Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Parte 2
3.
"Podemos voltar aqui”, disse Julia. “Em geral, é seguro usar um esconderijo duas
vezes. Mas só depois de um ou dois meses, é claro”.
Seu comportamento havia mudado assim que ela
acordou. Ela estava atenta e formal, vestiu suas
roupas, amarrou a faixa escarlate na cintura e começou a organizar os detalhes da viagem de volta.
Parecia natural deixar que ela resolvesse isso. Ela
obviamente tinha uma astúcia prática que faltava ao Winston, e parecia também ter um conhecimento exaustivo do campo ao redor de Londres,
resultado de inúmeras caminhadas comunitárias.
A rota que ela lhe deu era bem diferente daquela pela qual ele tinha vindo, e o levou para uma
estação ferroviária diferente. “Nunca vá para casa
da mesma maneira que veio”, disse ela, como se
enunciasse um princípio geral importante. Ela
partiria primeiro, e Winston deveria esperar meia
hora antes de segui-la.
Ela havia nomeado um lugar onde eles poderiam
se encontrar depois do trabalho, quatro noites de
pois. Era uma rua em um dos bairros mais pobres,
onde havia um mercado aberto que geralmente
estava lotado e barulhento. Ela estaria passeando entre as barracas, fingindo estar em busca de
cadarços ou fios de costura. Se ela julgasse que a
costa estava livre, ela assoaria o nariz quando ele
se aproximasse; caso contrário, ele passaria por
ela sem reconhecimento. Mas com sorte, no meio
da multidão, seria seguro conversar durante algum tempo e marcar outra reunião.
“E agora devo ir”, ela disse assim que ele dominou
as instruções. “Devo estar de volta às dezenove e
meia. Tenho que trabalhar duas horas para a Liga
Júnior Antissexo, distribuindo panfletos, ou algo as
sim. Não é idiota? Você pode me ajudar a me limpar? Tenho algum galho no meu cabelo? Você tem
certeza? Então adeus, meu amor, adeus!”.
Ela se jogou em seus braços, beijou-o quase violentamente, e um momento depois empurrou-o através das mudas e desapareceu na floresta
com muito pouco barulho. Até agora ele não tinha descoberto seu sobrenome nem seu endereço. Entretanto, não fazia diferença, pois era
inconcebível que eles pudessem se encontrar
dentro de casa ou trocar qualquer tipo de comunicação escrita.
No fim, eles nunca mais voltaram para a clareira
na floresta. Durante o mês de maio, houve apenas
mais uma ocasião em que eles realmente conseguiram fazer amor. Foi em outro esconderijo conhecido por Julia, o campanário de uma igreja em
ruínas em uma região quase deserta do país onde
uma bomba atômica havia caído trinta anos antes. Era um bom esconderijo quando se chegava
lá, mas chegar lá era muito perigoso. Para o resto, eles podiam se encontrar apenas nas ruas, em
um lugar diferente todas as noites e nunca por
mais de meia hora de cada vez. Na rua geralmente
era possível conversar, de certa maneira. À medida que desciam pelas calçadas apinhadas, não
muito próximos e sem se olhar, mantinham uma conversa curiosa e intermitente, que se acendia e
se apagava como as vigas de um farol, de repente
cortadas em silêncio pela aproximação de alguém
do Partido ou pela proximidade de uma teletela,
retomadas minutos depois no meio de uma frase,
abruptamente cortadas enquanto se separavam
no local combinado, continuando quase sem introdução no dia seguinte. Julia parecia estar bastante acostumada a este tipo de conversa, que ela
chamou de “conversa por prestações”. Ela também
era surpreendentemente hábil em falar sem mexer os lábios. Apenas uma vez, em quase um mês
de reuniões noturnas, elas conseguiram trocar um
beijo. Eles passavam em silêncio por uma rua lateral (Julia nunca falava quando eles estavam longe
das ruas principais) quando havia um rugido ensurdecedor, a terra se tornava pesada e o ar escurecia, e Winston estava caído de lado, machucado
e assustado. Uma bomba deve ter caído bem perto. De repente, ele se deu conta do rosto de Julia
a alguns centímetros do seu próprio rosto, branco de morte, tão branco quanto giz. Até os lábios
dela eram brancos. Ela estava morta! Ele a apertou contra si mesmo e descobriu que estava beijando
um rosto vivo e quente. Mas havia um pó em seus
lábios. Os dois rostos estavam cobertos de gesso.
Havia noites em que eles chegavam ao ponto de
encontro e tinham que passar um pelo outro sem
sinal, porque uma patrulha tinha acabado de chegar na esquina ou um helicóptero estava pairando por cima deles. Mesmo que tivesse sido menos
perigoso, ainda assim teria sido difícil encontrar
tempo para se encontrar. A semana de trabalho de
Winston era de sessenta horas, a de Julia era ainda
mais longa, e seus dias livres variavam de acordo com a pressão do trabalho e muitas vezes não
coincidiam. Julia, em todo caso, raramente tinha
uma noite completamente livre. Ela passava uma
quantidade surpreendente de tempo assistindo a
palestras e demonstrações, distribuindo panfletos para a Liga Júnior Antissexo, preparando faixas para a Semana do Ódio, fazendo coletas para
a campanha de economia, e outras atividades do
tipo. Vale a pena, disse ela, era tudo disfarce. Se
você mantivesse as pequenas regras, podia quebrar as grandes. Ela até induziu Winston a com
prometer mais uma de suas noites, inscrevendo--se para o trabalho de munição que era feito em
meio período voluntariamente por membros zelosos do Partido. Assim, uma noite por semana,
Winston passava quatro horas de tédio paralisante, parafusando pequenos pedaços de metal que
provavelmente eram partes de fusíveis de bombas, em uma oficina gelada e mal iluminada, onde
a batida de martelos se misturava sombriamente
com a música das teletelas.
Quando eles se encontraram na torre da igreja, as
lacunas em sua conversa fragmentada foram preenchidas. Era uma tarde de calor. O ar na pequena
câmara quadrada acima dos sinos estava quente e
estagnado, e cheirava a excremento de pombo. Eles
se sentaram conversando durante horas no chão
poeirento e sujo, se levantando de vez em quando
para lançar um olhar através das seteiras e para se
certificar de que ninguém estivesse vindo.
Julia tinha vinte e seis anos de idade. Ela vivia em
um albergue com outras trinta meninas (“Sempre
um fedor das mulheres! Como eu odeio as mulheres!”, disse ela, de forma parentética), e ela trabalhava, como ele havia adivinhado, nas máquinas
de escrever romances no Departamento de Ficção.
Ela gostava de seu trabalho, que consistia principalmente em dirigir e reparar um motor elétrico potente, mas complicado. Ela não era “inteligente”, mas gostava de usar suas mãos e se sentia
confortável com as máquinas. Ela podia descrever
todo o processo de composição de um romance,
desde a diretriz geral emitida pelo Comitê de Planejamento até o retoque final pelo Esquadrão de
Reescrita. Mas ela não estava interessada no produto final. Ela “não se importava muito com a leitura’’, disse ela. Os livros eram apenas uma mercadoria que tinha que ser produzida, como geleias
ou cadarços.
Ela não tinha lembranças de nada antes dos anos
sessenta, e a única pessoa que ela conhecia que falava frequentemente dos dias anteriores à Revolução era um avô que havia desaparecido quando
ela tinha oito anos. Na escola, ela havia sido capitã
da equipe de hóquei e recebera o troféu de ginástica dois anos seguidos. Ela havia sido líder de tropa
nos Espiões e secretária da Liga da Juventude antes de se juntar à Liga Júnior Antissexo. Ela sempre tinha tido um excelente caráter. Ela tinha sido
escolhida até mesmo para trabalhar (uma marca
infalível de boa reputação) em Pornosec, a subseção do Departamento de Ficção que gerava pornografia barata para distribuição entre os proles.
A seção foi apelidada de Casa do Muco pelas pessoas que trabalhavam nela, observou. Ela permaneceu um ano lá, ajudando a produzir livretos em
pacotes selados com títulos como Contos de Su ras ou Uma Noite em uma Escola de Meninas, que
seriam comprados furtivamente por jovens proletários que estavam sob a impressão de que estavam comprando algo ilegal.
“Como são estes livros?”, perguntou Winston com
curiosidade.
“Ah, é um lixo horrível. Eles são chatos, realmente.
Eles só têm seis enredos, que são levemente trocados para cada livro. É claro que eu só estava nos caleidoscópios. Eu nunca estive no Esquadrão de Reescrita. Não sou literária, querido – nem mesmo o
suficiente para isso”.
Ele descobriu, com espanto, que todos os trabalhadores da Pornosec, exceto os chefes dos departamentos, eram meninas. A teoria era que os homens,
cujos instintos sexuais eram menos controláveis
que os das mulheres, corriam mais perigo de serem
corrompidos pela imundície com que lidavam.
“Eles não gostam nem de empregar mulheres casadas lá”, acrescentou. “As garotas devem sempre
ser tão puras. Bem, aqui está uma que não é”.
Ela teve seu primeiro caso amoroso quando tinha dezesseis anos, com um membro do Partido
de sessenta anos que mais tarde cometeu suicídio
para evitar a prisão. “E que bom que fez isso”, disse
Julia, “caso contrário teria acabado vazando meu nome quando fizessem ele confessar”. Desde então,
houve vários outros. A vida como ela a via era bastante simples. Você queria se divertir; “eles”, ou
seja, o Partido, queriam impedir que você se divertisse; você quebrava as regras da melhor maneira que podia. Para ela, parecia natural pensar que
“eles” queriam roubar seus prazeres tanto quanto você queria evitar ser pego. Ela odiava o Partido, e disse isso com palavras grosseiras, mas não
fez nenhuma crítica geral a ele. Exceto quando se
tratava de sua própria vida, ela não tinha interesse na doutrina do Partido. Ele notou que ela nunca
usou palavras da Novalíngua, exceto aquelas que
haviam passado para o uso cotidiano. Ela nunca
havia ouvido falar da Irmandade, e se recusou a
acreditar em sua existência. Qualquer tipo de revolta organizada contra o Partido, que estava fadado a ser um fracasso, parecia estúpida para ela.
O mais inteligente era quebrar as regras e permanecer viva. Ele se perguntava vagamente quantos
outros como ela poderiam existir na geração mais
jovem, pessoas que tinham crescido no mundo da
Revolução, não sabendo mais nada, aceitando o Partido como algo inalterável, como o céu, não se
rebelando contra sua autoridade, mas simplesmente evadindo-a, como um coelho se esquiva de
um cão.
continua na página 280...
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Parte 1
Parte 2
Capítulo 3a (Podemos voltar aqui) /
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.
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