Maria Firmina dos Reis
Cantos à beira-mar
Minha terra
Oferecida ao distinto literato o Sr. Francisco Sotero dos Reis.
“Minha alma não está comigo. Não anda entre os nevoeiros
dos Órgãos, envolta em neblina, balouçada em castelos de
nuvens, nem rouquejando na voz do Trovão. Lá está ela.¹”
G. Dias
Maranhão! Açucena entre verdores,
Gentil filha do mar – meiga donzela,
Que a nobre fronte, desprendida a coma,
Dos seios do Oceano levantaste!
Quanto és nobre, e formosa – sustentando
Nas mãos potentes – como cetro de Ouro,
O Bacanga caudal, – o Anil ameno!
O curso de ambos tu, Senhora – domas,
E seus furores a teus pés se quebram.
Oh! como é belo contemplar-te posta
Mole sultana num divã de prata,
Cobrando amor, adoração, respeito;
Dando de par ao estrangeiro – o beijo,
E a fronte ornando de lauréis viçosos!
Pátria minha natal, – ninho de amores...
Ai! miséria de mim... quisera dar-te
Na lira minha mavioso canto,
Canto exaltado que elevar-te fora
‘Té onde levas a nobreza tua!
Porém o estro deserdado, e pobre,
Sonha, e não pode obrar o seu intento.
Campeia indolente no leito gentil,
Cercada das vagas amenas, danosas;
Das vagas macias, quebradas, cheirosas
Do salso Bacanga, do fértil Anil.
Formosa rainha, c’roada de louros,
Altiva levanta tua fronte gentil;
Que Deus concedeu-te de graças – tesouros,
Criando-te o mínimo do vasto Brasil.
Exalta teus filhos fervente entusiasmo
E quebram num dia sangrento grilhão!
Contempla a Europa tal feito – com pasmo...
E bradas: sou livre!... com grata efusão.
Maranhão! Açucena entre verdores,
Campeando gentil, bela, e donosa;
Como em haste mimosa altiva rosa,
Como lírio do val cobrando amores.
És ninfa sobre as águas balouçada,
Descuidosa brincando em salsa praia;
No pego mergulhada a nívea saia,
A nobre fronte de festões ornada.
Princesa do oceano! a fronte alçaste
Por tantos séculos abatida, e triste...
Um eco aqui repercutir-se – ouviste,
E as vis algemas sob os pés quebraste!
Quebraste os ferros – que o Brasil não sofre,
Sequer um dia ser escravo, – não.
És livre, és grande! Tão sublime ação
Quem fez jamais – e tanto assim de chofre?!...
O grito lá da serra do Ipiranga,
O grito todo amor, fraternidade,
Ecoou no teu seio! a liberdade,
Pairou sobre o Anil, sobre o Bacanga!
Eis-te bela, coroada, e sedutora,
Pomposa, e descuidada, sobranceira;
Em teu divã gentil, gentil, sultana,
Filha das vagas, e do mar senhora,
A unânime grito se erguia a cativa
Que jaz a dormir;
E ao som prolongado que os ecos repetem
Desperta a sorrir:
Os braços distende – que agora é rainha:
Quebrou-se o grilhão!
Com a fronte cingida de louros tão gratos
Se erguem Maranhão!
O pego, as florestas, os campos que regem
Os vastos sertões,
Entoam seu hino de amor, liberdade!
Ao som dos canhões
E prados, e bosques, e sendas bordadas
De verdes tapizes,
E ribas salgadas, e gratos mangueiros,
Se julgam felizes...
E as auras despertam, tecendo mimosos
Festejos a mil!
E o grato Bacanga parece em amplexo
Ligar-se ao Anil.
Campeia indolente no leito gentil
Domina as florestas os gratos vergéis;
Renova na fronte singelos lauréis,
Esmalta o império do vasto Brasil.
[1] Ilha de São Luís
continua na página 187...
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.
Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres.
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.
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