que isso não causaria nenhuma comoção irrefreável no castelo de proa.
Mas, seja como for, o certo é que logo os fantasmas subalternos encontraram
seus lugares em meio à tripulação, embora ainda fossem um pouco diferentes dos
outros; entretanto Fedallah, o homem do turbante na cabeça, manteve-se um
mistério protegido até o fim. De onde viera até este mundo gentil, que tipo de
ligação inexplicável o unia ao destino particular de Ahab, a ponto de exercer
sobre este uma espécie de pressentida influência, só Deus sabe; mas parecia
exercer até mesmo autoridade sobre ele. Mas não era possível manter um ar de
indiferença em relação a Fedallah. Era uma dessas criaturas que as pessoas
civilizadas e domésticas da zona temperada veem apenas em sonhos, e ainda
assim vagamente; mas cujo tipo às vezes ocorre nas imutáveis comunidades
Asiáticas, especialmente nas ilhas Orientais a leste do continente – aqueles países
isolados, imemoriais e imutáveis, que mesmo nos tempos modernos ainda
guardam muito do primitivo e do fantasmagórico das primeiras gerações da
terra, quando a recordação do primeiro homem era uma lembrança nítida, e
todos os homens seus descendentes, ignorando de onde ele veio, olhavam uns
para os outros como verdadeiros fantasmas, e perguntavam ao sol e à lua por que
foram criados e com qual finalidade; quando no entanto, segundo o Gênese, os
anjos de fato se casavam com as filhas dos homens, e – acrescentam os rabinos
não canônicos – também os demônios se entregavam a amores terrenos.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.
Continua na página 225...
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1 - Miragens
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Leia também:
Moby Dick: Etimologia, Excertos, Citações / Moby Dick: 1 - Miragens
Moby Dick: 41 - Moby Dick (a) / Moby Dick: 41 - Moby Dick (b) / Moby Dick: 42 - A Brancura da Baleia /
Moby Dick: 46 - Conjecturas / Moby Dick: 47 - O Esteireiro / Moby Dick: 48 - A Primeira Descida(a) /
Moby Dick: 50 - O Bote e a Tripulação de Ahab - Fedallah /
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melville, sobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.
E você com o quê se identifica?
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