segunda-feira, 9 de março de 2026

Massa e Poder - O Sobrevivente: As Formas da Sobrevivência

Elias Canetti

O SOBREVIVENTE

     As Formas da Sobrevivência 


          Não é ocioso contemplar as formas que o sobreviver assume; elas são muitas, e é importante não negligenciar nenhuma delas.
     A concepção, o primeiro acontecimento na vida de qualquer ser humano — muito anterior a seu nascimento e, decerto, superando-o em importância —, não foi ainda examinada à luz desse importante aspecto que é a sobrevivência. Sabe-se muito do que acontece desde o instante em que o espermatozoide penetra no óvulo: poder-se-ia dizer que em breve se saberá tudo. Mas pouco se refletiu acerca da existência, quando da concepção, de um número impressionante de espermatozoides que não atingem sua meta, embora participem intensamente do processo como um todo. Não é um espermatozoide isolado que busca seu caminho até o óvulo, mas seu número é de cerca de 200 milhões. Numa única ejaculação, eles são lançados todos juntos e, densamente comprimidos, movem-se rumo a uma única meta.
     Seu número é, pois, gigantesco. Tendo se originado por divisão, são todos iguais entre si; sua densidade dificilmente poderia ser maior, e todos têm uma única e mesma meta. Lembremo-nos de que justamente essas quatro características são as que foram aqui definidas como as propriedades essenciais da massa.
     Desnecessário faz-se enfatizar que a massa composta de espermatozoides não pode ser a mesma coisa que a massa de seres humanos. Indubitavelmente, contudo, verifica-se uma analogia — e talvez mais do que uma mera analogia — entre ambos esses fenômenos.
     Todos esses espermatozoides caminham seja rumo a uma meta, seja — posteriormente, e nas proximidades desta última — rumo a seu fim. Somente um deles penetra no óvulo. Este, pode-se muito bem caracterizá-lo como um sobrevivente. É, por assim dizer, o líder [Führer] dos demais, e conseguiu aquilo que todo líder [Führer], secreta ou abertamente, almeja: conseguiu sobreviver a todos quantos liderou. Desse único sobrevivente em meio a 200 milhões origina-se o ser humano.
     Dessa forma elementar, ainda que jamais considerada, de sobrevivência passemos a outras, mais conhecidas. Nos segmentos precedentes deste livro, falou-se muito do matar. O homem confronta-se com seus inimigos: confronta-se com um único inimigo, matando-o, assaltando-o sorrateiramente ou travando com ele um duelo; confronta-se com uma malta a cercá-lo ou, por fim, com toda uma massa. Nesse último caso, ele não está sozinho, mas lança-se à batalha juntamente com sua própria gente. Contudo, quanto mais elevado o seu posto, tanto mais sentirá ele a sobrevivência como algo que pertence exclusivamente a ele. Quem vence é o “general”. Como, porém, tombaram também muitos dos seus, o amontoado dos mortos constitui uma mescla, mescla esta consistindo em amigos e inimigos; a batalha assume assim a forma “neutra” da epidemia.
     O matar avizinha-se aqui do morrer, e, aliás, de sua forma mais monstruosa: do morrer em epidemias e catástrofes naturais. Sobrevive-se aí a todos quantos são mortais, a amigos e inimigos a um só tempo. Todas as relações se diluem; o morrer pode vir a ser tão abrangente que não se sabe mais quem está sendo enterrado. Assaz características são as histórias sempre recorrentes de homens que, dentre os mortos, em meio ao amontoado destes, retornam à vida: eles acordam em meio aos mortos. Tais pessoas tendem a julgar-se invulneráveis — heróis da peste, por assim dizer.
     Uma satisfação mais comedida, encoberta, resulta da morte esporádica dos homens. Trata-se aqui da morte de parentes e amigos. Não é o próprio homem quem mata, tampouco sente-se ele atacado. Não faz nada para que tal aconteça, mas espera a morte dos outros. Os mais jovens sobrevivem aos mais velhos, o filho ao pai.
     O filho julga natural que o pai morra antes dele. O dever o obriga a correr até o leito de morte para fechar-lhe os olhos e carregá-lo até a cova. Ao longo desses acontecimentos, que se estendem por dias, seu próprio pai jaz morto na sua frente. Aquele que podia lhe dar ordens como quase nenhum outro homem silenciou. Sem poder fazer coisa alguma, o pai tem de suportar que lhe manuseiem o corpo, e é o filho quem o ordena — o filho que, outrora, durante muitos anos, era quem ele mais tinha sob seu poder.
     Até mesmo aí está presente a satisfação pela sobrevivência. Ela resulta da relação entre pai e filho, dos quais este último, fraco e desamparado, esteve por muitos anos inteiramente sob o poder do primeiro, ao passo que é este, o outrora todo-poderoso, quem agora sucumbiu e morreu, podendo o filho dispor de seus restos mortais.
     Tudo quanto lhe é legado pelo pai fortalece o filho. A herança é sua presa. Com ela, pode fazer tudo o que o pai não faria. Se este era econômico, o filho pode ser um perdulário; se era inteligente, o filho pode ser um desatinado. É como se agora se decretasse a vigência de uma nova lei. A ruptura é portentosa, irreparável. Ela se deu pela sobrevivência, constituindo-lhe a forma mais pessoal e íntima.
     Inteiramente diversa é a natureza do sobreviver a pessoas de mesma idade, aos próprios contemporâneos. A propensão à sobrevivência é aí, por se tratar do grupo do próprio sobrevivente, encoberta por formas mais amenas de rivalidade. Um grupo de pessoas de uma mesma idade é reunido numa classe etária. Em determinados ritos, compostos de provações difíceis e amiúde cruéis, os jovens ascendem de uma classe à seguinte. É possível — embora constitua exceção — que o jovem morra em decorrência de uma tal provação.
     Os velhos — homens que, transcorrido um certo número de anos, permanecem vivos — desfrutavam de um prestígio bastante elevado já entre os povos primitivos. Entre estes, as pessoas geralmente morrem mais cedo; vivem expostas a grandes perigos e estão muito mais sujeitas a doenças do que nós. Para elas, atingir uma certa idade constitui uma façanha, e tal façanha encerra em si sua recompensa. Não se trata apenas do fato de esses velhos saberem mais, de terem adquirido experiência em um número maior de situações; eles deram provas também de seu valor, pois continuam vivos. Devem ter tido sorte para ter escapado ilesos das caçadas, das guerras e dos acidentes. Ao longo de todos esses perigos, seu prestígio cresceu. Suas vitórias sobre os inimigos, eles podem comprová-las com troféus. Sua prolongada existência como membros de uma horda que jamais consiste em um número demasiado grande de homens afigura-se particularmente notável a estes últimos. Vivenciaram muitas situações ensejando a lamentação. Seguem, porém, vivos, e as mortes dos membros de sua própria classe etária contribuem para o seu prestígio. É possível que os membros de um grupo não tenham consciência tão clara desse fato quanto do valor atribuído às vitórias sobre os inimigos. Uma coisa, porém, não se há de contestar: o sucesso mais elementar e evidente consiste em ainda se estar vivo. Os velhos não estão apenas vivos: eles ainda estão vivos. Podem escolher as mulheres jovens que quiserem, ao passo que os rapazes têm, por vezes, de se contentar com as velhas. É assunto dos velhos determinar para onde se vai, contra quem se vai travar uma guerra e com quem se fará aliança. Tanto quanto se possa falar em um governo entre os povos primitivos, é o conjunto dos velhos que o exerce.
     O desejo de uma vida longa, que desempenha um grande papel na maioria das culturas, significa, na realidade, que se quer sobreviver aos próprios contemporâneos. Sabe-se que muitos morrem cedo, e quer-se para si um destino diferente. Na medida em que roga aos deuses por uma vida longa, o homem aparta-se de seus companheiros. É certo que não os menciona em sua oração, mas o que imagina é que viverá mais do que eles. “Sadia” é a longevidade do patriarca que pode abarcar com os olhos muitas gerações de descendentes. Não se imaginam outros patriarcas a seu lado. É como se, com ele, tivesse início uma nova estirpe. Enquanto seus netos e bisnetos viverem, pouco importa que alguns de seus filhos tenham já encontrado a morte; eleva-lhe o prestígio o fato de sua vida ser mais tenaz que a deles.
     Na classe dos mais velhos, resta, por fim, um único sobrevivente — precisamente o mais velho de todos. O século etrusco é definido segundo a duração de sua vida. Vale a pena dizer aqui algumas palavras a esse respeito.
     Entre os etruscos, o “século” possui duração variada: é ora breve ora extenso, precisando-se continuamente definir-lhe a duração. A cada geração há um homem que, tendo vivido mais, torna-se o mais velho de todos. Quando esse homem, que sobreviveu a todos os outros, morre, os deuses enviam certos sinais aos homens. É em função desse momento da sua morte que se determina a extensão do século: se o sobrevivente tinha 110 anos, 110 anos tem o século; se morreu aos 105, isso resulta num século mais breve, de 105 anos. O sobrevivente é o século: são os anos de sua vida que o compõem.
     Cada cidade e cada povo têm uma duração predeterminada. À nação dos etruscos caberão dez desses séculos, contados a partir da fundação de uma cidade. Se o sobrevivente de cada geração logra perdurar por um tempo particularmente longo, a nação como um todo atingirá uma idade muito mais avançada. Esse fato é notável e, como instituição religiosa, único.
     A sobrevivência a uma distância temporal é a única forma de sobrevivência na qual o homem permanece inocente. Aqueles que viveram há muito tempo, que não se chegou a conhecer, estes não se pôde matar, não se pôde desejar-lhes ou esperar-lhes a morte. Descobre-se que existiram quando eles já não mais existem. Graças à consciência que se tem deles, pode-se auxiliá-los mesmo a atingir uma forma de sobrevivência, ainda que assaz branda e amiúde vazia. Nesse sentido, eles são mais servidos, talvez, do que se é por eles servido. Não obstante, é fácil demonstrar que também eles contribuem para o surgimento de um sentimento próprio de sobrevivência.
     Tem-se, pois, a sobrevivência aos antepassados — os quais não se chegou a conhecer —, e à humanidade passada como um todo. Esta última é a que se experimenta nos cemitérios. Ela se aproxima da sobrevivência numa epidemia: em vez da peste, tal epidemia é a própria morte, uma epidemia coletada de várias épocas e reunida num único lugar.
     Poder-se-ia objetar que neste estudo do sobrevivente não se está abordando outra coisa que não aquilo que sempre se conheceu pelo velho nome de instinto de autopreservação.
     Será, porém, que ambas essas coisas coincidem realmente? Seriam a mesma coisa? Que ideia se tem da atuação do instinto de autopreservação? A mim, parece-me que esse conceito é já inadequado pelo fato de isolar o indivíduo sozinho. A ênfase recai sobre o prefixo auto. Mais importante ainda é a segunda parte da palavra: preservação. Na verdade, quer-se dizer duas coisas com ela: primeiramente, que toda criatura precisa comer para permanecer viva e, em segundo lugar, que ela se defende dos ataques contra si própria, sejam estes de que natureza forem. O que se vê aí é, por assim dizer, a criatura inerte, na condição de um monumento que, com uma das mãos, se alimenta e, com a outra, mantém afastado o inimigo. No fundo, uma criatura pacífica! Deixada em paz, ela comeria um punhado de ervas e não faria o menor mal a ninguém.
     Existiria uma ideia mais inadequada do homem mais equivocada e ridícula do que essa? É certo que o homem come, mas não o mesmo que come uma vaca, tampouco é levado a pastar. A maneira pela qual consegue sua presa é pérfida, sangrenta e tenaz, e ele absolutamente não se comporta de modo passivo ao fazê-lo. Não é brando ao afastar de si os inimigos, mas ataca-os já ao farejá-los de longe. Suas armas de ataque são mais bem desenvolvidas do que aquelas que servem à defesa. Por certo, o ser humano deseja preservar-se, mas, ao mesmo tempo, deseja também outras coisas, inseparáveis dessa preservação. O homem quer matar para sobreviver aos outros; e não quer morrer, para que outros não sobrevivam a ele. Se se pudessem tomar ambas essas coisas por autopreservação, a palavra teria um sentido. Mas não se pode compreender por que razão apegar-se a um conceito tão inexato, se há um outro que apreende melhor a questão.
     Todas as formas da sobrevivência enumeradas acima são antiquíssimas; conforme se demonstrará a seguir, elas podem ser encontradas já entre os povos primitivos.

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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994. 
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de MarrakechFesta sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht

"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."

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