terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (V.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

V
 .
continuando...

     A mulher levantou-se com dificuldade e deu uma volta pela sala. Como podia Deus deixar que fossem reduzidos àquela miséria! O guarda comida sem uma migalha, nada para vender, nem mesmo uma idéia de como conseguir um pão... E o fogo estava morrendo! Irritou-se contra Alzire, a quem tinha mandado pela manhã ao aterro para catar restos de carvão, e voltara de mãos abanando, dizendo que a companhia proibira a entrada. E quem é que se importava com as ordens da companhia? Como se fosse um roubo juntar uns miseráveis pedaços de carvão! A menina, desesperada, contou que um homem ameaçara dar-lhe uns tapas; prometeu em seguida voltar ao aterro no outro dia e trazer carvão, mesmo que a espancassem. 

— E o malandro do Jeanlin, por onde andará? É isso o que eu quero saber! — gritou a mãe. — Deveria trazer a verdura para a salada, pelo menos a gente pastava, como os animais! Vocês vão ver como ele não volta para casa. Ontem já não dormiu aqui. Não sei o que poderá andar fazendo, mas tem jeito de estar sempre com a pança cheia. 
— Talvez ande recolhendo dinheiro na estrada — disse Etienne.

     A mulher brandiu os punhos, fora de si. 

— Se eu souber que é isso!... Meus filhos pedindo esmolas! Preferia matá-los e matar-me depois.
 
     Maheu estava novamente prostrado, sentado sobre a mesa. Lénore e Henri, admirados com a falta de comida, começavam a gemer, enquanto o velho Boa-Morte, silencioso, enrolava filosoficamente a língua na boca, para enganar a fome.
     Ninguém falou mais, havia uma espécie de insensibilidade em todos, resultante da enorme carga de desgraças. O avô tossindo, cuspindo preto, novamente vítima de reumatismo, que se estava transformando em hidropisia; o pai asmático, os joelhos cheios de água; a mãe e as crianças minadas pelas escrófulas e a anemia hereditárias. Mas tudo isso eram os cavacos do ofício; só se queixavam quando a falta de alimentação ia dando cabo de todos eles. No conjunto habitacional já se morria como moscas. Contudo, precisavam encontrar o que comer. Que fazer, onde ir, meu Deus?
     Então, no crepúsculo, cuja tristeza lenta tornava a sala cada vez mais escura, Etienne, que hesitava havia um momento, decidiu-se com o coração partido. 

— Esperem um momento — disse ele. — Vou ver se consigo alguma coisa e já volto.

     E saiu. Lembrara-se da filha de Mouque. Ela devia ter um pão, que lhe daria de bom grado. A idéia de ter que voltar a Réquillart custava-lhe bastante sacrifício; a moça ia beijar-lhe as mãos, com ar de escrava enamorada. Mas não podia deixar os amigos naquela aflição, e, se fosse preciso, faria o que ela quisesse. 

— Eu também vou ver — disse por sua vez a mulher de Maheu. — Isto é demais...

     Abriu novamente a porta nas pegadas do rapaz e puxou-a com força, deixando os outros imóveis e mudos, na claridade bruxuleante de um toco de vela que Alzire acabava de acender.
     Na rua, a mulher parou para refletir, depois entrou na casa dos Levaque. 

— Será que podias pagar-me o pão que te emprestei outro dia? Mas interrompeu-se, o que via não lhe dava coragem para continuar falando: a casa transpirava mais miséria do que a sua.

     A mulher de Levaque, os olhos fixos, encarava o fogo apagado, enquanto o marido, embriagado por pregueiros, dormia sobre a mesa, de estômago vazio. Encostado à parede, Bouteloup rascava maquinalmente os ombros, com a pasmaceira de um pobre-diabo a quem rasparam as economias e que se admira de não ter o que comer. 

— Um pão? Mas, minha cara, eu ia justamente à tua casa pedir outro emprestado... — respondeu a mulher de Levaque.

     E, como o marido grunhisse de dor no seu sonho, bateu-lhe com a cabeça na mesa. 

— Fica quieto, porco! Tomara que estejas com as tripas em fogo! Em vez de aceitar bebidas, devias ter pedido vinte soldos emprestados a um amigo.

     E continuou praguejando, desabafando, no meio da imundície da casa, tanto tempo entregue às baratas, que já exalava um fedor insuportável do próprio chão. Podia tudo ir para o inferno, não se importava! Seu filho, o patife do Bébert, desaparecera desde a manhã. E ela gritava que assim estava ótimo, que era menos um, tomara que nunca mais voltasse. Depois disse que ia dormir; ao menos se aqueceria. Deu um empurrão em Bouteloup. 

— Vamos, sobe! O fogo apagou, não há necessidade de acender a vela para ver os pratos vazios... Vens ou não vens, Louis? Já disse que vamos dormir... A gente fica bem juntinho, será um conforto. E que esse porco bêbado rebente de frio sozinho aqui embaixo.

     Ao ver — se na rua, a mulher de Maheu atalhou resolutamente pelos jardins para ir à casa dos Pierron. Ouviu risadas. Quando bateu, houve um silêncio repentino. Levaram um bom tempo para abrir a porta. 

— Ah, és tu! — exclamou a dona da casa, fingindo grande surpresa. — Pensei que fosse o médico.

     Sem deixar a outra falar, ela continuou, mostrou Pierron sentado em frente a um grande fogo de hulha. 

— Ele continua mal, continua mal, o coitado. O semblante é bom, mas a barriga está em petição de miséria. Precisa de muito calor, a gente tem de queimar tudo o que há.

     Realmente, Pierron tinha ótimo aspecto, a tez rosada, a carnação rija. Resfolegava em vão, para fingir que estava doente. Ao entrar, a mulher de Maheu sentiu forte cheiro de coelho: certamente tinham escondido os pratos. Havia migalhas sobre a mesa, e, bem no meio dela, percebeu uma garrafa de vinho esquecida. 

— Mamãe foi a Montsou para ver se arranjava um pão — continuou a outra. — Estamos aqui morrendo de fome. Mas parou de falar; tinha seguido o olhar da vizinha e notou a garrafa. Em seguida refez-se e contou uma história: aquela garrafa de vinho era uma dádiva dos burgueses da Piolaine para seu marido, a quem o médico receitara bordô. E não parou mais de demonstrar sua gratidão: que boa gente! a senhorita, principalmente, que não envergonhava de entrar em casa de operário para distribuir suas esmolas. 
— Eu sei — disse a outra. — Já os conheço.

     À ideia de que o bem vai sempre para os que menos precisam, seu coração confrangeu-se. Era sempre assim: os burgueses da Piolaine tinham jogado água no mar... Mas como não os vira no conjunto habitacional? Talvez tivesse conseguido alguma coisa deles. 

— Vim aqui — confessou ela enfim — para ver se estavam em melhor situação do que nós... Terias um pouco de aletria para me emprestar? Pago na primeira oportunidade.

     A outra armou um verdadeiro escarcéu. 

— Mas não temos absolutamente nada, minha querida! Nem mesmo aquilo que se chama um grão de sêmola. Se a mamãe não voltar é porque não conseguiu nada, e teremos de ir dormir de estômago vazio.

     Nesse momento veio um choro da adega e ela deu um soco na porta. Era a vagabunda da Lydie que estava trancada — dizia ela —, de castigo por só ter voltado para casa às cinco horas, após um dia inteiro ao deus-dará. Menina indomável, sempre desaparecendo!
     A mulher de Maheu continuava parada, sem se resolver a ir embora. Aquele fogo generoso penetrava-a de um bem-estar magoado, a idéia de que ali havia comida aumentava a sua fome. Era evidente: tinha mandado a velha embora e encerrado a menina para empanturrarem-se com o coelho. Ah! por mais que dissessem, quando uma mulher se portava mal, isso trazia felicidade para o lar! 

— Boa noite! — disse ela de repente.

     Na rua estava escuro, era noite fechada, e a lua, entre as nuvens, iluminava a terra de uma maneira sinistra. Em vez de atalhar pelos jardins, a mulher fez a volta, desesperada, não ousando entrar em casa. Mas, ao longo das fachadas mortas, todas as portas ressudavam fome e inércia. De que adiantava bater? A miséria estava por toda parte. Havia semanas que não se comia mais, o próprio cheiro de cebola tinha desaparecido, esse cheiro forte que de longe, do campo, anunciava o conjunto habitacional; agora só havia um odor de porões bolorentos, de buracos úmidos onde ninguém vive. Os ruídos vagos iam esmorecendo aos poucos: eram lágrimas abafadas pragas soltas ao léu. E o silêncio era cada vez mais pesado, sentia-se avançar o sono da fome, o esquecimento dos corpos jogados nas camas, sob os pesadelos dos estômagos vazios.
     Como passasse em frente à igreja, viu uma sombra esgueirar-se rapidamente. Cheia de esperança, apressou o passo, pois tinha reconhecido o pároco de Montsou, o Padre Gere, que dizia a missa de domingo na capela do conjunto habitacional; sem dúvida saía da sacristia, onde estivera resolvendo algum problema.
     De ombros caídos, ele caminhava rápido com seu ar de homem gordo e calmo, desejoso de viver em paz com todo mundo. Se viera resolver seu problema à noite, era para não se comprometer no meio dos mineiros. Aliás, dizia-se que ele acabava de ser promovido; e, de fato, já fora visto em companhia do seu sucessor, um padre magro, com dois olhos que pareciam brasas.

— Senhor pároco, senhor pároco! — gaguejou a mulher. Mas ele não parou. 
— Boa noite, boa noite, minha filha.

     Ela estava defronte de casa. Suas pernas já não aguentavam mais. Entrou.
     Todos permaneciam nos mesmos lugares: Maheu, derreado, continuava sentado na mesa; o velho Boa-Morte e as crianças apertados uns contra os outros no banco, para terem menos frio... E nenhuma palavra tinha sido trocada; apenas a vela continuava ardendo e já estava no fim, dentro em pouco a luz também faltaria.
     Ao barulho da porta as crianças levantaram os olhos, mas, vendo que a mãe não trazia nada, voltaram a baixá-los, sofreando uma enorme vontade de chorar, com medo de serem repreendidos. A mulher voltou ao seu lugar, perto do fogo mortiço. Ninguém fez perguntas e o silêncio continuou. Todos tinham compreendido, julgavam inútil gastar esforços em conversas. Aferravam-se agora a uma esperança mínima, desencorajada, a esperança derradeira do socorro de Etienne, que talvez iria descobrir alguma coisa, em algum lugar. Os minutos continuaram a transcorrer, já nem os contavam mais.
     Quando Etienne voltou, trazia enrolada, num pano de cozinha, uma dúzia de batatas cozidas e frias. 

— Foi tudo o que pude conseguir — disse ele.

     Também na casa de Mouque estava faltando o pão; era o seu jantar que a moça lhe metera à força entre as mãos, beijando-o com toda a ternura. 

— Obrigado — respondeu ele à mulher de Maheu, que lhe oferecia a sua parte. — Eu comi lá.

     Era mentira; deprimido, olhava as crianças atirarem-se sobre a comida. O pai e a mãe continham-se também, para deixar mais aos filhos, mas o velho, vorazmente, engolia tudo. Tiveram que lhe arrancar uma batata para Alzire.
     Etienne disse então que tinha novidades. A companhia, irritada com obstinação dos grevistas, dizia que ia despedir os mineiros comprometidos. Decididamente, ela queria a guerra. Mas havia um boato ainda mais grave: a companhia vangloriava-se de ter convencido um grande número de operários a voltar ao trabalho; na manhã seguinte, a Victoire e a Feutry-Cantel deveriam estar trabalhando a pleno rendimento; e até na Madeleine e na Mirou haveria um terço do pessoal.
     Os Maheu ficaram exasperados. 

— Inferno! — gritou o homem. — Se há traidores, temos de ajustar contas com eles!

     E, em pé, cedendo a um transporte de cólera sofrida: 

— Amanhã à noite, na floresta! Já que não deixam a gente reunir-se no Bon-Joyeux, faremos da floresta a nossa casa!

     Esse grito acordou o velho Boa-Morte, que cochilava empanturrado. Era o antigo grito de reunião, o ponto de encontro onde os mineiros de outrora iam organizar sua resistência aos soldados do rei. 

— É isso! Vandame! Também irei com os outros! 

     A mulher de Maheu fez um gesto enérgico. 

— Iremos todos. Terminaremos com essas injustiças e traições! Etienne decidiu que o encontro seria marcado para todas os conjuntos habitacionais mineiros para a noite do dia seguinte.

     Mas o fogo estava apagado, como na casa dos Levaque, e a vela também, repentinamente, terminou. Não havia mais hulha ou querosene; tiveram de se deitar no escuro, com um frio enorme que mordia a pele. As crianças choravam.

continua na página 229...
____________________

 ____________________

O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário