A ORDEM
Negativismo e esquizofrenia
Um ser humano pode esquivar-se de ordens não lhes dando
ouvidos; pode esquivar-se deixando de executá-las. O aguilhão
— e nunca se insistirá demais neste ponto - somente aparece
com a execução de ordens. É a própria ação realizada sob
pressão alheia, de fora para dentro, o que leva o homem à
formação de aguilhões. A ordem que é levada à ação estampa
sua forma exata no executante; da força com que é dada, de
sua aparência, de sua superioridade e de seu conteúdo dependem a profundidade e a dureza com que ela pode estampar-se.
Ela sempre permanece como algo isolado, e desta forma é inevitável que todo homem finalmente acumule uma porção de
aguilhões, tão isolados como o foram as ordens recebidas. Sua
capacidade de aderência nos homens é surpreendente, nada
penetra tão profundamente neles e nada chega a ser tão indissolúvel. É possível que chegue um momento no qual um
indivíduo esteja tão repleto de aguilhões que já não tenha sensibilidade
para nenhuma outra coisa; excetuando-se esses
aguilhões, ele não sente mais coisa alguma.
Sua defesa cm relação a novas ordens se converte então
numa questão vital. Ele procura não ouvi-las, para não ter de aceitá-las . Quando é obrigado a ouvi-las, não as compreende, desviando-se delas de maneira ostensiva, fazendo o contrário
do que lhe é ordenado. Quando lhe dizem para avançar, retrocede. Quando lhe dizem para retroceder, avança. Não se pode
cede. Quando se pode dizer que ele seja livre em relação à ordem. Trata-se de uma
reação desastrada ou até mesmo impotente, pois de certa forma
ela é também determinada pelo conteúdo da ordem. É esta
reação que a psiquiatria designa como negativismo; ele desempenha um papel especialmente importante entre os esquizofrênicos. Nos
esquizofrênicos o que mais chama a atenção é a carência de contato. Eles estão muito mais isolados do que os
demais. Frequentemente dão a impressão de estarem enrijecidos dentro de si mesmos; é como se não existisse nenhum
tipo de relação entre eles e os demais; como se nada entendessem; como se nada quisessem entender. Sua obstinação é
como a das estátuas de pedra. Não existe uma posição na qual
eles não possam enrijecer. No entanto estas mesmas pessoas,
noutras fases de sua enfermidade, se comportam repentinamente de maneira diametralmente oposta. Mostram-se de uma
sugestionabilidade que assume proporções fantásticas. Fazem
tudo o que lhes é ensinado ou que se pede a eles com tal rapidez, com tal perfeição que é como se nós mesmos estivéssemos
dentro deles, fazendo as coisas por eles. Trata-se de ataques
de servilismo que lhes acontecem repentinamente. "A escravidão da sugestão", como foi definido por um deles. De estátuas passam a ser zelosos escravos do dever, e levam ao
extremo, de um modo que às vezes parece ridículo, qualquer
coisa que se lhes peça.
O contraste entre estas duas atitudes é tão grande que se
torna difícil compreendê-lo; mas se por um momento nos abstrairmos da maneira como estas atitudes se apresentam dentro
deles, se os contemplarmos, por assim dizer, de fora para dentro, não se pode negar que ambos os estados são bastante
conhecidos também na vida dos seres "normais". A diferença
é que, neste caso, esses estados servem a um determinado fim
e dão a impressão de ser menos exagerados.
O soldado que não dá atenção a qualquer estímulo externo, que permanece rígido, parado onde foi colocado, que não
abandona seu posto, a quem ninguém pode induzir a fazer algo que normalmente faria e que já fez com muito agrado, esse
soldado corretamente treinado para seu serviço encontra-se
artificialmente num estado de negativismo. É verdade que em
determinadas circunstâncias ele também pode agir, mas única
e exclusivamente por ordens de seu superior. Ele foi adestrado
neste negativismo para agir apenas sob determinadas ordens.
Trata-se de um negativismo que se deixa manipular, pois está
no arbítrio e no poder do superior levá-lo ao estado extremo
oposto. Assim que a autoridade competente ordena algo ao
soldado, ele se comporta com o mesmo zelo e com o mesmo
servilismo do esquizofrênico em sua fase oposta.
É necessário acrescentar que o soldado sabe muito bem por que age dessa maneira. Ele obedece porque se encontra sob ameaça de morte. Num capítulo anterior já descrevemos como ele se habitua pouco a pouco a este estado, chegando no fim a adaptar-se a ele de dentro para fora. Deve realçar-se apenas uma coisa: a inconfundível semelhança externa que existe entre o soldado em serviço e o esquizofrênico.
É necessário acrescentar que o soldado sabe muito bem por que age dessa maneira. Ele obedece porque se encontra sob ameaça de morte. Num capítulo anterior já descrevemos como ele se habitua pouco a pouco a este estado, chegando no fim a adaptar-se a ele de dentro para fora. Deve realçar-se apenas uma coisa: a inconfundível semelhança externa que existe entre o soldado em serviço e o esquizofrênico.
Mas uma ideia bastante distinta se impõe aqui e ela me
parece importante. O esquizofrênico, no seu estado de extrema
sugestionabilidade, comporta-se como membro de uma massa.
Ele é igualmente impressionável, cede de igual maneira a todo
e qualquer estímulo externo. Somente não percebemos que
ele poderia estar neste estado porque está sozinho. Como não
vemos massa alguma em torno dele, não nos ocorre supor que
ele — do seu próprio ponto de vista — se sente como se a
ela pertencesse: ele é um pedaço desprendido de massa. Esta
afirmação somente pode ser demonstrada se entrarmos nas
representações internas dos próprios enfermos. Inumeráveis
são os exemplos que podem ser citados. Uma mulher declara
ter "todos os seres humanos no seu ventre". Outra "ouvia os
mosquitos conversando". Um homem escutou "729 mil moças", outro "as vozes sussurrantes de toda a humanidade".
Nas representações dos esquizofrênicos aparecem — por trás
de disfarces múltiplos — todas as espécies de massa que existem; seria até mesmo possível começar a estudar a massa a
partir deste ponto de vista. A meta de um trabalho especial
será reunir e revisar as representações de massa dos esquizofrênicos. Sua classificação irá mostrar a grandiosa integridade
e amplitude existente nelas.
Vale a pena perguntar por que os dois estados opostos que mencionamos aqui são necessários para o esquizofrênico. Para compreendê-los é preciso lembrar o que ocorre com um indivíduo, assim que ele entra na massa. A liberação das distâncias obrigadas foi narrada e designada como descarga. Para complementar podemos acrescentar que os aguilhões-ordens que estão acumulados em cada indivíduo fazem parte destas distâncias obrigadas. Na massa todos os seres individuais são iguais entre si, nenhum tem o direito de mandar nos outros; também seria possível dizer que todos mandam em todos. Não só não se formam novos aguilhões: o indivíduo se desfaz ao mesmo tempo de todos os antigos. Por assim dizer ele escapuliu de casa e deixou seus aguilhões para trás, no sótão, onde jazem amontoados. Este sair de tudo o que faz suas rígidas uniões, seus limites e cargas é o motivo principal do sentimento de elevação, quase de euforia, que o homem sente dentro da massa. Em parte alguma ele se sente mais livre, e, se ele deseja tão ardentemente continuar sendo massa, isto se deve ao fato de saber o que irá acontecer depois. Quando ele retornar a si, quando voltar para sua casa, voltará a encontrar-se com tudo isso: limites, cargas e aguilhões.
O esquizofrênico que está tão sobrecarregado de aguilhões a ponto de ficar por momentos paralisado por causa deles, sucumbe à ilusão do estado oposto: o estado de massa. Enquanto ele se encontra na massa não sente seus aguilhões. Ele saiu — pelo menos assim pensa — de si mesmo, e embora isso aconteça de maneira insegura e duvidosa, ele parece extrair daí um alívio temporário para o seu tormento; sente-se como se estivesse novamente relacionado com os demais. O valor desta redenção, é claro, é apenas ilusório. Justamente onde inicia sua libertação o esperam novas e mais intensas coerções. Mas a natureza completa da esquizofrenia não é o assunto que desejamos estudar aqui. Basta lembrarmo-nos de um fato: ninguém necessita mais da massa do que o esquizofrênico, tão repleto de aguilhões-ordens que se sente asfixiado por eles. Incapaz de encontrar a massa fora, ele se abandona a ela dentro de si.
Vale a pena perguntar por que os dois estados opostos que mencionamos aqui são necessários para o esquizofrênico. Para compreendê-los é preciso lembrar o que ocorre com um indivíduo, assim que ele entra na massa. A liberação das distâncias obrigadas foi narrada e designada como descarga. Para complementar podemos acrescentar que os aguilhões-ordens que estão acumulados em cada indivíduo fazem parte destas distâncias obrigadas. Na massa todos os seres individuais são iguais entre si, nenhum tem o direito de mandar nos outros; também seria possível dizer que todos mandam em todos. Não só não se formam novos aguilhões: o indivíduo se desfaz ao mesmo tempo de todos os antigos. Por assim dizer ele escapuliu de casa e deixou seus aguilhões para trás, no sótão, onde jazem amontoados. Este sair de tudo o que faz suas rígidas uniões, seus limites e cargas é o motivo principal do sentimento de elevação, quase de euforia, que o homem sente dentro da massa. Em parte alguma ele se sente mais livre, e, se ele deseja tão ardentemente continuar sendo massa, isto se deve ao fato de saber o que irá acontecer depois. Quando ele retornar a si, quando voltar para sua casa, voltará a encontrar-se com tudo isso: limites, cargas e aguilhões.
O esquizofrênico que está tão sobrecarregado de aguilhões a ponto de ficar por momentos paralisado por causa deles, sucumbe à ilusão do estado oposto: o estado de massa. Enquanto ele se encontra na massa não sente seus aguilhões. Ele saiu — pelo menos assim pensa — de si mesmo, e embora isso aconteça de maneira insegura e duvidosa, ele parece extrair daí um alívio temporário para o seu tormento; sente-se como se estivesse novamente relacionado com os demais. O valor desta redenção, é claro, é apenas ilusório. Justamente onde inicia sua libertação o esperam novas e mais intensas coerções. Mas a natureza completa da esquizofrenia não é o assunto que desejamos estudar aqui. Basta lembrarmo-nos de um fato: ninguém necessita mais da massa do que o esquizofrênico, tão repleto de aguilhões-ordens que se sente asfixiado por eles. Incapaz de encontrar a massa fora, ele se abandona a ela dentro de si.
continua na página 182...
____________________
Leia também:
Massa e Poder - A Ordem: Negativismo e esquizofrenia
____________________
ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
_______________________
Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
__________________
e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
__________________
e perguntas sem respostas te incomodam?
Nenhum comentário:
Postar um comentário