quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: Sobrevivência e Invulnerabilidade

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     Sobrevivência e Invulnerabilidade

          O corpo humano apresenta-se nu e frágil, exposto em sua maciez a todo e qualquer ataque. O que lhe está próximo e que, com arte e esforço, o homem logra manter afastado de seu corpo pode, no entanto, facilmente atingi-lo de longe. A espada, a lança e a flecha conseguem penetrar-lhe o corpo. Assim, o homem inventou o escudo e a armadura, e construiu muros e fortalezas inteiras em torno de si. Mas a segurança que ele mais deseja é o sentimento de invulnerabilidade
     Tal sentimento, ele buscou adquiri-lo por dois caminhos distintos. Ambos se opõem com perfeição e, por isso mesmo, seus resultados são bastante diversos. Por um lado, o homem procurou afastar de si o perigo interpondo grandes espaços entre ele e sua própria pessoa, espaços estes que podia abranger com a vista e vigiar. Escondeu-se do perigo, por assim dizer, e o baniu.
     O outro caminho, porém, é aquele de que ele sempre se orgulhou mais. Desse caminho, todas as antigas tradições se gabam e se jactam abundantemente. O homem foi até o perigo e o enfrentou. Deixou que ele se aproximasse o mais possível, apostando tudo no momento da decisão. De todas as situações possíveis, escolheu a da própria fragilidade e intensificou-a ao máximo. Fez de alguém seu inimigo e o desafiou. Talvez esse alguém já fosse seu inimigo; talvez tenha sido ele a denominá-lo assim. Seja qual for o caso particular, o que visava era o perigo supremo e a invariabilidade da decisão.
     Esse é o caminho do herói. E o que quer o herói? O que ele realmente busca? A glória de que todos os povos revestiram seus heróis — uma glória tenaz, nada efêmera, se seus feitos foram variados ou sucederam se com rapidez suficiente — é enganosa no que se refere às motivações mais profundas de tais feitos. Supõe-se que os heróis estavam atrás unicamente da fama, mas eu acredito que o que originalmente lhes importava era outra coisa: o sentimento de invulnerabilidade que, desse modo, se podia adquirir num rápido crescendo.
     A situação concreta na qual o herói se encontra após ter vencido o perigo é aquela do sobrevivente. O inimigo queria-lhe a vida, assim como ele a do inimigo. Enfrentaram-se com esse objetivo declarado e inalterável. O inimigo foi morto. Já ao herói, nada aconteceu durante o combate. Impregnado do fato monstruoso da sua sobrevivência, ele se lança ao próximo combate. Nenhum mal se lhe pôde ou poderá fazer. De vitória em vitória, de um inimigo morto a outro, ele vai se sentindo mais seguro: sua invulnerabilidade aumenta — uma armadura cada vez melhor.
     Não há como obter esse sentimento de outra maneira. Aquele que baniu o perigo, aquele que dele se esconde, este simplesmente adiou o momento da decisão. Quem, porém, enfrenta tal momento, quem realmente sobrevive e acumula esses momentos de sobrevivência, este sim será capaz de adquirir o sentimento de invulnerabilidade. E só será verdadeiramente um herói no instante em que o adquirir. Daí em diante, ousará tudo e nada terá a temer. É possível que tendamos a admirá-lo mais enquanto ele ainda tem motivo para o medo. Esse, porém, é o ponto de vista do observador externo. O povo quer seus heróis invulneráveis.
     Os feitos do herói absolutamente não se esgotam nesses duelos selecionados. Ele poderá se haver com toda uma malta de inimigos; o fato de atacá-los a despeito de seu número, de não apenas escapar-lhes, mas matar a todos, pode estabelecer de um só golpe o sentimento de sua invulnerabilidade.
     Um de seus mais antigos e fiéis companheiros perguntou a Gêngis Khan: “Tu és o soberano e chamam-te herói. Que sinais de conquista e vitória trazes contigo?”. E Gêngis Khan respondeu-lhe: “Antes de ascender ao trono do império, eu cavalgava certa vez por uma rua. Topei, então, com seis homens que, emboscados numa ponte, atentaram contra minha vida quando eu fui atravessá-la. Ao me aproximar, saquei de minha espada e os ataquei. Eles me cobriram de uma chuva de flechas, mas todas elas erraram o alvo, nem uma única me atingindo. Matei-os todos com minha espada e segui cavalgando incólume. No caminho de volta, tornei a passar pelo local onde havia matado os seis homens. Seus seis cavalos vagavam sem dono. Levei-os todos comigo para casa”.
     Essa invulnerabilidade na luta contra seis inimigos ao mesmo tempo, Gêngis Khan a considera o indício seguro da conquista e da vitória.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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