domingo, 11 de outubro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (2)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
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CAPÍTULO II
A AMOROSA
 
continuando...

     Stekel acrescenta que, "para muitas mulheres, a queda na animalidade é essencial ao orgasmo". Elas veem no amor físico um aviltamento que não se pode conciliar com sentimentos de estima e afeição. Mas para outras, ao contrário, é pela estima, pela ternura, pela admiração do homem que esse aviltamento pode ser abolido. Só consentem em se entregar a um homem em se acreditando profundamente amadas; uma mulher precisa de muito cinismo, indiferença ou orgulho para considerar as relações físicas como uma troca de prazeres em que cada parceiro encontra igualmente sua satisfação. O homem tanto quanto a mulher — e talvez mais — revolta-se contra quem o quer explorar¹. Mas ela é quem tem geralmente impressão de que seu parceiro a utiliza como um instrumento. Somente uma admiração exaltada pode compensar a humilhação de um ato que considera como uma derrota. Vimos que o ato amoroso exige dela uma alienação profunda; ela banha-se na languidez da passividade; de olhos cerrados, anônima, perdida, sente-se transportada por ondas, varrida pela tormenta, sepultada na noite; noite da carne da matriz, do túmulo; aniquilada, alcança o Todo, abole-se o seu eu. Mas quando o homem se separa dela, ela se encontra rejei tada à terra, em um leito, na luz; readquire um nome, um rosto: é uma vencida, uma presa, um objeto. É então que o amor se torna necessário. Assim como depois da desmama a criança busca o olhar tranquilizador dos pais, é preciso que, pelos olhos do amante que contempla, a mulher se sinta reintegrada no Todo de que sua carne dolorosamente se destacou. Muito raramente ela se satisfaz completamente; mesmo se conheceu o apaziguamento do prazer não fica definitivamente liberta do feitiço carnal; sua perturbação prolonga-se tornando-se sentimento; dispensando-lhe a volúpia, o homem prende-a a si, não a liberta. Entretanto, não mais a deseja; ela só lhe perdoa essa indiferença momentânea se ele lhe dedica um sentimento intemporal e absoluto. A imanência do instante é então superada; as recordações ardentes não são mais uma saudade e sim um tesouro; dissipando-se, a volúpia torna-se esperança e promessa; o gozo é justificado; a mulher pode orgulhosamente assumir sua sexualidade porque a transcende; perturbação, prazer, desejo não são mais um esta do e sim um dom; seu corpo não é mais um objeto: é um cântico, uma chama. Pode ela então entregar-se apaixonadamente à magia do erotismo; a noite transforma-se em luz; a mulher apaixonada pode abrir os olhos; olhar o homem que a ama e cujo olhar a glorifica; através dele o nada faz-se plenitude de ser e o ser é transfigurado em valor; ela não soçobra mais em um mar de trevas, é içada sobre asas, exaltada aos céus. O abandono torna-se êxtase sagrado. Quando acolhe o homem amado, a mulher é habitada, visitada como a Virgem pelo Espírito Santo, como o crente pela hóstia; é o que explica a analogia obscena dos cantos piedosos com as canções licenciosas: não por ter sempre o amor místico um caráter sexual, mas porque a sexualidade da apaixonada se reveste de um colorido místico. "Meu Deus, meu adorado, meu senhor. . .", as mesmas palavras saem dos lábios da santa ajoelhada e da amorosa no leito; uma oferece a carne aos dardos de Cristo, estende as mãos para receber os estigmas, busca a queimadura do Amor Divino; a outra é também oferenda e espera: setas, dardos, flechas encarnam-se no sexo masculino. Em ambas o sonho é o mesmo, o sonho infantil, o sonho místico, o sonho amoroso: existir soberanamente em se abolindo no seio do outro

[1] Cf., entre outras obras, O Amante de Lady Chatterley. Pela Palavra de Mellors, Lawrence exprime seu horror às mulheres que fazem dele um instrumento de prazer.

     Afirmou-se por vezes que esse desejo de aniquilamento conduzia ao masoquismo. Mas, como o assinalei, a propósito do erotismo, só se pode falar de masoquismo quando tento "fascinar-me a mim mesma por minha objetividade através de outrem" (cf. Sartre, L'Être et le Néant), isto é, quando a consciência do sujeito se volta para o ego a fim de apreendê-lo em sua situação humilhada. Ora, a amorosa não é somente uma narcisista alienada em seu eu: ela sente também um desejo apaixonado de transbordar seus próprios limites e tornar-se infinita pelo instrumento de um outro que tem acesso à realidade infinita. Ela abandona-se ao amor primeiramente para se salvar, mas o paradoxo do amor idólatra está em que, para se salvar, ela acaba por se renegar totalmente. Seu sentimento assume uma dimensão mística; ela não pede mais ao Deus que a admire, que a aprove; quer fundir-se nele, esquecer-se em seus braços. "Quisera ser uma santa do amor, escreve Mme d'Agoult. Invejava o martírio em tais momentos de exaltação e de furor ascético." O que se evidencia nestas palavras é o desejo de uma destruição radical de si mesma abolindo as fronteiras que a separam do bem-amado: não se trata sequer de masoquismo e sim de um sonho de união extática¹. É o mesmo sonho que inspira estas palavras de Georgette Leblanc: "Naquela época, se me tivessem perguntado o que mais almejava no mundo, teria respondido sem hesitar: ser alimento e chama para seu espírito".

[1] O termo vem do grego ekstatikós, que significa "que tira para fora de si" ou "fora de si", derivado de ekstasis (ek = fora, stasis = estado ou condição). Passou pelo latim como extaticus antes de chegar ao português, mantendo o sentido de arrebatamento ou contemplação intensa. A palavra extática refere-se a um estado de intensa emoção ou arrebatamento, frequentemente associado a alegria extrema, êxtase, euforia ou contemplação profunda. Alguém extático pode estar absorto, enlevado, pensativo ou maravilhado, demonstrando uma imersão completa no momento presente. (Nota do baitasar.)

     Para realizar essa união, o que a mulher deseja primeiramente é servir; é respondendo às exigências do amante que se sentirá necessária; será integrada na existência dele, participará de seu valor, será justificada; até as místicas se comprazem em crer, segundo Angelus Silesius, que Deus precisa do homem, sem o quê, o dom que fazem de si mesmas seria vão. Quanto mais o homem multiplica suas solicitações, mais a mulher se sente satisfeita. Embora a reclusão imposta por Hugo a Juliette Drouet pese à jovem mulher, sente-se que ela se compraz em lhe obedecer: permanecer sentada junto à lareira é fazer alguma coisa para a felicidade do senhor. Ela tenta com paixão ser-lhe útil positivamente. Prepara-lhe pratos delicados, instala um lar para ele: nossa pequena "tua casa", dizia ela gentilmente; cuida da roupa dele.

   Quero que manches, que rasgues o mais possível todas as tuas roupas e que seja eu a única a consertá-las, a limpá-las sem ajuda de ninguém, escreve-lhe. 

     Para ele, ela lê os jornais, corta artigos, classifica cartas e notas, copia manuscritos. Desola-se quando o poeta confia parte desse trabalho à filha Léopoldine. Encontram-se traços semelhantes em toda mulher apaixonada. Se necessário, ela se tiraniza a si mesma em nome do amante; é preciso que tudo o que é, tudo o que tem, todos os instantes de sua vida lhe sejam dedicados e tenham assim sua razão de ser; ela não quer possuir coisa alguma senão nele; o que a tornaria infeliz fora que ele nada reclamasse, eis por que una amante delicado inventa exigências. Ela procurou primeiramente no amor uma confirmação do que era, de seu passado, de seu personagem; mas no amor empenha também seu futuro. Para justificá-lo, destina esse amor àquele que detém todos os valores; assim é que se liberta de sua transcendência: subordina-a à do outro essencial de quem se faz vassala e escrava. É a fim de se encontrar, de se salvar que ela começa por se perder nele: e o fato é que, pouco a pouco, se perde. Toda a realidade está no outro. O amor, que de início se definia como uma apoteose narcisista, realiza-se nas ásperas alegrias de um devotamento que conduz, frequentemente, a uma automutilação. Nos primeiros tempos de uma grande paixão, a mulher torna-se mais bonita, mais elegante do que antes: "Quando Adèle me penteia, contemplo minha fronte porque você gosta dela", escreve Mme d'Agoult. Achou uma razão de ser para esse rosto, esse corpo, esse quarto, esse eu, adora-os pela mediação do homem amado que a ama. Mas, pouco mais tarde, ela renuncia, ao contrário, a todo coquetismo, se o amante o deseja, ela modifica essa imagem que lhe era antes mais preciosa do que o próprio amor; desinteressa-se dela; faz do que é, do que tem, o feudo de seu soberano; renega o que ele desdenha; gostaria de lhe consagrar cada batida do coração, cada gota do sangue, a medula dos ossos. É o que se traduz por êfete sonho de martírio: exagerar o dom de si até a tortura, até a morte, ser o solo que o amado pisa, ser apenas o que responde ao apelo dele. Tudo o que é inútil ao amado, ela o aniquila com exaltação. Se o presente que faz de si é integralmente aceito, o masoquismo não aparece: poucos vestígios se percebem em Juliette Drouet. Na sua adoração excessiva, ajoelhava-se por vezes diante do retrato do poeta e pedia perdão para as faltas que pudesse ter cometido; não se voltava colérica contra si mesma. Mas do entusiasmo generoso para o masoquismo o deslize é fácil. A amante que se reencontra diante do amante na situação da criança diante dos pais, reencontra também esse sentimento de culpa que conhecia junto deles; não escolhe revoltar-se contra ele enquanto o ama: revolta-se contra si mesma. Se ele a ama menos do que ela o deseja, se ela não consegue absorvê-lo, torná-lo feliz, bastar-lhe, todo o narcisismo se converte em nojo, em humilhação, num ódio a si mesma que a incita a autopunições. Durante uma crise mais ou menos demorada, por vezes durante toda a vida, ela se transformará em vítima voluntária, obstinar-se-á em molestar esse eu que não soube satisfazer o amante. Sua atitude é então propriamente masoquista. Mas não se deve confundir esses casos em que a mulher apaixonada busca seu próprio sofrimento, a fim de se vingar de si mesma, com os casos em que visa a confirmação da liberdade do homem e seu poder. É lugar-comum — e parece que uma verdade — dizer que a prostituta tem orgulho de ser espancada por seu homem: mas não é a ideia de sua pessoa batida e escravizada que a exalta, é a força, a autoridade, a soberania do macho de que ela depende; ela gosta também de vê-lo maltratar outro homem, incita-o amiúde a competições perigosas: quer que seu senhor detenha os valores reconhecidos no meio a que ela pertence. A mulher que se submete com prazer a caprichos masculinos igualmente admira na tirania que se exerce sobre si a evidência de uma liberdade so berana. Cumpre atentar para o fato de que, se, por uma razão qualquer, o prestígio do amante arruína-se, pancadas e exigências se tornarão odiosas: só valem como manifestação da divindade do bem-amado. Neste caso é alegria embriagante sentir-se a presa de uma liberdade estranha: é para um existente a mais surpreendente aventura achar-se criado pela vontade diversa e imperiosa de outro; a gente se cansa de morar sempre na mesma pele; a obediência cega é a única possibilidade de mudança radical que um ser humano pode conhecer. Eis a mulher escrava, rainha, flor, corça, vitral, capacho, criada, cortesã, musa, companheira, mãe, irmã, filha segundo os sonhos fugazes, as ordens imperiosas do amante: ela presta-se, em êxtase, a essas metamorfoses enquanto não reconhece que conserva sempre nos lábios o gosto idêntico da submissão. No plano do amor, como no do erotismo, verificamos que o masoquismo é um dos caminhos pelos quais envereda a mulher insatisfeita, desiludida pelo outro e por si mesma; mas não é a tendência natural de uma demissão feliz. O masoquismo perpetua a presença do eu sob uma figura amarfanhada¹, degradada; o amor visa esquecimento de si em benefício do sujeito essencial.

[1] A amarfanhada é o feminino de amarfanhado, que significa:
- Amarrotado: algo que se amassou ou amarrotou, como um vestido.
- Humilhada: usado figurativamente para descrever alguém que foi alvo de humilhação ou maus-tratos.
- Enrugado: referindo-se a algo que está enrugado ou com dobras irregulares.
     A palavra deriva do verbo amarfanhar, que significa amassar ou esmagar.  (Nota do baitasar)


     O objetivo supremo do amor humano como do amor místico é a identificação com o amado. A medida dos valores, a verdade do mundo estão na consciência dele; eis por que não é ainda suficiente servi-lo; a mulher tenta ver com os olhos dele, lê os livros que ele lê, prefere os quadros e a música que ele prefere, só se interessa pelas paisagens que vê com ele, pelas ideias que vêm dele; adota as amizades, as inimizades, as opiniões dele; quando se interroga é a resposta dele que se esforça por ouvir; quer em seus pulmões o ar que ele já respirou; as flores, os frutos que não recebe da mão dele não têm perfume nem gosto; seu espaço hodológico¹ acha-se transtornado: o centro do mundo não é mais o lugar onde se encontra e sim aquele onde se encontra o amado; todos os caminhos saem de sua casa e a esta conduzem. Ela serve-se das palavras dele, refaz-lhe os gestos, adquire-lhes as manias e os sestros. "Sou Heathcliff", diz Katherine em Whuthering Heights; é o grito de toda apaixonada; ela é outra encarnação do amado, seu reflexo, seu duplo: ela é ele. Seu próprio mundo, ela o deixa desmoronar na contingência: é no universo dele que vive.
 
[1] Hodológico refere-se ao estudo de objetos complexos e suas interações.
     O hodológico era utilizado para prever acontecimentos futuros com base nas posições dos planetas, estrelas e outros corpos celestes. Os astrólogos gregos traçavam mapas astrais e analisavam os caminhos que esses corpos percorriam para interpretar o impacto de suas posições na vida das pessoas e da sociedade como um todo. (Nota do baitasar)


     A felicidade suprema da amorosa consiste em ser reconhecida pelo homem amado como parte dele próprio; quando ele diz "nós" ela é associada a ele e com ele se identifica, partilha-lhe o prestígio e com ele reina sobre o resto do mundo; não cansa de repeti-lo — ainda que abusivamente — esse "nós" saboroso. Necessária a um ser que é a necessidade absoluta que se projeta no mundo para fins necessários e que lhe restitui o mundo sob a figura da necessidade, a amorosa conhece em sua demissão a posse magnífica do absoluto. É essa certeza que lhe dá tão grandes alegrias; sente-se exaltada à direita do deus; pouco lhe importa ter apenas o segundo lugar se tem seu lugar, para sempre, em um universo maravilhosamente ordenado. Enquanto ama, enquanto é necessária ao amado, sente-se totalmente justificada: degusta paz e felicidade, Essa talvez tenha sido a sorte de Mlle Aissé junto do Cavaleiro de Aydie, antes que os escrúpulos da religião lhe tivessem perturbado a alma, ou o de Juliette Drouet à sombra de Hugo.    
     Mas é raro que essa gloriosa felicidade seja estável. Nenhum homem é deus. As relações que a mística sustenta com a divina ausência dependem unicamente de seu fervor: mas o homem divinizado, e que não é Deus, está presente. Disso nascerão os tormentos da apaixonada. Seu destino mais comum acha-se resumido nas palavras célebres de Julie de Lespinasse: "Amo-vos, meu amigo, sofro e vos espero em todos os instantes de minha vida". Sem dúvida para os homens também o sofrimento está ligado ao amor; mas suas penas não duram muito tempo ou não são devoradoras; Benjamin Constant quis morrer por Juliette Récamier: em um ano curou-se. Stendhal teve, durante anos, saudades de Métilde, mas era uma saudade que lhe perfumava a vida mais do que a destruía. Ao passo que, assumindo-se como o inessencial¹, aceitando uma dependência total, a mulher cria um inferno para si; toda amorosa se reconhece na pequena sereia de Andersen que, tendo, por amor, trocado sua cauda de peixe por pernas de mulher, marchava sobre agulhas e carvões em brasa. Não é verdade que o homem amado seja incondicionalmente necessário e, por outro lado, ela não lhe é necessária; ele não está à altura de justificar quem lhe rende um culto, e não se deixa possuir por ela.

[1] A palavra "inessencial" é um adjetivo que significa "não essencial" ou "que não é necessário nem imprescindível". É sinônimo de termos como "secundário", "insignificante" e "desimportante". Por exemplo, pode-se dizer que "sua colaboração é inessencial para a empresa". (Nota do baitasar)


     Um amor autêntico deveria assumir a contingência do outro, isto é, suas falhas, seus limites, sua gratuidade original; não pretenderia ser uma salvação e sim uma relação inter-humana. O amor idólatra confere ao amado um valor absoluto; é a primeira mentira que se apresenta a todos os olhares estranhos: "Ele não merece tanto amor", murmuram em torno da amorosa; a posteridade sorri com dó, quando evoca a pálida figura do Conde Guibert. Descobrir as falhas, a mediocridade de seu ídolo, é para a mulher uma decepção desesperante. Colette aludiu muitas vezes — em La Vagabonde, em Mes Apprentissages — a essa agonia amarga; a desilusão é mais cruel ainda que a da criança que vê desmoronar o prestígio paterno, porque a mulher escolheu ela própria o homem a quem fez dom de todo o ser. Mesmo que o eleito seja digno do mais profundo apego, sua verdade é terrestre: não é mais ele que a mulher ama, genuflete¹  diante de um ser supremo; ela é enganada por esse espírito de seriedade que se recusa a pôr os valores "entre parênteses", isto é, a reconhecer que têm sua fonte na existência humana; sua má-fé ergue barreiras entre ela e quem ela adora. Incensa-o, consterna-se, mas não é para ele uma amiga, porquanto não se dá conta de que ele corre perigo no mundo, de que seus projetos e seus fins são frágeis como ele próprio; considerando-o como a fé, a Verdade, desconhece a liberdade dele, que é hesitação e angústia. Essa recusa de aplicar ao amante uma medida humana explica muitos paradoxos femininos. A mulher reclama do amante um favor, ele o concede: ei-lo generoso, rico, magnífico, real, divino. Se o recusa, ei-lo avarento, mesquinho, cruel, é um ser demoníaco, bestial. Poderiam ser tentados a objetar: se um "sim" surpreende como uma soberba extravagância, deve-se espantar com um "não"? Se o "não" manifesta tão abjeto egoísmo, por que tanto admirar o "sim"? Não há lugar para o humano entre o sobre-humano e o inumano?

[1] A palavra "genuflete" refere-se ao ato de genufletir, que é um gesto de reverência religiosa onde a pessoa se ajoelha em sinal de humildade e respeito perante uma divindade. Esse ato é comum em várias tradições cristãs, como o catolicismo, e envolve ajoelhar-se diante do Santíssimo Sacramento ou do altar. A origem da palavra vem do latim, onde "genu" significa "joelho" e "flectere" significa "dobrar". A genuflexão é uma forma de expressar devoção e demonstrar submissão à presença divina. (Nota do baitasar)


continua página 423...
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O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
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O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo II - A amorosa (2)
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As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

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