segunda-feira, 6 de abril de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (I.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

I
 

     As quatro horas da manhã, a lua já desaparecera e a noite era A muito escura. Tudo dormia ainda na casa dos Deneulin; a velha casa de tijolos permanecia muda e sombria, com portas e janelas fechadas, ao fundo de um vasto jardim maltratado, que a separava da galeria Jean-Bart. Do outro lado passava a estrada deserta de Vandame, um grande burgo, escondido por trás da floresta, a três quilômetros aproximadamente.
     Deneulin, cansado por ter passado na véspera boa parte do dia no fundo da mina, roncava voltado para a parede, quando sonhou que o chamavam. Acabou acordando e ouviu realmente uma voz; correu para a janela. Era um dos seus contramestres, em pé no jardim. 
— Que há? — perguntou ele. 
— Uma revolta, senhor! Metade dos homens não quer trabalhar e não deixa os outros descerem.

     Não compreendia direito, ainda com a cabeça pesada e cheia de sono, transido pelo grande frio, como por uma ducha gelada. 

— Obrigue-os a descer, com todos os diabos! — gaguejou ele. 
— Há uma hora que a coisa dura — continuou o contramestre. — Tivemos a ideia de chamá-lo. Só o senhor talvez consiga fazê-los voltar à razão. 
— Está bem, já vou.

     Vestiu-se correndo, o espírito já claro, muito inquieto. Poderiam pilhar a casa, nem a cozinheira nem p criado se teriam mexido. Mas do outro lado do patamar vozes alarmadas cochichavam. Ao sair. viu abrir-se a porta do quarto das filhas e ambas aparecerem, vestidas de roupões brancos, enfiados às pressas.

— Que está acontecendo, papai?

     A mais velha, Lucie, já tinha vinte e dois anos, era alta, trigueira, de aspecto magnífico, enquanto Jeanne, a caçula, com apenas dezenove anos, era pequena, de cabelos dourados, de uma graça meiga. 

— Nada grave — respondeu ele para acalmá-las. — Parece que uns baderneiros estão procurando barulho na mina. Vou ver.

     Mas elas reclamaram, não queriam deixá-lo partir sem antes tomar algo quente, senão voltaria doente, com o estômago arruinado, como sempre. Ele disse que não, jurou que tinha pressa. 

— Escuta — decidiu Jeanne saltando-lhe ao pescoço —, tu vais beber um copinho de rum e comer uns biscoitos, porque senão não te largo, e tens de me levar contigo.

     Teve de submeter-se, insistindo que os biscoitos iam fazer-lhe mal. Já elas desciam na frente dele, cada uma com seu castiçal. Embaixo, na sala de jantar, serviram-no às pressas, uma despejando o rum num cálice, a outra correndo à copa em busca de um pacote de biscoitos.
     Tendo perdido a mãe muito cedo, tinham-se educado sozinhas, bastante mal, estragadas pela indulgência do pai, a primogênita possuída pelo sonho de cantar em teatros, a mais jovem, louca por pintura, de uma ousadia de gosto que a singularizava. Mas, quando tiveram de diminuir os gastos, devido a grandes dificuldades nos negócios, brotaram de repente dessas moças de ar extravagante duas donas-de-casa muito sábias e espertas, cujo olho descobria erros de cêntimos nas contas. Hoje, com seus ares independentes de artistas, geriam o dinheiro, economizavam soldos, discutiam com os fornecedores, consertavam constantemente os vestidos, conseguiam, enfim, tornar aceitável a penúria crescente da casa. 

— Come, papai — disse Lucie.

     Notando a preocupação em que ele afundava, silencioso, sombrio, ficou cheia de medo. 

— É coisa assim tão grave para fazeres essa cara? Fala... Ficaremos contigo, poderão almoçar muito bem sem a gente.

     Falava de um passeio projetado para essa manhã. A Sra. Hennebeau devia ir na sua caleça buscar primeiro Cécile, na casa dos Gregoire, depois passaria para apanhá-las. Todas juntas iriam a Marchiennes, almoçar nas Forjas, aonde tinham sido convidadas pela mulher do diretor. Era uma ocasião para visitar as oficinas, os altos-fornos e as fornalhas de coque. 

— Claro que ficamos — declarou Jeanne por sua vez.

     Mas ele zangou-se. 

— Que ideia! Já disse que não é nada. Por favor, voltem para a cama e estejam prontas às nove horas, como ficou combinado.

     Beijou-as e deu-se pressa em partir. Ouviu-se o barulho de suas botas cada vez mais fraco na terra coberta de gelo do jardim.
     Jeanne fechou cuidadosamente a garrafa de rum, enquanto Lucie guardava os biscoitos a chave.
     A peça tinha a limpeza fria das salas onde a mesa é parcimoniosamente servida. Ambas aproveitaram aquela descida matinal para ver se tudo tinha sido arrumado de véspera. Um guardanapo fora deixado fora do lugar, teriam de chamar a atenção do criado. Por fim, subiram.
     Enquanto atalhava pelos caminhos estreitos da horta, Deneulin pensava na sua fortuna comprometida, no dinheiro de Montsou, no milhão que empatara, planejando decuplicá-lo, e que agora corria riscos tão sérios. Fora uma série ininterrupta de golpes de má sorte, de consertos enormes e imprevistos, de condições de exploração das mais ruinosas, e depois aquela catastrófica crise industrial, justamente no momento em que os lucros começavam. Se houvesse greve na sua mina, estaria perdido. Empurrou um pequeno portão: as edificações da mina eram contornos na treva, demarcados apenas por alguns lampiões.
     A Jean-Bart não tinha a importância da Voreux, mas as instalações renovadas faziam dela uma bela mina, segundo os engenheiros. Não se haviam contentado em alargar o poço para um metro e cinquenta e em aprofundá-lo até setecentos e oito metros, tinham-no reequipado totalmente: máquina nova, elevadores novos, todo o material novo, instalado segundo os últimos aperfeiçoamentos da ciência. Havia até um toque de elegância nas construções, o galpão da triagem com lambrequins recortados, torre do sino de rebate com relógio, a sala da recebedoria e a casa da máquina com uma abóbada estilo capela renascentista, encimada por uma chaminé em espiral axadrezada, feita de tijolos pretos e vermelhos. A bomba estava colocada no outro poço da concessão, na velha galeria Gaston-Marie, reservada unicamente para o esgoto. À direita e à esquerda da extração, a Jean-Bart só tinha dois poços, o do ventilador a vapor e o das escadas.
     De madrugada, a partir das três horas, Chaval já lá estava para convencer e incitar os camaradas, dizendo que era preciso imitar os trabalhadores de Montsou e pedir um aumento de cinco cêntimo por vagonete. Em breve, os quatrocentos operários da extração tinham abandonado o vestuário e aglomeravam-se na sala da recebedoria, num tumulto de gestos e gritos. Os que queriam trabalha empunhavam suas lâmpadas, estavam descalços e mantinham a pá ou a picareta debaixo do braço, ao passo que os outros, ainda de tamancos, o gibão sobre os ombros por causa do frio intenso, impediam o acesso ao poço. A essa altura, os contramestres já estavam roucos, tentando impor ordem, suplicando que fossem sensatos que deixassem descer aqueles que estavam dispostos a trabalhar.
     Chaval ficou fora de si ao ver Catherine de calças e jaqueta, a cabeça enrolada na coifa azul. Ao levantar-se ordenara-lhe brutalmente que ficasse deitada, mas ela, desesperada com aquela suspensão do trabalho, fora para a mina, porque ele nunca lhe dava dinheiro e, muitas vezes, era ela quem pagava por ambos. Que iria acontecer-lhe se ficasse sem ganhar nada? Um medo a obcecava, o medo de uma casa pública de Marchiennes, onde terminavam as operadoras de vagonetes sem pão e sem teto. 

— Diacho! — gritou Chaval. — Quem te mandou meter o nariz aqui?

     Ela tartamudeou que não tinha recursos e queria trabalhar. 

— Então estás contra mim, cadela? Volta já para casa ou eu te levo a pontapés na bunda!

     Cheia de medo, ela recuou, mas não foi embora, resolvida a ver como iam acabar as coisas.
     Deneulin chegava pela escada da triagem. Apesar da luz insuficiente dos lampiões, abarcou a cena com um olhar penetrante, estudando aquela multidão envolvida em treva, da qual conhecia todos os rostos: britadores, carregadores, ascensoristas, operadoras de vagonetes e até mesmo os meninos aprendizes. Dentro do galpão, ainda novo e limpo, o trabalho, parado, esperava; a máquina, sob pressão, emitia ligeiros assobios de vapor; os elevadores permaneciam suspensos dos cabos imóveis; os vagonetes, abandonados no caminho, atravancavam o recinto. Apenas oitenta lanternas tinham saído, as outras ainda flamejavam no depósito. Mas tinha certeza de que com uma palavra sua todo o trabalho recomeçaria.

— Então, qual é o problema, meus filhos? — perguntou ele com voz cheia. — Não estão contentes? Expliquem, porque havemos de entender-nos.

     Ainda que sempre exigindo grande esforço dos seus homens, de ordinário mostrava-se paternal com eles. Autoritário, de gestos bruscos, os procurava primeiro conquistá-los com uma bonomia que tinha lampejos altissonantes, e muitas vezes fazia-se querer; os operários respeitavam nele, sobretudo, o homem corajoso, sempre veios com eles, o primeiro no perigo, tão logo um acidente lançava pânico na mina. Já por duas vezes, após explosões de grisu, fora descido aos locais de perigo, amarrado pelos sovacos com uma corda, quando os mais valentes recuavam. 

— Espero que não façam que me arrependa por ter-me responsabilizado por vocês — continuou ele. — Bem sabem que não aceitei um destacamento de policiais aqui na mina... Falem calmamente, estou escutando.

     Todos se calaram, medrosos, procurando afastar-se dele. Foi Chaval quem acabou por dizer: 

— Sr. Deneulin, o que há é que não podemos continuar trabalhando sem um aumento de cinco cêntimos por vagonete.

     Ele pareceu surpreso. 

— O quê? Cinco cêntimos? A propósito de que esse pedido? Eu não me queixo do revestimento que vocês fazem, não quero impor-lhes uma nova tarifa, como a administração de Montsou. 
— É verdade, mas os companheiros de Montsou estão certos. Eles não aceitam a tarifa e exigem um aumento de cinco cêntimos porque não se consegue fazer bom trabalho com as atuais empreitadas... Queremos mais cinco cêntimos, não é verdade, pessoal?

     Alguns aprovaram, o murmúrio recomeçou, acompanhado de gestos violentos. Pouco a pouco iam apertando o círculo.

continua na página 254...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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