O SOBREVIVENTE
A Sobrevivência como Paixão
A satisfação de sobreviver, que é uma espécie de prazer, pode transformar-se numa paixão perigosa e insaciável. Ela cresce em função das oportunidades. Quanto maior o amontoado de mortos em meio aos quais, vivo, ergue-se o sobrevivente; quanto maior a frequência com que ele experimenta tais amontoados, tanto mais vigorosa e impreterível tornar-se-á sua necessidade deles. As carreiras de heróis e mercenários confirmam que uma espécie de vício tem origem aí, um vício para o qual já não há remédio. A explicação habitual que se dá para tanto afirma que tais homens só são capazes ainda de respirar em meio ao perigo; que toda existência desprovida de perigos ser-lhes-ia triste e insípida; e que não seriam mais capazes de extrair prazer algum de uma vida pacífica. Não se deve subestimar a atração exercida pelo perigo. O que se esquece, porém, é que essa gente não parte sozinha para suas aventuras mas faz-se acompanhar de outras pessoas as quais sucumbem ao perigo. O que esses homens realmente precisam, aquilo de que não mais podem prescindir, é do sempre renovado prazer de sobreviver.
O que ocorre, porém, não é que, para a satisfação desse prazer, se
necessite sempre expor-se a si próprio ao perigo. Ninguém é capaz de,
sozinho, matar em número suficiente. Nos campos de batalha, inúmeros
são aqueles que agem com esse propósito, e se se é aquele que lhes dá as
ordens, que lhes controla os movimentos, se a batalha é o resultado da
decisão mais pessoal, então esse que a toma poderá apoderar-se também
por completo de seu resultado, pelo qual é responsável, e da totalidade
dos cadáveres. Não é à toa que o marechal de campo ostenta esse seu
imponente título. Ele ordena: manda sua gente avançar contra o
inimigo, rumo à morte. Quando vence, todo o campo repleto de
mortos pertence a ele. Uns morreram por ele, outros contra ele. De
vitória em vitória, sobrevive-lhes a todos. Os triunfos que então celebra
expressam com a máxima precisão aquilo que ele buscava. Sua
importância é medida em função do número de mortos. Ridículo é o
triunfo se o inimigo entregou-se sem verdadeiramente lutar, se apenas
uns poucos mortos encontram-se reunidos. Mas glorioso se o inimigo
defendeu-se valentemente, se a vitória foi conquistada com dificuldade,
custando um grande número de vítimas.
“César sobrepujou todos os heróis de guerra e marechais de campo
pelo fato de ter travado o maior número de batalhas e matado a maior
quantidade de inimigos. Afinal, nos menos de dez anos ao longo dos
quais guerreou contra a Gália, tomou de assalto mais de oitocentas
cidades, subjugou trezentos povos e bateu-se sucessivamente com 3
milhões de homens, dos quais 1 milhão matou em combate, fazendo
ainda um número idêntico de prisioneiros.”
Tal veredicto é de autoria de Plutarco, a quem não se pode atribuir
nenhum desejo belicoso ou sede de sangue; provém, pois, de um dos
espíritos mais humanos que a humanidade produziu. Seu valor reside
no fato de traçar um balanço preciso. César lutou contra 3 milhões de
inimigos, matou 1 milhão e capturou outro milhão. Marechais de
campo posteriores — mongóis e não mongóis — superaram-no. Mas
esse antigo veredicto é característico também pela ingenuidade com que
todo o ocorrido é atribuído exclusivamente ao marechal de campo. As
cidades tomadas de assalto, os povos subjugados, os milhões de inimigos
tombados, mortos, aprisionados pertencem todos a César. Não é a
ingenuidade de Plutarco que assim se expressa, mas a ingenuidade da
história. Está-se acostumado a ela desde os relatos de guerra dos faraós
egípcios, e, até hoje, tais relatos não se modificaram em quase nada.
Afortunadamente, pois, César sobreviveu a tantos inimigos.
Considera-se falta de tato computar nesses relatos também as perdas
sofridas. Elas são conhecidas, mas não se censura o grande homem por
elas. Nas guerras de César, não foram muitas, comparadas ao número de
inimigos tombados. Ainda assim, ele sobreviveu a alguns milhares de
aliados e romanos; tampouco nesse aspecto saiu de mãos vazias.
Esses orgulhosos balanços são transmitidos de geração a geração; em
cada uma delas houve heróis de guerra em potencial. Sua paixão por
sobreviver a massas de homens foi instigada até a loucura por tais
balanços. O veredicto da história parecia justificar-lhes o intento antes
mesmo que conseguissem realizá-lo com sucesso. Aos que melhor
entendem dessa espécie de sobrevivência a história reserva o espaço mais
amplo e seguro. Nessa espécie de fama, o que importa, em última
instância, é antes o número gigantesco das vítimas do que a vitória ou a
derrota. Como Napoleão realmente se sentiu durante a campanha da
Rússia não se sabe ao certo.
continua página 347...
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
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Leia também:
Massa e Poder - O Sobrevivente: A Sobrevivência como Paixão
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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