O SOBREVIVENTE
O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos
Há mitos, entretanto, nos quais se reconhece claramente a conexão dessa gura de luz com os amontoados de cadáveres, e não apenas daqueles de seus inimigos. O mais concentrado desses mitos provém de um povo sul-americano: os uitotos. Pode-se encontrá-lo na importante coletânea de K. Th. Preuss, à qual não se deu ainda a devida atenção. Segue-se, de forma abreviada e na medida de sua relação com o nosso assunto, a exposição desse mito.
Um dia, duas moças que moravam com seu pai à beira de um rio viram na água uma bonita e minúscula cobra e tentaram, então, apanhá-la. A cobra escapava-lhes sempre, até que, a pedido delas, o pai teceu uma rede de malhas bem nas. Nela, capturaram o animalzinho e o trouxeram para casa. Puseram-no num pequeno vaso com água e ofereceram-lhe todo tipo de comida, mas ele rejeitava tudo. Somente quando, num sonho, o pai teve a ideia de alimentar a cobra com um amido especial é que ela começou a comer direito. Ficou gorda como um fio; depois, como a ponta de um dedo, e as moças colocaram-na então num vaso maior. O animal seguiu comendo o amido e ficou gordo feito um braço. Puseram-no, então, num pequeno lago. Ele comia com avidez cada vez maior o amido, e, na hora de ser alimentado, estava tão faminto que, juntamente com a comida, enfiava pela goela a mão e o braço da moça que lhe dava de comer. Logo estava grande feito uma árvore caída na água. Começou, então, a vir até a beira do lago e a devorar veados e outros animais, mas, ao chamado sedutor, vinha sempre deglutir a gigantesca quantidade de amido que as irmãs lhe preparavam. A cobra fez, então, uma cova sob as aldeias e tribos e começou a devorar os antepassados dos homens, os primeiros habitantes do mundo. “Querida, venha comer”, chamaram as moças certa vez, ao que a cobra surgiu, pegou o recipiente com o amido que uma das irmãs sustentava no braço e que se erguia até sua cabeça, engoliu a moça e a levou consigo.A outra irmã foi chorando contar ao pai, que decidiu vingar-se. Ele lambeu o tabaco, como se costuma fazer entre essa gente quando se decide matar uma criatura, embriagou-se e, em sonho, ocorreu-lhe um meio de vingar-se. Preparou amido para dar de comer à cobra, chamou-a — a ela, que tinha devorado sua filha — e disse-lhe: “Engula-me!”. Estava disposto a suportar tudo e, afim de matá-la, bebeu do recipiente de tabaco que trazia pendurado ao pescoço. Ao seu chamado, a cobra apareceu e apanhou o recipiente com amido que ele lhe estendia. O pai saltou-lhe, então, goela adentro e ali se sentou. “Eu o matei”, pensou a cobra, arrastando-o consigo para longe.Em seguida, devorou uma tribo inteira, e os homens apodreceram sobre o corpo do pai. Depois, pôs-se a engolir uma outra tribo, que apodreceu também sobre seu corpo. Sentado ali, o pai tinha de suportar o fedor dos homens decompondo-se. A cobra devorou todas as tribos ao longo do rio, aniquilando-as, de modo que não sobrou uma única sequer. O pai trouxera uma concha de casa, afim de, com ela, abrir a barriga da cobra, mas cortou-a e abriu-a só um pouquinho, ao que a cobra sentiu dores. Devorou, então, as tribos à beira de um outro rio. Os homens tinham medo e, em vez de sair para as plantações, cavam sempre em casa. Nem sequer era possível andar pela redondeza, pois a cova da cobra cava no meio do caminho; quando alguém voltava do campo, ela o apanhava e o levava consigo. As pessoas choravam e tinham medo que a cobra devorasse alguém, razão pela qual não saíam mais de casa. Só de sair da rede temiam já que a cobra tivesse ali a sua cova, apanhando-as e as arrastando consigo.Sobre o corpo do pai, os homens fediam e decompunham-se. Ele bebeu do suco de tabaco no recipiente e fez cortes no meio do ventre da cobra, causando lhe fortes dores. “O que há comigo? Engoli Deihoma, o ‘cortador’, e sinto dores”, disse ela, e soltou um grito.Foi-se, então, para uma outra tribo, ergueu-se da terra e apanhou a todos. As pessoas não podiam ir a parte alguma, e não se aproximavam do rio. Se iam buscar água no porto, a cobra as agarrava e arrastava consigo. Já ao pisarem no chão pela manhã, a cobra as apanhava e levava embora. O pai abria a barriga da cobra com a concha e ela gritava: “Como posso estar sentindo dores? Engoli Deihoma, o cortador, e é por isso que me dói”.Então, os espíritos protetores advertiram-no: “Deihoma, este não é ainda o porto do rio onde moras; sê cuidadoso com teus cortes. Teu porto está ainda bem distante daqui”. E, ao ouvir essas palavras, o pai parou com seus cortes. A cobra, por sua vez, voltou a alimentar-se dos povos que já tinha devorado anteriormente, e os apanhou de imediato. “Ela ainda não acabou! Que será de nós? Ela acabou com nossa gente”, diziam os habitantes das aldeias, que emagreciam cada vez mais, pois o que haveriam de comer?Os homens pereciam e apodreciam sobre o corpo de Deihoma. Enquanto isso, ele seguia bebendo de seu tabaco e cortando o ventre da cobra, sempre sentado em seu interior. Desde tempos imemoriais o desafortunado não comia coisa alguma, bebendo apenas o suco do tabaco. Afinal, o que haveria de comer? Bebia o suco e permanecia quieto em seu lugar, a despeito do fedor da putrefação.Não havia mais tribos; a cobra comera os corpos de todos os que viviam à beira do rio ao pé do céu, de modo que não restara mais ninguém. Seus espíritos protetores disseram então a Deihoma: “Deihoma, este é o porto do rio onde moras. Corta a cobra com força e, duas curvas à frente, estarás em casa”. Deihoma pôs-se então a cortar. “Corta, Deihoma, corta com força!”, exclamaram eles. No porto, Deihoma cortou o couro do ventre da cobra, rasgou-o e abriu-lhe o ventre, saltando para fora dela pela abertura.Uma vez do lado de fora, ele se sentou. Sua cabeça despelara-se inteira e ele estava careca. A cobra revolvia-se de um lado para o outro. Deihoma estava de volta, após o longo período de infelicidade no interior da cobra. Lavou-se inteiro em seu porto, chegou a sua cabana e tornou a ver suas filhas, que se alegraram com o retorno do pai.
Na íntegra desse mito, que foi aqui consideravelmente resumido,
descreve-se em nada menos que quinze passagens distintas o modo
como, no interior da cobra, os homens apodrecem sobre o herói. Essa
imagem premente possui algo de compulsório: ao lado do devorar, é a
imagem que mais frequentemente se repete no mito. Deihoma
mantém-se vivo bebendo de seu suco de tabaco. Sua calma e
imperturbabilidade em meio à putrefação caracterizam o herói. Todos
os homens do mundo poderiam apodrecer sobre sua cabeça — ele
permaneceria sempre ali, sozinho em meio à podridão geral, ereto e
voltado para sua meta. É, se assim se deseja, um herói inocente, pois não
carrega em sua consciência nenhum dos que ali apodrecem. Mas
suporta a podridão; está no meio dela. Esta não o abate; constitui,
poder-se-ia dizer, aquilo que o mantém ereto. A densidade desse mito,
onde tudo o que realmente importa desenrola-se no ventre da cobra, é
incontestável: o mito é a própria verdade.
O herói é aquele que, diante de situações perigosas, sobrevive sempre
matando. Mas não é apenas o herói que sobrevive. Um fenômeno
equivalente verifica-se na massa de sua própria gente, e precisamente
quando esta sucumbiu já em sua totalidade.continua página 385...
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Leia também:
Massa e Poder - O Sobrevivente: O Sobrevivente nas Crenças dos Povos Primitivos (b)
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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