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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Cantos à beira-mar - A lua brasileira

Maria Firmina dos Reis


Cantos à beira-mar

A lua brasileira 
Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Adriano Manoel Soares. 
Tributo de amizade e gratidão

É tão meiga, tão fagueira, 
Minha lua brasileira! 
É tão doce, e feiticeira, 
Quando airosa vai nos céus; 
Quando sobre almos palmares, 
Ou sobre a face dos mares, 
Fixa nívea seus olhares, 
Que deslumbram os olhos meus...

Quando traça na campina 
Larga fila diamantina, 
Quando sobre a flor marina 
Derrama seu lindo albor; 
Quando esparge brandamente 
Por sobre a relva virente 
Seu fulgor alvinitente 
Seu melindroso esplendor...

Quando sobre a fina areia, 
Que a vaga beijar anseia, 
Molemente ela passeia, 
Desdobrando alvo lençol; 
Quando ao fim da tarde amena,
Ressurge pura e serena, 
Disputando nessa cena 
Primores co’o rubro sol...

Que eu sinto meu pobre peito 
Comovido, ao fim desfeito 
Por tanto encanto sujeito, 
Por tantos gozos – meu Deus, 
E eu vejo os anjinhos teus, 
Noutras nuvens, noutros céus 
Novos mundos construir.

Podem outros seus encantos 
Ver também – gozar seus prantos; 
Pode cantá-la em seus cantos 
Qualquer jovem trovador; 
Vendo-a bela sobre os montes, 
Ou retratada nas fontes, 
Surgindo nos horizontes 
C’roada de níveo albor.

Mimosa, pura; – mas bela 
Assim branca, assim singela, 
Como pálida donzela, 
Que geme na solidão; 
Assim leda, acetinada, 
Como flor na madrugada, 
Pelo rocio beijada, 
Beijada com devoção;

Assim em sua frescura, 
Com tão maga formosura, 
Percorrendo essa planura, 
De nossos formosos céus; 
Assim não. Assim somente 
Mimosa, pura, indolente 
A vemos nós... fado ingente 
Foi este que nos deu Deus.

Quem não ama vê-la assim 
Com a candidez do jasmim, 
Espargindo amor sem fim, 
Nas terras de Santa Cruz! 
Quem não ama entusiasmado 
Da noite o astro nevado, 
Que com o rosto prateado 
Tão meigamente seduz!...  

Quem não sente uma saudade, 
Vendo a lua em fresca tarde, 
Branca – em plena soledade 
Vagar nos campos dos céus!... 
Quem não tece com fervor, 
No peito em que mora a dor, 
Um hino sacro de amor, 
Um terno hino a seu Deus!...

Eu por mim amo-te, oh! bela, 
Que semelhas à donzela, 
Com roupas de fina tela, 
Com traços de lindo albor; 
Que vai pura aos pés do altar, 
Por doce extremo de amar, 
Ao terno amante jurar, 
Lealdade, fé – e amor.

Amor ver-te assim fagueira 
Minha lua brasileira, 
Qual menina feiticeira, 
Que promete, e foge e ri, 
E depois, sempre folgando 
Vem com beijinhos pagando 
Aquele, que a afagando 
De novo a chamara a si.

Assim tens meus tristes cantos, 
Soltos ao som dos meus prantos, 
Que me inspiram teus encantos, 
Da noite na solidão; 
A meiga lua querida, 
Melancólica, e sentida, 
Com tua face enternecida, 
Minha constante aflição.

continua na página 191...
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Cantos à beira-mar - Dedicatória / Minha terra / A lua brasileira /       
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

sábado, 16 de maio de 2026

Cantos à beira-mar - Minha terra

Maria Firmina dos Reis


Cantos à beira-mar

Minha terra 
Oferecida ao distinto literato o Sr. Francisco Sotero dos Reis.

Minha alma não está comigo. Não anda entre os nevoeiros 
 dos Órgãos, envolta em neblina, balouçada em castelos de 
 nuvens, nem rouquejando na voz do Trovão. Lá está ela.¹” 
G. Dias

Maranhão! Açucena entre verdores, 
Gentil filha do mar – meiga donzela, 
Que a nobre fronte, desprendida a coma, 
Dos seios do Oceano levantaste! 
Quanto és nobre, e formosa – sustentando 
Nas mãos potentes – como cetro de Ouro, 
O Bacanga caudal, – o Anil ameno! 
O curso de ambos tu, Senhora – domas, 
E seus furores a teus pés se quebram. 
Oh! como é belo contemplar-te posta 
Mole sultana num divã de prata, 
Cobrando amor, adoração, respeito; 
Dando de par ao estrangeiro – o beijo, 
E a fronte ornando de lauréis viçosos! 
Pátria minha natal, – ninho de amores... 
Ai! miséria de mim... quisera dar-te 
Na lira minha mavioso canto, 
Canto exaltado que elevar-te fora 
‘Té onde levas a nobreza tua! 
Porém o estro deserdado, e pobre, 
Sonha, e não pode obrar o seu intento.

Campeia indolente no leito gentil, 
Cercada das vagas amenas, danosas; 
Das vagas macias, quebradas, cheirosas 
Do salso Bacanga, do fértil Anil.
Formosa rainha, c’roada de louros, 
Altiva levanta tua fronte gentil; 
Que Deus concedeu-te de graças – tesouros, 
Criando-te o mínimo do vasto Brasil.

Exalta teus filhos fervente entusiasmo 
E quebram num dia sangrento grilhão! 
Contempla a Europa tal feito – com pasmo... 
E bradas: sou livre!... com grata efusão.

Maranhão! Açucena entre verdores, 
Campeando gentil, bela, e donosa; 
Como em haste mimosa altiva rosa, 
Como lírio do val cobrando amores.

És ninfa sobre as águas balouçada, 
Descuidosa brincando em salsa praia; 
No pego mergulhada a nívea saia, 
A nobre fronte de festões ornada.

Princesa do oceano! a fronte alçaste 
Por tantos séculos abatida, e triste... 
Um eco aqui repercutir-se – ouviste, 
E as vis algemas sob os pés quebraste!

Quebraste os ferros – que o Brasil não sofre, 
Sequer um dia ser escravo, – não. 
És livre, és grande! Tão sublime ação 
Quem fez jamais – e tanto assim de chofre?!...

O grito lá da serra do Ipiranga, 
O grito todo amor, fraternidade, 
Ecoou no teu seio! a liberdade, 
Pairou sobre o Anil, sobre o Bacanga!

Eis-te bela, coroada, e sedutora, 
Pomposa, e descuidada, sobranceira; 
Em teu divã gentil, gentil, sultana, 
Filha das vagas, e do mar senhora,

A unânime grito se erguia a cativa 
Que jaz a dormir; 
E ao som prolongado que os ecos repetem 
Desperta a sorrir:

Os braços distende – que agora é rainha: 
Quebrou-se o grilhão! 
Com a fronte cingida de louros tão gratos 
Se erguem Maranhão!

O pego, as florestas, os campos que regem 
Os vastos sertões, 
Entoam seu hino de amor, liberdade! 
Ao som dos canhões

E prados, e bosques, e sendas bordadas 
De verdes tapizes, 
E ribas salgadas, e gratos mangueiros, 
Se julgam felizes...

E as auras despertam, tecendo mimosos 
Festejos a mil! 
E o grato Bacanga parece em amplexo 
Ligar-se ao Anil.

Campeia indolente no leito gentil 
Domina as florestas os gratos vergéis; 
Renova na fronte singelos lauréis, 
Esmalta o império do vasto Brasil.

[1]  Ilha de São Luís

continua na página 187...
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Cantos à beira-mar - Dedicatória / Minha terra / A lua brasileira /       
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

domingo, 6 de julho de 2025

Cantos à beira-mar - Dedicatória

Maria Firmina dos Reis


Cantos à beira-mar

Dedicatória 
À memória de minha veneranda mãe.
      

     Minha Mãe! – as minhas poesias são tuas.
     É uma lágrima que verto sobre tuas cinzas! Acolhe-as, abençoa-as para que elas te possam merecer.
     Debruçada sobre o teu peito, embalde, oh! minha mãe, – no extremo da dor, e da aflição procurei inocular o calor do meu sangue nas veias onde o teu gelava-se ao hálito da morte!... verti lágrimas de pungente saudade, de amargura infinda sobre a tua humilde sepultura, como havia derramado sobre o teu corpo inanimado.
     A dor era cada vez mais funda, mais agra e cruciante – tornei a harpa, – vibrei nela um único som, – uma nota plangente, saturada de lágrimas e de saudade...
     Este som, esta nota, são os meus cantos à beira-mar.
     Ei-los! É uma coroa de perpétuas sobre a tua campa, – e uma saudade infinda com que meu coração te segue noite, e dia, – é uma lágrima sentida, que dedico à tua memória veneranda.
    Se alguma aceitação merecerem meus pobres cantos, na minha província, ou fora dela; – se um acolhimento lisonjeiro lhes dispensar alguém; oh! minha mãe! essa situação esse acolhimento será uma oferenda sagrada, – uma rosa desfolhada sobre a tua sepultura!...
    Sim, minha mãe... que glória poderá resultar-me das minhas poesias, que não vá refletir sobre as tuas cinzas!?!...
    É a ti que devo o cultivo de minha fraca inteligência; – a ti, que desper taste em meu peito o amor à literatura; – e que um dia me disseste:
    Canta!
    Eis pois, minha mãe, o fruto dos teus desvelos para comigo; – eis as minhas poesias: – acolhe-as, abençoa-as do fundo do teu sepulcro.
    E ainda uma lágrima de saudade, – um gemido do coração...

Guimarães, 7 de Abril de 1871. 
Maria Firmina dos Reis


 Oh! minha mãe! oh! minha mãe querida, 
 Que vácuo n’ alma – que cruel soidade! 
 Deixa que lance sobre o teu sepulcro 
 A roxa c’roa de imortal saudade.

 Fraco tributo: – mas no imo peito 
 As eduquei com amargurado pranto; 
 Hoje as esfolho perfumosas, tristes, 
 Ao som cheiroso do meu pobre canto.


Uma lágrima
Sobre o sepulcro de minha carinhosa mãe.

 E eu vivo ainda!? Nem sei como vivo!... 
 Gasto de dor o coração me anseia: 
 Sonho venturas de um melhor porvir, 
 Onde da morte só pavor campeia.

 Lá meus anseios sob a lousa humilde 
 Dormem seu sono de silêncio eterno! 
 Mudos à dor, que me consome, e gasta. 
 Frios ao extremo de meu peito terno.

Ah! Despertá-los quem pudera? Quem? 
 Ah! campa... ah, campa! Que horror, meu Deus! 
 Por que tão breve – minha mãe querida, 
 Roubaste, oh morte, destes braços meus?!!...

 Oh! não sabias que ela era a harpa 
 Em cujas cordas eu cantava amores, 
 Que era ela a imagem do meu Deus na terra, 
 Vaso de incenso trescalando odores?!

 Que era ela a vida, os horizontes lindos, 
 Farol noturno a me guiar p’ra os céus; 
 Bálsamo santo a serenar-me as dores, 
 Graça melíflua, que vem de Deus!

 Que ela era a essência que se erguia branda 
 Fina, e mimosa de uma relva em flor! 
 Que era o alaúde do bom rei – profeta, 
 Cantando salmos de saudade, e dor!

 Que era ela o encanto de meus tristes dias, 
 Era o conforto na aflição, na dor! 
 Que era ela a amiga, que velou-me a infância, 
 Que foi a guia desta vida em flor!

 Que era o afeto, que eduquei cuidosa 
 Dentro do peito... que era a flor 
 Grata, mimosa a derramar perfumes, 
 Nos meus jardins de poesia, e amor!

 Que era ela a harpa de doçura santa 
 Em que eu cantava divinal canção... 
 Era-me a ideia de Jeová na terra, 
 Era-me a vida que eu amava então!

 Oh! minha mãe que idolatrei na terra, 
 Que amei na vida como se ama a Deus! 
 Hoje, entre os vivos te procuro – embalde! 
 Que a campa pesa sobre os restos teus!...

 Como se apura moribunda chama 
 À hora extrema da existência sua: 
 Assim minha alma se apurou de afetos, 
 Gemeu de angústias pela angústia tua.

 E não puderam minha dor, meu pranto, 
 Pranto sentido que jamais chorei, 
 Oh! não puderam te sustar a vida, 
 Que entre delírios para ti sonhei!...

 E como a flor pelo rufão colhida 
 Vergada a haste, a se esfolhar no chão, 
 Eu vi fugir-lhe o derradeiro alento! 
 Oh! sim, eu vi... e não morri então!

 Entanto amava-a, como se ama a vida, 
 E a minha eu dera para remir a sua... 
 Oh! Deus – por que o sacrifício oferto, 
 Não aceitou a onipotência tua!?!...

 Vacila a mente nessa acerba hora 
 Entre a fé, e a descrença...oh! sim meu Deus! 
 Estua o peito, verga aflita a alma: 
 Tu me compreendes, tu nos vês dos céus.

 Vacila, treme... mas na própria mágoa 
 Tu nos envias o chorar, Senhor; 
 Bendito sejas! que esse pranto acerbo, 
 É doce orvalho, que nos unge a dor.

 Lá onde os anjos circundam, dá-lhe 
 Vida perene de imortal candura: 
 Por cada gota de meu triste pranto, 
 Dá-lhe de gozos divinal ventura.

 E à triste filha, que saudosa geme, 
 Manda mais dores, mais pesada cruz; 
 Depois, reúne à sua mãe querida, 
 No seio imenso de infinita luz.

continua na página 184...
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Cantos à beira-mar - Dedicatória / Minha terra /   
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.