O SOBREVIVENTE
O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos
continuando...
Como alguém consegue salvar-se na guerra, quando todos os que lhe são aparentados pereceram? E como se sente esse único alguém? A esse respeito, informa-nos uma passagem de um mito indígena anotado por Koch-Grünberg junto aos taulipangues, na América do Sul.
Os inimigos vieram e os atacaram. Chegaram à aldeia, que se compunha de cinco casas, e, à noite, incendiaram-na em dois lugares, a m de que, em razão da claridade, os habitantes não pudessem fugir no escuro. Com seus tacapes, mataram muitos deles, no momento mesmo em que pretendiam escapar de suas casas.Um homem chamado Maitchaule deitou-se ileso em meio a um amontoado de mortos e, com o intuito de enganar os inimigos, lambuzou o rosto e o corpo de sangue. Acreditando que estavam todos mortos, eles foram embora. Restou somente aquele homem. Ele se foi, banhou-se e caminhou até uma outra casa, não muito distante. Pensou que houvesse gente ali, mas não achou ninguém. Todos haviam fugido. Encontrou apenas bolo de mandioca e carne assada, e comeu. Pôs-se, então, a refletir; deixou a casa e afastou-se. Sentou-se e seguiu pensando. Pensou no pai e na mãe, que haviam sido mortos pelos inimigos, e que agora não tinha mais ninguém no mundo. Então disse: “Vou me deitar ao lado de meus companheiros, que estão mortos!”. E, com muito medo, retornou à aldeia incendiada. Encontrou nela uma grande quantidade de abutres. Maitchaule era um feiticeiro e havia sonhado com uma linda moça. Espantou os abutres e deitou-se ao lado dos companheiros mortos. Lambuzara-se novamente de sangue. A m de poder usá-las a qualquer momento, manteve as mãos junto à cabeça. Os abutres, então, voltaram e puseram-se a disputar os cadáveres. Em seguida, chegou a filha do rei dos abutres. E o que fez, então, a filha do rei? Pousou sobre o peito de Maitchaule e, quando ia bicar-lhe o corpo, ele a agarrou. Os abutres bateram em retirada. Maitchaule disse à filha do rei dos abutres: “Transforma-te numa mulher! Estou tão sozinho aqui, sem ninguém que me ajude”. E levou-a consigo para a casa abandonada. Lá, cuidou dela como de um pássaro domesticado. Disse-lhe: “Agora vou pescar. Quando voltar, quero encontrar-te transformada numa mulher!”.
Primeiramente, Maitchaule deita-se entre os mortos, para escapar.
Faz-se de morto para não ser descoberto. Depois, descobre ser o único
que restou, sentindo-se triste e amedrontado. Decide, assim, deitar-se
novamente entre os companheiros mortos. De início, talvez entretenha
o pensamento de compartilhar de seu destino. Muito seriamente,
porém, não o faz, pois sonhou com uma linda moça, e, não vendo
nenhum outro ser vivo em torno de si senão abutres, toma um abutre
para ser sua mulher. Pode-se acrescentar ainda que, atendendo ao seu
desejo, o pássaro de fato se transforma numa mulher.
É notável o número de tribos — e, aliás, por todo o mundo —
oriundas de um casal que é o único a permanecer vivo após uma grande
catástrofe. O caso do bem conhecido dilúvio bíblico é atenuado pelo
direito que tem Noé a toda a sua família. É-lhe permitido levar consigo
na arca toda a sua estirpe, além de um casal de cada espécie de ser vivo.
Mas o agraciado com a misericórdia divina é ele próprio; a virtude da
sobrevivência — nesse caso, uma virtude religiosa — pertence a ele, e é
somente por causa dele que os demais podem entrar na arca. Há
exemplos mais crus dessa mesma lenda, narrativas nas quais, à exceção
do casal primordial, todos os demais homens perecem. Nem sempre tais
narrativas encontram-se vinculadas à ideia de um dilúvio.
Frequentemente, é em consequência de epidemias que os homens todos
perecem, à exceção de um único, que, vagando em busca de uma
mulher, acaba por encontrar uma única, às vezes duas, com as quais se
casa, fundando assim uma nova estirpe.
É parte da força e da glória desse antepassado que, um dia, ele tenha
restado como o único homem sobre a terra. Ainda que não se afirme
explicitamente, constitui uma espécie de mérito seu o fato de não ter
sucumbido junto com os outros. Ao prestígio de que ele desfruta por ser
o antepassado de todos quantos vieram depois dele junta-se o respeito
pela afortunada força de sua sobrevivência. Enquanto vivia ainda entre
muitos dos seus, é possível que não se tenha distinguido de forma tão
particular: era um homem como todos os outros. De súbito, porém,
está totalmente sozinho. A época de sua peregrinação solitária é descrita
em muitos detalhes. O espaço mais amplo ocupa aí sua busca por seres
vivos, em lugar dos quais encontra apenas cadáveres por toda parte. A
certeza crescente de que, além dele, não há de fato mais ninguém o
impregna de desespero. Contudo, uma outra nota soa aí também,
inequívoca: a humanidade que com ele recomeça repousa tão somente
nele; sem ele, e sem sua coragem de recomeçar sozinho, ela
absolutamente não existiria.
Das narrativas dessa espécie que nos foram transmitidas, uma das
mais simples é a da origem dos kutenais. Seu texto é o que se segue.
As pessoas viviam ali e, de repente, veio uma epidemia. Estavam morrendo. Morriam todas. Puseram-se a vagar, levando a notícia umas às outras. Entre a totalidade dos kutenais reinava a doença. Por toda parte era a mesma coisa. Num determinado lugar não encontraram ninguém. Estavam todos mortos. Restara uma única pessoa. Um dia, essa pessoa que restara se curou. Tratava-se de um homem, e ele estava sozinho. Então, pensou: “Vou vagar pelo mundo para ver se encontro alguém em alguma parte. Se não encontrar ninguém, não vou mais querer regressar. Não há ninguém no mundo, e ninguém jamais virá me visitar”. O homem partiu em sua canoa e chegou ao último acampamento dos kutenais. Chegando lá, onde normalmente se viam pessoas à beira do rio, não encontrou ninguém; e, andando pelas redondezas, viu apenas mortos — nenhum sinal de vida em parte alguma. Tornou a partir em sua canoa e, chegando a uma outra localidade, desembarcou, mais uma vez encontrando apenas mortos. Não havia ninguém ali. Tomou, então, o caminho de volta. Alcançou o último povoado onde os kutenais tinham vivido. Entrou no povoado. Nas tendas, havia tão somente cadáveres amontoados. Vagou, pois, sem parar e viu que todos haviam morrido. Chorava ao caminhar. “Sou o único que restou”, disse para si mesmo; “até mesmo os cães estão mortos.” Ao chegar à aldeia mais longínqua, viu pegadas humanas. Havia uma tenda ali. Em seu interior, não havia cadáveres. Mais adiante cava a aldeia. Soube, então, que duas ou três pessoas ainda estavam vivas. Viu pegadas maiores e menores, e não saberia dizer se eram de três pessoas. Mas alguém se salvara. Seguiu adiante em sua canoa e pensou: “Remarei naquela direção. Os que viviam aqui costumavam remar para lá. Se se trata de um homem, talvez ele se tenha mudado para mais adiante”.Assim, sentado em sua canoa, viu mais acima, a uma certa distância, dois ursos pretos comendo pequenas frutas. Pensou: “Vou atirar neles e, se os acertar, eu os como. Porei sua carne para secar e, então, darei uma olhada por aí, para ver se sobrou alguém vivo. Primeiro, ponho a carne para secar; depois, vou procurar as pessoas. Anal, vi pegadas de gente. Talvez sejam homens ou mulheres famintas. Precisam também de algo para comer”. Caminhou rumo aos ursos. Ao aproximar-se, viu que não eram ursos, mas mulheres. Uma era mais velha; a outra, uma moça. Pensou consigo: “Fico contente de ver seres humanos. Tomarei esta mulher por esposa”. Adiantou-se, pois, e pegou a moça, que disse a sua mãe: “Mãe, estou vendo um homem”. A mãe ergueu os olhos e viu que sua filha estava falando a verdade. Viu um homem pegando sua filha. Então, a mulher, a moça e o jovem homem choraram, pois os kutenais haviam morrido todos. Fitando-se uns aos outros, choraram juntos. A mulher disse: “Não leve minha filha. Ela ainda é pequena. Leve a mim. Você será o meu homem. No futuro, quando minha filha crescer, ela será tua mulher. Então você terá filhos”. O jovem casou se com a mulher mais velha. Não tardou muito até que ela lhe dissesse: “Agora minha filha está adulta. Agora ela pode ser tua mulher. É bom que vocês tenham filhos. O ventre dela agora está forte”. O jovem, então, tomou a moça por esposa, e, daí em diante, os kutenais se multiplicaram.
Uma terceira espécie de catástrofe — o suicídio em massa —,
consequência, por vezes, da epidemia e da guerra, produziu também
seus sobreviventes. A seguir, apresenta-se aqui uma lenda dos ba-ilas, um
povo banto da Rodésia.
Dois clãs dos ba-ilas, um dos quais denominando-se o das cabras e o
outro o dos vespões, encontravam-se em grave disputa. O motivo da
discórdia era a qual deles cabia o direito à ocupação do posto de
cacique. O clã das cabras, que já desfrutara da primazia, perdera o posto
e, em razão do orgulho ferido, seus membros decidiram afogar-se todos
juntos no lago. Homens, mulheres e crianças confeccionaram uma
corda bastante comprida. Reuniram-se, então, à beira do lago, ataram
todos, um por um, a corda ao pescoço e mergulharam juntos na água.
Um homem oriundo de um terceiro clã, o dos leões, desposara uma
mulher do clã das cabras. Tentou, pois, impedi-la de suicidar-se e, não
conseguindo, decidiu morrer junto com ela. Coincidentemente, haviam
sido ambos os últimos a atarem-se à corda. Foram, assim, arrastados
juntamente com os outros e estavam para se afogar quando,
subitamente, o homem sentiu pena e cortou a corda, libertando-se a si
próprio e a sua mulher. Tentando livrar-se dele ela gritou: “Me solta!
Me solta!”. Ele, porém, não cedeu, trazendo-a de volta para a terra. Por
essa razão, até hoje a gente do clã dos leões diz àqueles do clã das cabras:
“Nós salvamos vocês da extinção. Nós!”.
Por fim, cumpre ainda considerar aqui um emprego consciente dos
sobreviventes proveniente de tempos históricos e muito bem atestado.
Numa luta de aniquilação travada por duas tribos indígenas da América
do Sul, um único representante do lado dos derrotados é mantido com
vida pelos inimigos e enviado de volta para sua gente. Deveria contar
lhes o que vira e retirar-lhes toda a coragem de prosseguir lutando.
Ouçamos, nas palavras de Humboldt, o relato acerca desse mensageiro
do terror:
Após o ano de 1720, a longa resistência que, reunidos sob o comando de um líder valente, os cabres haviam oposto aos caraíbas arruinara os primeiros. Haviam derrotado o inimigo na foz do rio; uma porção de caraíbas foi morta em fuga, entre as corredeiras e uma ilha. Os prisioneiros foram devorados; mas, com aquela refinada astúcia e crueldade que é própria dos povos das Américas do Sul e do Norte, deixaram um único caraíba com vida o qual, afim de testemunhar o bárbaro acontecimento, foi obrigado a subir numa árvore para, imediatamente depois, dar conhecimento aos derrotados do que vira. Contudo, o êxtase vitorioso do chefe dos cabres foi de curta duração. Os caraíbas retornaram em massas tamanhas que dos cabres antropófagos restaram apenas uns míseros resquícios.
Esse único sobrevivente, deixado escarnecedoramente com vida, vê,
de cima de uma árvore, sua gente ser devorada. Todos os guerreiros
juntamente com os quais ele partira para a batalha tombaram em
combate ou foram parar no estômago dos inimigos. Na condição de
sobrevivente compulsório, tendo diante dos olhos as imagens do terror,
ele é enviado de volta a sua gente. O sentido de sua mensagem,
conforme a concebem os inimigos, seria: “Somos tão poderosos que
restou um único de vocês. Não ousem lutar conosco novamente!”.
Contudo, a força do que viu é tão grande em seu interior, sua unicidade
compulsória é tão impressionante que ele, contrariamente ao esperado,
incita sua gente à vingança. Os caraíbas acorrem em massas provindas
de toda parte e dão para sempre um fim nos cabres.
Essa história, que não é a única em seu gênero, mostra a clareza com
que os povos primitivos veem o sobrevivente. Têm plena consciência da
singularidade de sua situação. Contam com essa singularidade e
procuram empregá-la para seus objetivos particulares. Para ambos os
lados, junto aos inimigos e aos amigos, o caraíba que esteve em cima da
árvore
representou
seu
papel
corretamente.
Refletindo-se
corajosamente sobre essa sua dupla função, pode-se aprender uma
infinidade de coisas.
continua página 397...
____________________
Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
____________________
Leia também:
Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (c)
____________________
ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________
Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
Nenhum comentário:
Postar um comentário