Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quarta Parte
VI
.
Jeanlin já estava restabelecido e caminhando, mas suas pernas
tinham sido tão mal encanadas, que agora mancava de ambas. Era preciso
vê-lo, parecia um pato, correndo tão depressa como antes, e com a mesma
destreza de animal daninho e ladrão.
Naquele entardecer, na estrada de Réquillart, Jeanlin, acompanhado
dos seus inseparáveis Bébert e Lydie, espreitava. Estava emboscado num
terreno baldio, por trás de um tapume, em frente a uma venda quase vazia,
localizada na curva de uma vereda. Uma velha meio cega expunha ali três
ou quatro sacos de lentilha e feijão, negros de poeira; mas era um bacalhau
velho e ressequido, todo pintalgado de dejeções de moscas e pendurado à
porta, que ele cobiçava com seus olhos apertados. Já por duas vezes
mandara Bébert apanhá-lo, mas tinha aparecido gente na curva do caminho.
Eram os importunos de sempre, não se podia trabalhar à vontade!
Surgiu um homem a cavalo e os três deitaram-se rente ao tapume ao
reconhecerem o Sr. Hennebeau. Desde o começo da greve, ele era visto
cavalgando pelas estradas, percorrendo sozinho os conjuntos habitacionais
revoltados, demonstrando uma coragem tranquila em assegurar-se
pessoalmente do estado de coisas da região. E nunca uma pedra tinha
assobiado nos seus ouvidos; só encontrava homens silenciosos e lentos que
o
cumprimentavam, mas, principalmente, namorados, que não se
importavam com política e andavam pelos cantos para um momento de
prazer. Ao trote de sua égua, sem olhar para os lados para não atrapalhar
ninguém, passava, enquanto seu coração pulsava de um desejo que nunca
fora saciado, mediante aquela fartura de amores livres.
Viu perfeitamente os dois meninos sobre a menina, amontoados.
Até as crianças já sabiam divertir-se esfregando umas contra as outras as
suas misérias! Com os olhos úmidos, desapareceu, muito teso sobre a sela,
com a sobrecasaca militarmente abotoada.
— Diabo de azar! — exclamou Jeanlin. — Vai agora, Bébert; puxa
pelo rabo!
Mas outros dois homens passavam e o menino murmurou nova
praga quando ouviu a voz de seu irmão, Zacharie, que contava ao jovem
Mouque como tinha descoberto uma moeda de quarenta soldos costurada
numa saia da sua mulher. Riram às gargalhadas, dando-se palmadas nos
ombros. O jovem Mouque teve a grande idéia de uma partida de críquete
para o dia seguinte: partiriam às duas horas do Avantage; iriam para os
lados de Montoire, perto de Marchiennes. Zacharie aceitou. Por que não
paravam de aborrecê-los com essa greve? Queriam era divertir-se, já que
não tinham nada mais para fazer! E dobravam a estrada quando Etienne,
que vinha do canal, deteve-os e pôs-se a conversar.
— Será que vão dormir aqui? — perguntou Jeanlin, exasperado. —
já é quase noite e a velha está recolhendo os sacos.
Outro mineiro estava descendo para Réquillart. Etienne afastou-se
com ele. Ao passarem pelo tapume, o menino ouviu-os falando sobre a
floresta; tinham adiado a reunião para o dia seguinte, temendo não poderem
avisar todos os conjuntos habitacionais naquele mesmo dia.
— Aí está! — murmurou Jeanlin para os outros dois.
— A bagunça
é para amanhã. Temos que ir. Tocamos para lá de tarde, hem?
Com a estrada finalmente deserta, ele deu ordem de partida a
Bébert.
velha!
— Chegou a hora! Puxa pelo rabo... E cuidado com a vassoura da velha!
Felizmente, estava quase escuro. Bébert, de um salto, agarrou-se ao
bacalhau, cujo barbante rebentou. Saiu correndo, agitando o peixe como se
fosse um papagaio de papel, seguido pelos outros dois. A velha,
boquiaberta, saiu para fora sem compreender, não podendo mais distinguir
aquele bando que se perdia nas trevas.
Esses gatunos acabavam sendo o terror da região, que fora invadida
por eles, como por uma horda selvagem. A princípio contentaram-se com o
pátio da Voreux, onde chafurdavam no carvão, saindo de lá negros,
brincando de esconde-esconde entre a provisão de madeira, onde se
perdiam como no fundo de uma floresta virgem. Depois, tomaram de
assalto o aterro, onde escorregavam pelas partes escalvadas, ainda
escaldantes por causa dos incêndios internos, metiam-se por entre o matagal
da parte abandonada, escondidos o dia inteiro, ocupados em brincadeiras
tranquilas como ratos lúbricos. E continuavam a conquistar terreno, indo
engalfinhar-se por entre os montes de tijolos, percorrendo os prados,
comendo, sem pão, qualquer espécie de erva que tivesse algum sumo,
esquadrinhando a vegetação do canal em busca de peixes presos no lodo,
que devoravam crus. E iam cada vez mais longe, andavam quilômetros, até
os bosques de Vandame, onde se empanturravam de morangos na
primavera, de avelãs e medronhos [1] no verão. Não tardou muito para que a
imensa planície lhes pertencesse.
[1] Espécie de morango silvestre. (N. do E.)
Mas o que os atirava assim às estradas, de Montsou a Marchiennes,
com seus olhos de lobos novos, era uma necessidade crescente de pilhagem.
Jeanlin capitaneava essas expedições, lançando sua tropa sobre qualquer
presa, devastando as plantações de cebola, saqueando os pomares, atacando
os tendeiros. Na região, já estavam acusando os mineiros em greve, falava
se de uma enorme quadrilha organizada. Um dia, ele chegara a forçar Lydie
a roubar sua própria mãe, fazendo que a menina lhe trouxesse duas dúzias
de balas de cevada que a mulher de Pierron guardava num frasco no
mostruário da janela; e a pequena, moída de pancada, não o traíra, a tal
ponto temia a autoridade do companheiro. O pior era que ele sempre ficava
com a parte do leão. Bébert também tinha de lhe entregar o resultado dos
seus assaltos, e podia considerar-se um felizardo quando o capitão não o
esbofeteava para ficar com tudo.
Jeanlin ultimamente andava abusando. Surrava Lydie como quem
espanca a mulher legítima e aproveitava-se da credulidade de Bébert para
comprometê-lo em aventuras desagradáveis, muito divertido em aturdir
aquele menino grandalhão, mais forte do que ele, que podia aniquilá-lo com
um murro. Desprezava os outros dois, tratava-os como escravos, contava
lhes que tinha por amante uma princesa, diante da qual eles eram indignos
de se mostrar. E, realmente, havia oito dias que começara a desaparecer de
repente ao chegar numa esquina, ao dobrar uma curva do caminho, onde
quer que estivesse, depois de lhes ordenar de maneira terrível que voltassem
para casa. Mas primeiro embolsava o resultado do saque.
Foi isso, aliás, o que aconteceu naquela noite.
— Passa para cá — disse ele, arrancando o bacalhau das mãos do
companheiro quando os três pararam numa volta da estrada, perto de
Réquillart.
Bébert protestou.
— Eu também quero... Quem é que foi apanhar?
— O quê? — gritou Jeanlin. — Tu não tens querer! Se eu quiser,
dou-te, e não vai ser hoje: amanhã, se sobrar alguma coisa.
Empurrou Lydie, colocou um ao lado do outro, alinhados e
perfilados como soldados. Depois, passando para trás deles:
— Agora, vocês vão ficar aí cinco minutos, sem um movimento. Se
olharem para trás, juro por Deus! os bichos ferozes devoram vocês... E
depois vão voltar imediatamente para casa, tenderam? Se no caminho o
Bébert tocar na Lydie eu ficarei sabendo, e aí os dois vão levar uns bons
tapas.
Imediatamente desapareceu na escuridão; era tão rápido que nem
sequer o roçar dos seus pés descalços se ouviu. Os outros dois ficaram
imóveis durante os cinco minutos, sem olhar para trás, com medo de
receber um bofetão do invisível. Aos poucos, uma grande afeição nascera
entre eles, como resultado daquele terror comum. Ele sempre sonhava
tomá-la em seus braços e apertá-la com força contra seu coração, como via
os outros fazerem. E ela bem que gostaria disso, porque nunca fora tratada
com carinho. Mas nenhum dos dois ousaria desobedecer. Quando se foram,
ainda que a noite estivesse muito escura, nem mesmo se abraçaram,
caminharam lado a lado, comovidos e desesperados, certos de que, se se
tocassem, o capitão, por trás, iria puni-los.
À mesma hora Etienne entrava em Réquillart. Na véspera, a filha de
Mouque suplicara-lhe que voltasse, e ele voltava, envergonhado, sem querer
confessar que começava a gostar daquela moça que o adorava como a um
deus. Vinha, aliás, com a intenção de terminar com aquilo. Vê-la-ia,
explicar-lhe-ia que não devia mais persegui-lo, para evitar comentários dos
companheiros. Os tempos eram difíceis, não estava sendo honesto aceitando
tais facilidades enquanto os outros morriam de fome.
Não a tendo encontrado em casa, decidiu esperá-la, e começou a
espreitar as sombras que passavam.
Sob a torre do sino de rebate em ruínas, via-se o poço semi-obstruído. Uma viga em pé, sustentando um pedaço de teto, parecia um
patíbulo pairando sobre o buraco negro; e, no bocal derruído do poço,
cresciam duas árvores, uma sorveira e um plátano, que pareciam sair das
profundezas da terra. Era um recanto selvagem e abandonado, a entrada
cheia de galhos e ramagens de um precipício, atravancada de madeiras
podres, verdejante com suas ameixeiras silvestres e espinheiros, onde, na
primavera, as toutinegras faziam seus ninhos.
Desejando evitar as grandes despesas de conservação, a companhia
havia dez anos que tencionava atulhar aquela galeria morta, mas tinha,
antes, que instalar na Voreux um ventilador, porque o centro de ventilação
dos dois poços, que se comunicavam entre si, era em Réquillart, cujo antigo
esgoto servia de chaminé. Tinha-se limitado a consolidar o madeiramento à
altura do solo com escoras atravessadas, barrando o acesso à extração, e
havia abandonado as galerias superiores só para vigiar a galeria do fundo,
onde ardia a fogueira do inferno, o enorme braseiro de hulha, tão violento,
que o aquecimento do ar fazia soprar um verdadeiro furacão por toda a
galeria vizinha. Por motivos de segurança, para que ainda se pudesse subir e
descer, havia ordens de que o fosso das escadas tivesse urna manutenção
acurada. Mas ninguém se importava com ele, e as escadas estavam
apodrecendo com a umidade; alguns patamares já tinham desabado. Em
cima, a entrada estava fechada por espesso matagal; como o primeiro lance
de escada tinha perdido alguns degraus, para atingi-la era preciso pendurar
se em alguma raiz de sorveira e depois deixar-se cair, encomendando a alma
a Deus, no escuro.
Etienne pacientemente esperava, escondido atrás do matagal,
quando ouviu um roçar prolongado entre os galhos. Julgou que fosse a
corrida de uma cobra assustada, mas o repentino clarão de um fósforo
causou-lhe espanto, e ficou estupefato ao reconhecer Jeanlin, que acendia
uma vela e se engolfava na terra. Ficou tão furioso que se aproximou do
buraco. O menino tinha desaparecido, mas um clarão fraco vinha do
segundo patamar. Hesitou um momento para depois deixar-se escorregar,
segurando-se às raízes; pensou que teria de dar um salto de quinhentos e
vinte e quatro metros, que era o que media a galeria, mas acabou sentindo
um degrau sob os pés, e começou a descer vagarosamente.
Jeanlin não devia ter ouvido; Etienne continuava a ver a luz
descendo, enquanto a sombra do menino, colossal e apavorante, dançava
nas paredes com o balanço das suas pernas aleijadas. 0 rapazinho pulava,
com uma destreza de macaco, e conseguia segurar-se com as mãos, com os
pés, com o queixo, quando os degraus faltavam. As escadas, de sete metros
cada uma, sucediam-se, algumas ainda sólidas, outras bambas, rangendo,
quase desabadas; os patamares estreitos passavam, uns após os outros,
esverdeados, a tal ponto apodrecidos, que se andava escorregando, como
em cima de musgo. E, à medida que se descia, o calor era cada vez mais
sufocante, um calor de fornalha, que vinha do poço da fogueira, felizmente
pouco ativa desde o começo da greve, porque em época de trabalho, quando
a fornalha devorava os seus cinco mil quilos de hulha diários, ninguém se
arriscaria ali sem sair assado.
"Raio de velhaco!", praguejava Etienne sem fôlego. "Onde diabo
vai ele?"
Por duas vezes quase caiu. Seus pés escorregavam na madeira
úmida. Se ao menos tivesse uma vela, como o outro... Batia-se de encontro
à parede a cada momento; era guiado apenas pelo vago clarão que fugia sob
ele. Seguramente, já era a vigésima escada, e a descida continuava.
Começou a contar os lances: vinte e um, vinte dois, vinte e três, e cada vez
descia mais. Parecia que estava com os miolos em fogo, chegou a pensar
que tinha caído numa fornalha.
Enfim chegou a uma embocadura de galeria e divisou a chama
desaparecendo no fundo. Trinta lances de escada, aproximadamente
duzentos metros.
"Será que ainda terei que correr atrás dele por muito tempo?",
pensou Etienne. "É na cavalariça que ele se encafurna, não há dúvida."
À esquerda, porém, a via conduzindo à cavalariça estava obstruída
por um desmoronamento. A viagem recomeçou, cada vez mais penosa e
perigosa. Morcegos assustados voejavam, colavam-se na abóbada da
galeria. Teve de correr para não perder de vista a luz, jogou-se para a frente,
mas onde Jeanlin passava facilmente com sua agilidade de serpente ele não
podia penetrar sem machucar-se. Esta galeria, como todas as vias antigas,
tinha-se estreitado e a cada dia estreitava-se mais sob a constante pressão da
terra. Em certos trechos já era uma garganta muito fechada, que dentro em
pouco também desapareceria. Nesse trabalho de estrangulamento, as estacas
vergadas e quebradas tornavam-se um perigo, ameaçando dilacerar-lhe a
carne, fisgá-lo na passagem com a ponta de suas lanças, agudas como
punhais. Ele avançava com precaução, de joelhos ou arrastando-se, tateando
a sombra na sua frente. De repente, um bando de ratos percorreu-o da
cabeça aos pés, num galope de fuga.
"Com todos os diabos! quando é que ele vai parar?", grunhiu
Etienne sem fôlego, com dor nas costas.
Chegavam. Ao fim de um quilômetro a garganta alargava e
entraram num trecho de via admiravelmente conservado. Era o fundo da
antiga via de rodagem, aberta na rocha, igual a uma gruta natural. Etienne
teve de parar; observava de longe o menino, que protegia a vela entre duas
pedras e se punha à vontade, tranquilo e descansado, como um homem feliz
por chegar em casa. Uma instalação completa transformara aquela
extremidade de galeria numa habitação confortável. No chão, a um canto,
um monte de feno servia de cama; sobre velhas madeiras, dispostas para
formarem uma mesa, havia de tudo: pão, maçãs, litros de genebra abertos
— uma verdadeira caverna de bandoleiro, com o produto dos saques
acumulados durante semanas, mesmo coisas inúteis como sabão e graxa,
roubadas pelo simples prazer do roubo. E o menino, sozinho no meio de
toda aquela rapina, deliciava-se como um verdadeiro bandoleiro egoísta.
— Escuta, tu estás debochando dos outros ou o quê? — gritou
Etienne depois de tomar fôlego. — Vens para cá refestelar-te enquanto
estamos morrendo de fome lá em cima?
Jeanlin tremia, aterrado. Ao reconhecer o rapaz acalmou-se.
— Queres jantar comigo? — acabou dizendo. — Que tal? Um
pedaço de bacalhau assado? Vais ver que beleza!
continua na página 229...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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