sábado, 10 de janeiro de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (III.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

III
 continuando...

     Etienne, então, começou a falar da república, que daria pão a todos. Mas a mulher sacudiu a cabeça: ela ainda se lembrava de 48, um ano dos diabos, que os deixara pele e ossos, a ela e ao seu homem, nos primeiros tempos do casamento. E começou a contar todos os percalços daquele ano com sua voz monótona, o olhar perdido, o colo nu, enquanto Estelle, sem largar o seio, dormia sobre seus joelhos. Etienne, também absorto, olhava fixamente para aquele seio enorme, cuja brancura flácida contrastava com a tez gretada e amarelecida do rosto. 

— Não havia um centavo em parte alguma, ou mesmo um naco de qualquer coisa para mastigar... — murmurou ela. — Enfim, era igual a hoje, os pobres rebentando de fome!

     Nesse momento, a porta se abriu e ambos ficaram mudos de surpresa vendo Catherine entrar. Desde a sua fuga com Chaval, não mais voltara ao conjunto habitacional. Sua confusão era tanta que nem mesmo fechou a porta, toda trêmula e sem voz. Pensara que ia encontrar sua mãe sozinha, e, ao ver o rapaz, a frase que preparara a caminho foi esquecida. 

— Que é que vens fazer aqui? — gritou a mulher, permanecendo sentada. — Não quero mais saber de ti, podes ir andando!

     Catherine, então, conseguiu balbuciar algumas palavras. 

— Mamãe! E café e açúcar que estou trazendo... para as crianças... Perdi horas pensando nelas...

     Tirou dos bolsos meio quilo de café e meio quilo de açúcar, que corajosamente pôs sobre a mesa. Andava angustiada com a greve da Voreux, enquanto ela continuava trabalhando na Jean-Bart, e só encontrara esta maneira de ajudar um pouco os pais, o pretexto de pensar nas crianças. Mas seu bom coração não amolecia o da mãe, que replicou: 

— Em vez de trazer-nos gulodices, seria melhor que tivesses ficado para ganhar nosso pão.

     A mulher então teve um grande desabafo, encheu a filha de insultos, lançou-lhe no rosto tudo aquilo que dizia contra ela havia um mês. Fugir com um homem, amasiar-se aos dezesseis anos, tendo uma família na mais negra miséria! Precisava ser a última das desnaturadas. Podia-se perdoar um mau passo, mas uma mãe nunca esqueceria tal atitude! Como se a trouxessem sob quatro chaves! Era livre como um passarinho, a única coisa que lhe exigiam é que viesse dormir em casa... 

— Com essa idade... O que tens na cabeça, hem?

     Catherine, imóvel junto da mesa, escutava de cabeça baixa. Um tremor agitava seu corpo magro de moça ainda não desabrochada. procurava responder, e as palavras saíam entrecortadas. 

— Não foi culpa minha, ele quis, mas não me sinto feliz... E, quando ele quer, eu tenho de obedecer... Ele é o mais forte, tu bem sabes... Como é que eu podia adivinhar que as coisas iam ficar desse jeito? Enfim, o que está feito, está feito. E agora, melhor ele que outro. Vamos ter de casar...

     Defendia-se sem revolta, com a resignação passiva das moças que são defloradas cedo. Não era essa a lei comum? Nunca sonhara com outra coisa, era aquele o destino: violentada ao abrigo do aterro, um filho aos dezesseis anos, depois a miséria no lar, se o amante a desposasse. Não estava com vergonha, tremia assim por ser tratada como uma prostituta pela mãe diante daquele rapaz, cuja presença a oprimia e exasperava.
     Etienne, no entanto, levantara-se fingindo reavivar o fogo quase apagado, para deixá-la mais à vontade. Mas seus olhares se encontraram, ele achava-a pálida, cansada, mas sempre bonita com aqueles olhos tão claros num rosto que fenecia. Teve uma estranha emoção, seu rancor desaparecera, desejou simplesmente que ela fosse feliz com esse homem pelo qual fora trocado. Sentia como um desejo de cuidar dela ainda, de ir a Montsou e forçar o outro a entrar em brios. No entanto, a moça não viu senão piedade naquela ternura que continuava a oferecer-se; ele devia desprezá-la para fitá-la daquela maneira. Sofria tanto que ficou sufocada e não pôde mais balbuciar outras palavras de desculpa. 

— E melhor assim; ganhas mais calando-te — voltou à carga, implacável, a mãe. — Se voltas para ficar, entra; senão podes ir andando... E considera-te feliz de eu estar com a criança, porque a minha vontade é fazer-te cair a pontapés.

     Como se, de repente, a ameaça se realizasse, Catherine recebeu em cheio um pontapé cuja violência deixou-a tonta de surpresa e de dor. Era Chaval, que entrara de um salto pela porta aberta e lhe dera um coice de besta furiosa. Havia um minuto que a espreitava do lado de fora. 

— Cadela! — urrou ele. — Eu te segui, sabia que vinhas aqui para foderes até rebentar! E quem paga és tu hem? O café que trazes para ele foi comprado com o meu dinheiro!

     A mulher de Maheu e Etienne, estupefatos, não se moviam. Com gestos furibundos, Chaval empurrava Catherine para a porta. 

— Vamos! sai de uma vez, cadela!

     E, como ela corresse para um canto, ele começou a atacar a mãe 

— É um belo trabalho guardar a casa enquanto a puta da tua filha está lá em cima, de pernas abertas!

     Conseguiu por fim agarrar Catherine pelo pulso e, aos sacalões começou a arrastá-la para fora. Já na porta voltou-se outra vez para a mulher de Maheu, ainda pregada na sua cadeira e que nem atinara em guardar o seio. Estelle dormia com o nariz enfiado na saia de lã e o seio enorme pendia livre e nu, como uma teta de vaca leiteira. 

— Quando a filha não está é a mãe que trepa! — gritou Chaval. — Anda, mostra-lhe os peitos! Ele não sente nojo, o canalha do teu inquilino!

     Com aquela, Etienne levantou-se para esbofetear o outro. O receio de tumultuar o conjunto habitacional com uma briga o contivera até ali de arrancar Catherine das mãos de Chaval. Mas, agora, ele também era presa da raiva, e os dois homens se encontraram frente a frente, com os olhos injetados de sangue. Era um ódio antigo, um ciúme por muito tempo inconfessado, que agora explodia. Chegara o momento de um dos dois destruir o outro. 

— Cuidado! — balbuciou Etienne, mal podendo falar. — Chegou a tua hora! 
— Vem, se és homem! — respondeu Chaval. Encararam-se ainda por alguns segundos, tão de perto, que seus hálitos ardentes queimavam lhes os rostos. Foi Catherine, suplicante, quem tomou a mão do amante para arrastá-lo para fora do conjunto habitacional o mais depressa possível, sem mesmo olhar para trás. 
— Que animal! — murmurou Etienne batendo a porta violentamente, agitado por tamanha cólera que teve de sentar.

     Em frente a ele, a mulher, que ainda não se movera, fez um gesto cheio de perplexidade, e ambos caíram num silêncio penoso e prenhe das coisas que calavam. Apesar dos esforços em contrário, o rapaz, agora, não podia tirar os olhos daquele seio, daquela torrente de carne branca, cuja alvura o embaraçava. Sem dúvida, ela tinha quarenta anos e estava deformada, como uma boa fêmea que produziu demais; mas muitos ainda a desejavam, larga, sólida, com seu rosto cheio e comprido de moça que foi bonita. Lenta e tranquilamente, ela arrepanhou o seio para guardá-lo. Como um pedaço róseo se obstinasse em ficar de fora, empurrou-o com o dedo e abotoou-se. Agora, era uma figura toda de preto, encolhida dentro da sua velha bata. 

— Mas que porco! — disse ela por fim. — Só mesmo um porco mundo como ele pode ter ideias tão repugnantes... Que me importa! nem merece resposta...

     Depois, com voz franca, acrescentou, sem tirar os olhos do rapaz: 

— Eu também tenho meus defeitos, mas não esse... Em toda a minha vida, só dois homens me tocaram: um operador de vagonetes, há muito tempo, quando eu tinha quinze anos, e depois Maheu. Se ele me tivesse abandonado como o outro, ah meu Deus! nem sei o que teria acontecido. E, se não tenho orgulho por ter sido sempre direita desde o nosso casamento, é porque muitas vezes não se pratica o mal apenas por falta de ocasião... Juro que estou dizendo a verdade; conheço vizinhas que não poderiam dizer a mesma coisa, não é? 
— É mesmo — respondeu Etienne, levantando-se e saindo.

     A mulher decidiu espertar o fogo, depois de ter deitado Estelle adormecida sobre duas cadeiras. Se o marido apanhasse um peixe para vender, poderiam fazer uma sopa.
     Fora, a noite caía, uma noite glacial. E, de cabeça baixa, Etienne caminhava, tomado de grande tristeza. Não sentia mais cólera contra o homem, ou mesmo piedade pela pobre mocinha maltratada. A cena brutal apagava-se, desaparecia, atirando-o para o sofrimento geral, para a abominável miséria. Podia ver o conjunto habitacional sem pão, as mulheres e crianças que não comeriam naquela noite, toda aquela população lutando de barriga vazia. E a dúvida que tantas vezes o aguilhoava voltou, tendo por fundo a terrível melancolia do crepúsculo, prostrando-o numa angústia de inusitada violência. Que enorme responsabilidade carregava aos ombros! Iria continuar a empurrá-los, a fazê-los obstinarem-se na resistência, agora que o dinheiro e o crédito tinham acabado? E qual seria o desenlace se não viesse socorro algum, se a fome vencesse os ânimos? Repentinamente teve a visão do desastre: crianças morrendo, mães soluçando, enquanto os homens, cadavéricos e cabisbaixos, voltavam a descer ao fundo da mina.
     Continuava caminhando, tropeçando nas pedras; a ideia de que a companhia seria a mais forte e de que ele era o responsável pela desgraça dos camaradas enchia-o de uma angústia insuportável.
     Quando ergueu a cabeça, viu que estava defronte da Voreux. A massa sombria dos edifícios tornava-se mais pesada nas trevas que avançavam. No meio, o pátio deserto, obstruído por grandes sombras imóveis, mais parecia uma fortaleza abandonada. Desde que a máquina extratora parava, a alma daquele complexo carbonífero se evolava. Aquela hora da noite, tudo estava morto, não se via um lampião, não se ouvia uma voz. E o próprio escapamento da bomba de esgoto não passava de um estertor longínquo, vindo não se sabe de onde; era como se a mina inteira estivesse prostrada.
     Enquanto olhava, sentiu que o sangue fluía novamente em seu coração. Se os operários estavam passando fome, a companhia estava deixando de ganhar os seus milhões. Por que havia de ser ela a mais forte nesta guerra do trabalho contra o dinheiro? Se ela vencesse, a vitória lhe custaria caro; depois ver-se-ia quem perdera mais. Ressurgia nele a sede de batalha, o desejo feroz de acabar com a miséria, mesmo que para isso tivesse de dar a vida. Era melhor que o conjunto habitacional sucumbisse todo junto, em vez de estar morrendo aos poucos, de fome e de injustiça. As leituras mal digeridas voltavam-lhe à mente, exemplos de povos que tinham incendiado suas cidades para deter o inimigo, histórias nebulosas onde as mães salvavam seus filhos da escravidão esmigalhando suas cabeças contra as pedras, onde os homens morriam de inanição para não comer o pão dos tiranos. Tudo isso arrebatava-o, uma alegria vermelha emergia da sua crise de negra tristeza, espantando a dúvida, envergonhando-o daquela vacilação passageira. E, nesse despertar de fé, o orgulho surgia, carregando-o em suas asas; era a alegria de ser o chefe, de se ver obedecido até o sacrifício, o sonho cada vez maior de poder, a noite do triunfo. Já imaginava uma cena de uma grandeza simples, sua não aceitação do poder, a autoridade entregue às mãos do povo, quando ele fosse o vencedor.
     Mas despertou sobressaltado com a voz de Maheu que lhe contava da sorte que tivera: uma enorme truta pescada e vendida por três francos, o que daria para a sopa.
     Deixou Maheu seguir sozinho para o conjunto habitacional, dizendo-lhe que iria em seguida, e entrou no Avantage, onde esperou a partida de um freguês para dizer claramente a Rasseneur que pretendia escrever a Pluchart pedindo-lhe que viesse imediatamente. Sua resolução estava tomada, queria organizar uma reunião privada. Se os mineiros de Montsou aderissem em massa à Internacional, a vitória era certa.

ontinua na página 203...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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