O SOBREVIVENTE
A Salvação de Flávio Josefo
continuando...
Contudo, a estadia de Josefo entre eles — Josefo, que é quem está sendo verdadeiramente procurado — é denunciada aos romanos por uma mulher. Com isso, a situação altera-se radicalmente, e tem início o segundo ato — de longe, o mais interessante de todo o relato: em razão da franqueza com que o apresenta seu ator principal, pode-se caracterizá-lo como singular.
Os romanos prometem-lhe a vida. Tão logo Josefo acredita neles, eles
já não são mais seus inimigos. Trata-se, no sentido mais profundo, de
uma questão de fé. Uma profética visão onírica ocorre-lhe no momento
certo. Josefo foi avisado de que os judeus sucumbirão. Sucumbiram de
fato, ainda que momentaneamente apenas no interior da fortaleza que
Josefo comandava. A sorte está do lado dos romanos. A visão na qual
isso lhe foi anunciado proveio de Deus. Com o auxílio divino, ele
encontrará também o caminho até os romanos. Josefo coloca-se sob a
proteção divina e volta-se, então, contra seus novos inimigos — os
judeus que estão com ele na caverna. Estes, para não cair nas mãos dos
romanos, querem cometer suicídio. Josefo, o comandante que os
encorajou à luta, deveria ser o primeiro a dispor-se a essa forma de
aniquilação. Mas está firmemente decidido a viver. Busca persuadi-los;
com centenas de argumentos, procura tirar-lhes a vontade de morrer.
Não obtém sucesso. Tudo quanto diz contra a morte intensifica-lhes a
cega determinação e a ira contra ele, que deseja escapar. Percebe, então,
que somente logrará escapar se eles se matarem uns aos outros e ele,
Josefo, permanecer por último. Cede, assim, aparentemente, à sua
vontade, e se vale da ideia do sorteio.
Um tal sorteio há de despertar suspeitas; é difícil não acreditar que se
trate de um engodo. Tem-se aí a única passagem em que o relato de
Josefo permanece obscuro. Ele atribui o espantoso resultado dessa
loteria da morte à divindade ou ao acaso, mas a impressão que se tem é
a de que deixa à inteligência do leitor a tarefa de adivinhar o que
verdadeiramente aconteceu. E isso porque o que vem em seguida é
monstruoso: diante de seus olhos, sua gente põe-se a matar-se
mutuamente. Não morrem, porém, todos juntos, mas um de cada vez.
Entre um assassinato e outro, tira-se a sorte. Cada um tem de matar
com as próprias mãos um companheiro, sendo, então, ele próprio
morto pelo seguinte a quem a sorte designar. Os escrúpulos religiosos
que Josefo exibira em relação ao suicídio evidentemente não se aplicam
no tocante ao assassinato. A cada um que ele vê tombar intensifica-se a
sua esperança de salvação. A cada um deles e a todos juntos deseja a
morte; para si, nada quer a não ser a vida. Morrem todos de bom grado,
acreditando que Josefo, seu comandante, morrerá com eles. Não podem
supor que ele venha a ser o último de todos. É improvável que tenham
sequer imaginado tal possibilidade. Como, porém, alguém terá de ser o
último, Josefo previne quanto a isso também: seria uma grande injustiça
— diz-lhes — se, após a morte de seus companheiros, o último de
súbito se arrependesse e salvasse a própria vida. Josefo tinha em vista
precisamente essa injustiça. O que menos se poderia fazer após a morte
de todos os companheiros, isso é o que ele próprio pretende fazer.
Pretextando pertencer integralmente ao grupo nesse momento
derradeiro, ser um deles, Josefo os envia a todos para a morte e salva,
assim, a própria vida. Os companheiros não têm ideia do que ele sente
vendo-os morrer. Estão totalmente vinculados a um destino comum e
acreditam que também ele o esteja; Josefo, porém, situa-se à parte:
concebera tal destino somente para eles. Os companheiros morrem para
que ele possa se salvar.
O engodo é total. Trata-se do engodo de todos os comandantes. Eles
fazem crer que morrerão à frente de sua gente. Na verdade, contudo,
enviam-na adiante para a morte, afim de permanecerem vivos por mais
tempo. O ardil é sempre o mesmo. O comandante quer sobreviver;
fortalece-se com isso. Se tem inimigos aos quais sobreviver, muito bem;
se não os tem, dispõe de sua própria gente. De todo modo, usa a ambos
— alternada ou concomitantemente. Os inimigos, utiliza-os com
frequência; é para isso, afinal, que são inimigos. Sua própria gente, só
pode utilizá-la às ocultas.
Na caverna de Josefo, esse ardil faz-se evidente. Do lado de fora estão
os inimigos. Estes são os vitoriosos, mas sua antiga ameaça
transformou-se agora numa promessa. Dentro da caverna estão os
amigos. Estes levam adiante a velha disposição de seu comandante,
aquela da qual ele próprio os impregnou, e negam-se a aceitar a nova
promessa. Assim, a caverna na qual o comandante pretendia salvar-se
transforma-se para ele num grande perigo. Ele engana os amigos, que
desejam atentar contra si próprios e contra ele, mandando-os à frente
rumo à morte coletiva. Desde o princípio, Josefo esquiva-se
mentalmente da morte e, por fim, escapa-lhe também de fato. Com ele,
resta apenas um único companheiro. E como — nas suas próprias
palavras — não pretende manchar as mãos do sangue de um
compatriota, convence-o a entregar-se aos romanos. Apenas a sós com
este último companheiro pode ele persuadi-lo a viver. Quarenta haviam
sido demais para Josefo. Salvam-se ambos, entregando-se aos romanos.
Assim, Josefo saiu-se são e salvo também da luta contra sua própria
gente. E é justamente isso o que ele leva aos romanos: o sentimento
exacerbado de sua própria vida, nutrido pela ruína de sua gente. A
transmissão a Vespasiano desse poder recém adquirido constitui o
terceiro ato da salvação de Josefo. Ela se expressa numa promessa
profética. Os romanos conheciam muito bem a rígida crença em Deus
dos judeus. Sabiam que a última coisa que um judeu faria seria falar
levianamente em nome de Deus. Josefo só podia nutrir um forte desejo
de, em lugar de Nero, ver Vespasiano imperador. Nero, a quem
queriam enviá-lo, não lhe havia prometido a vida. De Vespasiano, tinha
ao menos a palavra. Sabia também que Nero desprezava Vespasiano, o
qual, bem mais velho que ele, costumava adormecer em suas
apresentações de canto. Tratara-o já diversas vezes de maneira
inclemente, e só agora, tendo a sublevação dos judeus atingido uma
proporção perigosa, voltara a recorrer ao velho e experimentado
general. Vespasiano tinha todos os motivos para desconfiar de Nero. A
promessa de um futuro reinado há de lhe ter sido bem-vinda.
É possível que o próprio Josefo acreditasse nessa mensagem que Deus
o incumbira de transmitir a Vespasiano. Trazia no sangue o dom da
profecia e julgava-se um bom profeta. Trouxe, assim, aos romanos algo
que eles próprios não tinham. O deus deles, Josefo não o levava a sério;
considerava superstição o que vinha dos romanos. Mas sabia também
que tinha de convencer Vespasiano — que, como todos os romanos,
desprezava os judeus e sua fé — da seriedade e da validade de sua
mensagem. A segurança com que se comportou; a energia com a qual se
expressou (ele, um indivíduo sozinho em meio aos inimigos aos quais
infligira o pior e que, havia ainda pouco tempo, tinham fugido dele); a
fé em si mesmo — tudo isso Josefo devia à sobrevivência em meio à
própria gente. O que lograra fazer na caverna, ele o transmitiu a
Vespasiano, que sobreviveu a Nero, trinta anos mais moço, e a todos os
seus sucessores, dos quais não houve menos de três. Cada um deles
tombou, por assim dizer, pela mão do outro, e Vespasiano tornou-se o
imperador romano.
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Leia também:
Massa e Poder - O Sobrevivente: A Salvação de Flávio Josefo (b)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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