Os fatos do caso do Sr. Valdemar
Decerto não pretendo considerar como o menor motivo de admiração que
o extraordinário caso do sr. Valdemar tenha suscitado debate. Teria sido
um milagre de outro modo — sobretudo, dadas as circunstâncias. Devido
ao desejo de todas as partes envolvidas de manter o episódio longe do
público, pelo menos por ora, ou até que tenhamos novas oportunidades de
investigação — devido aos nossos esforços de empreendê-la — um relato
deturpado ou exagerado chegou à sociedade e tornou-se fonte de
inúmeras distorções desagradáveis e, muito naturalmente, de grande dose
de incredulidade.
Faz-se necessário agora que eu forneça os fatos — na medida em que eu
mesmo os compreenda. São, sucintamente, os seguintes:
Minha atenção, nos últimos três anos, tem sido repetidamente atraída
para a questão do mesmerismo; e, cerca de nove meses atrás, ocorreu-me,
muito subitamente, que na série de experimentos até então efetuados,
sucedera uma omissão das mais notáveis e deveras inexplicável: —
nenhuma pessoa ainda fora mesmerizada in articulo mortis. Permanecia
por ser verificado, primeiro, se, em tais condições, existia no paciente
alguma suscetibilidade à influência magnética; segundo, se, caso existisse,
ela era prejudicada ou ampliada pela condição; terceiro, em que medida,
ou por qual duração de tempo, os avanços da Morte podiam ser detidos
pelo processo. Havia outros pontos a averiguar, mas esses foram os que
mais excitaram minha curiosidade — em especial este último, pelo caráter
imensamente importante de suas consequências.
Procurando à minha volta alguém por cujo intermédio eu pudesse testar
essas particularidades, fui levado a pensar em meu amigo, o sr. Ernest
Valdemar, o conhecido compilador da Bibliotheca Forensica e autor (sob o
nom de plume de Issachar Marx) das versões polonesas de Wallenstein e
Gargantua. O sr. Valdemar, que residia a maior parte do tempo no Harlem,
em Nova York, desde o ano de 1839, é (ou era) particularmente notável
pela extrema magreza de sua pessoa — seus membros inferiores
parecendo muito com os de John Randolph; e, além disso, pela alvura de
suas suíças, em violento contraste com o negror dos cabelos — estes,
consequentemente, sendo no mais das vezes tomados por uma peruca. Seu
temperamento era marcadamente nervoso e fazia dele um bom
instrumento para o experimento mesmérico. Em duas ou três ocasiões eu o
pus para dormir com pouca dificuldade, mas fiquei desapontado com
outros resultados que sua peculiar constituição naturalmente me levara a
antecipar. Sua vontade não ficou em período algum positivamente, ou
inteiramente, sob meu controle e, com respeito a sua clarividência, não fui
capaz de executar com ele nada que me fosse digno de confiança. Sempre
atribuí meu fracasso nesses aspectos ao estado deteriorado de sua saúde.
Por alguns meses antes que eu viesse a conhecê-lo, seus médicos o haviam
diagnosticado com uma tísica crônica. Tinha o costume, de fato, de falar
calmamente sobre seu óbito iminente, como um assunto que não era para
ser evitado nem lastimado.
Quando as ideias às quais aludi me ocorreram, nada mais natural é claro
que me viesse à mente o sr. Valdemar. Eu conhecia a firme filosofia do
homem bem demais para recear escrúpulos de sua parte; e ele não tinha
parentes na América que pudessem interferir. Conversamos francamente
sobre o assunto; e, para minha surpresa, seu interesse pareceu vivamente
despertado. Eu disse, para minha surpresa; pois, embora sempre se
prestasse de boa vontade a meus experimentos, nunca antes manifestara o
menor sinal de apreciação pelo que eu fazia. Sua doença era de uma
espécie que admitiria o cálculo exato com respeito à época do término em
morte; e foi finalmente combinado entre nós que ele mandaria me chamar
cerca de vinte e quatro horas antes do período anunciado por seus
médicos como sendo o de seu passamento.
Faz agora mais de sete meses desde que recebi, do próprio sr.
Valdemar, o seguinte bilhete:
Meu caro P——,
Pode vir agora mesmo. D—— e F—— estão de acordo que não devo durar além de amanhã à meia-noite; e acho que acertaram o momento com bastante precisão.Valdemar
Recebi esse bilhete cerca de meia hora após ele ter sido escrito e, quinze minutos depois, encontrava-me no quarto do moribundo. Eu não o via havia dez dias e fiquei consternado com a assustadora alteração que o breve intervalo operara em sua pessoa. Seu rosto exibia um matiz plúmbeo; os olhos estavam totalmente embaciados; e a emaciação era tão extrema que a pele fora rachada pelos ossos malares. A expectoração era excessiva. O pulso, mal perceptível. Conservava, todavia, de um modo assaz notável, tanto as faculdades mentais como um certo grau de força física. Falava com clareza — tomou alguns medicamentos paliativos sem ajuda — e, quando entrei no quarto, ocupava-se de redigir lembretes em um caderninho de bolso. Recostava na cama em travesseiros. Os doutores D —— e F—— assistiam-no.
Após apertar a mão de Valdemar, chamei esses cavalheiros à parte e
obtive com eles um relato minucioso das condições do paciente. O pulmão
esquerdo se encontrava havia dezoito meses em um estado semiósseo ou
cartilaginoso, e estava, é claro, inteiramente inutilizado para qualquer
propósito vital. O direito, em sua metade superior, também ficara
parcialmente, se não por completo, ossificado, enquanto a região inferior
era meramente uma massa de tubérculos purulentos, interpenetrando-se.
Diversas cavernas extensas haviam se formado; e, em um ponto, ocorrera
a adesão permanente às costelas. Essas ocorrências no lobo direito eram
de data relativamente recente. A ossificação avançara com rapidez muito
inusual; nenhum sinal dela fora detectado um mês antes, e a adesão só
fora
observada
no decorrer dos três dias precedentes.
Independentemente da tísica, suspeitavam que o paciente sofresse um
aneurisma da aorta; mas nesse ponto os sintomas ósseos tornavam um
diagnóstico exato impossível. Era da opinião dos dois médicos que o sr.
Valdemar morreria por volta da meia-noite do dia seguinte (domingo).
Eram então sete horas da noite de sábado.
Ao se afastar do leito do enfermo para entreter conversa com minha
pessoa, os doutores D—— e F—— haviam feito suas despedidas finais.
Não tinham intenção de regressar; mas, a um pedido meu, concordaram
em examinar o paciente por volta das dez horas da noite seguinte.
Depois que partiram, conversei livremente com o sr. Valdemar sobre a questão de seu óbito iminente, bem como, em maiores particularidades, sobre a experiência proposta. Reafirmou-me que continuava disposto e até ansioso para sua realização e insistiu comigo que começasse imediatamente. Um enfermeiro e uma enfermeira cuidavam dele; mas eu não me sentia inteiramente livre para empreender uma tarefa daquela natureza sem alguma testemunha mais confiável do que essas pessoas, em caso de um súbito acidente, poderiam se revelar. Logo, posterguei os procedimentos para até mais ou menos as oito horas da noite seguinte, quando a chegada de um estudante de medicina com quem eu tinha alguma familiaridade (o sr. Theodore L——l) aliviou-me de adicionais contratempos. Fora minha intenção, originalmente, aguardar pelos médicos; mas fui levado a prosseguir, primeiro, devido à insistência do sr. Valdemar e, segundo, devido a minha convicção de que não tinha um minuto a perder, pois que sua condição se deteriorava a olhos vistos.
Depois que partiram, conversei livremente com o sr. Valdemar sobre a questão de seu óbito iminente, bem como, em maiores particularidades, sobre a experiência proposta. Reafirmou-me que continuava disposto e até ansioso para sua realização e insistiu comigo que começasse imediatamente. Um enfermeiro e uma enfermeira cuidavam dele; mas eu não me sentia inteiramente livre para empreender uma tarefa daquela natureza sem alguma testemunha mais confiável do que essas pessoas, em caso de um súbito acidente, poderiam se revelar. Logo, posterguei os procedimentos para até mais ou menos as oito horas da noite seguinte, quando a chegada de um estudante de medicina com quem eu tinha alguma familiaridade (o sr. Theodore L——l) aliviou-me de adicionais contratempos. Fora minha intenção, originalmente, aguardar pelos médicos; mas fui levado a prosseguir, primeiro, devido à insistência do sr. Valdemar e, segundo, devido a minha convicção de que não tinha um minuto a perder, pois que sua condição se deteriorava a olhos vistos.
O sr. L——l teve a gentileza de aceder ao meu desejo de que tomasse
notas dos acontecimentos; e é com base em seus apontamentos que o que
tenho a relatar foi, na maior parte, condensado ou copiado verbatim.
Faltavam cerca de cinco minutos para as oito quando, tomando a mão do paciente, instei-o a declarar, com a maior clareza de que fosse capaz, ao sr. L——l, se ele (o sr. Valdemar) estava inteiramente de acordo que eu conduzisse o experimento de mesmerização com ele em sua presente condição.
Faltavam cerca de cinco minutos para as oito quando, tomando a mão do paciente, instei-o a declarar, com a maior clareza de que fosse capaz, ao sr. L——l, se ele (o sr. Valdemar) estava inteiramente de acordo que eu conduzisse o experimento de mesmerização com ele em sua presente condição.
Ele respondeu debilmente, embora de forma suficientemente audível,
“Sim, desejo ser mesmerizado” — acrescentando de imediato, “Receio que
o senhor tenha adiado demais”.
Enquanto ele assim falava, dei início aos passes que eu já percebera
serem os mais eficientes em subjugá-lo. Encontrava-se evidentemente sob
minha influência ao primeiro toque lateral de minha mão através de sua
testa; mas, embora eu empregasse todos os meus poderes, nenhum efeito
perceptível posterior foi induzido senão alguns minutos após as dez horas,
quando os doutores D—— e F—— chegaram, segundo o combinado.
Expliquei-lhes, em poucas palavras, o que planejava fazer, e como não
ofereceram nenhuma objeção, afirmando que o paciente encontrava-se já
na agonia da morte, prossegui sem hesitar — mudando, entretanto, os
passes laterais para passes descendentes, e dirigindo meu olhar
inteiramente ao olho direito do enfermo.
Nesse momento, seu pulso era imperceptível e ele estertorava, a
intervalos de meio minuto.
Essa condição permaneceu quase inalterada por um quarto de hora. Ao
esgotar-se esse período, entretanto, um suspiro natural, ainda que muito
profundo, escapou do peito do paciente, e a respiração estertorosa cessou
— isto é, seus estertores não mais eram perceptíveis; os intervalos haviam
aumentado. As extremidades do paciente estavam geladas.
Às cinco para as onze, percebi sinais inequívocos da influência
mesmérica. O movimento vítreo do olho abandonara essa expressão de
inquieto
exame interior que nunca é visto exceto em casos de
sonambulismo e que é um tanto impossível de confundir. Com alguns
poucos e rápidos passes laterais, fiz as pálpebras estremecerem, como que
no sono incipiente, e com outros mais cerrei-as inteiramente. Não me dei
por satisfeito, todavia, com isso, mas continuei as manipulações
vigorosamente, e aplicando nelas toda minha força de vontade, até ter
enrijecido por completo os membros do paciente adormecido, não sem
antes tê-los acomodado numa posição aparentemente confortável. As
pernas foram deixadas bem esticadas; os braços, um pouco menos,
colocados na cama a uma distância moderada dos quadris. A cabeça ficou
apenas ligeiramente elevada.
Quando completei tudo isso, era meia-noite em ponto, e pedi aos
cavalheiros presentes que examinassem as condições do sr. Valdemar.
Após alguns experimentos, admitiram que se encontrava em um estado
extraordinariamente perfeito de transe mesmérico. A curiosidade dos dois
médicos ficou enormemente excitada. O dr. D—— resolveu na mesma hora
permanecer com o paciente durante toda a noite, enquanto o dr. F——
partiu com a promessa de voltar ao raiar do dia. O sr. L——l e os
enfermeiros permaneceram.
Deixamos o sr. Valdemar inteiramente imperturbado até cerca de três
da manhã, quando me aproximei e o encontrei precisamente na mesma
condição que estava quando o dr. F—— se foi — ou seja, permanecia na
mesma posição; o pulso estava imperceptível; a respiração era suave (mal
se podia notar, exceto aproximando um espelho de seus lábios); os olhos
cerravam-se naturalmente; e os membros estavam rígidos e frios como
mármore. Mesmo assim, a aparência geral não era a de um morto.
Quando me acerquei do sr. Valdemar fiz uma espécie de esforço leve
para influenciar seu braço direito a acompanhar o meu, conforme eu o
passava de um lado para outro acima de seu corpo. Em experimentos
assim com esse paciente eu nunca me saíra perfeitamente bem no passado
e decerto tampouco me ocorria que pudesse ser bem-sucedido agora; mas,
para minha perplexidade, seu braço muito prontamente, ainda que
debilmente, acompanhou cada direção que designei com o meu próprio.
Decidi arriscar algumas palavras de conversa.
“Senhor Valdemar”, eu disse, “está dormindo?” Ele não respondeu, mas
percebi um tremor perto dos lábios, e fui assim levado a repetir a
pergunta, uma vez depois mais outra. Nessa terceira tentativa, seu corpo
todo foi agitado por um tremor muito ligeiro; as pálpebras se descerraram
o suficiente para expor uma linha branca do globo ocular; os lábios se
moveram morosamente e, do meio deles, num sussurro quase inaudível,
vieram as palavras:
“Sim; — adormecido, agora. Não me acorde! — Deixe-me morrer assim!”
Nesse momento apalpei seus membros e vi que continuavam tão rígidos
como antes. O braço direito, novamente, obedeceu a direção de minha mão.
Questionei o noctâmbulo mais uma vez:
“Ainda sente dores no peito, senhor Valdemar?”
A resposta agora foi imediata, mas ainda menos audível que antes:
“Sem dor — estou morrendo.”
Julguei não ser aconselhável perturbá-lo ainda mais naquele ponto, e
nada mais foi dito ou feito até a chegada do dr. F——, que chegou pouco
antes do nascer do sol, e expressou uma perplexidade sem limites em ver
que o paciente continuava com vida. Após tomar seu pulso e aplicar-lhe um
espelho aos lábios, requisitou-me que falasse com o noctâmbulo outra vez.
Assim o fiz, dizendo:
“Senhor Valdemar, continua dormindo?”
Como antes, alguns minutos transcorreram até que uma resposta fosse
pronunciada; e durante o intervalo o moribundo parecia juntar forças para
falar. No momento em que eu repetia a pergunta pela quarta vez, disse,
muito debilmente, de modo quase inaudível:
“Sim; ainda dormindo — morrendo.”
Era agora a opinião, ou antes o desejo, dos médicos que ao sr. Valdemar
fosse concedido permanecer imperturbado em sua condição presente
aparentemente tranquila, até que a morte lhe adviesse — e isso, era o
consenso geral, devia ter lugar dali a poucos minutos. Decidi, entretanto,
dirigir-lhe a palavra uma vez mais, e meramente repeti minha pergunta
anterior.
Enquanto eu falava, uma visível mudança se operou na fisionomia do
noctâmbulo. Os olhos giraram e se abriram vagarosamente, as pupilas
ocultas no alto; a pele como um todo assumiu um matiz cadavérico,
parecendo-se menos com pergaminho do que com papel branco; e as
manchas circulares da héctica que até então se faziam notar distintamente
no centro de cada bochecha sumiram de repente. Uso essa expressão
porque a subitaneidade com que se foram trouxe-me à mente nada menos
que uma vela sendo apagada por um sopro de ar. O lábio superior, ao
mesmo tempo, encolheu-se e expôs os dentes, quando antes os cobria por
inteiro; ao passo que o maxilar inferior caiu com um audível tranco,
deixando a boca amplamente aberta, e exibindo por inteiro a língua
inchada e enegrecida. Presumo que nenhum membro do grupo presente
na ocasião estivesse desacostumado aos horrores de um leito de morte;
mas tão hedionda além de qualquer noção era a aparência do sr. Valdemar
nesse momento que ocorreu um recuo geral das imediações da cama.
Sinto agora que chego a um ponto desta narrativa em que o choque fará
com que todo leitor se mostre positivamente descrente. É minha obrigação,
entretanto, simplesmente continuar.
Já não havia o mais leve sinal vital no sr. Valdemar; e, concluindo que
estava morto, ocupávamo-nos em confiá-lo aos cuidados dos enfermeiros
quando um forte movimento vibratório se fez observar em sua língua. Isso
prosseguiu por cerca de um minuto. Ao expirar esse período, do maxilar
distendido e imóvel brotou uma voz — e uma tal que seria loucura de
minha parte tentar descrever. Existem, na verdade, dois ou três epítetos
que se poderiam considerar aplicáveis aqui, em parte; posso dizer, por
exemplo, que o som foi áspero, alquebrado e sepulcral; mas, como um todo,
foi indescritível, pelo simples motivo de que nenhum som tão terrivelmente
similar jamais vibrou no ouvido humano. Houve duas particularidades,
todavia, que na ocasião achei, e continuo a achar, podem ser
inequivocamente apontadas como características da entonação — além de
muito aptas a transmitir certa ideia de peculiaridade sobrenatural. Em
primeiro lugar, a voz parecia chegar aos ouvidos — pelo menos aos meus
— de uma vasta distância, ou de alguma profunda caverna no interior da
terra. Em segundo lugar, ocasionou-me uma impressão (temo, de fato, que
me será impossível fazer compreender) semelhante à que materiais
gelatinosos ou glutinosos causam ao sentido do tato.
Falei tanto de “som” como de “voz”. Quero dizer que o som foi
pronunciado com extrema nitidez — com extraordinária, penetrante,
nitidez —, sílaba a sílaba. O sr. Valdemar falou — obviamente em resposta
à pergunta que eu lhe apresentara alguns minutos antes. Eu havia
perguntado, é mister lembrar, se continuava dormindo. Ele agora dizia:
“Sim; — não; — eu estava dormindo — e agora — agora — estou morto.”
Nenhum dos presentes sequer teve pretensão de negar, ou de tentar
reprimir, o calafrio de horror inexprimível que essas poucas palavras,
assim pronunciadas, tão previsivelmente provocaram. O sr. L——l (o
estudante) desmaiou. Os enfermeiros deixaram o quarto imediatamente e
não houve como convencê-los a voltar. Quanto as minhas próprias
impressões, abstenho-me de tentar torná-las inteligíveis ao leitor. Durante
quase uma hora, ocupamo-nos, em silêncio — sem que ninguém
pronunciasse uma única palavra —, dos procedimentos para reanimar o
sr. L——l. Quando ele voltou a si, tornamos a nos concentrar em investigar
a condição do sr. Valdemar.
Ela continuava em todos os aspectos como descrevi da última vez, com
exceção de que o espelho não mais fornecia evidência de alento. Uma
tentativa de colher sangue do braço fracassou. Devo mencionar, ainda, que
esse membro não mais se encontrava submetido à minha vontade. Tentei
em vão fazer com que seguisse a direção de minha mão. O único indício
real, de fato, da influência mesmérica, era agora encontrado no movimento
vibratório da língua, sempre que eu endereçava alguma pergunta ao sr.
Valdemar. Ele parecia esforçar-se para responder, mas já não havia mais
volição suficiente. As perguntas a ele apresentadas por qualquer outro que
não eu mesmo parecia inteiramente insensível — embora eu me
empenhasse em deixar cada membro da equipe em comunhão mesmérica
com ele. Acredito que a essa altura já relatei todo o necessário para uma
compreensão do estado do noctâmbulo nesse momento. Outros
enfermeiros foram chamados; e às dez horas deixei a casa na companhia
dos dois médicos e do sr. L——l.
No período da tarde, voltamos todos para visitar o paciente. Sua
condição permanecia precisamente a mesma. Travamos então uma
discussão acerca da propriedade ou exequibilidade de acordá-lo; mas não
nos foi difícil concordar que nenhum propósito benéfico adviria de fazê-lo.
Estava evidente que, no momento, a morte (ou o que normalmente
chamamos de morte) fora detida pelo procedimento mesmérico. Parecia-nos indubitável que despertar o sr. Valdemar signf icaria meramente
assegurar seu instantâneo, ou pelo menos acelerado, óbito.
Desde esse período até o encerramento da semana passada — um
intervalo de quase sete meses — continuamos a fazer visitas diárias à casa
do sr. Valdemar, acompanhados, vez por outra, de médicos e alguns
amigos. Todo esse tempo o noctâmbulo permaneceu exatamente como eu o
descrevera da última vez. O cuidado dos enfermeiros era contínuo.
Foi na sexta-feira passada que finalmente resolvemos fazer o
experimento de despertá-lo, ou de tentar despertá-lo; e é (talvez) o
resultado infeliz desse último experimento que tem ensejado tanta
discussão em círculos privados — grande parte da qual não consigo deixar
de julgar como sendo de uma inclinação popular injustificável.
Com o intuito de tirar o sr. Valdemar do transe mesmérico, fiz uso dos
costumeiros passes. Os quais, por algum tempo, não surtiram efeito. O
primeiro indício de revivescência foi proporcionado por uma descida
parcial da íris. Observou-se como uma particularidade notável o fato de
que o declínio da pupila se fez acompanhar da profusa efusão de uma linfa
amarelada (originada sob as pálpebras) dotada de um odor pungente e
sumamente repulsivo.
Era agora sugerido que eu tentasse influenciar o braço do paciente, como dantes. Fiz uma tentativa e fracassei. O dr. F—— então expressou o desejo de que eu lhe fizesse uma pergunta. Procedi como segue:
Era agora sugerido que eu tentasse influenciar o braço do paciente, como dantes. Fiz uma tentativa e fracassei. O dr. F—— então expressou o desejo de que eu lhe fizesse uma pergunta. Procedi como segue:
“Senhor Valdemar, pode nos explicar o que está sentindo ou querendo
nesse momento?”
Houve um ressurgimento imediato dos círculos hécticos nas bochechas;
a língua estremeceu, ou antes rolou violentamente na boca (embora os
maxilares e os lábios permanecessem tão rígidos quanto antes) e finalmente a mesma voz hedionda que já tive oportunidade de descrever
proferiu:
“Pelo amor de Deus! — rápido! — rápido! — ponha-me para dormir —
ou, rápido! — acorde-me! — rápido! — afirmo que estou morto!”
Fiquei profundamente perturbado e por um instante permaneci indeciso
quanto ao que fazer. No início, empreendi uma tentativa de tranquilizar o
paciente; mas, fracassando nesse propósito por total suspensão da volição,
voltei atrás e me empenhei com igual concentração em despertá-lo. Nessa
tentativa logo vi que seria bem-sucedido — ou pelo menos logo imaginei
que meu êxito seria completo — e estou certo de que todos naquele quarto
estavam preparados para ver o paciente voltando a si.
Para o que realmente ocorreu, entretanto, é absolutamente impossível
que algum ser humano pudesse estar preparado.
Conforme eu rapidamente executava os passes mesméricos, em meio a exclamações de “morto! morto!” definitivamente prorrompendo da língua e não dos lábios do enfermo, seu corpo todo subitamente — no espaço de um único minuto, ou ainda menos que isso, encolheu — desintegrou-se — se decompôs por completo sob minhas mãos. Em cima da cama, diante de toda a equipe, nada mais havia que uma massa quase líquida de uma asquerosa — detestável — podridão.
Edgar Allan Poe (nascido Edgar Poe; Boston, Massachusetts, Estados Unidos, 19 de Janeiro de 1809 — Baltimore, Maryland, Estados Unidos, 7 de Outubro de 1849) foi um autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense, integrante do movimento romântico estadunidense. Conhecido por suas histórias que envolvem o mistério e o macabro, Poe foi um dos primeiros escritores americanos de contos e é geralmente considerado o inventor do gênero ficção policial, também recebendo crédito por sua contribuição ao emergente gênero de ficção científica. Ele foi o primeiro escritor americano conhecido por tentar ganhar a vida através da escrita por si só, resultando em uma vida e carreira financeiramente difíceis.
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
Conforme eu rapidamente executava os passes mesméricos, em meio a exclamações de “morto! morto!” definitivamente prorrompendo da língua e não dos lábios do enfermo, seu corpo todo subitamente — no espaço de um único minuto, ou ainda menos que isso, encolheu — desintegrou-se — se decompôs por completo sob minhas mãos. Em cima da cama, diante de toda a equipe, nada mais havia que uma massa quase líquida de uma asquerosa — detestável — podridão.
continua página 94...
____________________
Leia também:
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
Metzengerstein / Silêncio / Um Manuscrito encontrado numa Garrafa / A Entrevista /
Uma Descida ao Maelstrom (01) / A Ilha da Fada / A Máscara da Morte Vermelha / A Quinta de Arnheim (1) /
____________________
Edgar Allan Poe
CONTOS
Originalmente publicados entre 1831 e 1849
__________________
Ele nasceu como Edgar Poe, em Boston, Massachusetts; quando jovem, ficou órfão de mãe, que morreu pouco depois de seu pai abandonar a família. Poe foi acolhido por Francis Allan e o seu marido John Allan, de Richmond, Virginia, mas nunca foi formalmente adotado. Ele frequentou a Universidade da Virgínia por um semestre, passando a maior parte do tempo entre bebidas e mulheres. Nesse período, teve uma séria discussão com seu pai adotivo e fugiu de casa para se alistar nas forças armadas, onde serviu durante dois anos antes de ser dispensado. Depois de falhar como cadete em West Point, deixou a sua família adotiva. Sua carreira começou humildemente com a publicação de uma coleção anônima de poemas, Tamerlane and Other Poems (1827).
Poe mudou seu foco para a prosa e passou os próximos anos trabalhando para revistas e jornais, tornando-se conhecido por seu próprio estilo de crítica literária. Seu trabalho o obrigou a se mudar para diversas cidades, incluindo Baltimore, Filadélfia e Nova Iorque. Em Baltimore, casou-se com Virginia Clemm, sua prima de 13 anos de idade. Em 1845, Poe publicou seu poema The Raven, foi um sucesso instantâneo. Sua esposa morreu de tuberculose dois anos após a publicação. Ele começou a planejar a criação de seu próprio jornal, The Penn (posteriormente renomeado para The Stylus), porém, em 7 de outubro de 1849, aos 40 anos, morreu antes que pudesse ser produzido. A causa de sua morte é desconhecida e foi por diversas vezes atribuída ao álcool, congestão cerebral, cólera, drogas, doenças cardiovasculares, raiva, suicídio, tuberculose entre outros agentes.
Poe e suas obras influenciaram a literatura nos Estados Unidos e ao redor do mundo, bem como em campos especializados, tais como a cosmologia e a criptografia. Poe e seu trabalho aparecem ao longo da cultura popular na literatura, música, filmes e televisão. Várias de suas casas são dedicadas como museus atualmente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário