quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: A Aversão dos Poderosos pelos Sobreviventes. Os Soberanos e seus Sucessores.

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     A Aversão dos Poderosos pelos Sobreviventes. Os Soberanos e seus Sucessores. 


          Muhammad Tughlak, o sultão de Delhi, possuía vários planos que suplantavam em grandiosidade os de Alexandre ou Napoleão. Dentre estes planos estava a conquista da China mediante a travessia do Himalaia. Um exército de 100 mil cavaleiros foi montado. No ano de 1337, esse exército partiu, perecendo cruelmente no alto das montanhas. Somente dez homens, nem um único a mais, conseguiram salvar-se, trazendo de volta a Delhi a notícia da morte de todos os outros. Por ordem do sultão, os dez foram executados.
     A aversão dos poderosos pelos sobreviventes é geral. Consideram toda sobrevivência efetiva algo que cabe somente a eles: trata-se de sua verdadeira riqueza, sua propriedade mais preciosa. Todo aquele que se permita conspicuamente sobreviver em circunstâncias perigosas — e particularmente em meio a muitos outros — estará se imiscuindo em seus negócios e voltará contra si o seu ódio.
     Nos lugares em que existiu uma forma absoluta e incontestada de dominação — no Oriente islâmico, por exemplo —, a raiva dos poderosos em relação aos sobreviventes pôde manifestar-se abertamente. Os pretextos que talvez precisassem ainda encontrar para aniquilá-los mal encobriam o afeto nu e cru de que estavam impregnados.
     Dos despojos de Delhi constituiu-se um outro império islâmico no Decão. Durante todo o seu governo, Muhammad Shah, um dos sultões dessa nova dinastia, travou a mais violenta batalha contra seus vizinhos, os reis hindus. Um dia, os hindus lograram conquistar a importante cidade de Mudkal. Todos os seus habitantes — homens, mulheres e crianças — foram mortos. Um único homem escapou, trazendo a notícia para a capital, onde morava o sultão. “Quando este ficou sabendo do ocorrido”, relata o cronista, “viu-se dominado pela dor e pela ira, ordenando que o desafortunado mensageiro fosse executado imediatamente. Não podia suportar a presença de um miserável que havia assistido e sobrevivido à matança de tantos e tão valentes companheiros.”
     Também nesse caso pode-se ainda falar de um pretexto; é provável que o sultão não soubesse realmente por que razão não suportava a visão do único que se salvara. Já Hakim, o califa egípcio que governou por volta do ano 1000, tinha uma consciência muito mais clara dos jogos do poder, deles desfrutando de um modo que lembra o imperador Domiciano. Hakim adorava vagar pela noite sob toda sorte de disfarces. Numa dessas suas peregrinações noturnas, encontrou numa montanha nas proximidades do Cairo dez homens bem armados, os quais o reconheceram e lhe pediram dinheiro. Hakim, então, lhes disse: “Formem duas divisões e lutem uns contra os outros. Darei dinheiro a quem vencer”. Os homens obedeceram e lutaram com tal ímpeto que nove perderam a vida. Ao décimo, o único que restara, Hakim arremessou, então, uma grande quantidade de moedas de ouro que tirara da manga. Enquanto, porém, este se abaixava para recolhê-las, o califa ordenou a seus servos que o fizessem em pedaços. — Desse modo, Hakim mostrou possuir uma clara compreensão do processo da sobrevivência, dele desfrutando como uma espécie de encenação provocada por ele mesmo, gozando ainda, ao final, da alegria pela aniquilação do sobrevivente.
     Peculiaríssima é a relação do poderoso com seu sucessor. Se se trata de uma dinastia, e o sucessor é seu filho, sua relação com este faz-se duplamente difícil. É natural que o filho, como todo filho, sobreviva ao pai, e natural é também que a paixão pela sobrevivência intensifique-se desde cedo nesse filho — que haverá de tornar-se ele próprio um detentor de poder. Ambos, pai e filho, têm razões de sobra para odiar-se mutuamente. Sua rivalidade, ostentando premissas diferentes e em razão precisamente dessa diferença, alcança uma particular agudeza. O pai, que tem o poder nas mãos, sabe que morrerá antes do filho. Este, que ainda não detém o poder, está seguro de sua própria sobrevivência. A morte do mais velho — de todos os homens, o que menos deseja morrer, caso contrário não seria um detentor de poder — é ardorosamente ansiada. Por outro lado, a chegada do mais novo ao poder é adiada de todas as formas. Trata-se de um conflito para o qual inexiste uma solução de fato. A história está repleta de revoltas desses filhos contra seus pais. Alguns conseguem derrubá-los; outros são vencidos e perdoados ou mortos por eles.
     Numa dinastia de soberanos longevos e absolutos, é de se esperar que as revoltas dos filhos contra os pais transformem-se numa espécie de instituição. Um breve exame dos imperadores mongóis da Índia ser-nos-á aqui instrutivo. O príncipe Salim, o primogênito do imperador Akbar, “desejava ardentemente tomar nas próprias mãos as rédeas do governo. Enfurecia-o a longa vida de seu pai, a qual o mantinha afastado do gozo das altas dignidades. Decidiu-se, assim, a usurpá-las, atribuindo-se a si próprio, e a seu bel-prazer, o nome de rei e arrogando-se também os direitos de um rei”. Assim nos conta um relato de jesuítas contemporâneos a ambos que os conheciam bem e os cortejavam. O príncipe Salim formou, pois, uma corte própria. Contratou assassinos que, estando em viagem o amigo mais íntimo e conselheiro de seu pai, assaltaram-no e o mataram numa emboscada. A sublevação do filho estendeu-se por três anos, ao longo dos quais chegou a haver uma reconciliação simulada. Por fim, ameaçado com a nomeação de um outro herdeiro para o trono, Salim, sob pressão, aceitou um convite para uma visita à corte do pai. De início, foi recebido com cordialidade; depois, seu pai puxou-o para um aposento no interior do palácio, esbofeteou-o e o trancou num banheiro. Entregou-o aos cuidados de um médico e dois criados, qual se tratasse de um demente; o vinho, de que gostava tanto, foi-lhe proibido. Por essa época, o príncipe contava 36 anos de idade. Passados alguns dias, Akbar o soltou, devolvendo-lhe a dignidade de sucessor do trono. No ano seguinte, Akbar morreu em consequência de uma disenteria. Falou-se que o filho o teria envenenado; hoje, porém, não é mais possível atestar a veracidade dessa hipótese. “Após a morte de seu pai, pela qual tanto ansiara”, o príncipe Salim finalmente tornou-se imperador, escolhendo para si o nome de Jahangir.
     Akbar governou por 45 anos; Jahangir governou 22 anos. Nesse governo, porém, que durou a metade do de seu pai, passou exatamente pelas mesmas experiências pelas quais este último passara. Seu filho predileto, Shah Jahan, a quem ele próprio nomeara seu sucessor, revoltou-se contra ele, travando contra o pai uma guerra que durou três anos. Derrotado, Shah Jahan solicitou a paz ao pai. Foi indultado, mas sob uma dura condição: teve de enviar à corte imperial seus dois filhos, na condição de reféns. Ele próprio cuidou de jamais tornar a aparecer diante do pai, e pôs-se a esperar por sua morte. Dois anos depois de selada a paz, Jahangir morreu, e Shah Jahan tornou-se imperador.
     Governou por trinta anos, e o mesmo que zera ao pai aconteceu com ele. Seu filho, porém, teve mais sorte. Aurangzeb, o mais jovem dos dois que tinham vivido outrora como reféns na corte do avô, sublevou-se contra o pai e o irmão mais velho. A famosa “guerra de sucessão” que então se desenrolou, tendo sido descrita por testemunhas europeias, terminou com uma vitória de Aurangzeb. Este mandou executar o irmão e manteve o pai por oito anos, até sua morte, na prisão.
     Logo após sua vitória, Aurangzeb fez-se a si próprio imperador e governou durante meio século. Seu filho predileto perdeu a paciência muito antes disso. Rebelou-se contra o pai, mas o velho era muito mais esperto do que o filho e soube corromper-lhe os aliados. Este último teve de fugir para a Pérsia, onde, no exílio, morreu ainda antes que o pai.
     Se se contempla a história dinástica do império mongol como um todo, o que se verifica é, pois, um quadro espantosamente uniforme. Seu esplendor dura 150 anos; ao longo desse tempo governam não mais que quatro imperadores, filhos uns dos outros, todos eles tenazes, longevos e apaixonadamente apegados ao poder. Seus governos têm duração notável: Akbar governa 45 anos; seu filho, 22; o neto, trinta; e o bisneto, cinquenta anos. A começar por Akbar, nenhum dos filhos aguarda a sua vez; cada um dos que, mais tarde, se tornaram imperadores subleva-se contra o pai ainda na condição de príncipe. Tais revoltas apresentam desfechos diversos. Jahangir e Shah Jahan são derrotados e perdoados pelos pais. Aurangzeb põe o pai na prisão e o depõe. Mais tarde, seu próprio filho morre no exílio, sem ter obtido sucesso. Com a morte do próprio Aurangzeb, tem fim o poder do império mongol.
     Nessa longeva dinastia, todos os filhos revoltaram-se contra seus pais, e cada um destes foi à guerra contra seu filho.
     O sentimento mais extremo de poder manifesta-se quando o soberano não quer filho algum. O caso mais bem documentado é o de Shaka, que, no primeiro terço do século XIX, fundou a nação e o império dos zulus, na África do Sul. Shaka foi um grande general, chegando a ser comparado a Napoleão; jamais terá havido um detentor de poder mais cru do que ele. Recusava-se a casar porque não queria ter herdeiros legítimos. Mesmo os insistentes pedidos de sua mãe, a qual sempre tratou com distinção, não conseguiram fazê-lo mudar de ideia. Não havia nada que ela mais quisesse do que um neto; Shaka, porém, aferrou-se a sua decisão. Seu harém possuía centenas de mulheres; no fim, eram 1200, ostentando o título oficial de “irmãs”. Era-lhes proibido engravidar e ter um filho. Sobre elas, exercia-se um rigoroso controle. Cada “irmã” grávida que se deixasse apanhar era punida com a morte. O filho de uma dessas mulheres, cuja existência lhe fora ocultada, Shaka o matou com as próprias mãos. Orgulhava-se bastante de sua arte de amar; tinha sempre o controle de si próprio e, por isso, acreditava que mulher alguma poderia engravidar dele. Assim, jamais se viu na situação de temer um filho a crescer. — Aos 41 anos, foi morto por dois de seus irmãos.
     Fosse-me permitido passar dos poderosos terrenos para os divinos, poder-se-ia lembrar aqui o Deus de Maomé, cuja solitária soberania é, de todos os deuses, a mais inconteste. Desde o princípio, ele se encontra já no topo, não tendo de, como o Deus do Velho Testamento, lutar primeiramente contra sérios rivais. No Corão, afirma-se constante e veementemente que ninguém o gerou, mas afirma-se também que ele não gerou pessoa alguma. A controvérsia relativamente ao cristianismo que aí se expressa advém do sentimento da unidade e indivisibilidade de seu poder.
     Em contraposição a isso, há soberanos orientais dotados de centenas de filhos, filhos estes que, primeiramente, têm de lutar entre si para definir quem virá a ser o real sucessor. É de se supor que a consciência da hostilidade entre eles retire do pai algo da amargura em relação a seu sucessor, seja ele quem for.
     Acerca do significado mais profundo da sucessão, de seu propósito e sua vantagem, falar-se-á em outro contexto. Aqui, há que se notar apenas que poderosos e seus sucessores encontram-se numa relação especial de hostilidade cuja intensificação é proporcional ao vigor dessa mais singular dentre todas as paixões do poder — a paixão pela sobrevivência.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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