domingo, 11 de outubro de 2026

George Orwell - 1984: Parte 2.3b (Eles não discutiram)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

3.

continuando...

     Eles não discutiram a possibilidade de se casar. Era muito remoto para que valesse a pena pensar. Nenhum comitê imaginável jamais sancionaria tal casamento, mesmo que Katharine, esposa de Winston, pudesse ser de alguma forma ignorada. Era inútil, mesmo como sonho.

“Como era ela, a sua esposa?”, disse Julia.
“Ela era... você conhece a palavra na Novalíngua ‘bompensamentosa’? Significa naturalmente ortodoxa, incapaz de ter um pensamento ruim”? 
“Não, eu não conhecia a palavra, mas conheço o tipo de pessoa, isso sim”. 

     Ele começou a contar-lhe a história de sua vida de casado, mas o curioso era que ela parecia já conhecer as partes essenciais dela. Ela descreveu a ele, quase como se o tivesse visto ou sentido, o endurecimento do corpo de Katharine assim que ele a tocou, a maneira como ela ainda parecia estar empurrando-o dela com todas as suas forças, mesmo quando seus braços estavam apertados firmemente em torno dele. Com Julia, ele não sentia dificuldade em falar sobre tais coisas: Katharine, em todo caso, havia deixado de ser uma memória dolorosa há muito tempo e se tornou apenas uma memória amarga.

“Eu poderia tê-la suportado se não fosse por uma coisa”, disse ele. Ele lhe falou da pequena cerimônia frígida que Katharine o havia forçado a realizar na mesma noite todas as semanas. “Ela odiava, mas nada a faria parar de fazer isso. Ela costumava chamar isso – você nunca vai adivinhar”.
“Nosso dever para com o Partido”, Julia disse prontamente.
“Como você sabia”? 
“Eu também fui para a escola, querido. Aulas de sexo uma vez por mês para alunas com mais de dezesseis. E o Movimento da Juventude. Eles esfregam isso na sua cara por anos. Eu ouso dizer que funciona em muitos casos. Mas claro, nunca dá para ter certeza. Pessoas conseguem ser tão hipócritas”.  

     Ela começou a divagar sobre o assunto. Com Julia, tudo voltava à sua própria sexualidade. Tão logo isto foi abordado de alguma forma, ela era capaz de uma grande acuidade. Ao contrário de Winston, ela tinha compreendido o significado interior do puritanismo sexual do Partido. Não foi apenas o instinto sexual que criou um mundo próprio que estava fora do controle do Partido e que, portanto, tinha que ser destruído, se possível. O que era mais importante era que a privação sexual induzia histeria, o que era desejável porque podia ser transformado em febre de guerra e adoração de líderes. Ela disse isso da seguinte maneira:

“Quando você faz amor, está consumindo energia; e depois se sente feliz e não se importa com nada. Eles não podem suportar que você se sinta assim. Eles querem que você esteja sempre cheio de energia. Toda esta marcha para cima e para baixo, aplaudindo e agitando bandeiras é simplesmente energia sexual que azedou. Se você está feliz dentro de si mesmo, por que se excitaria com algo como o Grande Irmão e os Planos de Três Anos e os Dois Minutos de Ódio e todo o resto dessa podridão idiota deles”?

     Isso era bem verdade, pensou Winston. Havia uma conexão íntima e direta entre a castidade e a ortodoxia política. Pois como o medo, o ódio e a credulidade lunática que o Partido precisava em seus membros poderiam ser mantidos no tom certo, exceto engarrafando algum instinto poderoso e usando-o como uma força motriz? O impulso sexual era perigoso para o Partido, e o Partido o tinha levado em consideração. Eles tinham pregado um truque semelhante com o instinto de paternidade. A família não podia ser realmente abolida e, de fato, as pessoas eram encorajadas a gostar de seus filhos, quase à moda antiga. As crianças, por outro lado, eram sistematicamente voltadas contra seus pais e ensinadas a espioná-los e a denunciar seus desvios. A família havia se tornado, de fato, uma extensão da Polícia do Pensamento. Era um dispositivo através do qual todos podiam ser cercados noite e dia por informantes que o conheciam intimamente.
     Abruptamente, sua mente voltou para Katharine. Katharine teria inquestionavelmente o denunciado à Polícia do Pensamento se ela não tivesse sido estúpida demais para detectar a pouca ortodoxia de suas opiniões. Mas o que realmente fez com que ele se lembrasse dela neste momento foi o calor sufocante da tarde, que fazia com que sua testa suasse. Ele começou a contar a Julia algo que tinha acontecido, ou melhor, que não tinha acontecido, em outra tarde de verão escaldante, onze anos atrás.  
     Foi três ou quatro meses depois de terem casado. Eles haviam se perdido em uma caminhada comunitária em algum lugar de Kent. Eles haviam fica do apenas alguns minutos atrás dos outros, mas fizeram uma curva errada, e logo se viram encurralados pela borda de uma velha pedreira de giz. Era uma queda de dez ou vinte metros, com pedras no fundo. Não havia ninguém a quem eles pudessem perguntar o caminho. Assim que ela percebeu que eles estavam perdidos, Katharine ficou mui to inquieta. Estar longe da multidão barulhenta de caminhantes, mesmo por um momento, deu a ela a sensação de estar fazendo a coisa errada. Ela queria voltar depressa pelo caminho que tinham vindo e começar a procurar na outra direção. Mas neste momento, Winston notou algumas flores crescendo nas fendas do penhasco abaixo deles. Um ramo era de duas cores, magenta e vermelho tijolo, aparentemente crescendo na mesma raiz. Ele nunca tinha visto nada do tipo antes, e chamou Katharine para vir e olhar com ele.

“Olhe, Katharine! Olhe para aquelas flores. Aquela ali perto do fundo. Você está vendo que elas são de duas cores diferentes”?

     Ela já tinha se virado para ir embora, mas voltou por um instante muito mal-humorada. Ela até se inclinou sobre a face do penhasco para ver para onde ele estava apontando. Ele estava um pouco atrás dela, e colocou sua mão sobre a cintura dela para firmá-la. Neste momento, de repente lhe ocorreu como eles estavam completamente sozinhos. Não havia uma criatura humana em lugar algum, nem uma folha agitando, nem mesmo um pássaro acordado. Em um lugar como este, o perigo de haver um microfone escondido era muito pequeno, e mesmo que houvesse um microfone, ele só captaria sons. Era a hora mais quente e letárgica da tarde. O sol brilhava sobre eles, o suor fazia cócegas em seu rosto. E lhe veio um pensamento… 

“Por que você não lhe deu um empurrão?”, perguntou Julia. “Eu teria dado”. 
“Sim, querida, você teria mesmo. Eu teria, se eu fosse na época a mesma pessoa que sou agora. Ou talvez eu... eu não tenho certeza”. 
“Está arrependido de não ter empurrado”?
“Estou. De modo geral, lamento não ter feito isso”.  

     Eles estavam sentados lado a lado no chão empoeirado. Ele a puxou para mais perto de si. A cabeça dela descansou no ombro dele, o cheiro agradável do seu cabelo vencendo o cheiro de esterco do pombo. Ela era muito jovem, ele pensou, ela ainda esperava algo da vida, ela não entendia que empurrar uma pessoa inconveniente sobre um penhasco não resolveria nada.

“Na verdade, isso não teria feito diferença”, disse ele.
“Então por que você lamenta”? 
“Só porque eu prefiro um positivo a um negativo. Não podemos ganhar este jogo que estamos jogando. Alguns tipos de fracasso só são melhores do que outros, só isso”.  

     Ele sentiu os ombros dela se movimento em desacordo. Ela sempre o contradizia quando ele dizia algo desse tipo. Ela não aceitaria como lei da natureza que o indivíduo seja sempre derrotado. De certa forma, ela percebeu que ela mesma estava condenada, que mais cedo ou mais tarde a Polícia do Pensamento iria pegá-la e matá-la, mas com outra parte de sua mente ela acreditava que de alguma forma era possível construir um mundo secreto no qual se pudesse viver como se escolhesse. Tudo o que você precisava era de sorte, astúcia e ousadia. Ela não entendia que não havia felicidade, que a única vitória estava no futuro distante, muito depois da sua morte, que a partir do momento que declarasse guerra ao Partido era melhor se considerar um cadáver.

“Nós somos os mortos”, disse ele.
“Ainda não estamos mortos’’, disse Julia prosaicamente.
“Não fisicamente. Seis meses, um ano – cinco anos, concebivelmente. Eu tenho medo da morte. Você é jovem, então presumivelmente tem mais medo da morte do que eu. Obviamente, vamos adiá-la o máximo que pudermos. Mas isso faz muito pouca diferença. Enquanto os seres humanos permanecerem humanos, a morte e a vida são a mesma coisa”.  
“Ah, bobagem! Com quem você prefere dormir, comigo ou com um esqueleto? Você não gosta de estar vivo? Você não gosta de sentir: Este sou eu, esta é minha mão, esta é minha perna, eu sou real, sou sólido, estou vivo! Você não gosta disto”? 

     Ela se torceu e apertou o peito contra ele. Ele podia sentir os seios dela, maduros mas firmes, através de seu macacão. O corpo dela parecia estar derramando um pouco de sua juventude e vigor no dele.

“Sim, eu gosto disso”, disse ele.
“Então pare de falar em morrer. E agora ouça, querido, temos que combinar o nosso próximo encontro. Acho que podemos voltar para o lugar na floresta, ele já deu uma boa descansada. Mas é preciso chegar lá de outro jeito. Eu tenho tudo planejado. Você pega o trem – mas veja, vou desenhar para você”. 

     E de seu jeito prático, ela criou um pequeno quadrado de pó, e com um galho do ninho de um pombo começou a desenhar um mapa no chão.
continua na página 291..
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Parte 1 
Parte 2 
Capítulo 3b (Eles não discutiram)
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

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