terça-feira, 14 de abril de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu(a)

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Os Mortos Como Aqueles Aos Quais Se Sobreviveu
 
          Ninguém que se ocupe dos testemunhos originais da vida religiosa deixará de espantar-se com o poder dos mortos. A existência de muitas tribos apresenta-se inteiramente impregnada de ritos a eles relacionados.
     O que chama a atenção em primeiro lugar e por toda parte é o medo que se tem dos mortos. Estes estão insatisfeitos e repletos de inveja dos parentes que deixaram para trás. Tentam vingar-se deles, às vezes por ofensas que lhes foram impingidas ainda em vida, mas, com frequência, também pelo simples fato de não estarem mais vivos. É a inveja dos mortos o que os vivos mais temem. Procuram atenuá-la adulando-os e oferecendo-lhes alimento. Dão-lhes tudo aquilo de que precisam para o caminho rumo à terra dos mortos, e o fazem apenas para que eles se mantenham bem distantes e não voltem mais para causar dano e atormentar os que ficaram. Os espíritos dos mortos enviam doenças ou trazem-nas eles próprios; exercem influência sobre o crescimento dos animais e o sucesso da colheita; interferem, enfim, de centenas de maneiras na vida dos homens.
     Uma sua verdadeira paixão que vive a manifestar-se é aquela de vir buscar os vivos. Como os invejam pelos objetos todos da vida cotidiana que tiveram de deixar para trás, era costume não conservar coisa alguma destes, ou apenas o mínimo possível. Eram todos colocados na cova ou incinerados junto com os mortos. Abandonava-se a cabana onde estes haviam morado e jamais se voltava lá. Com frequência, enterravam-se os mortos em sua própria casa, juntamente com todos os seus pertences, a fim de deixar-lhes claro que não se pretendia ficar com estes últimos. Tampouco isso bastava, porém, para desviar-lhes inteiramente a ira, pois a inveja maior dos mortos não se dirigia aos objetos — que podiam ser novamente produzidos ou adquiridos —, mas sim à própria vida.
     É, por certo, notável que, por toda parte, sob as mais variadas circunstâncias, se atribua aos mortos essa mesma disposição. Aparentemente, o mesmo sentimento domina os mortos de todos os povos. Eles sempre teriam preferido permanecer vivos. Aos olhos dos que ainda o estão, todo aquele que não está mais vivo sofreu uma derrota, a qual consiste no fato de se ter sobrevivido a ele. O morto não é capaz de conformar-se com isso, e é natural que deseje ele próprio impingir a outros essa dor suprema que lhe foi impingida.
     Todo morto é, portanto, alguém a quem se sobreviveu. Somente naquelas grandes e relativamente raras catástrofes nas quais todos sucumbem juntos é que tal situação se modifica. A morte solitária, aquela que nos interessa aqui, dá-se de modo a arrancar um único ser humano do seio de sua família e de seu grupo. Ele deixa para trás todo um bando de sobreviventes, e todos quantos possuem algum direito sobre o morto formam uma malta de pesar a lamentar por ele. Ao sentimento de enfraquecimento por sua morte vem juntar-se aquele do amor que se tinha por ele, e ambos esses sentimentos são amiúde inseparáveis. Lamenta-se pelo morto da maneira mais apaixonada, e, em seu cerne, tal lamento certamente constitui um sentimento genuíno. Se os que estão de fora tendem a suspeitar das manifestações desse lamento, tal se deve à natureza complexa, à multiplicidade de sentidos da própria situação.
     E isso porque as mesmas pessoas que têm motivo para lamentar-se são também sobreviventes. Elas lamentam na qualidade de pessoas que sofreram uma perda, mas, na condição de sobreviventes, sentem uma espécie de satisfação. Em geral, não admitirão nem mesmo para si próprias esse seu sentimento inadequado. Mas sempre saberão precisamente de que forma o morto o sente. Este só pode odiá-las, pois a vida de que elas desfrutam, ele não a tem mais. Chamam de volta sua alma a fim de convencê-lo de que não queriam sua morte. Lembram-no como foram boas para ele, quando ele estava ainda entre elas. Enumeram as provas concretas de que fazem tudo da maneira como ele teria desejado. Os últimos e manifestos desejos do morto, elas os cumprem de modo consciencioso. Em muitos lugares, esse último desejo tem força de lei. Em tudo o que as pessoas fazem encontra-se inabalavelmente pressuposta uma única coisa: o rancor do morto pelo fato de elas terem sobrevivido.
     Em Demerara, um menino índio adquirira o hábito de comer areia, o que o levou à morte. Seu corpo jazia num esquife aberto que seu pai encomendara a um marceneiro da vizinhança. Antes do sepultamento, a avó do menino postou-se ao lado do esquife e disse com voz lamentosa: “Meu filho, eu sempre te disse que você não devia comer areia. Eu nunca te dei areia, pois sabia que não te faria bem. Mas você sempre a procurou por conta própria. Eu te disse que isso era ruim. Agora você está vendo: a areia te matou. Não me faça nenhum mal; foi você mesmo quem se fez mal; alguma coisa ruim te fez comer areia. Veja: estou colocando uma flecha e um arco a teu lado, para que você se contente com eles. Eu sempre fui boa para você. Agora seja bom para mim também e não me faça nada”.
     Então, chorando, a mãe juntou-se à avó e, numa espécie de cantilena, disse: “Meu filho, eu te trouxe ao mundo para que você visse todas as coisas boas e se alegrasse com elas. Este peito te alimentou todas as vezes que você o pediu. Fiz coisas bonitas e belas camisas para você. Cuidei de você, te alimentei, brinquei com você e nunca te bati. Você tem que ser bom e não trazer nada de ruim para mim”.
     O pai da criança aproximou-se também, dizendo: “Meu filho, quando eu te disse que a areia ia te matar você não quis me ouvir, e agora veja: você está morto. Eu saí e arranjei um belo caixão para você. Vou ter de trabalhar para pagá-lo. Cavei tua cova num lugar bonito, onde você gostava de brincar. Vou te enterrar e te dar areia para comer, pois agora ela não poderá mais te fazer mal, e eu sei como você gosta de areia. Você não pode me trazer nenhuma desgraça; o melhor é que você vá atrás de quem te fez comer areia”.
     A avó, a mãe e o pai amaram essa criança, e, embora ela seja tão pequena, temem o seu rancor, pois eles continuam vivos. Garantem-lhe que não tiveram culpa por sua morte. A avó dá-lhe um arco e uma flecha. O pai comprou-lhe um caixão caro e colocará areia na cova para o filho comer, porque sabe o quanto ele gostava. O carinho singelo que demonstram para com a criança é comovente; e, no entanto, ele tem algo de sinistro, pois está impregnado de medo.
     Da crença na continuidade da vida dos mortos originou-se em alguns povos um culto aos antepassados. Onde quer que tal culto tenha assumido formas fixas a impressão que causa é a de que as pessoas souberam do mar os próprios mortos que são os que lhes importam. Concedendo-lhes regularmente aquilo que desejam — honra e alimento —, elas os mantêm satisfeitos. Se observado de acordo com todas as regras da tradição, esse cuidar dos mortos os transforma em aliados. O que foram nesta vida é o que serão também mais tarde; eles ocupam sua antiga posição. Quem, na terra, foi um poderoso cacique, isso é o que será também debaixo da terra. Nos sacrifícios e evocações, seu nome será citado em primeiro lugar. Sua suscetibilidade é prudentemente poupada; se ferida, ele pode tornar-se bastante perigoso. O morto interessa-se pela prosperidade de sua descendência; muita coisa depende dele, e seu bom humor é imprescindível. Gosta de deter-se nas proximidades de seus descendentes, e não se pode fazer coisa alguma para expulsá-lo dali.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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