Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Quarta Parte
III
continuando...
Etienne, então, começou a falar da república, que daria pão a todos.
Mas a mulher sacudiu a cabeça: ela ainda se lembrava de 48, um ano dos
diabos, que os deixara pele e ossos, a ela e ao seu homem, nos primeiros
tempos do casamento. E começou a contar todos os percalços daquele ano
com sua voz monótona, o olhar perdido, o colo nu, enquanto Estelle, sem
largar o seio, dormia sobre seus joelhos. Etienne, também absorto, olhava
fixamente para aquele seio enorme, cuja brancura flácida contrastava com a
tez gretada e amarelecida do rosto.
— Não havia um centavo em parte alguma, ou mesmo um naco de
qualquer coisa para mastigar... — murmurou ela. — Enfim, era igual a hoje,
os pobres rebentando de fome!
Nesse momento, a porta se abriu e ambos ficaram mudos de
surpresa vendo Catherine entrar. Desde a sua fuga com Chaval, não mais
voltara ao conjunto habitacional. Sua confusão era tanta que nem mesmo
fechou a porta, toda trêmula e sem voz. Pensara que ia encontrar sua mãe
sozinha, e, ao ver o rapaz, a frase que preparara a caminho foi esquecida.
— Que é que vens fazer aqui? — gritou a mulher, permanecendo
sentada. — Não quero mais saber de ti, podes ir andando!
Catherine, então, conseguiu balbuciar algumas palavras.
— Mamãe! E café e açúcar que estou trazendo... para as crianças...
Perdi horas pensando nelas...
Tirou dos bolsos meio quilo de café e meio quilo de açúcar, que
corajosamente pôs sobre a mesa. Andava angustiada com a greve da
Voreux, enquanto ela continuava trabalhando na Jean-Bart, e só encontrara
esta maneira de ajudar um pouco os pais, o pretexto de pensar nas crianças.
Mas seu bom coração não amolecia o da mãe, que replicou:
— Em vez de trazer-nos gulodices, seria melhor que tivesses ficado
para ganhar nosso pão.
A mulher então teve um grande desabafo, encheu a filha de
insultos, lançou-lhe no rosto tudo aquilo que dizia contra ela havia um mês.
Fugir com um homem, amasiar-se aos dezesseis anos, tendo uma família na
mais negra miséria! Precisava ser a última das desnaturadas. Podia-se
perdoar um mau passo, mas uma mãe nunca esqueceria tal atitude! Como se
a trouxessem sob quatro chaves! Era livre como um passarinho, a única
coisa que lhe exigiam é que viesse dormir em casa...
— Com essa idade... O que tens na cabeça, hem?
Catherine, imóvel junto da mesa, escutava de cabeça baixa. Um
tremor agitava seu corpo magro de moça ainda não desabrochada.
procurava responder, e as palavras saíam entrecortadas.
— Não foi culpa minha, ele quis, mas não me sinto feliz... E,
quando ele quer, eu tenho de obedecer... Ele é o mais forte, tu bem sabes...
Como é que eu podia adivinhar que as coisas iam ficar desse jeito? Enfim, o
que está feito, está feito. E agora, melhor ele que outro. Vamos ter de
casar...
Defendia-se sem revolta, com a resignação passiva das moças que
são defloradas cedo. Não era essa a lei comum? Nunca sonhara com outra
coisa, era aquele o destino: violentada ao abrigo do aterro, um filho aos
dezesseis anos, depois a miséria no lar, se o amante a desposasse. Não
estava com vergonha, tremia assim por ser tratada como uma prostituta pela
mãe diante daquele rapaz, cuja presença a oprimia e exasperava.
Etienne, no entanto, levantara-se fingindo reavivar o fogo quase
apagado, para deixá-la mais à vontade. Mas seus olhares se encontraram,
ele achava-a pálida, cansada, mas sempre bonita com aqueles olhos tão
claros num rosto que fenecia. Teve uma estranha emoção, seu rancor
desaparecera, desejou simplesmente que ela fosse feliz com esse homem
pelo qual fora trocado. Sentia como um desejo de cuidar dela ainda, de ir a
Montsou e forçar o outro a entrar em brios. No entanto, a moça não viu
senão piedade naquela ternura que continuava a oferecer-se; ele devia
desprezá-la para fitá-la daquela maneira. Sofria tanto que ficou sufocada e
não pôde mais balbuciar outras palavras de desculpa.
— E melhor assim; ganhas mais calando-te — voltou à carga,
implacável, a mãe. — Se voltas para ficar, entra; senão podes ir andando...
E considera-te feliz de eu estar com a criança, porque a minha vontade é
fazer-te cair a pontapés.
Como se, de repente, a ameaça se realizasse, Catherine recebeu em
cheio um pontapé cuja violência deixou-a tonta de surpresa e de dor. Era
Chaval, que entrara de um salto pela porta aberta e lhe dera um coice de
besta furiosa. Havia um minuto que a espreitava do lado de fora.
— Cadela! — urrou ele. — Eu te segui, sabia que vinhas aqui para
foderes até rebentar! E quem paga és tu hem? O café que trazes para ele foi
comprado com o meu dinheiro!
A mulher de Maheu e Etienne, estupefatos, não se moviam. Com
gestos furibundos, Chaval empurrava Catherine para a porta.
— Vamos! sai de uma vez, cadela!
E, como ela corresse para um canto, ele começou a atacar a mãe
— É um belo trabalho guardar a casa enquanto a puta da tua filha
está lá em cima, de pernas abertas!
Conseguiu por fim agarrar Catherine pelo pulso e, aos sacalões
começou a arrastá-la para fora. Já na porta voltou-se outra vez para a
mulher de Maheu, ainda pregada na sua cadeira e que nem atinara em
guardar o seio. Estelle dormia com o nariz enfiado na saia de lã e o seio
enorme pendia livre e nu, como uma teta de vaca leiteira.
— Quando a filha não está é a mãe que trepa! — gritou Chaval. —
Anda, mostra-lhe os peitos! Ele não sente nojo, o canalha do teu inquilino!
Com aquela, Etienne levantou-se para esbofetear o outro. O receio
de tumultuar o conjunto habitacional com uma briga o contivera até ali de
arrancar Catherine das mãos de Chaval. Mas, agora, ele também era presa
da raiva, e os dois homens se encontraram frente a frente, com os olhos
injetados de sangue. Era um ódio antigo, um ciúme por muito tempo
inconfessado, que agora explodia. Chegara o momento de um dos dois
destruir o outro.
— Cuidado! — balbuciou Etienne, mal podendo falar. — Chegou a
tua hora!
— Vem, se és homem! — respondeu Chaval. Encararam-se ainda
por alguns segundos, tão de perto, que seus hálitos ardentes queimavam
lhes os rostos. Foi Catherine, suplicante, quem tomou a mão do amante para
arrastá-lo para fora do conjunto habitacional o mais depressa possível, sem
mesmo olhar para trás.
— Que animal! — murmurou Etienne batendo a porta
violentamente, agitado por tamanha cólera que teve de sentar.
Em frente a ele, a mulher, que ainda não se movera, fez um gesto
cheio de perplexidade, e ambos caíram num silêncio penoso e prenhe das
coisas que calavam. Apesar dos esforços em contrário, o rapaz, agora, não
podia tirar os olhos daquele seio, daquela torrente de carne branca, cuja
alvura o embaraçava. Sem dúvida, ela tinha quarenta anos e estava
deformada, como uma boa fêmea que produziu demais; mas muitos ainda a
desejavam, larga, sólida, com seu rosto cheio e comprido de moça que foi
bonita. Lenta e tranquilamente, ela arrepanhou o seio para guardá-lo. Como
um pedaço róseo se obstinasse em ficar de fora, empurrou-o com o dedo e
abotoou-se. Agora, era uma figura toda de preto, encolhida dentro da sua
velha bata.
— Mas que porco! — disse ela por fim. — Só mesmo um porco
mundo como ele pode ter ideias tão repugnantes... Que me importa! nem
merece resposta...
Depois, com voz franca, acrescentou, sem tirar os olhos do rapaz:
— Eu também tenho meus defeitos, mas não esse... Em toda a
minha vida, só dois homens me tocaram: um operador de vagonetes, há
muito tempo, quando eu tinha quinze anos, e depois Maheu. Se ele me
tivesse abandonado como o outro, ah meu Deus! nem sei o que teria
acontecido. E, se não tenho orgulho por ter sido sempre direita desde o
nosso casamento, é porque muitas vezes não se pratica o mal apenas por
falta de ocasião... Juro que estou dizendo a verdade; conheço vizinhas que
não poderiam dizer a mesma coisa, não é?
— É mesmo — respondeu Etienne, levantando-se e saindo.
A mulher decidiu espertar o fogo, depois de ter deitado Estelle
adormecida sobre duas cadeiras. Se o marido apanhasse um peixe para
vender, poderiam fazer uma sopa.
Fora, a noite caía, uma noite glacial. E, de cabeça baixa, Etienne
caminhava, tomado de grande tristeza. Não sentia mais cólera contra o
homem, ou mesmo piedade pela pobre mocinha maltratada. A cena brutal
apagava-se, desaparecia, atirando-o para o sofrimento geral, para a
abominável miséria. Podia ver o conjunto habitacional sem pão, as
mulheres e crianças que não comeriam naquela noite, toda aquela
população lutando de barriga vazia. E a dúvida que tantas vezes o
aguilhoava voltou, tendo por fundo a terrível melancolia do crepúsculo,
prostrando-o numa angústia de inusitada violência. Que enorme
responsabilidade carregava aos ombros! Iria continuar a empurrá-los, a
fazê-los obstinarem-se na resistência, agora que o dinheiro e o crédito
tinham acabado? E qual seria o desenlace se não viesse socorro algum, se a
fome vencesse os ânimos? Repentinamente teve a visão do desastre:
crianças morrendo, mães soluçando, enquanto os homens, cadavéricos e
cabisbaixos, voltavam a descer ao fundo da mina.
Continuava caminhando, tropeçando nas pedras; a ideia de que a
companhia seria a mais forte e de que ele era o responsável pela desgraça
dos camaradas enchia-o de uma angústia insuportável.
Quando ergueu a cabeça, viu que estava defronte da Voreux. A
massa sombria dos edifícios tornava-se mais pesada nas trevas que
avançavam. No meio, o pátio deserto, obstruído por grandes sombras
imóveis, mais parecia uma fortaleza abandonada. Desde que a máquina
extratora parava, a alma daquele complexo carbonífero se evolava. Aquela
hora da noite, tudo estava morto, não se via um lampião, não se ouvia uma
voz. E o próprio escapamento da bomba de esgoto não passava de um
estertor longínquo, vindo não se sabe de onde; era como se a mina inteira
estivesse prostrada.
Enquanto olhava, sentiu que o sangue fluía novamente em seu
coração. Se os operários estavam passando fome, a companhia estava
deixando de ganhar os seus milhões. Por que havia de ser ela a mais forte
nesta guerra do trabalho contra o dinheiro? Se ela vencesse, a vitória lhe
custaria caro; depois ver-se-ia quem perdera mais. Ressurgia nele a sede de
batalha, o desejo feroz de acabar com a miséria, mesmo que para isso
tivesse de dar a vida. Era melhor que o conjunto habitacional sucumbisse
todo junto, em vez de estar morrendo aos poucos, de fome e de injustiça. As
leituras mal digeridas voltavam-lhe à mente, exemplos de povos que tinham
incendiado suas cidades para deter o inimigo, histórias nebulosas onde as
mães salvavam seus filhos da escravidão esmigalhando suas cabeças contra
as pedras, onde os homens morriam de inanição para não comer o pão dos
tiranos. Tudo isso arrebatava-o, uma alegria vermelha emergia da sua crise
de negra tristeza, espantando a dúvida, envergonhando-o daquela vacilação
passageira. E, nesse despertar de fé, o orgulho surgia, carregando-o em suas
asas; era a alegria de ser o chefe, de se ver obedecido até o sacrifício, o
sonho cada vez maior de poder, a noite do triunfo. Já imaginava uma cena
de uma grandeza simples, sua não aceitação do poder, a autoridade entregue
às mãos do povo, quando ele fosse o vencedor.
Mas despertou sobressaltado com a voz de Maheu que lhe contava
da sorte que tivera: uma enorme truta pescada e vendida por três francos, o
que daria para a sopa.
Deixou Maheu seguir sozinho para o conjunto habitacional,
dizendo-lhe que iria em seguida, e entrou no Avantage, onde esperou a
partida de um freguês para dizer claramente a Rasseneur que pretendia
escrever a Pluchart pedindo-lhe que viesse imediatamente. Sua resolução
estava tomada, queria organizar uma reunião privada. Se os mineiros de
Montsou aderissem em massa à Internacional, a vitória era certa.
ontinua na página 203...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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