quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (IV.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

IV
 .

     Era aquilo que desnaturava os sistemas, levando um ao exagero revolucionário, empurrando o outro para uma afetação de prudência, conduzindo-os, enfim, e sem eles quererem, para além das suas verdadeiras ideias, nessa fatalidade de encarnar um papel que não se escolheu. 
     Suvarin, que os escutava, deixou transparecer no seu rosto de moça loura um silencioso desprezo, o esmagador desprezo do homem que está pronto a dar a vida, obscuramente, sem a glória do martírio.

— É para mim que estás dizendo isso? — perguntou Etienne. — Estás com inveja? 
— Inveja de quê? — respondeu Rasseneur. — Eu não me dou ares de grande homem, não procuro criar uma seção em Montsou para ser o secretário.

     O outro quis interrompê-lo, mas ele continuou: 

— Vamos, sê franco! A ti pouco te importa a Internacional, queres é estar à nossa frente, bancar o importante, que mantém correspondência com o famoso Conselho Federal do Norte!

     Houve um silêncio. Etienne, trêmulo, respondeu: 

— Está bem... Acreditei que estava agindo decentemente; sempre te consultei, por saber que combatias aqui muito tempo antes de mim. Mas já que não podes suportar ninguém ao teu lado, passarei a trabalhar sozinho de hoje em diante... Para começar, previno-te de que a reunião vai-se realizar e os camaradas vão aderir mesmo que te oponhas e Pluchart não venha. 
— Ora, aderir!... — murmurou o taberneiro. — Isso não é tudo. Tens que convencê-los a pagar a cotização. 
— Não terão que pagar agora. A Internacional dá um prazo aos trabalhadores em greve. Pagaremos mais tarde, ela é que virá imediatamente em nosso auxílio.

     Rasseneur perdeu a calma. 

— Pois veremos... Vou tomar parte nessa tua reunião e vou falar. Fica sabendo que não te deixarei virar a cabeça dos meus amigos! Vou esclarecê-los sobre seus verdadeiros interesses. Vamos ver a quem vão seguir, se a mim, que eles conhecem há trinta anos ou a ti, que em menos de um ano transformaste isto aqui numa confusão... Não! não! deixa-me em paz! Agora o mais forte vai esmagar o outro!

     E saiu, batendo com a porta. As guirlandas de flores estremeceram no teto, os escudos dourados balançaram-se nas paredes Em seguida a grande sala voltou à sua paz pressaga.
    Suvarin continuava a fumar com seu jeito delicado, sentado em frente à mesa. Depois de ter caminhado por algum tempo em silêncio, Etienne começou a desabafar com todas as palavras que tinha. Então era culpa sua se trocavam aquele vagabundo por ele? E defendeu-se dizendo que nunca tinha procurado a popularidade, não sabia mesmo como aquilo tudo se tinha armado: a amizade sincera dos moradores do conjunto habitacional, a confiança dos mineiros o poder que tinha sobre eles no momento atual. Mostrou-se indignado com a acusação de querer instaurar a desordem por ambição; e batia no peito protestando sua fraternidade.
     Com um movimento brusco parou na frente de Suvarin e exclamou 

— Digo com toda a honestidade: se soubesse que tudo isto ia custar uma gota de sangue a um amigo, embarcava para a América agora mesmo!

     O mecânico deu de ombros e um sorriso imperceptível aflorou-lhe novamente aos lábios. 

— Ora! sangue... — murmurou. — E daí? A terra está precisando de sangue...

     Etienne, mais calmo, arrastou uma cadeira, sentou-se do outro lado da mesa e apoiou os cotovelos nela. Aquela cabeça loura, cujos olhos sonhadores lançavam às vezes selvagens faíscas rubras, fascinava-o, exercia sobre sua vontade uma ação singular. Sem que o companheiro falasse, era o próprio silêncio que o conquistava, absorvendo-o pouco a pouco. 

— Vejamos, o que farias em meu lugar? Não tenho razão de querer agir? A melhor coisa a fazer é entrar para essa Associação não é?

     Suvarin, depois de ter exalado lentamente uma baforada, respondeu com sua palavra favorita: 

— Besteiras! Mas que seja... Aliás, essa tal de Internacional vai funcionar mesmo, dentro em breve. Ele está tratando disso. 
— Ele quem? 
— Ele!

     Esta última palavra fora pronunciada a meia voz, com fervor religioso, em direção ao Oriente. Falava do mestre, de Bakunin, o exterminador. 

— Só ele pode, tem força para isso — continuou. — Esses teus sábios são uns idiotas com suas teorias da evolução. Dentro de três anos a Internacional, sob as ordens de Bakunin, vai esmagar o velho mundo.

     Etienne era todo ouvidos. Tinha sede de saber, de compreender esse culto de destruição, sobre o qual o mecânico não dava senão detalhes obscuros, como se estivesse guardando mistério para si. 

— Explica-te, homem. Qual é a finalidade de vocês? 
— Destruir tudo... Exterminar as nações, os governos, a propriedade, Deus e o culto. 
— Estou entendendo. Mas a que leva isso? 
— À comuna primitiva e sem forma, a um mundo novo, ao começo de tudo. 
— E os meios de execução? Como é que vocês vão fazer? 
— Pelo fogo, pelo veneno, pelo punhal. O salteador é o verdadeiro herói, o vingador popular, o revolucionário em ação, sem frases tiradas dos livros. E preciso que uma série de horríveis atentados aterre os poderosos e acorde o povo.

     Falando, Suvarin transformava-se, ficava terrível. Em êxtase, erguia-se da cadeira, uma chama mística incendiava-lhe os olhos pálidos e suas mãos delicadas comprimiam a borda da mesa a ponto de quebrá-la. Cheio de medo, o outro o fitava, pensando nas histórias de que conhecia trechos vagos, mediante confidências entrecortadas: tesouros abarrotados por baixo dos palácios do czar, chefes de polícia abatidos a punhaladas como javalis, uma amante dele, a única mulher que amara, enforcada em Moscou numa manhã de chuva, enquanto ele na multidão beijava-a com os olhos, despedindo-se. 

— Não, não! — murmurou Etienne, fazendo um grande gesto para espantar essa abominável visão. — Nós ainda não chegamos a esse ponto. Assassinato, incêndio, nunca! Isso é monstruoso e injusto. Todos os companheiros se levantariam para estrangular o culpado!

     Continuava não compreendendo aquelas teorias. E depois, seu povo recusava-se a aceitar esse sonho sombrio de extermínio do mundo, que ficaria ceifado como um campo de centeio, arrasado.
     Que fariam depois? Como os povos voltariam a crescer? Exigia uma resposta 

— Explica o teu programa. Nós queremos saber para onde vamos.

     Suvarin, então, concluiu placidamente, com seu olhar fluido e vago: 

— Todos os raciocínios sobre o futuro são criminosos porque impedem a destruição pura e entravam a marcha da revolução.

     Esta última tirada fez Etienne sorrir, apesar do arrepio que o perpassara. Aliás, ele confessava de bom grado que alguma coisa de útil havia em tais ideias, cuja horrível simplicidade o atraía. Mas seria perder a partida para Rasseneur advogar tal causa ante os companheiros. Tinha de ser prático.
     A viúva Désir propôs-lhes almoçarem. Aceitaram, passando para o bar, que um biombo separava do salão de baile durante a semana. Assim que acabaram a omelete e o queijo, o mecânico disse que ia embora; como o outro o detivesse, exclamou: 

— Para quê? Para ouvir vocês dizendo besteiras inúteis? Estou farto delas! Até logo!

     E partiu, com seu jeito doce e obstinado, de cigarro na boca.
     O nervosismo de Etienne aumentava. Era uma hora; decididamente Pluchart faltaria à palavra dada. Por volta de uma e meia os delegados começaram a aparecer, e ele, enquanto os recebia, vigiava as entradas, receoso de que a companhia mandasse seus espiões habituais. Examinava cada carta de convocação, perscrutava os rostos. Mas muitos entravam sem a carta, bastava conhecê-los para abrir-lhes a porta. Às duas horas chegou Rasseneur, que terminou de fumar seu cachimbo diante do balcão, conversando calmamente. Essa calma zombeteira acabou de enervá-lo, ainda mais que tinham vindo uns irresponsáveis, só para se divertirem, como Zacharie, o jovem Mouque e outros; eram os que não se importavam com a greve e achavam ótimo não fazer nada. E, sentados a uma mesa, gastando os últimos dois soldos numa cerveja, riam, faziam troça dos camaradas, dos convictos, que iam morrer de tédio naquela reunião.
     Decorreram mais quinze minutos. A assistência começava a dar mostras de impaciência. Etienne, já desesperado, decidiu-se; ia entrar quando a viúva Désir, que espiava a rua, exclamou: 

— Aí vem o homem!

     Realmente, era Pluchart. Vinha num carro puxado por um cavalo atacado de tuberculose pulmonar. Foi logo saltando para o chão, franzino, bem parecido, de cabeça quadrada e muito grande, usando por baixo da sobrecasaca de pano preto os complementos domingueiros típicos de um operário rico. Havia cinco anos que não negava na lima, e cuidava do seu aspecto, sobretudo dos cabelos, penteados com correção, vaidoso dos seus sucessos na tribuna. Mas conservava certo endurecimento nas articulações e as unhas das suas mãos largas não cresciam, roídas pelo ferro. Sendo muito ativo, percorria a província sem descanso para divulgar suas ideias. 

— Não me queiram mal! — disse ele, adiantando-se às perguntas e recriminações. — Ontem, conferência em Preuilly pela manhã e reunião em Valençay à tarde. Hoje, almoço em Marchiennes com Sauvagnat... Afinal, pude tomar este carro. Estou exausto, podem ver pela minha voz. Mas não tem importância, falarei do mesmo jeito.

     Estava na soleira da porta do Bon-Joyeux quando estacou, exclamando: 

— Diacho! estava esquecendo as fichas! Ficaríamos a ver navios!

     Voltou ao carro, que já estava sendo manobrado pelo cocheiro, e tirou do guarda-volume uma pequena caixa preta de madeira, que levou debaixo do braço.
    Etienne, radiante, seguia-o de perto, enquanto Rasseneur, profundamente abatido, nem ousava estender-lhe a mão. Mas o outro já a apertava, falando de passagem sobre a carta: que ideia a dele! Por que não fazer a reunião quando se apresentava a oportunidade?
     A viúva Désir perguntou-lhe se queria beber alguma coisa, mas ele recusou. Não era preciso, falaria sem beber. Apenas, tinha pressa, pretendia ainda dar um pulo a Joiselle para um encontro com Legoujeux.
     Entraram então em grupo no salão de baile, seguidos de Maheu e Levaque, que chegavam atrasados. E a porta foi fechada a chave, por medida de segurança, o que fez os trocistas inventarem mais ditos espirituosos, Zacharie gritando ao jovem Mouque que talvez eles fossem fazer um filho todos juntos para se encerrarem dessa maneira.
    Uns cem mineiros, sentados nos bancos, esperavam no ar abafado do recinto, de cujo soalho o suor nauseabundo do último baile se evaporava. Houve cochichos, olhares para a porta, enquanto os recém-chegados sentavam nos lugares vazios. O senhor de Lille foi detidamente examinado, sua sobrecasaca preta causou surpresa e inquietação.
     Mas imediatamente, sob proposta de Etienne, votou-se a composição da mesa. Ele lançava os nomes e os outros aprovavam levantando a mão. Pluchart foi eleito presidente, tendo como assessores Maheu e o próprio Etienne. Houve um arrastar de cadeiras e a mesa diretora instalou-se. Por um instante procurou-se o presidente agachado atrás da escrivaninha, sob a qual guardava a caixa que não tinha largado. Ao reaparecer, bateu ligeiramente com a mão, pedindo atenção, e em seguida começou com voz rouquenha: 

— Cidadãos...

continua na página 212...
____________________

Quarta Parte - (IV.b) / 
____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário