Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quarta Parte
IV
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Foi no estabelecimento da viúva Désir, no Bon-Joyeux, que se
marcou a reunião privada, para a quinta-feira, às duas horas.
A viúva, indignada com a miséria que estavam impondo aos seus
filhos, os mineiros, andava rubra, sobretudo depois que sua taberna ficara às
moscas. Nunca nenhuma greve tivera tão pouca sede; os beberrões
fechavam-se em casa, temendo desobedecer à palavra de ordem de calma e
sossego. Era o mesmo caso de Montsou, que costumava fervilhar de gente
nos dias de festa, e agora exibia sua rua larga, silenciosa e vazia, sem
vivalma. A cerveja não mais corria dos balcões e das bexigas, as sarjetas
estavam secas. Na estrada, na venda Casimir e no botequim Progrès só se
viam os rostos pálidos das taberneiras perscrutando o horizonte. Em
Montsou mesmo, todos os estabelecimentos que vendiam cerveja estavam
desertos, desde L'Enfant até o Tison, passando pelo Piquette e o Tête
Coupée. Apenas o Saint-Éloy, frequentado por contramestres, servia ainda
algumas cervejas. A solidão atingia até o Volcan, onde as mulheres não
tinham o que fazer por falta de fregueses, embora tivessem baixado o preço
de dez para cinco soldos, visto o rigor dos tempos. Era um verdadeiro luto
que se abatia pela região inteira.
— Com mil diabos! — gritou a viúva Désir, batendo com as mãos
nas coxas. — A culpa é dos policiais! Que me joguem na prisão, se
quiserem, mas estou disposta a dar-lhes uma boa dor de cabeça!
Para ela, todas as autoridades, todos os patrões eram policiais, um
termo de desprezo geral com que envolvia os inimigos do povo.
Acolhera com deleite o pedido de Etienne; a sua casa era
propriedade dos mineiros, que emprestaria gratuitamente o salão de baile,
faria ela mesma os convites, o que era uma exigência de lei. Aliás, se as
autoridades não gostassem, melhor! Ver-se-ia com que cara se
apresentariam.
No dia seguinte o rapaz lhe trouxe umas cinquenta cartas para
assinar e que ele fizera copiar pelos habitantes do conjunto habitacional que
sabiam escrever. Essas cartas foram enviadas para as minas, aos delegados e
a outros homens de confiança. A ordem do dia anunciada era discutir a
continuação da greve, mas, na realidade, esperava-se Pluchart, contava-se
com um discurso dele para conseguir a adesão em massa à Internacional...
Na quinta-feira pela manhã Etienne começou a ficar inquieto, vendo
que seu antigo contramestre não chegava, já que prometera por telegrama
estar lá na quarta-feira à noite. Que podia estar acontecendo? Sentia-se
irritado por não poder conversar com ele antes da reunião. Às nove horas
foi para Montsou, com a ideia de que talvez o mecânico para lá tivesse ido
diretamente, sem parar na Voreux.
— Não, o seu amigo não apareceu por aqui — respondeu a viúva
Désir. — Mas está tudo pronto, venha ver.
Conduziu-o ao salão de baile. A decoração ainda era a mesma,
guirlandas sustendo no teto uma coroa de flores de papel pintado, e escudos
de cartão dourado com nomes de santos e santas ao longo das paredes.
Apenas o tablado dos músicos tinha sido substituído por uma mesa e três
cadeiras a um canto; bancos atravessados enchiam a sala.
— Está muito bem — declarou Etienne.
— E já sabem — disse a viúva —, esta é a casa de vocês. Podem
gritar à vontade. Os policiais, para entrarem aqui, terão de passar por cima
do meu cadáver.
Apesar do seu nervosismo, ele não pôde deixar de sorrir ao observá-la, tão gorda ela lhe pareceu, com tal par de seios que na certa um só
homem não chegaria para abraçá-la; o que fazia dizer que, agora, dos seus
seis amantes da semana, ela acolhia dois por noite, para conseguir
satisfação.
Etienne admirou-se vendo entrar Rasseneur e Suvarin; e, como a
viúva os deixasse sozinhos na grande sala vazia, exclamou:
— Então, já vieram?
Suvarin, que trabalhara à noite na Voreux — os mecânicos não
estavam em greve —, vinha simplesmente por curiosidade. Quanto a
Rasseneur, havia dois dias que parecia nervoso, sua gorda cara de lua cheia
perdera o sorriso bondoso.
— Pluchart ainda não chegou, não sei o que vou fazer —
acrescentou Etienne.
O taberneiro desviou os olhos e respondeu entre dentes:
— Isso não me espanta, não o espero mais.
— Como?
Com ar decidido, olhando o outro de frente, disse então:
— Se queres saber, eu também lhe escrevi uma carta; nela pedi-lhe
que não viesse. É isso. Acho que temos de decidir nossos problemas entre
nós, sem apelar para estranhos.
Etienne, fora de si, trêmulo de cólera, com os olhos nos do outro,
disse gaguejando:
— Mas por que fizeste isso? Por quê?
— Fiz, sim, senhor. E tu sabes como tenho confiança em Pluchart! É leal e sabe muitas coisas, a gente pode contar com ele...
Mas as ideias de vocês não me interessam. Política, governo, tudo isso não
me interessa... Desejo apenas que o mineiro tenha um tratamento mais
digno. Trabalhei no fundo da mina durante vinte anos suei tanto de miséria
e cansaço que jurei conseguir uma vida melhor para os infelizes que ainda
estão lá embaixo. Sei muito bem que nada obterão com essas histórias de
vocês, o que farão é apenas tornar a vida do operário ainda mais miserável.
Quando ele for obrigado pela fome a voltar ao trabalho, será mais
humilhado ainda, a companhia o receberá a porrete, como cão fugido que se
faz voltar ao canil. E é isso que eu quero evitar, compreendeste?
Elevava a voz, barriga saliente, solidamente plantado sobre as
grossas pernas. Toda a sua natureza de homem razoável e paciente se
denunciava em frases claras, abundantes e rápidas. Então não era estúpido
acreditar que se podia de um golpe mudar a face do mundo, pôr os
operários no lugar dos patrões, repartir o dinheiro como se reparte uma
maçã? Talvez dentro de milhares e milhares de anos isso fosse uma
realidade. Mas, por enquanto, que o deixassem em paz, sem soluções
miraculosas! A melhor maneira de não quebrar o nariz era andar direito,
exigir as reformas que fossem viáveis, tentar melhorar a vida dos
trabalhadores quando se apresentasse a ocasião. Assim é que ele agiria se
estivesse com o caso em mãos, obrigando a companhia a dar melhores
condições aos trabalhadores, em vez de obstinar-se em mandá-la ao diabo, o
que resultaria na desgraça de todos.
Etienne tinha-o deixado falar, já que ele estava sufocado pela
indignação. Mas, em seguida, explodiu:
— Com mil raios! Então tu não tens sangue nas veias?
Por um instante pensou que ia esbofeteá-lo. Para resistir à tentação,
começou a andar furiosamente pela sala, aliviando sua raiva nos bancos,
entre os quais abria passagem.
— Ao menos fechem a porta — observou Suvarin. — Ninguém
precisa ouvir.
Depois de ter ido ele mesmo fechá-la, sentou-se tranqüilamente
numa das cadeiras em frente à mesa. Enrolava um cigarro enquanto
observava os outros dois com seu olhar calmo e irônico, os lábios franzidos
por um leve sorriso.
— De nada adianta zangares-te — disse judiciosamente Rasseneur.
— No princípio acreditei que eras sensato. Achei muito bom que tivesses
recomendado a maior calma aos outros, que ficassem em casa, que usasses
teu poder para manter a ordem. E agora queres instaurar a baderna...
Cada vez que respondia ao taberneiro, Etienne suspendia sua
furiosa evolução por entre os bancos para agarrar o outro pelos ombros e
sacudi-lo, gritando-lhe no rosto.
— Mas com todos os diabos! O que eu quero é ficar calmo! Sim,
impus-lhes uma disciplina! Aconselhei-os a ficarem em casa! Mas os outros
estão querendo destruir-nos, rindo na nossa cara! Considera-te feliz por
seres um homem calmo. Há momentos em que parece que vou
enlouquecer...
Era uma confissão da sua parte. Escarnecia das suas próprias
ilusões de neófito, do seu sonho religioso de uma vida onde a justiça ia
reinar em breve entre os homens transformados em irmãos. Um bom
sistema, realmente: cruzar os braços e esperar para ver o homem devorando
o homem até o fim dos tempos, como lobos. Não, nada disso! Era preciso
participar, senão a injustiça seria eterna, os ricos sempre bebendo o sangue
dos pobres. Por isso não se perdoava de ter dito uma vez que a política tinha
de ser banida da questão social. Mas naquele tempo ele não sabia nada;
depois, lera e estudara. Agora suas ideias estavam maduras, orgulhava-se de
possuir um sistema.
E, contudo, explicava-o mal, em frases cuja confusão tinha um
pouco de todas as teorias adotadas e sucessivamente abandonadas. No
cimo, pairava a teoria de Karl Marx: o capital era o resultado da exploração,
o trabalho tinha o direito e o dever de reconquistar essa riqueza roubada. Na
prática, a princípio ele se deixara prender na quimera de Proudhon do
crédito mútuo, de um vasto banco de troca que suprimiria os intermediários;
depois as sociedades cooperativas de Lassalle, financiadas pelo Estado,
transformando pouco a pouco a terra numa única cidade industrial
apaixonaram-no, até o dia em que renunciara ao sistema diante da
dificuldade de controle. Mas tudo isso ficara numa nebulosa, ele não sabia
como realizar o novo sonho, impedido ainda pelos escrúpulos da sua
sensibilidade e da sua razão, não ousando arriscar-se em afirmações
absolutas e sectárias. Dizia simplesmente que era preciso apoderarem-se,
antes de mais nada, do governo. O resto vinha depois.
— Mas o que está acontecendo contigo? Por que passaste para o
lado dos burgueses? — continuou ele com violência, voltando a pôr-se
diante do taberneiro. — Tu mesmo dizias que como estava não podia
continuar.
Rasseneur corou ligeiramente.
— Sim, eu disse isso. E se a coisa explodir tu vais ver que não é
mais covarde do que os outros. Só que me recuso a fazer o jogo daqueles
que aumentam a desordem para conseguir uma posição.
Foi a vez de Etienne corar. Os dois homens pararam de gritar,
invadidos pelo frio de sua rivalidade, tornaram-se ásperos e brutais.
continua na página 207...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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