quarta-feira, 16 de setembro de 2026

George Orwell - 1984: Parte 2.2b (O primeiro pedaço de chocolate)

1984 - George Orwell

Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn

Parte 2

2.
continuando...

     O primeiro pedaço de chocolate tinha derretido na língua de Winston. O sabor era delicioso. Mas ain da havia aquela memória se movendo nas bordas de sua consciência, algo forte, mas não redutível à forma definida, como um objeto visto pelo canto do olho. Ele a afastou dele, consciente apenas de que era a memória de alguma ação que ele gosta ria de desfazer, mas não podia.  

“Você é muito jovem”, ele disse. “Você é dez ou quinze anos mais jovem do que eu. O que você vê em um homem como eu”? 
“Era algo na sua expressão. Pensei em arriscar. Sou boa em identificar pessoas que não pertencem a este mundo. Assim que te vi, sabia que estava contra eles”. 
“Eles”, parecia, se referia ao Partido, e sobretudo ao Partido Interno, sobre o qual ela falava com um ódio aberto que fazia Winston se sentir inquieto, embora ele soubesse que eles estavam seguros aqui se pudessem estar seguros em qualquer lugar. Uma coisa que o espantou nela foi a rudeza de sua linguagem. Os membros do Partido não deveriam falar palavrões, e o próprio Winston muito raramente fazia isso, de qualquer forma, em voz alta. Júlia, entretanto, parecia incapaz de mencionar o Partido, e especialmente o Partido Interno, sem usar o tipo de palavras. Não é que ele não gostou. Era apenas um sintoma de sua revolta contra o Partido e todas as suas formas, e de alguma forma parecia natural e saudável, como o espirro de um cavalo que cheira um feno ruim. Eles tinham deixado a clareira e vagueavam de novo pela sombra axadrezada, com os braços à volta da cintura um do outro sempre que o caminho permitisse que andassem lado a lado. Ele notou o quanto a cintura dela parecia mais macia agora que a faixa tinha desaparecido. A conversa entre eles não passava de um sussurro. Fora da clareira, disse Júlia, era melhor ir em silêncio. Atualmente, eles tinham chegado à borda da pequena floresta. Ela o deteve.
“Não vá para o lado de fora. Pode haver alguém observando. Estaremos bem se nos mantivermos atrás dos ramos”.

     Eles estavam à sombra de arbustos de aveleira. A luz do sol, filtrando através de inúmeras folhas, ainda estava quente em seus rostos. Winston olhou para o campo além deles, e sofreu um curioso e lento choque de reconhecimento. Ele o conhecia de vista. Um pasto velho e bem próximo, com um caminho de pé que perambulava por ele e um monte de terra aqui e ali. Na sebe desgarrada do lado oposto, os ramos dos olmos balançavam de forma perceptível na brisa, e suas folhas se agitavam levemente em massas densas como os cabelos das mulheres. Certamente em algum lugar próximo, mas fora de vista, deve haver um riacho com poças verdes onde peixes nadavam...

“Não há um riacho por aqui”?, sussurrou ele.
“É verdade, há um riacho. Na verdade, está na borda do próximo campo. Há peixes nele, bem grandes. Você pode vê-los deitados nas piscinas sob os salgueiros, balançando suas caudas”. 
“É o quase o Condado Dourado”, ele murmurou.
“Condado Dourado”?
“Não, nada. É só uma paisagem que eu vejo às vezes em um sonho”.  
“Olha!”, sussurrou Julia.

     Um sabiá tinha pousado em um galho a menos de cinco metros de distância, quase na altura de seus rostos. Talvez ele não os tivesse visto. Estava ao sol, eles à sombra. Ele estendeu suas asas, colocou-as cuidadosamente no lugar novamente, abaixou a cabeça por um momento, como se fizesse uma espécie de reverência ao sol, e então começou a derramar uma torrente de canções. No silêncio da tarde, o volume do som era assustador. Winston e Julia se abraçaram, fascinados. A música continuava e continuava, minuto após minuto, com variações surpreendentes, nunca se repetindo, quase como se o pássaro estivesse mostrando deliberadamente sua virtuosidade. Às vezes ele parava por alguns segundos, se espalhava e ajeitava suas asas, depois inchava seu peito salpicado e estourava novamente em canções. Winston o observava com uma espécie de reverência vaga. Para quem, para quê, aquele pássaro estava cantando? Nenhum companheiro, nenhum rival o observava. O que o fez sentar à beira do bosque solitário e derramar sua música no nada? Ele se perguntava se afinal de contas havia um microfone escondido em algum lugar próximo. Ele e Julia haviam falado apenas em sussurros baixos, e ele não pegaria o que eles haviam dito, mas pegaria o sabiá. Talvez na outra ponta do instrumento algum homem pequeno, parecido com um besouro, estivesse ouvindo aten tamente – ouvindo isso. Mas, pouco a pouco, a en xurrada de música fez com que todas as especulações saíssem de sua mente. Era como se fosse um tipo de coisa líquida se derramasse sobre ele, se misturando com a luz do sol que chegava através das folhas. Ele parou de pensar e apenas sentiu. A cintura da garota na dobra de seu braço era macia e quente. Ele a puxou, de modo que eles estavam de peito a peito; o corpo dela parecia derreter no dele. Para onde quer que suas mãos se movessem, tudo era tão flexível quanto água. Suas bocas se agarravam; era bem diferente dos beijos duros que haviam trocado antes. Quando voltaram a separar seus rostos, os dois sus piravam profundamente. O pássaro se assustou e fugiu com um tilintar de asas.
     Winston colocou seus lábios contra a orelha dela.

“Agora”, ele sussurrou.
“Aqui não”, sussurrou ela de volta. “Vamos voltar para o esconderijo. É mais seguro”.

     Rapidamente, com um crepitar ocasional de galhos, eles trilharam seu caminho de volta para a clareira. Uma vez dentro do anel de mudas, ela se virou e o enfrentou. Ambos respiravam rápido, mas o sorriso havia reaparecido nos cantos de sua boca. Ela ficou olhando para ele por um instante, depois abriu o zíper de seu macacão. E, sim!, foi quase como em seu sonho. Quase tão rápido quanto ele havia imaginado, ela havia rasgado suas roupas, e quando as jogou de lado foi com aquele mesmo gesto magnífico pelo qual toda uma civilização parecia estar aniquilada. O corpo dela brilhava branco ao sol. Mas por um momento ele não olhou para o corpo dela; seus olhos estavam ancorados pelo rosto de sardas com seu sorriso tênue e ousado. Ele se ajoelhou diante dela e pegou as mãos dela nas dele.

“Você já fez isso antes”?
“Claro que sim. Centenas de vezes... bem, dezenas de vezes pelo menos”. 
“Com membros do Partido”. 
“Sim, sempre com membros do Partido”. 
“Com membros do Partido Interno”? 
“Não, nunca com esses porcos, não. Mas muita coisa aconteceria se eles tivessem meia chance. Eles não são tão santos quanto fazem parecer”.

     Seu coração saltou. Ela já tinha feito dezenas de vezes: ele desejava que tivessem sido centenas, milhares. Qualquer coisa que insinuasse corrupção sempre o enchia de uma esperança selvagem. Quem diria, talvez o Partido estivesse podre sob a superfície, seu culto à tenacidade e à abnegação simplesmente uma farsa que escondia a iniquidade. Se ele pudesse ter infectado todos eles com lepra ou sífilis, como ele teria feito isso com prazer! Tudo para apodrecer, para enfraquecer, para minar! Ele a puxou para baixo, de modo que eles estavam ajoelhados frente a frente.

“Ouça. Quanto mais homens você teve, mais eu a amo. Você entende isso”? 
“Entendo perfeitamente”. 
“Odeio pureza, odeio bondade! Eu não quero que nenhuma virtude exista em nenhum lugar. Eu quero que todos sejam corruptos até os ossos”. 
“Bem, então, eu vou servir, querido. Sou inteira corrupta”. 
“Você gosta de fazer isso? Não me refiro simplesmente a mim: Quero dizer a coisa em si”? 
“Eu amo”.

     Isso era, acima de tudo, o que ele queria ouvir. Não apenas o amor de uma pessoa, mas o instinto animal, o simples desejo indiferenciado: essa era a força que desfazia o Partido em pedaços. Ele a pressionou sobre a grama, entre as flores caídas. Desta vez, não houve dificuldade. A subida e descida de seus seios diminuíam à velocidade normal e, numa espécie de desamparo agradável, eles se desfaziam. O sol parecia ter ficado mais quente. Ambos estavam adormecidos. Ele procurou os macacões descartados e os puxou parcialmente sobre ela. Quase imediatamente eles adormeceram e dormiram por cerca de meia hora.
     Winston acordou primeiro. Ele se sentou e observou o rosto sardento, ainda pacificamente adormecido, almofadado na palma de sua mão. Exceto por sua boca, não se podia chamá-la de linda. Havia uma ou duas linhas em volta dos olhos, se você olhasse bem. O cabelo curto e escuro era extraordinariamente grosso e macio. Ocorreu-lhe que ele ainda não sabia o sobrenome dela ou onde morava.
     O corpo jovem e forte, agora desamparado no sono, despertou nele um sentimento de piedade e proteção. Mas a ternura sem sentido que ele havia sentido sob a aveleira, enquanto o tordo cantava, não havia voltado completamente. Ele puxou o macacão para o lado e estudou o flanco branco suave dela. Nos velhos tempos, ele pensou, um homem olhava para o corpo de uma garota e viu que era desejável, e isso era o fim da história. Mas hoje em dia não se podia ter puro amor ou pura luxúria. Nenhuma emoção era pura, porque tudo estava misturado com medo e ódio. O abraço deles tinha sido uma batalha, o clímax uma vitória. Foi um golpe contra o Partido. Foi um ato político.

continua na página 269...
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George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida.

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