segunda-feira, 23 de março de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (VII.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

VII
 continuando...

     As mulheres deliravam; a de Maheu saindo da sua calma, presa da vertigem da fome; a de Levaque gritando; a velha Queimada, fora de si, agitando seus braços de bruxa; Philomene, sacudida por um acesso de tosse; e a filha de Mouque, num delírio, gritava palavras cheias de ternura para o orador.
     Dos homens, Maheu, conquistado, soltara um grito de cólera, entre Pierron, que tremia, e Levaque, que falava demais; os galhofeiros, Zacharie e o jovem Mouque, tentavam fazer graça, mas sentiam-se comovidos, admirados com o companheiro que pudera falar tanto tempo sem molhar a garganta. Mas era Jeanlin, encarapitado no monte de madeira, quem fazia mais estardalhaço, açulando Bébert e Lydie, agitando o cesto onde jazia Polônia. 
     O clamor era cada vez mais intenso. Etienne saboreava a embriaguez de sua popularidade. Era o seu poder que ele detinha ali, como que materializado naqueles três mil peitos, cujos corações fazia bater com uma palavra. Se Suvarin se tivesse dignado a vir, teria aplaudido suas ideias, à medida que as fosse reconhecendo, contente com os progressos anarquistas de seu discípulo, satisfeito com o programa, salvo o artigo sobre a instrução, um resto de tolice sentimental, já que a santa e salutar ignorância devia ser o banho de onde os homens surgiriam com nova têmpera. Quanto a Rasseneur, dava de ombros com desdém e cólera. 

— Tu vais deixar-me falar ou não? — gritou ele para Etienne. 

     Este saltou do tronco de árvore. 

— Fala, veremos se te escutam...

     Já Rasseneur o tinha substituído e pedia silêncio com um gesto. O barulho era cada vez maior; seu nome corria das primeiras fileiras, onde tinha sido reconhecido, às últimas, espalhadas por entre as faias. A multidão recusava-se a ouvi-lo, era um ídolo caído cuja vista bastava para enfurecer seus antigos fiéis. Sua elocução fácil, sua palavra cascateante e simpática, que por tanto tempo havia encantado, era chamada agora de tisana morna, para adormecer os covardes. Quis fazer o discurso de apaziguamento que trazia preparado sobre a impossibilidade de transformar o mundo mediante leis, sobre a necessidade de deixar à evolução social o tempo para amadurecer, mas ninguém lhe deu ouvidos; vaiaram-no, mandaram que se calasse; sua derrota do Bon-Joyeux agravou-se, tornou-se irremediável. Começaram a jogar punhados de musgo com gelo, uma mulher gritou com voz esganiçada: 

— Abaixo o traidor!

     Mas ele continuou explicando que a mina não podia ser propriedade dos mineiros, como é o tear do tecelão; declarou preferir a participação nos lucros, o operário interessado, transformado em filho da casa. 

— Abaixo o traidor! — repetiram mil vozes, enquanto as pedras começavam a voar.

     Nesse momento ele empalideceu e o desespero encheu seus olhos de lágrimas. Era o desmoronamento de sua existência, vinte anos de companheirismo ambicioso que afundavam sob a ingratidão das massas. Desceu do tronco com o coração despedaçado, sem forças para continuar. 

— Isso te faz rir? — balbuciou ele, dirigindo-se a Etienne triunfante. — Muito bem, desejo o mesmo para ti... Tua hora chegará, ouviste?

     E, como para eximir-se da responsabilidade nas desgraças que previa, fez um grande gesto e partiu sozinho através da campina muda e branca.
     A vaia continuava; todos ficaram surpresos ao verem em pé sobre o tronco o velho Boa-Morte, que falava sem levar em conta a gritaria. Até ali, Mouque e ele tinham-se conservado absortos, com aquele jeito deles, parecendo que estavam refletindo sobre coisas passadas. Sem dúvida entrara numa dessas crises repentinas de tagarelice, que às vezes mexiam tão violentamente com o seu passado fazendo que às lembranças viessem aos seus lábios aos borbotões e por horas a fio. Fizera-se um grande silêncio, todos escutavam aquele velho de uma palidez de espectro sob a lua. E, como ele contava coisas sem ligação imediata com o assunto em pauta, longas histórias que ninguém podia compreender, a emoção aumentou.
     Era da sua juventude que falava; narrava a morte dos seus dois tios esmagados na Voreux, a história da pneumonia que lhe carregara a mulher Mas a sua ideia central estava sempre presente no que dizia aquilo nunca andara bem e jamais andaria. Uma vez, tinham reunido quinhentos homens na floresta, porque o rei não queria diminuir a horas de trabalho. Em seguida, começou a contar a história de outra greve: vira tantas! Todas vinham desaguar sob tais árvores, aqui, no Plan-des-Dames, além, na Charbonnerie, ou mais longe ainda, no Saut-du-Loup. Em certas ocasiões fazia frio, em outras, calor. Uma noite chovera tanto que voltaram para casa sem poder falar. E os soldados do rei apareciam e as reuniões eram dispersadas a tiros. 

— Levantávamos a mão, assim, jurávamos não mais voltar à mina... Eu jurei muitas vezes, ah! se jurei!...

     A multidão escutava atônita, inquieta, quando Etienne, que acompanhava a cena, saltou para cima da árvore abatida e manteve o velho ao seu lado. Acabava de divisar Chaval entre os amigos da primeira fila. A ideia de que Catherine devia estar lá enchera-o de novo entusiasmo, da necessidade de ser aclamado diante dela.

— Camaradas, vocês ouviram bem o que ele disse. Aqui está um dos nossos anciãos, que falou dos seus sofrimentos e do que sofrerão nossos filhos, se não exterminarmos com os ladrões e os algozes.

     Foi terrível, nunca falara com tamanha violência. Com um braço ele segurava o velho Boa-Morte, empunhando-o como uma bandeira de miséria e de luto, clamando por vingança. Em frases rápidas referiu-se ao primeiro Maheu, citou toda aquela família gasta na mina, devorada pela companhia, continuando faminta após cem anos de trabalho. E, como contraponto, falou em seguida dos barrigas-cheias da administração, que suavam dinheiro, de toda a quadrilha de acionistas que, como manteúdos, viviam havia um século de não fazerem nada, apenas desfrutando dos corpos dos mineiros. Então não era horrível que toda uma população de mineiros, de pai para filho, rebentasse-se no fundo da terra, para que ministros pudessem receber seu dinheiro por baixo da mesa e gerações de fidalgos e burgueses dessem festas ou engordassem placidamente sentados junto à lareira? Estudara as doenças dos mineiros, citou todas com detalhes horripilantes: anemia, escrofulose, bronquite negra, asma sufocante, reumatismo que paralisa. Esses miseráveis, que serviam de pasto às máquinas, que eram encurralados como gado nos conjuntos habitacionais, as grande companhias absorviam aos poucos, regularizando assim a escravidão ameaçando arregimentar todos os trabalhadores de uma nação milhões de braços, para enriquecer um milhar de preguiçosos. Mas o mineiro não era mais o ignorantão, a besta esmagada nas entranhas da terra. Um verdadeiro exército brotava das profundezas das galerias, uma messe de cidadãos cuja semente germinava e faria estalar o chão num dia ensolarado. Saber-se-ia então se, no fim de quarenta anos de serviço, alguém se atreveria a oferecer cento e cinquenta francos de aposentadoria a um velho de sessenta anos que escarrava hulha e tinha as pernas minadas pela água dos veios. Sim! o trabalho acertaria suas contas com o capital, esse deus impessoal, desconhecido do operário, agachado em algum lugar, no mistério do seu tabernáculo, de onde sugava a vida dos mortos de fome que o alimentavam! Sim! iriam até ele, acabariam vendo sua cara à luz dos incêndios, afogariam em sangue esse porco imundo, esse ídolo monstruoso, empanturrado de carne humana!
     Calou-se, mas seu braço continuou estendido, apontando para o inimigo ao longe, não sabia onde ao certo, mas espalhado por toda a terra. Desta vez o clamor da multidão foi tão violento, que os burgueses de Montsou ouviram-no e olharam para os lados de Vandame, com medo de que fosse algum desabamento formidável. Os pássaros noturnos começaram a voar por cima do arvoredo, ao luar.
     Etienne quis concluir imediatamente: 

— Camaradas, qual é a decisão de vocês? Votam pela continuação da greve? 
— Sim! Sim! — gritaram todos. 
— E que medidas querem tomar? Nossa derrota é certa se alguns covardes decidirem trabalhar amanhã.

     As vozes voltaram num hausto de tempestade: 

— Morte aos covardes! 
— Vocês decidem então chamá-los ao dever, ao que foi jurado... Este é o plano que poderíamos pôr em prática: apresentarmo-nos nas minas e, com a nossa presença, trazer os traidores à ordem, mostrar à companhia que estamos todos de acordo e preferimos morrer a ceder. 
— É isso mesmo! Às minas! Às minas!

     Desde que começara a falar, Etienne procurava Catherine entre as cabeças pálidas que marulhavam à sua frente. Era certo que ela era. Mas Chaval continuava ali, dando de ombros e fingindo rir, devorado pela inveja, pronto a vender-se por um pouco daquela popularidade. 

— E se há espiões entre nós, camaradas, eles que tomem cuidado, nós já sabemos quem são... — continuou Etienne. — Sim, porque estou vendo mineiros de Vandame que não abandonaram o trabalho. 
— Isso é para mim? — perguntou Chaval com bravata. 
— É para aqueles a quem servir a carapuça... Mas, já que falas, devias compreender que aqueles que comem não deviam meter-se com os que têm fome. E tu trabalhas na Jean-Bart...

     Uma voz zombeteira o interrompeu: 

— Ele trabalha? Tem é uma mulher que trabalha para ele, isso sim...

     Chaval, de rosto afogueado, praguejou: 

— Vão para o inferno! Então é proibido trabalhar? 
— É! — gritou Etienne. — Quando os camaradas estão passando miséria para o bem de todos, é proibido ser egoísta e hipócrita e pôr-se do lado do patrão. Se a greve fosse geral, há muito tempo teríamos vencido... Então é correto que mesmo um único homem de Vandame se apresente ao trabalho enquanto Montsou está em greve? O grande golpe seria ter parado o trabalho em toda a região, tanto na mina de Deneulin como aqui, entendes? Só há traidores nos veios de Jean-Bart, todos vocês são uns traidores!

     Em torno de Chaval a turba estava ficando ameaçadora, punhos erguiam-se aos gritos de "Morra! Morra!", cada vez mais próximos; ele sentiu que o sangue lhe gelava nas veias, mas, no seu ódio a Etienne, na sua ânsia de vencê-lo, uma ideia fez que se aprumasse. 

— Escutem! Vão amanhã a Jean-Bart e vocês verão se eu trabalho!... Nós somos dos de vocês, mandaram-me aqui para dizer isto. É preciso apagar as caldeiras, é preciso que também os mecânicos entrem em greve. Tanto melhor se as bombas pararem, a água inundará as galerias e tudo irá para o inferno!

     Por sua vez ele foi furiosamente aplaudido, o próprio Etienne ficou ultrapassado. Sucediam-se os oradores no tronco da árvore, gesticulando no meio da gritaria, lançando propostas terríveis. Era o ataque de loucura da fé, a impaciência de uma seita religiosa que, cansada de esperar pelo milagre prometido, decidira-se finalmente a provocá-lo. As cabeças enfraquecidas pela fome enxergavam vermelho, sonhavam com incêndios e sangue em meio a uma glória de apoteose, de onde subia a felicidade universal. E a lua, tranquila banhava aquele mar agitado, a floresta imensa cingia com seu grande silêncio aquele grito de massacre. Só a relva gelada estalava sob os sapatos, enquanto as faias, eretas na sua força, com a delicada ramagem dos seus galhos negros, engastados no céu branco, não viam nem ouviam os seres miseráveis que se agitavam a seus pés.
     Todos se empurravam, a mulher de Maheu, de repente, encontrou se ao lado do marido, e ambos fora de si, arrebatados pela lenta exasperação que havia meses os minava, aprovavam Levaque, que exagerava, pedindo a cabeça dos engenheiros. Pierron tinha desaparecido. Boa-Morte e Mouque falavam ao mesmo tempo, diziam coisas vagas e violentas que ninguém compreendia. Por brincadeira, Zacharie pedia a demolição das igrejas, enquanto o jovem Mouque batia com o seu taco no chão, só para aumentar a barulheira. As mulheres pareciam possessas: a de Levaque, de mãos nos quadris, insultava Philomène, que ela acusava de ter rido; a filha de Mouque falava em descadeirar os policiais a pontapés em certo lugar; a Queimada, que acabava de espancar Lydie, ao encontrá-la sem cesto e sem salada, continuava a dar bofetões no vazio, em todos os patrões que ela gostaria de apanhar. Por um instante Jeanlin ficara assustado, quando Bébert lhe disse que soubera por um outro menino que a mulher de Rasseneur os vira roubando Polônia, mas, depois de decidir que iria furtivamente soltar o animal na porta do Avantage, gritou mais forte ainda, abrindo sua faca nova e brandindo-a para todos os lados, sentindo-se glorioso ao vê-la brilhar. 

— Camaradas! Camaradas! — repetia Etienne exausto, rouco, tentando obter um minuto de silêncio para se entenderem definitivamente.

     Por fim calaram para escutá-lo. 

— Camaradas! Amanhã de manhã na Jean-Bart. Está combinado? 
— Sim, sim, na Jean-Bart! Morram os traidores!

     O furacão daquelas três mil vozes encheu o céu, indo extinguir-se na claridade pura da lua.

continua na página 254...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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