terça-feira, 14 de abril de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (I.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

I
 

     Uma chama incendiou os olhos de Deneulin, enquanto seus punhos de homem amante dos governos fortes se fechavam de medo de ceder à tentação de agarrar alguém pelo pescoço. Preferiu discutir, argumentar. 

— Vocês querem cinco cêntimos, e concordo em que o trabalho vale isso. Mas eu não posso dá-los. Se desse, estaria perdido. Tratem de compreender que para vocês viverem é preciso que eu viva. E eu estou muito apertado, o menor aumento no preço da mão-de-obra me derrubaria. Lembrem-se de que dois anos atrás, quando da última greve, cedi, mas naquele tempo ainda podia. E saibam que essa alta de salário foi extremamente ruinosa para mim, que desde então me debato numa crise. Hoje, prefiro fechar esta joça agora mesmo a não saber onde, no mês que vem, arranjar dinheiro para pagar vocês.

     Chaval riu maldosamente ao ver aquele patrão falando tão francamente dos seus negócios. Os outros baixavam a cabeça obstinados, incrédulos, sem poderem compreender que um chefe não ganhasse milhões com os seus operários.
     Deneulin continuou insistindo. Explicou sua luta contra Montsou sempre à espreita, pronta a devorá-lo se ele, por descuido, caísse de mau jeito. Era uma concorrência desenfreada, que o forçava a fazer economia, tanto mais que a grande profundidade da Jean-Bart aumentava o preço da extração, condição desfavorável só compensada pela grande espessura das camadas de hulha. Nunca teria aumentado os salários após a última greve, se não fosse a necessidade de imitar Montsou, de receio de ver seus empregados abandonarem-no. Em seguida, ameaçou-os com o futuro, que só seria desfavorável para eles próprios: se o obrigassem a vender, ficariam sob o jugo terrível da outra administração. Ele não estava entronizado num tabernáculo ignorado e longínquo: não era desses acionistas que pagam a gerentes para explorar o mineiro e que este nunca viu; era um patrão, arriscava algo mais do que o seu dinheiro, punha em risco sua inteligência, sua saúde, sua vida. A suspensão do trabalho representaria a morte, certamente, porque não tinha estoque e precisava satisfazer às encomendas. Por outro lado, o capital que representava seu aparelhamento não podia ficar inerte. De que maneira manteria seus compromissos? Quem pagaria o juro das somas que lhe tinham confiado seus amigos? Seria a falência. 

— Isso é tudo, minha gente! — disse ele para terminar. — Gostaria de tê-los convencido... Não se pode pedir a um homem que se degole... E, se eu concordar com esses cinco cêntimos ou permitir que entrem em greve, será a mesma coisa que cortar o pescoço.

     Calou-se. Os murmúrios começaram a correr. Parte dos mineiros parecia hesitar. Diversos deles voltaram para perto do poço. 

— Que ao menos haja liberdade de escolha — disse um contramestre. — Quais são os que querem trabalhar?

     Catherine foi uma das primeiras a avançar, mas Chaval, furioso, empurrou-a, gritando: 

— Estamos todos de acordo, só os velhacos é que abandonam os companheiros! Desde esse momento a conciliação pareceu impossível. A gritaria recomeçou, os homens que se encontravam perto do poço foram arredados aos empurrões e quase esmagados contra as paredes. 0 diretor, desesperado, tentou, por um momento, lutar sozinho, arremeter violentamente contra a turba, mas seria uma loucura inútil, teve de se retirar. E ficou por alguns minutos no fundo do escritório do recebedor, jogado sobre uma cadeira, ofegando, tão confundido na sua impotência que não conseguia pensar em nada. Finalmente acalmou-se e mandou um vigia buscar Chaval. Quando este último aceitou conversar, despediu os demais com um gesto. 
— Deixem-nos sós.

     A intenção de Deneulin era descobrir o que aquele astuto estava amando. Às primeiras palavras já pôde ver que era um vaidoso, devorado pela paixão da inveja. Agarrou-o então pela lisonja, fingiu espantar-se de que um operário com seus méritos comprometesse dessa maneira seu futuro. Ouvindo-o, dir-se-ia que, há muito, eleja tinha Chaval na mira para um posto melhor. Terminou oferecendo-lhe à queima-roupa o lugar de contramestre, para mais tarde. Chaval escutava-o silencioso, a princípio com os punhos cerrados, depois gradualmente abertos. Seu cérebro trabalhava sem descanso: se insistisse na greve, nunca passaria de lugar tenente de Etienne, enquanto outra ambição florescia nele, a de ser um chefe. Um calor de orgulho lhe subia às faces e o embriagava. E, aliás, o grupo de grevistas que esperava toda a manhã não viria mais, a essa hora; algum obstáculo o detivera, talvez os policiais: era o momento da conciliação. Mas assim mesmo continuava a negacear com a cabeça, fingindo o homem incorruptível, batendo indignado no peito. Finalmente, sem falar ao patrão sobre a vinda dos grevistas de Montsou, prometeu acalmar os companheiros e convencê-los a descer.
     Deneulin permaneceu escondido, os próprios contramestres mantiveram-se afastados. Durante uma hora ouviram Chaval perorar, discutir, em pé sobre um vagonete de recepção. Parte dos operários começou a vaiá-lo, cento e vinte foram embora, exasperados, obstinando-se na resolução que ele os tinha feito tomar. Eram já mais de sete horas, raiava o dia, muito claro, um dia alegre de grande geada. E, de repente, o movimento da mina recomeçou, o trabalho parado seguiu o seu curso.
     Primeiro foi a máquina, cuja biela mergulhou, enrolando e desenrolando os cabos das bobinas. Depois, em meio à barulheira dos sinais, começou a descida; os elevadores enchiam-se, afundavam, subiam, o poço engolindo a sua ração de aprendizes, operadoras de vagonetes e britadores; enquanto isso, sobre o pavimento de ferro, os ascensoristas empurravam os vagonetes comum barulho ensurdecedor. 

— Diabo, ainda andas por aqui? — gritou Chaval a Catherine que esperava a sua vez. — Desce de uma vez e começa logo a trabalhar!

     Às nove horas, quando a Sra. Hennebeau chegou no seu carro acompanhada de Cécile, encontrou Lucie e Jeanne já prontas, muito elegantes apesar de seus vestidos vinte vezes reformados. Deneulin admirou-se ao ver Négrel, que acompanhava a caleça, a cavalo Então os homens também estavam convidados? A Sra. Hennebeau explicou com seu ar maternal que a haviam assustado dizendo que as estradas estavam cheias de gente mal-encarada, e achara por bem trazer consigo um defensor. Négrel riu e tranquilizou-as: nada de grave, cão que ladra não morde, ninguém ousaria atirar urna pedra a uma vidraça.
     Ainda alegre com o seu sucesso, Deneulin contou a revolta reprimida da Jean-Bart. Agora declarava-se perfeitamente tranquilo. E ali, na estrada de Vandame, enquanto as senhoritas subiam na carruagem, todos se mostravam felizes com aquele dia maravilhoso, sem adivinharem, ao longe, na campina, o grande frêmito que tomava corpo, o povo em marcha, de que ouviriam o avançar se tivessem colado o ouvido ao chão. 

— Muito bem, está combinado — disse a Sra. Hennebeau. — Esta noite o senhor vai buscar as suas filhas e janta conosco. A Sra. Grégoire também prometeu ir buscar Cécile. 
— Conte comigo — respondeu Deneulin.

     A caleça partiu para os lados de Vandame. Jeanne e Lucie debruçaram-se mais uma vez para fora e sorriram para o pai, que ficara parado à beira do caminho. Négrel trotava garbosamente atrás das rodas que fugiam.
     Atravessaram a floresta, tomaram a estrada que vai de Vandame a Marchiennes. Ao passarem por Tartaret, Jeanne perguntou à Sra. Hennebeau se conhecia Cote-Verte, e esta, apesar de já estar residindo na região há cinco anos, confessou não ter visitado aquelas bandas. Fizeram então um desvio.
     O Tartaret, na orla da floresta, era uma charneca inculta de uma esterilidade vulcânica, sob a qual, havia séculos, queimava uma jazida de hulha. Era uma lenda muito antiga, os mineiros da região contavam uma história sobre uma bola de fogo caindo do céu e atingindo aquela sodoma das entranhas da terra, onde as operadoras de vagonetes manchavam-se de abominações. O fogo se espalhara com tanta rapidez que elas não tinham tido tempo de escapar e ainda hoje ardiam no fundo daquele inferno. As rochas calcinadas, de um vermelho escuro, cobriam-se de uma eflorescência de alúmen, que era como uma lepra. O enxofre brotava em florações amarelas nas bordas das fissuras. De noite, os corajosos que ousavam espiar por esses buracos juravam ver as chamas e as almas criminosas debatendo se no braseiro interior. Labaredas errantes corriam à flor do solo, vapores quentes, expelindo o fedor da imunda cozinha do diabo fumegavam continuamente. E como um milagre de eterna primavera, .no meio daquela charneca maldita do Tartaret, a Côte-v-íte espraiava o seu prado sempre verde, as suas faias cujas folhas se renovavam sem cessar, suas semeaduras que chegavam a dar três colheitas. Era uma estufa natural, aquecida pelo incêndio das camadas profundas. Neve alguma resistia a tal temperatura. A enorme floração de verdura, ao lado das árvores despojadas da floresta, apresentava-se soberba naquele dia de dezembro, sem que a geada tivesse, sequer, queimado a extremidade de suas folhas.
     Dentro em pouco a caleça corria pela planície. Négrel desmistificava a lenda explicando como o fogo começava, o mais das vezes, no fundo de uma jazida pela fermentação da poeira do carvão; quando não se podia dominá-lo, ele ardia indefinidamente. Citou o caso de uma mina da Bélgica que tivera de ser inundada, desviando-se um rio do seu curso para lançá-lo no poço.
     Mas o engenheiro achou melhor calar-se, já que grupos de mineiros cruzavam agora a todo instante a carruagem. Passavam em silêncio, lançando olhares atravessados, examinando aquele luxo que os obrigava a abrir caminho. O seu número aumentava sempre, os cavalos tiveram de andar a passo na estreita ponte do Scarpe. Que estava acontecendo para que toda aquela gente andasse pelos caminhos? As damas começavam a ficar assustadas; Négrel farejava algo de mau naquela agitação. Foi com uma sensação de alívio que chegaram finalmente a Marchiennes. Esbatidas pelo sol, as baterias de fornalhas de coque e as chaminés dos altos-fornos expeliam fumaça, cuja sempiterna fuligem chovia no ar.

continua na página 254...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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