Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quarta Parte
I
Naquela segunda-feira, o Hennebeau haviam convidado para
almoçar os Grégoire e sua filha Cécile. Tinham planejado uma excursão: ao
levantarem-se da mesa, Paul Négrel devia ir mostrar às senhoras uma
galeria, a Saint-Thomas, que acabava de ser reaberta com todos os
requintes. Mas o passeio não passaria de um amável pretexto; essa excursão
fora inventada pela Sra. Hennebeau, para apressar o casamento de Cécile
com Paul.
Mas, subitamente, nessa mesma segunda-feira, às quatro horas da
manhã, rebentara a greve. Quando, no dia primeiro de dezembro, a
companhia aplicou seu novo sistema de salário, os mineiros permaneceram
calmos. No fim da quinzena, no dia do pagamento, nenhum deles reclamou.
Todos os empregados, desde o diretor até o último dos vigias, acreditavam
que a tarifa fora aceita. E agora, desde a madrugada, era grande a surpresa
com aquela declaração de guerra, de uma tática e de uma uniformidade que
indicavam claramente uma direção enérgica. Às cinco horas Dansaert foi
acordar o Sr. Hennebeau para preveni-lo de que nenhum homem descera à
Voreux. O conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarente, que ele
atravessara, dormia, dormia profundamente, com as portas e janelas
fechadas. E o diretor, assim que saltou da cama, os olhos ainda pesados de
sono, não teve mais descanso: de quinze em quinze minutos chegavam
mensageiros; como granizo, as mensagens caíram sobre sua mesa. A
princípio acreditou que a revolta se limitaria à Voreux, mas as notícias eram
cada vez mais graves: era Mirou, era Crèvecoeur, era Madeleine, onde só os
cavalariços tinham aparecido; eram a Victoire e a Feutry-Cantel, as duas
minas mais disciplinadas, onde a descida se achava reduzida a um terço; só
a Saint-Thomas tinha o seu pessoal completo e parecia estar fora do
movimento. Até as nove horas ditou mensagens e telegrafou para toda
parte, ao prefeito de Lille, aos administradores da companhia, preveniu as
autoridades, pediu ordens. Por outro lado, enviou Négrel para as minas mais
próximas, a fim de fazer uma inspeção e obter informações precisas.
De repente, o Sr. Hennebeau lembrou-se do almoço, e ia enviar o
cocheiro para prevenir os Grégoire de que a reunião estava adiada quando
uma hesitação, uma quebra de vontade o reteve, a ele, que, em algumas
frases rápidas, preparara militarmente seu campo de batalha. Subiu aos
aposentos da esposa, que estava sendo penteada por uma camareira, no seu
toucador.
— Ah, estão em greve! — disse ela tranquilamente, ao ser
consultada pelo marido. — Pois muito bem; e o que é que vamos fazer?
Não vamos deixar de comer por isso, não é?
E, opiniática, ficou nisso. Por mais que lhe dissesse que o almoço
seria um desastre, que a visita à mina de Saint-Thomas não poderia ser
realizada, ela teve uma resposta para tudo: por que perder uma refeição que
já estava preparada? Quanto a visitar a mina, podia-se renunciar a isso, se o
passeio fosse realmente uma imprudência.
— De resto — continuou ela assim que a camareira saiu —, você
sabe muito bem por que insisto em receber essa boa gente. Este casamento
deveria interessá-lo muito mais do que as bobagens dos seus operários.
Enfim, já disse que quero; por favor, não me contrarie.
Ele encarou-a com um ligeiro estremecimento e seu rosto duro e
fechado de homem de disciplina exprimiu a dor secreta de um coração
amargurado. Ela permanecera de ombros nus, já bem madura, mas
esplêndida e desejável ainda, com a sua estatura de Ceres dourada pelo
outono.
Por um instante, ele foi possuído pelo brutal desejo de tomá-la em
seus braços, de afundar sua cabeça entre aqueles seios nus, naquela peça
tépida de um luxo íntimo de mulher sensual, onde pairava um perfume
irritante de almíscar. Mas recuou; havia dez anos que o casal dormia em
quartos separados.
— Está bem — disse ele, deixando o quarto. — Deixemos as coisas
seguirem seu curso.
O Sr. Hennebeau nascera nas Ardennes. Tivera um começo difícil
de rapaz pobre, jogado como órfão nas ruas de Paris. Após ter seguido com
muita dificuldade os cursos da Escola de Minas partira, aos vinte e quatro
anos, para a Grand-Combe, com o posto de engenheiro do poço Santa
Bárbara. Três anos mais tarde era engenheiro de divisão em Pas-de-Calais,
nas minas de Marles. Foi ali que casou, desposando, por um desses golpes
de sorte, que são a regra geral para os altos funcionários de minas, a filha de
um rico proprietário de uma fábrica de fiação de Arras. Durante quinze anos
o casal viveu na pequena cidade provinciana, sem que um acontecimento,
nem mesmo o nascimento de um filho, rompesse a monotonia de sua
existência. Uma crescente irritação distanciava a mulher, que fora educada
no respeito pelo dinheiro, cada vez mais desdenhosa por aquele marido que
ganhava tão duramente um salário de pobre e do qual não tirava nenhuma
das satisfações vaidosas com que sonhara no colégio. Ele, de uma
honestidade muito estrita, não especulava, mantinha-se em seu posto, como
um bom soldado. A divergência fora-se tornando cada vez maior,
agravando-se por um desses singulares mal-entendidos da carne, que
tornam frígidos mesmo os mais ardentes. Ele adorava sua mulher, ela era de
uma sensualidade de loura gulosa. Mas desde então já dormiam separados,
incômodos na presença um do outro, ferindo-se com facilidade. A partir
dessa época a mulher arranjou um amante, fato que ele ignorou. Por fim,
deixou Pas-de-Calais para ocupar em Paris um posto de administração,
pensando que ela lhe ficaria grata por isso. No entanto, Paris acabou de
separá-los, essa Paris com a qual ela sonhava desde a sua primeira boneca e
onde, em oito dias, perdeu todo o provincianismo, tornando-se elegante,
lançando-se em todas as loucuras luxuosas da época. Os dez anos que ali
passou foram preenchidos por uma grande paixão, uma ligação pública com
um homem que, ao abandoná-la, quase a matou. Dessa vez o marido não
pôde continuar ignorando, e resignou-se, após ter feito cenas terríveis,
desarmado ante a tranquila inconsciência daquela mulher que buscava a
felicidade e colhia-a onde quer que a encontrasse. Fora logo depois do
rompimento, quando a vira doente de desgosto, que aceitara a direção das
minas de Montsou, esperando ainda pô-la no bom caminho, no deserto das
regiões carboníferas.
Os Hennebeau, desde que viviam em Montsou, tinham voltado para
o tédio irritado dos primeiros tempos do seu casamento. No princípio, ela
pareceu aliviada em meio àquela grande calma, saboreando uma espécie de
relaxamento na monotonia chata da imensa planície. Passou a viver
retirada, afetando ser uma mulher acabada, com o coração morto, tão
distante do mundo que nem se importava de engordar. Depois, sob essa
indiferença, um último arranco febril a possuiu, um desejo de viver mais
ainda, desejo que ela conseguiu enganar durante seis meses, organizando e
mobiliando a seu gosto o palacete da direção. Achava-o horrível e por isso
encheu-o de tapeçarias, de bibelôs, de um grande luxo artístico do qual se
falou até em Lille. Mas agora essa região a exasperava, não podia mais ver
aqueles campos enfadonhos que se estendiam até o infinito, aquelas
estradas eternamente negras, sem uma árvore, e onde formigava uma
população horrenda que só lhe dava nojo e medo. Começaram então os
lamentos de exilada; acusava o marido de a ter sacrificado ao ordenado de
quarenta mil francos que recebia, miséria que mal dava para prover a casa.
Na sua opinião, ele devia ter imitado os outros, exigido uma cota, obtido
ações, chegado a alguma coisa, enfim. E insistia, com a crueldade da
herdeira que trouxera a fortuna. Ele, sempre correto, refugiando-se na calma
falsa de homem de administração, vivia devastado de desejo por essa
mulher, um desses desejos tardios e violentos que aumentam com a idade.
Nunca a possuíra como amante, e vivia perseguido pela eterna fantasia de
tê-la uma vez como ela se dava a outro. Todas as manhãs sonhava
conquistá-la à noite; depois, quando ela o fitava com seus olhos altaneiros,
quando sentia que tudo nela era uma recusa, evitava até roçá-la com a mão.
Era um sofrimento sem cura possível, escondido sob a carapaça da sua
atitude, o sofrimento de uma natureza afável agonizando em silêncio por
não ter encontrado a felicidade conjugai. Ao término de seis meses, tendo
mobiliado completamente o palacete e sem mais nada para ocupar seus
dias, ela deixou-se escorregar novamente para a languidez do tédio, como
vítima que o exílio mataria, declarando-se feliz se morresse. Justamente
nessa época, Paul Négrel surgiu em Montsou. Sua mãe, viúva de um capitão
provençal, que vivia em Avinhão com um modesto rendimento, tivera de se
alimentar a pão e água para conseguir sustentá-lo na Escola Politécnica, de
onde, aliás, ele saíra com más notas. Seu tio, o Sr. Hennebeau, aconselhara
o a pedir demissão do emprego anterior e oferecera-lhe um posto de
engenheiro na Voreux. Desde então, tratado como filho da casa, ali tinha
seu quarto, ali comia e vivia, o que lhe deixava a metade do seu salário de
três mil francos livre para enviar à mãe. O Sr. Hennebeau procurava
esconder á proteção que dispensava ao sobrinho, falando das dificuldades
pelas quais passava um jovem para montar um lar num dos pequenos chalés
reservados aos engenheiros das minas. Imediatamente, a Sra. Hennebeau
começou a representar o papel da tia bondosa, tuteando o sobrinho, velando
pelo seu bem-estar. Sobretudo nos primeiros meses mostrou-se muito
maternal, cheia de conselhos a propósito das menores coisas. Mas, sendo
mulher, escorregou para o terreno das confidências. O rapaz, jovem e
prático, de uma inteligência inescrupulosa, professando sobre o amor
teorias de filósofo, divertia-a pela vivacidade do seu pessimismo, que
aguçava suas feições finas, de nariz pontudo. Naturalmente uma noite ele se
encontrou nos braços dela, e ela pareceu entregar-se por bondade, não
deixando de lhe dizer que já não tinha mais coração e desejava apenas ser
sua amiga. E, realmente, não teve ciúmes, brincava até com ele a respeito
das operadoras de vagonetes que o rapaz afirmava serem abomináveis,
irritava-se mesmo por ele não ter um repertório de devassidões para lhe
contar. Depois, a ideia de fazê-lo casar apaixonou-a, sonhou sacrificar-se e
dá-lo, ela mesma, a uma moça rica. As suas relações, no entanto,
continuavam, eram um brinquedo para passar tempo, em que ela punha suas
derradeiras ternuras de mulher ociosa e acabada.
Decorreram dois anos. Uma noite, o Sr. Hennebeau, ouvindo pés
descalços passando à sua porta, teve uma suspeita. Essa nova aventura
revoltava-o; na sua casa, debaixo do seu teto, entre esta mãe e este filho!
Mas, no dia seguinte, a mulher lhe falou precisamente da escolha que fizera
para o sobrinho: Cécile Grégoire. Entregava-se a esse casamento com tal
fervor, que ele envergonhou-se da monstruosa suspeita que tivera. Ao rapaz,
continuou a dedicar algum reconhecimento, pois fizera menos triste a casa
desde a sua chegada.
Ao descer dos aposentos da esposa, o Sr. Hennebeau encontrou no
vestíbulo o sobrinho Paul, que voltava da inspeção. Este mostrava-se
bastante divertido com toda aquela história de greve.
— Então? — perguntou o tio.
— Dei um passeio pelos conjuntos habitacionais dos mineiros.
Parece tudo muito calmo. Creio que vão enviar delegados para discutirem
com a direção.
Nesse momento, a voz da Sra. Hennebeau soou no primeiro andar.
— És tu, Paul? Sobe, quero saber as novidades. Uma gente que vive
tão feliz querendo fazer-se de engraçada, bancando a valente...
O diretor teve de renunciar a saber mais, já que sua mulher lhe
tomava o mensageiro. Voltou e sentou-se no escritório, onde se amontoava
uma nova pilha de mensagens.
Às onze horas, quando os Grégoire chegaram, ficaram surpresos ao
serem postos para dentro às pressas por Hippolyte, o camareiro, que fora
colocado de sentinela à porta de entrada e lançava olhares inquietos para os
dois extremos da estrada. As cortinas do salão estavam fechadas, e eles
foram levados diretamente para o gabinete de trabalho, onde o Sr.
Hennebeau desculpou-se de recebê-los assim, mas o salão dava para a rua e
podia parecer que estavam provocando.
— Mas como? Ainda não sabem? — continuou de, vendo a
surpresa estampada nos rostos dos visitantes.
O Sr. Grégoire, quando soube que a greve tinha enfim sido
declarada, deu de ombros com a sua calma habitual. Ora! Não havia de ser
nada, essa gente era boa... Com um movimento de queixo a Sra. Grégoire
aprovou a confiança do marido na secular resignação dos mineiros,
enquanto Cécile, sentindo-se muito alegre naquele dia, e bem de saúde,
trajando .um vestido de cor pastel, sorria à palavra greve, que lhe fazia
lembrar visitas e distribuição de esmolas pelos conjuntos habitacionais
mineiros.
Mas a Sra. Hennebeau, seguida de Négrel, surgiu toda vestida de
seda negra.
— Ora, ora, que aborrecimento! — exclamou ela da porta. — Então
esses homens não podiam ter esperado? Agora Paul se recusa a levar-nos
para a visita a Saint-Thomas.
— Pois permaneceremos aqui — disse galantemente o Sr. Grégoire.
— Será igualmente um prazer.
Paul limitara-se a saudar Cécile e sua mãe. Irritada com essa mostra
de pouco entusiasmo, sua tia ordenou-lhe, com um sinal, que se sentasse ao
lado da moça. Depois, ouvindo-os rir juntos, envolveu-os num olhar
maternal.
Nesse ínterim, o Sr. Hennebeau terminou de ler as mensagens e
redigiu algumas respostas. E a conversa prosseguia; sua mulher explicava
que não se ocupara daquele gabinete de trabalho. Realmente, a peça
conservara seu forro de parede vermelho desbotado, seus pesados móveis
de mogno, suas estantes estragadas pelo uso.
Passados quarenta e cinco minutos, iam sentar-se à mesa quando o
camareiro anunciou o Sr. Deneulin. Este, muito excitado, entrou e inclinou
se diante da Sra. Hennebeau. .
— Ah! vocês estão aqui? — disse ele, percebendo os Grégoire E
dirigiu-se ao diretor sem mais delongas:
— Como vai a coisa? O meu engenheiro acaba de me dizer.. Na
minha mina todos os homens desceram esta manhã, mas assim mesmo não
estou tranquilo, a greve pode alastrar-se. Já resolveram alguma coisa?
Viera a cavalo e a sua inquietação ficava patente no tom de voz
quase gritado e nos gestos bruscos que o faziam parecer um oficial da
cavalaria reformado.
O Sr. Hennebeau começou a informá-lo sobre a situação exata,
quando Hippolyte abriu a porta da sala de jantar. Interrompeu-se para dizer:
— Almoce conosco. À sobremesa, acabo de lhe contar.
— Pois bem, com muito prazer — respondeu Deneulin, tão
arrebatado pelos acontecimentos que aceitou sem mais cerimônias.
Mas em seguida teve consciência de sua indelicadeza e voltou-se
para a dona da casa, pedindo desculpas. Esta respondeu de maneira
encantadora, e, depois de ter mandado pôr um sétimo talher, instalou seus
convivas: a Sra. Grégoire e Cécile de um e outro lado do marido, o Sr.
Grégoire e Deneulin à sua direita e à sua esquerda, respectivamente, e Paul,
que ela colocou entre a moça e o pai desta. Ao hors-d'oeuvre', ela disse com
um sorriso:
— Sei que me desculparão, desejava abrir este almoço com ostras...
Como sabem, às segundas-feiras um carregamento delas chega a
Marchiennes, e eu tinha planejado mandar a cozinheira até lá com o carro,
mas ela teve medo de ser apedrejada...
continua na página 177...
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Quarta Parte - (I.a)
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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