Tradução: Alexandre Hubner e Heloisa Jahn
Parte 2
2.
Winston seguiu seu caminho, subindo a pista
através de luz e sombra, pisando em poças douradas, iluminadas pela luz sempre que os ramos deixavam o sol passar.
Sob as árvores à esquerda o chão estava repleto
de florezinhas azuis. Era como se o ar beijasse a
pele. Era dia dois de maio. De algum lugar mais
profundo, no coração da floresta, vinha o som de
várias pombas.
Ele estava um pouco adiantado. Não encontrara
nenhuma dificuldade na viagem, e a garota parecia ter tanta experiência que ele ficou menos
assustado do que normalmente teria ficado. Provavelmente ela era confiável para encontrar um
lugar seguro. Em geral, não se podia supor que se
estivesse muito mais seguro no interior do que em
Londres. Não havia teletelas, é claro, mas sempre
havia o perigo de microfones escondidos pelos
quais sua voz poderia ser captada e reconhecida;
além disso, não era fácil fazer uma viagem sozinho sem chamar a atenção. Não era necessário ter
um visto no passaporte para viagens de menos de cem quilômetros de distância, mas às vezes havia
patrulhas nas estações ferroviárias que examinavam os papéis e faziam perguntas incômodas para
qualquer membro do Partido que encontrassem lá.
Entretanto, nenhuma patrulha havia aparecido, e
na caminhada da estação ele se certificou, através
de olhares cautelosos para trás, de que não estava
sendo seguido. O trem estava cheio de proles, em
espírito de férias por causa do clima de verão. O
vagão de madeira no qual ele viajava estava cheio
até transbordar por uma única e enorme família,
desde uma bisavó desdentada até um bebê de um
mês de idade, saindo para passar uma tarde com
“sogros” no campo, e, como explicaram livremente a Winston, para pegar um pouco de manteiga
do mercado negro.
A pista se alargou e em um minuto ele chegou ao
caminho que ela havia lhe contado, uma mera trilha de gado que mergulhava entre os arbustos. Ele
não tinha relógio, mas ainda não podia ser quinze. O campo estava agora tão cheio de flores azuis
que era impossível não pisar nelas. Ele se ajoelhou e começou a colher algumas em parte para passar
o tempo, mas também porque gostaria de ter um
ramo de flores para oferecer à garota quando se
encontrassem. Ele havia reunido um buquê grande e sentia o cheiro doentio das flores quando um
som vindo de trás o congelou: o estalido inconfundível de um pé em galhos. Ele continuou colhendo
as flores. Era a melhor coisa a fazer. Podia ter sido
a própria menina, ou ele poderia ter sido segui
do no fim das contas. Olhar em volta era mostrar
culpa. Ele escolhia as flores. Uma mão encostou
levemente em seu ombro.
Ele olhou para cima. Era a garota. Ela balançou a
cabeça, evidentemente como um aviso de que ele
devia ficar em silêncio, depois separou os arbustos
e rapidamente abriu caminho pela trilha estreita em direção ao bosque. Ela obviamente já estivera ali antes, pois se esquivou dos pedaços pantanosos como se fosse hábito. Winston seguiu-a,
ainda segurando seu ramo de flores. Sua primeira
sensação foi de alívio, mas enquanto observava o
corpo forte e esbelto se movendo à sua frente, com a faixa escarlate que estava apertada o suficien
te para ressaltar a curva de seus quadris, a sensação de sua própria inferioridade se pesou sobre
ele. Mesmo agora parecia bastante provável que
quando ela se voltasse e olhasse para ele, afinal de
contas, ela voltaria atrás. A doçura do ar e o verde
das folhas o assustavam. Já na caminhada da es
tação o sol de maio o tinha feito sentir-se sujo e
doentio, uma criatura de dentro de casa, com o pó
fuliginoso de Londres nos poros de sua pele. Ocorreu-lhe que até agora ela provavelmente nunca o
havia visto em plena luz do dia, ao ar livre. Eles
foram até a árvore caída de que ela havia falado.
A garota saltou e forçou uma abertura entre dois
arbustos. Quando Winston a seguiu, ele descobriu
que eles estavam em uma clareira natural, um minúsculo cerco de grama rodeado de mudas altas
que a fechavam completamente. A garota parou e
virou-se.
“Chegamos”, disse ela.
Ele estava de frente para ela a vários passos de
distância. Até agora, ele não ousara se aproximar
dela mais do que isso.
“Eu não queria dizer nada na trilha”, continuou ela,
“caso houvesse um microfone escondido. Suponho
que não, mas pode haver. Há sempre a chance de
um desses porcos reconhecer sua voz. Mas estamos
seguros aqui”.
Ele ainda não tivera coragem de se
aproximar dela. “Estamos seguros aqui?”,
ele repetiu estupidamente.
“Sim. Olhe para as árvores”. Eram pequenos freixos,
que em algum momento haviam sido cortados e haviam brotado novamente em uma floresta de mudas, nenhuma delas mais espessa do que o pulso.
“Não há nada grande o suficiente para esconder um
microfone. Além disso, eu já estive aqui antes”.
Eles estavam apenas de conversa. Ele tinha conseguido se aproximar dela agora. Ela estava muito erguida diante dele, com um sorriso no rosto que
parecia levemente irônico, como se ela estivesse
se perguntando por que ele era tão lento para agir.
O buquê de florzinhas azuis estava esparramado
no chão. Pareciam ter caído por sua própria vontade. Ele pegou a mão dela.
“Você acredita”, disse ele, “que até este momento eu não sabia de que cor eram seus olhos”? Eles
eram marrons, ele notou, um tom bastante claro
de marrom, com cílios escuros. “Agora que você
viu como eu realmente sou, você ainda pode suportar olhar para mim”?
“Sim, facilmente”.
“Tenho trinta e nove anos de idade. Tenho uma es
posa da qual não consigo me livrar. Tenho varico
ses. Eu tenho cinco dentes falsos”.
“Não me importo”, disse a moça.
No momento seguinte, e era difícil dizer de quem
era a iniciativa, ela estava em seus braços. No iní
cio, ele não tinha nenhum sentimento, exceto pura
incredulidade. O corpo jovem estava tenso contra o
seu, a massa de cabelo escuro estava contra o seu
rosto, e sim! na verdade ela tinha virado o rosto para
cima e ele estava beijando a boca larga e vermelha.
Ela havia colocado seus braços sobre o pescoço dele,
ela o chamava de querido, precioso, amado. Ele a tinha puxado para o chão, ela estava totalmente sem
resistência, ele podia fazer o que quisesse com ela.
Mas a verdade era que ele não tinha nenhuma sensação física, exceto a de mero contato. Tudo o que ele
sentia era incredulidade e orgulho. Ele estava feliz
por isso estar acontecendo, mas não tinha nenhum
desejo físico. Era muito cedo, sua juventude e beleza o assustaram, ele estava muito acostumado a
viver sem mulheres – ele não sabia ao certo a razão.
A garota se levantou e tirou uma flor azul do cabelo.
Ela se sentou contra ele, colocando seu braço em
volta de sua cintura.
“Não se preocupe, querido. Não temos pressa. Temos a tarde inteira. Esse esconderijo não é maravilhoso? Encontrei-o quando me perdi uma vez
em uma caminhada comunitária. Se alguém es
tivesse vindo, daria para ouvi-los a cem metros
de distância”.
“Como você se chama?”, disse Winston.
“Júlia. Eu sei o seu nome. É Winston – Winston Smith”.
“Como você descobriu isso”?
“Espero ser melhor que você para descobrir coisas,
querido. Mas me diga: o que você achava de mim
antes daquele dia em que lhe dei o bilhete”?
Ele não sentiu nenhuma tentação de contar mentiras para ela. Foi até uma espécie de oferta amo
rosa começar contando o pior.
“Eu odiava te ver”, disse ele. “Eu queria te estuprar
e depois te matar. Há duas semanas, pensei seria
mente em esmagar sua cabeça com um paralelepípedo. Se você realmente quer saber, eu imaginei que
você tinha algo a ver com a Polícia do Pensamento”.
A garota riu com prazer, evidentemente tomando isto como uma homenagem à excelência de
seu disfarce.
“Não! A Polícia do Pensamento não! Você realmente pensou isso?”
“Bem, talvez não exatamente isso. Mas por sua
aparência geral – simplesmente porque você é
jovem, forte e saudável, você entende – eu pensei
que provavelmente...’’
“Você pensou que eu era um bom membro do Par
tido. Puro em palavras e atos. Banners, procissões,
slogans, jogos, caminhadas comunitárias, tudo isso.
E você pensou que se eu tivesse um mínimo de chance eu o denunciaria como um criminoso do pensa
mento e o faria morrer”?
“Sim, algo desse tipo. Muitas garotas são assim, você sabe”.
“Sim, algo desse tipo. Muitas garotas são assim, você sabe”.
“É culpa dessa porra aqui”, ela disse ela, arrancando a faixa escarlate da Liga Júnior Antissexo e
atirando-a para o lado. Então, como se tocar sua
cintura a tivesse lembrado de algo, ela colocou a
mão no bolso de seu macacão e tirou uma pequena
laje de chocolate. Ela o quebrou ao meio e deu um
dos pedaços para Winston. Mesmo antes de pe
gá-lo, ele sabia pelo cheiro que era um chocolate muito incomum. Era escuro e brilhante, e estava
envolto em papel prata. Normalmente, o chocolate
se esfarelava e tinha um sabor difícil de descrever
de fumaça de fogo de lixo. Mas em algum momento,
ele já tinha provado chocolate como esse. Só o seu
cheiro já havia despertado alguma memória que ele
não conseguia reprimir, poderosa e perturbadora.
“Onde você conseguiu isso?”, ele perguntou.
“Mercado negro”, ela disse indiferente. “Na verdade, eu sou esse tipo de garota. Eu sou boa em jogos. Eu era líder de tropas nos espiões. Faço trabalho voluntário três noites por semana para a Liga Júnior Antissexo. Passei horas e horas colando sua maldita podridão por toda Londres. Sempre carrego uma das ponta do cartaz nas procissões. Sempre pareço alegre e nunca me esquivo de nada. Sempre grito com a multidão, é o que eu digo. É a única maneira de estar seguro”.
“Onde você conseguiu isso?”, ele perguntou.
“Mercado negro”, ela disse indiferente. “Na verdade, eu sou esse tipo de garota. Eu sou boa em jogos. Eu era líder de tropas nos espiões. Faço trabalho voluntário três noites por semana para a Liga Júnior Antissexo. Passei horas e horas colando sua maldita podridão por toda Londres. Sempre carrego uma das ponta do cartaz nas procissões. Sempre pareço alegre e nunca me esquivo de nada. Sempre grito com a multidão, é o que eu digo. É a única maneira de estar seguro”.
continua na página 258...
_____________________
Capítulo 1:
Parte 1.1a ( Era um dia frio e luminoso de abril) / Parte 1.1b ( Acontecera naquela manhã no Ministério) /
Parte 1.4 (Com o suspiro profundo) / Parte 1.5a (Na cantina de teto baixo) / Parte 1.5b (Alguma coisa em seu tom de voz) /
Parte 1.6 (Winston escrevia em seu diário:) / Parte 1.7a (Se é que havia esperança:) / Parte 1.7b (Tudo se esmaecia na névoa) /
Parte 1.8a (De algum lugar no fundo de uma passagem) / Parte 1.8b (Apressadamente, para que ele não tivesse tempo) /
Parte 2.1a (Era o meio da manhã) / Parte 2.1b (No dia seguinte, ela reapareceu) / Parte 2.2a (Winston seguiu seu caminho) /
_____________________
_____________________
George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair) nasceu em 25 de junho de 1903, na Índia. Com menos de um ano de idade, o escritor foi morar na Inglaterra, onde estudou no Eton College. Mais tarde, trabalhou na Polícia Imperial Indiana, na Birmânia, e, também, lutou na Guerra Civil Espanhola, ao lado dos republicanos.
Foi apenas em 1945 que o autor teve sucesso em sua carreira literária, com a publicação de seu livro A revolução dos bichos. Depois, o romancista publicou, em 1949, sua obra mais famosa, o livro 1984, que, assim como aquele, condena os regimes totalitários. Ele faleceu em 21 de janeiro de 1950, em Londres.
Mil novecentos e oitenta e quatro é um romance distópico do escritor inglês George Orwell. Foi publicado em 8 de junho de 1949 pela Secker & Warburg como o nono e último livro de Orwell concluído em vida
Nenhum comentário:
Postar um comentário