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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Cantos à beira-mar - A lua brasileira

Maria Firmina dos Reis


Cantos à beira-mar

A lua brasileira 
Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Adriano Manoel Soares. 
Tributo de amizade e gratidão

É tão meiga, tão fagueira, 
Minha lua brasileira! 
É tão doce, e feiticeira, 
Quando airosa vai nos céus; 
Quando sobre almos palmares, 
Ou sobre a face dos mares, 
Fixa nívea seus olhares, 
Que deslumbram os olhos meus...

Quando traça na campina 
Larga fila diamantina, 
Quando sobre a flor marina 
Derrama seu lindo albor; 
Quando esparge brandamente 
Por sobre a relva virente 
Seu fulgor alvinitente 
Seu melindroso esplendor...

Quando sobre a fina areia, 
Que a vaga beijar anseia, 
Molemente ela passeia, 
Desdobrando alvo lençol; 
Quando ao fim da tarde amena,
Ressurge pura e serena, 
Disputando nessa cena 
Primores co’o rubro sol...

Que eu sinto meu pobre peito 
Comovido, ao fim desfeito 
Por tanto encanto sujeito, 
Por tantos gozos – meu Deus, 
E eu vejo os anjinhos teus, 
Noutras nuvens, noutros céus 
Novos mundos construir.

Podem outros seus encantos 
Ver também – gozar seus prantos; 
Pode cantá-la em seus cantos 
Qualquer jovem trovador; 
Vendo-a bela sobre os montes, 
Ou retratada nas fontes, 
Surgindo nos horizontes 
C’roada de níveo albor.

Mimosa, pura; – mas bela 
Assim branca, assim singela, 
Como pálida donzela, 
Que geme na solidão; 
Assim leda, acetinada, 
Como flor na madrugada, 
Pelo rocio beijada, 
Beijada com devoção;

Assim em sua frescura, 
Com tão maga formosura, 
Percorrendo essa planura, 
De nossos formosos céus; 
Assim não. Assim somente 
Mimosa, pura, indolente 
A vemos nós... fado ingente 
Foi este que nos deu Deus.

Quem não ama vê-la assim 
Com a candidez do jasmim, 
Espargindo amor sem fim, 
Nas terras de Santa Cruz! 
Quem não ama entusiasmado 
Da noite o astro nevado, 
Que com o rosto prateado 
Tão meigamente seduz!...  

Quem não sente uma saudade, 
Vendo a lua em fresca tarde, 
Branca – em plena soledade 
Vagar nos campos dos céus!... 
Quem não tece com fervor, 
No peito em que mora a dor, 
Um hino sacro de amor, 
Um terno hino a seu Deus!...

Eu por mim amo-te, oh! bela, 
Que semelhas à donzela, 
Com roupas de fina tela, 
Com traços de lindo albor; 
Que vai pura aos pés do altar, 
Por doce extremo de amar, 
Ao terno amante jurar, 
Lealdade, fé – e amor.

Amor ver-te assim fagueira 
Minha lua brasileira, 
Qual menina feiticeira, 
Que promete, e foge e ri, 
E depois, sempre folgando 
Vem com beijinhos pagando 
Aquele, que a afagando 
De novo a chamara a si.

Assim tens meus tristes cantos, 
Soltos ao som dos meus prantos, 
Que me inspiram teus encantos, 
Da noite na solidão; 
A meiga lua querida, 
Melancólica, e sentida, 
Com tua face enternecida, 
Minha constante aflição.

continua na página 191...
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Cantos à beira-mar - Dedicatória / Minha terra / A lua brasileira /       
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

sábado, 16 de maio de 2026

Cantos à beira-mar - Minha terra

Maria Firmina dos Reis


Cantos à beira-mar

Minha terra 
Oferecida ao distinto literato o Sr. Francisco Sotero dos Reis.

Minha alma não está comigo. Não anda entre os nevoeiros 
 dos Órgãos, envolta em neblina, balouçada em castelos de 
 nuvens, nem rouquejando na voz do Trovão. Lá está ela.¹” 
G. Dias

Maranhão! Açucena entre verdores, 
Gentil filha do mar – meiga donzela, 
Que a nobre fronte, desprendida a coma, 
Dos seios do Oceano levantaste! 
Quanto és nobre, e formosa – sustentando 
Nas mãos potentes – como cetro de Ouro, 
O Bacanga caudal, – o Anil ameno! 
O curso de ambos tu, Senhora – domas, 
E seus furores a teus pés se quebram. 
Oh! como é belo contemplar-te posta 
Mole sultana num divã de prata, 
Cobrando amor, adoração, respeito; 
Dando de par ao estrangeiro – o beijo, 
E a fronte ornando de lauréis viçosos! 
Pátria minha natal, – ninho de amores... 
Ai! miséria de mim... quisera dar-te 
Na lira minha mavioso canto, 
Canto exaltado que elevar-te fora 
‘Té onde levas a nobreza tua! 
Porém o estro deserdado, e pobre, 
Sonha, e não pode obrar o seu intento.

Campeia indolente no leito gentil, 
Cercada das vagas amenas, danosas; 
Das vagas macias, quebradas, cheirosas 
Do salso Bacanga, do fértil Anil.
Formosa rainha, c’roada de louros, 
Altiva levanta tua fronte gentil; 
Que Deus concedeu-te de graças – tesouros, 
Criando-te o mínimo do vasto Brasil.

Exalta teus filhos fervente entusiasmo 
E quebram num dia sangrento grilhão! 
Contempla a Europa tal feito – com pasmo... 
E bradas: sou livre!... com grata efusão.

Maranhão! Açucena entre verdores, 
Campeando gentil, bela, e donosa; 
Como em haste mimosa altiva rosa, 
Como lírio do val cobrando amores.

És ninfa sobre as águas balouçada, 
Descuidosa brincando em salsa praia; 
No pego mergulhada a nívea saia, 
A nobre fronte de festões ornada.

Princesa do oceano! a fronte alçaste 
Por tantos séculos abatida, e triste... 
Um eco aqui repercutir-se – ouviste, 
E as vis algemas sob os pés quebraste!

Quebraste os ferros – que o Brasil não sofre, 
Sequer um dia ser escravo, – não. 
És livre, és grande! Tão sublime ação 
Quem fez jamais – e tanto assim de chofre?!...

O grito lá da serra do Ipiranga, 
O grito todo amor, fraternidade, 
Ecoou no teu seio! a liberdade, 
Pairou sobre o Anil, sobre o Bacanga!

Eis-te bela, coroada, e sedutora, 
Pomposa, e descuidada, sobranceira; 
Em teu divã gentil, gentil, sultana, 
Filha das vagas, e do mar senhora,

A unânime grito se erguia a cativa 
Que jaz a dormir; 
E ao som prolongado que os ecos repetem 
Desperta a sorrir:

Os braços distende – que agora é rainha: 
Quebrou-se o grilhão! 
Com a fronte cingida de louros tão gratos 
Se erguem Maranhão!

O pego, as florestas, os campos que regem 
Os vastos sertões, 
Entoam seu hino de amor, liberdade! 
Ao som dos canhões

E prados, e bosques, e sendas bordadas 
De verdes tapizes, 
E ribas salgadas, e gratos mangueiros, 
Se julgam felizes...

E as auras despertam, tecendo mimosos 
Festejos a mil! 
E o grato Bacanga parece em amplexo 
Ligar-se ao Anil.

Campeia indolente no leito gentil 
Domina as florestas os gratos vergéis; 
Renova na fronte singelos lauréis, 
Esmalta o império do vasto Brasil.

[1]  Ilha de São Luís

continua na página 187...
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Cantos à beira-mar - Dedicatória / Minha terra / A lua brasileira /       
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

domingo, 6 de julho de 2025

Cantos à beira-mar - Dedicatória

Maria Firmina dos Reis


Cantos à beira-mar

Dedicatória 
À memória de minha veneranda mãe.
      

     Minha Mãe! – as minhas poesias são tuas.
     É uma lágrima que verto sobre tuas cinzas! Acolhe-as, abençoa-as para que elas te possam merecer.
     Debruçada sobre o teu peito, embalde, oh! minha mãe, – no extremo da dor, e da aflição procurei inocular o calor do meu sangue nas veias onde o teu gelava-se ao hálito da morte!... verti lágrimas de pungente saudade, de amargura infinda sobre a tua humilde sepultura, como havia derramado sobre o teu corpo inanimado.
     A dor era cada vez mais funda, mais agra e cruciante – tornei a harpa, – vibrei nela um único som, – uma nota plangente, saturada de lágrimas e de saudade...
     Este som, esta nota, são os meus cantos à beira-mar.
     Ei-los! É uma coroa de perpétuas sobre a tua campa, – e uma saudade infinda com que meu coração te segue noite, e dia, – é uma lágrima sentida, que dedico à tua memória veneranda.
    Se alguma aceitação merecerem meus pobres cantos, na minha província, ou fora dela; – se um acolhimento lisonjeiro lhes dispensar alguém; oh! minha mãe! essa situação esse acolhimento será uma oferenda sagrada, – uma rosa desfolhada sobre a tua sepultura!...
    Sim, minha mãe... que glória poderá resultar-me das minhas poesias, que não vá refletir sobre as tuas cinzas!?!...
    É a ti que devo o cultivo de minha fraca inteligência; – a ti, que desper taste em meu peito o amor à literatura; – e que um dia me disseste:
    Canta!
    Eis pois, minha mãe, o fruto dos teus desvelos para comigo; – eis as minhas poesias: – acolhe-as, abençoa-as do fundo do teu sepulcro.
    E ainda uma lágrima de saudade, – um gemido do coração...

Guimarães, 7 de Abril de 1871. 
Maria Firmina dos Reis


 Oh! minha mãe! oh! minha mãe querida, 
 Que vácuo n’ alma – que cruel soidade! 
 Deixa que lance sobre o teu sepulcro 
 A roxa c’roa de imortal saudade.

 Fraco tributo: – mas no imo peito 
 As eduquei com amargurado pranto; 
 Hoje as esfolho perfumosas, tristes, 
 Ao som cheiroso do meu pobre canto.


Uma lágrima
Sobre o sepulcro de minha carinhosa mãe.

 E eu vivo ainda!? Nem sei como vivo!... 
 Gasto de dor o coração me anseia: 
 Sonho venturas de um melhor porvir, 
 Onde da morte só pavor campeia.

 Lá meus anseios sob a lousa humilde 
 Dormem seu sono de silêncio eterno! 
 Mudos à dor, que me consome, e gasta. 
 Frios ao extremo de meu peito terno.

Ah! Despertá-los quem pudera? Quem? 
 Ah! campa... ah, campa! Que horror, meu Deus! 
 Por que tão breve – minha mãe querida, 
 Roubaste, oh morte, destes braços meus?!!...

 Oh! não sabias que ela era a harpa 
 Em cujas cordas eu cantava amores, 
 Que era ela a imagem do meu Deus na terra, 
 Vaso de incenso trescalando odores?!

 Que era ela a vida, os horizontes lindos, 
 Farol noturno a me guiar p’ra os céus; 
 Bálsamo santo a serenar-me as dores, 
 Graça melíflua, que vem de Deus!

 Que ela era a essência que se erguia branda 
 Fina, e mimosa de uma relva em flor! 
 Que era o alaúde do bom rei – profeta, 
 Cantando salmos de saudade, e dor!

 Que era ela o encanto de meus tristes dias, 
 Era o conforto na aflição, na dor! 
 Que era ela a amiga, que velou-me a infância, 
 Que foi a guia desta vida em flor!

 Que era o afeto, que eduquei cuidosa 
 Dentro do peito... que era a flor 
 Grata, mimosa a derramar perfumes, 
 Nos meus jardins de poesia, e amor!

 Que era ela a harpa de doçura santa 
 Em que eu cantava divinal canção... 
 Era-me a ideia de Jeová na terra, 
 Era-me a vida que eu amava então!

 Oh! minha mãe que idolatrei na terra, 
 Que amei na vida como se ama a Deus! 
 Hoje, entre os vivos te procuro – embalde! 
 Que a campa pesa sobre os restos teus!...

 Como se apura moribunda chama 
 À hora extrema da existência sua: 
 Assim minha alma se apurou de afetos, 
 Gemeu de angústias pela angústia tua.

 E não puderam minha dor, meu pranto, 
 Pranto sentido que jamais chorei, 
 Oh! não puderam te sustar a vida, 
 Que entre delírios para ti sonhei!...

 E como a flor pelo rufão colhida 
 Vergada a haste, a se esfolhar no chão, 
 Eu vi fugir-lhe o derradeiro alento! 
 Oh! sim, eu vi... e não morri então!

 Entanto amava-a, como se ama a vida, 
 E a minha eu dera para remir a sua... 
 Oh! Deus – por que o sacrifício oferto, 
 Não aceitou a onipotência tua!?!...

 Vacila a mente nessa acerba hora 
 Entre a fé, e a descrença...oh! sim meu Deus! 
 Estua o peito, verga aflita a alma: 
 Tu me compreendes, tu nos vês dos céus.

 Vacila, treme... mas na própria mágoa 
 Tu nos envias o chorar, Senhor; 
 Bendito sejas! que esse pranto acerbo, 
 É doce orvalho, que nos unge a dor.

 Lá onde os anjos circundam, dá-lhe 
 Vida perene de imortal candura: 
 Por cada gota de meu triste pranto, 
 Dá-lhe de gozos divinal ventura.

 E à triste filha, que saudosa geme, 
 Manda mais dores, mais pesada cruz; 
 Depois, reúne à sua mãe querida, 
 No seio imenso de infinita luz.

continua na página 184...
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Cantos à beira-mar - Dedicatória / Minha terra /   
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

segunda-feira, 10 de março de 2025

A escrava - Eram casados

Maria Firmina dos Reis


A Escrava

continuando...

      Eram casados e, desse matrimônio, nasci eu. Para minorar os castigos que este homem cruel infligia diariamente a minha pobre mãe, meu pai quase consumia seus dias ajudando-a nas suas desmedidas tarefas; mas ainda assim, redobrando o trabalho, conseguiu um fundo de reserva em meu benefício. 
      Um dia apresentou a meu senhor a quantia realizada, dizendo que era para o meu resgate. Meu senhor recebeu a moeda sorrindo-se – tinha eu cinco anos – e disse: — A primeira vez que for à cidade trago a carta dela. Vai descansado.
      Custou a ir à cidade: quando foi demorou-se algumas semanas e, quando chegou, entregou a meu pai uma folha de papel escrita, dizendo-lhe:

— Toma, e guarda, com cuidado, é a carta de liberdade de Joana.

     Meu pai não sabia ler, de agradecido beijou as mãos daquela fera. 
     Abraçou-me, chorou de alegria, e guardou a suposta carta de liberdade.
     Então furtivamente eu comecei a aprender a ler, com um escravo mulato, e a viver com alguma liberdade. 
     Isto durou dois anos. Meu pai morreu de repente e, no dia imediato, meu senhor disse a minha mãe:

— Joana que vá para o serviço, tem já sete anos, e eu não admito escrava vadia.

      Minha mãe, surpresa e confundida, cumpriu a ordem sem articular uma palavra. 
      Nunca a meu pai passou pela ideia que aquela suposta carta de liberdade era uma fraude; nunca deu a ler a ninguém; mas minha mãe, à vista do rigor de semelhante ordem, tem assinatura, sem data! Eu também a li, quando caiu das mãos do mulato. Minha pobre mãe deu um grito, e caiu estrebuchando.
     Sobreveio-lhe febre ardente, delírios, e três dias depois estava com Deus.
     Fiquei só no mundo, entregue ao rigor do cativeiro. 
     Aqui ela interrompeu-se; agitou-lhe os membros um tremor convulso. A morte fazia os seus progressos. De novo cheguei-lhe aos lábios a colher do calmante, que lhe aplicava, e pedi-lhe, não revocasse lembranças dolorosas que a podiam matar.

— Ah! Minha senhora, – começou de novo, mais reanimada; – apadrinhe Gabriel, meu filho, ou esconda-o no fundo da terra; olhe, se ele for preso, morrerá debaixo do açoite, como tantos outros, que meu senhor tem feito expirar debaixo do azorrague! Meu filho acabará assim.
 — Não, não há de acabar assim, – descansa. Teu filho está sob minha proteção, e qualquer que seja a atitude que possa assumir esse homem, que é teu senhor, Gabriel não voltará mais ao seu poder.

      Ela recolheu-se por algum tempo, depois tomando-me as mãos, beijou-as com reconhecimento.

 — Ah! Se pudesse, nesta hora extrema ver meus pobres filhos, Carlos e Urbano!... Nunca mais os verei!

      Tinham oito anos. 
      Um homem apeou-se à porta do Engenho, onde juntos trabalhavam meus pobres filhos – era um traficante de carne humana. Ente abjeto, e sem coração! Homem a quem as lágrimas de uma mãe não podem comover, nem comovem os soluços do inocente.
      Esse homem trocou ligeiras palavras com meu senhor, e saiu. 
      Eu tinha o coração opresso, pressentia uma nova desgraça.
      À hora permitida ao descanso, concheguei a mim meus pobres filhos, extenuados de cansaço, que logo adormeceram. Ouvi ao longe rumor, como de homens que conversavam. Alonguei os ouvidos; as vozes se aproximavam. Em breve reconheci a voz do senhor. Senti palpitar desordenadamente meu coração; lembrei-me do traficante... corri para meus filhos, que dormiam, apertei-os ao coração. Então senti um zumbido nos ouvidos, fugiu-me a luz dos olhos e creio que perdi os sentidos.
      Não sei quanto tempo durou este estado de torpor; acordei aos gritos de meus pobres filhos, que me arrastavam pela saia, chamando-me: mamãe! Mamãe!
     Ah! Minha senhora! Abri os olhos. Que espetáculo! Tinham metido adentro a porta da minha pobre casinha, e nela penetrado meu senhor, o feitor, e o infame traficante. 
     Ele e o feitor arrastavam, sem coração, os filhos que se abraçavam a sua mãe.
      Gabriel entrava nesse momento. Basta, minha mãe, disse-lhe, vendo em seu rosto debuxados todos os sintomas de uma morte próxima.

— Deixa concluir, meu filho, antes que a morte me cerre os lábios para sempre... deixa-me morrer amaldiçoando os meus carrascos. 
— Por Deus, por Deus, gritei eu tornando a mim, por Deus levem-me com meus filhos! 
— Cala-te! gritou meu feroz senhor. Cala-te, ou te farei calar. 
— Por Deus, tornei eu de joelhos, e tomando as mãos do cruel traficante: – meus filhos!... Meus filhos!...

      Mas ele, dando um mais forte empuxão e ameaçando-os com o chicote que empunhava, entregou-os a alguém que os devia levar... 
      Aqui a mísera calou-se; eu respeitei o seu silêncio que era doloroso, quando lhe ouvi um arranco profundo, e magoado. 
      Curvei-me sobre ela. Gabriel ajoelhou-se, e juntos exclamamos:

— Morta!

      Com efeito tinha cessado de sofrer. O embate tinha sido forte demais para as suas débeis forças.
     A lua percorria melancólica e solitária os paramos do céu, e cortava com uma fita de prata as vagas do oceano.
      No mesmo instante, um homem assomou à porta. Era o homem do azorrague que eles intitulavam do feitor; era aquele homem de fisionomia sinistra e terrível, que me interpelara algumas horas antes, acerca da infeliz foragida; e este homem aparecia agora mais hediondo ainda, seguido de dois negros que, como ele, pararam à porta.

 — Que pretende o senhor? – perguntei-lhe. – Pode entrar.

      O pobre Gabriel refugiou-se, trêmulo, ao canto mais escuro da casa.

 — Anda, Gabriel, disse-lhe com voz segura, continua a tua obra, e voltando-me para o feitor, acrescentei:
— Eu e este desolado filho ocupamo-nos em cerrar os olhos à infeliz, a quem o cativeiro e o martírio despenharam tão depressa na sepultura.

     Comovidos em presença da morte, os dois escravos deixaram pender a fronte no peito; o próprio feitor, ao primeiro ímpeto, teve um impulso de homem; mas, recompondo de pronto na rude e feroz fisionomia, disse-me:

— É hoje a segunda vez que a encontro, minha senhora, entretanto, não sei ainda a quem falo. Peço-lhe que me diga o seu nome, para que eu conheça o patrão, o senhor Tavares. É escandalosa, minha senhora, a proteção que dá a estes escravos fugidos.

      Estas palavras inconvenientes mereceram o meu desdém; não lhe retorqui. 
      O meu silêncio lhe deu maior coragem, e, fazendo-se insolente, continuou:

— A senhora coadjuvou a mãe em sua fuga; acabou aqui, mais tarde saberemos de quê. Pretenderá também coadjuvar o filho?

      É o que havemos de ver!... 
      João, Felix! E com um aceno indicou-lhes o que deviam fazer. 
      Gabriel, que ao meu chamado voltara para junto do cadáver de sua mãe, sentindo que o vinham prender, levantou-se espavorido, sem saber o que fazer.

— Detém-te! – lhe gritei eu. – Estás sob a minha imediata proteção; – e voltando-me para o homem do azorrague, disse-lhe: 
— Insolente! Nem mais uma palavra. Vai-te, diz a teu amo, – miserável instrumento de um escravocrata; diz a ele que uma senhora recebeu em sua casa uma mísera escrava, louca porque lhe arrancaram dos braços dois filhos menores, e os venderam para o Sul; uma escrava moribunda; mas ainda assim perseguida por seus implacáveis algozes.

      Vai-te e entrega-lhe este cartão; aí achará o meu nome. 
      Vai, e que nunca mais nos tornemos a ver. 
      Ele mordeu os beiços para tragar o insulto, e desapareceu.
      No dia seguinte, era já de tarde, estava quase a desfilar o saimento da infeliz Joana, quando à porta de minha casinha, vi apear-se um homem. Era o senhor Tavares. 
      Cumprimentou-me com maneiras da alta sociedade, e disse-me:

— Desculpe-me, querida senhora, se me apresentou em sua casa, tão brusca e desazadamente; entretanto... 
— Sem cerimônia, senhor, disse-lhe, procurando abreviar aqueles cumprimentos que me incomodavam.

     Sei o motivo que aqui o trouxe, e podemos, se quiser, encetar já o assunto. 
     Custava-me, confesso, estar por longo tempo em comunicação com aquele homem, que encarava sua vítima, sem consciência, sem horror.

— Peço-lhe mil desculpas, se a vim incomodar. 
— Pelo contrário, retorqui-lhe. O senhor poupou-me o trabalho de o ir procurar. 
— Sei que esta negra está morta, – exclamou ele, – e o filho acha-se aqui; tudo isto teve a bondade de comunicar-me ontem. Esta negra, continuou, olhando fixamente para o cadáver – esta negra era alguma coisa monomaníaca, de tudo tinha medo, andava sempre foragida, nisto consumiu a existência. Morreu, não lamento esta perda; já para nada prestava. O Antônio, o meu feitor, que é um excelente e zeloso servidor, é que se cansava em procurá-la. Porém, minha senhora, este negro! – designava o pobre Gabriel, – com este negro a coisa muda de figura; minha querida senhora, este negro está fugido; espero, que o entregará, pois sou o seu legítimo senhor, e quero corrigi-lo.

— Pelo amor de Deus, minha mãe, – gritou Gabriel, completamente desorientado, – minha mãe, leva-me contigo. 
— Tranquiliza-te, – lhe tornei com calma; – não te hei já dito que te achas sob a minha proteção? Não tem confiança em mim?

      Aqui o senhor Tavares encarou-me estupefato e depois perguntou-me:

— Que significam essas palavras, minha querida senhora? Não a compreendo. 
— Vai compreender-me, – retorqui, apresentando-lhe um volume de papéis subscritados e competentemente selados.

      Rasgou o subscrito, e leu-os. Nunca em sua vida tinha sofrido tão extraordinária contrariedade.

— Sim, minha cara senhora, – redarguiu, terminando a leitura; – o direito de propriedade, conferido outrora por lei a nossos avós, hoje nada mais é que uma burla... A lei retrogradou. Hoje protege-se escandalosamente o escravo contra seu senhor; hoje qualquer indivíduo diz a um juiz de órfãos: Em troca desta quantia exijo a liberdade do escravo fulano – haja ou não a aprovação do seu senhor. Não acham isto interessante?

— Desculpe-me, senhor Tavares, – disse-lhe.

     Em conclusão, apresento-lhe um cadáver, e um homem livre. 
     Gabriel ergue a fronte, Gabriel és livre! 
     O senhor Tavares cumprimentou e retrocedeu no seu fogoso alazão, sem dúvida alguma mais furioso que um tigre.

continua na página 178...
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A escrava - Eram casados

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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

A escrava - Mas o homem do azorrague

Maria Firmina dos Reis


A Escrava

      Mas o homem do azorrague não pareceu reparar nisso, e continuou:

— Doida... doida fingida, caro te há de custar.

     Acreditei-o o senhor daquela mísera; mas empenhada em vê-lo desaparecer daquele lugar, disse-lhe:

— A noite se avizinha, e se a deixa ir mais longe, difícil lhe será encontrá-la. 
— Tem razão, minha senhora; eu parto imediatamente, – e cumprimentando-me rudemente, retrocedeu correndo a mesma estrada que lhe tinha maliciosamente indicado.

     Exalei um suspiro de alívio, ao vê-lo desaparecer na dobra do caminho. 
     O sol de todo sumia-se na orla cinzenta do horizonte, o vento paralisado não agitava as franças dos anosos arvoredos, só o mar gemia ao longe da costa, semelhando o arquejar monótono de um agonizante.
     Ergui ao céu um voto de gratidão; e lembrei-me que era tempo de procurar minha desditosa protegida. 
     Ergui-me cônscia de que ninguém me observava, e acercava-me já da moita de murta, quando um homem rompendo a espessura, apareceu ofegante, trêmulo e desvairado.
     Confesso que semelhante aparição causou-me um terror imenso. Lembrei-me dos criados, que eu tinha convocado a essa hora naquele lugar, e que ainda não chegavam. Tive medo. 
     Parei instantemente, e fixei-o. Apesar do terror que me havia inspirado, fixei-o resolutamente. 
     De repente, serenou o meu temor; olhei-o, e do medo, passei à consideração, ao interesse.
     Era quase uma ofensa ao pudor fixar a vista sobre aquele infeliz, cujo corpo seminu mostrava-se coberto de recentes cicatrizes; entretanto sua fisionomia era franca, e agradável. O rosto negro, e descarnado; suposto seu juvenil aspecto aljofarado de copioso suor, seus membros alquebrados de cansaço, seus olhos rasgados, ora deferindo luz errante, e trêmula, agitada, e incerta traduzindo a excitação, e o terror, tinham um quê de altamente interessante.
     No fundo do coração daquele pobre rapaz, devia haver rasgos de amor, e generosidade. 
     Cruzamos ele e eu as vistas, e ambos recuamos espavoridos. Eu, pelo aspecto comovente e triste daquele infeliz, tão deserdado da sorte; ele, por que seria?
     Isto teve a duração de um segundo apenas: recobrei ânimo em presença de tanta miséria, e tanta humilhação, e este ânimo procurei de pronto transmitir-lhe. 
     Longe de lhe ser hostil, o pobre negro compreendeu que eu ia talvez minorar o rigor de sua sorte; parou instantaneamente, cruzou as mãos no peito, e com voz súplice, murmurou algumas palavras que eu não pude entender.
     Aquela atitude comovedora despertou-me compaixão; apesar do medo que nos causa a presença dum calhambola, aproximei-me dele, e com voz, que bem compreendeu ser protetora e amiga, disse-lhe:

— Quem és, filho? O que procuras? 
— Ah! Minha senhora, – exclamou erguendo os olhos ao céu, – eu procuro minha mãe, que correu nesta direção, fugindo ao cruel feitor, que a perseguia. Eu também agora sou um fugido: porque há uma hora deixei o serviço para procurar minha pobre mãe, que além de doida está quase a morrer. Não sei se ele a encontrou; e o que será dela. Ah! Minha mãe! É preciso que eu corra, a ver se acho antes que o feitor a encontre. 
— Aquele homem é um tigre, minha senhora, é uma fera.

     Ouvia-o, sem o interromper, tanto interesse me inspirava o mísero escravo.

— Amanhã, – continuou ele, – hei de ser castigado; porque saí do serviço, antes das seis horas, hei de ter trezentos açoites; mas minha mãe morrerá se ele a encontrar. Estava no serviço, coitada! Minha mãe caiu, desfalecida; o feitor lhe impôs que trabalhasse, dando-lhe açoites; ela deitou a correr gritando. Ele correu atrás. Eu corri também, corri até aqui porque foi esta a direção que tomaram. Mas, onde está ela, onde estará ele? 
— Escuta, – lhe tornei então, – tua mãe está salva, salvou-a o acaso; e o feitor está agora bem longe daqui. 
— Ah! Minha senhora, onde, onde está a minha mãe e quem a salvou? 
— Segue-me, – disse eu – tua mãe está ali – e apontei para a moita onde se refugiara. 
— Minha mãe, – sem receio de ser ouvido, exclamou o filho – minha mãe!...

     Com efeito, ali com a fronte reclinada sobre um tronco decepado; e o corpo distendido no chão, dormia um sono agitado a infeliz foragida.

— Minha mãe, – gritou-lhe ao ouvido curvando os joelhos em terra, e tomando-a nos seus braços. — Minha mãe... sou Gabriel..

     A esta exclamação de pungente angústia, a mísera pareceu despertar. 
     Olhou-a fixamente; mas não articulou um som.

— Ah! – redarguiu Gabriel, – ah! Minha senhora! Minha mãe morre!

     Concheguei-me àquele grupo interessante a fim de prestar-lhe algum serviço. Com efeito era tempo. Ela era presa dum ataque espasmódico. Estava hirta e parecia prestes a exalar o derradeiro suspiro.

— Não, ela não morre deste ataque; mas é preciso prestar-lhe pronto socorro, – disse-lhe. 
— Diga, minha senhora, – tornou o rapaz na mais pungente ansiedade, – que devo fazer?

     Volte eu embora à fazenda, seja castigado com rigor; mas não quero, não posso ver minha mãe morrer aqui, sem socorro algum.

— Sossega, – disse-lhe, vendo assomar ao morro, donde observavam tudo que acabo de narrar, os meus criados, que me procuravam; – espera, disse-lhe:

     Vou fazer transportar tua mãe, à minha casa, e lhe farei tornar à vida.

— Diga, minha senhora, ordene. 
— Não moro presentemente longe daqui. Sabes a distância que vai daqui à praia? Estou nos banhos salgados. 
— Sei, sim, senhora, é muito perto. Que devo então fazer? 
— Tu, e estes homens – os criados acabavam de chegar – vão transportá-la imediatamente à minha morada, e lá procurarei reanimá-la. 
— Oh! Minha senhora, que bondade! – foi só o que disse e, ato contínuo, tomou nos braços a pobre mãe, ainda entregue ao seu dorido paroxismo, disse: 
— Minha senhora, eu só levaria minha mãe ao fim do mundo.

     Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado
.
— Sigamos então, – tornei eu.

     Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo. 
     Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da casinha, que há dois dias apenas eu habitava. 
     Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: recebia em meu lar dois escravos foragidos, e escravos talvez de algum poderoso senhor; era expor-me à vindita da lei; mas em primeiro lugar o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles infelizes. 
     Sim, a vindita da lei; lei que infelizmente ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco.
     Mas, deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sossego, ou tranquilidade! Não. 
     Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.
     Fiz deitar a moribunda em uma cama, fiz abrir as portas todas para que a ventilação se fizesse livre, e boa, e prestei-lhe os serviços, que o caso urgia, e com tanta vantagem, que em pouco recuperou os sentidos. 
     Olhou em torno de si, como que espantada do que via, e tornou a fechar os olhos.

— Minha mãe!... Minha mãe, – de novo exclamou o filho.

     Ao som daquela voz chorosa, e tão grata, ela ergueu a cabeça, distendeu os braços, e, com voz débil, murmurou:

— Carlos!... Urbano... 
— Não, minha mãe sou Gabriel. 
— Gabriel, – tornou ela, com voz estridente. – É noite, e eles para onde foram? 
— De quem fala ela? – interroguei Gabriel, que limpava as lágrimas na coberta da cama de sua mãe. 
— É doida, minha senhora; fala de meus irmãos Carlos e Urbano, crianças de oito anos, que meu senhor vendeu para o Rio de Janeiro. Desde esse dia ela endoideceu. 
— Horror! – exclamei com indignação e dor. Pobre mãe! 
— Só lhe resto eu, – continuou soluçando – só eu... só eu!... 

     Entretanto, a enferma pouco e pouco recobrava as forças, a vida, e a razão. Fenômenos da morte, por assim dizer: é luta imponente, embora da natureza, com o extermínio.

— Gabriel? Gabriel? – És tu? 
— É noite. Eu morro... E o serviço? E o feitor? 
— Estás em segurança, pobre mulher, disse-lhe, – tu e teu filho estão sob a minha proteção. Descansa, aqui ninguém lhes tocará com um dedo.

     Como não devem ignorar, eu já me havia constituído então membro da sociedade abolicionista da nossa província, e da do Rio de Janeiro. Expedi de pronto um próprio à capital. 
     Então ela fixou-me, e em seus olhos brilhou lucidez, esperança, e gratidão. 
     Sorriu-se e murmurou.

— Inda há neste mundo quem se compadeça de um escravo? 
— Há muita alma compassiva, – retorqui-lhe, – que se condói do sofrimento de seu irmão.

     Naquela hora quase suprema, a infeliz exclamou com voz distinta:

— Não sabe, minha senhora, eu morro, sem ver mais meus filhos! Meu senhor os vendeu... eram tão pequenos... eram gêmeos. Carlos, Urbano...

     Tenho a vista tão fraca... é a morte que chega. Não tenho pena de morrer, tenho pena de deixar meus filhos... meus pobres filhos!... Aqueles que me arrancaram destes braços... Este que também é escravo!... 
     E os soluços da mãe confundiram-se por muito tempo com os soluços do filho.
     Era uma cena tocante e lastimosa, que despedaçava o coração. 
     Ah! Maldição sobre a opressão! Maldição sobre o escravocrata! 
     Cheguei-lhe aos lábios o calmante que a ia sustendo, e ordenei a Gabriel fosse tomar algum alimento. Era preciso separá-los.

— Quem é vossemecê, minha senhora, que tão boa é para mim, e para meu filho? Nunca encontrei em vida um branco que se compadecesse de mim; creio que Deus me perdoa os meus pecados, e que já começo a ver seus anjos. 
— E quem é esse senhor tão mau, esse senhor que te mata? 
— Então, minha senhora, não conhece o senhor Tavares, do Cajuí? 
— Não, – tornei-lhe com convicção, – estou aqui apenas há dois dias, tudo me é estranho; não o conheço. É bom que colha algumas informações dele: Gabriel mas dará. 
— Gabriel! – disse ela – não. Eu mesma. Ainda posso falar.

     E começou:

— Minha mãe era africana, meu pai de raça índia; mas de cor fusca. Era livre, minha mãe era escrava.

continua na página 172...
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A escrava - Mas o homem do azorrague 
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

A escrava - Em um salão

Maria Firmina dos Reis


A Escrava

      Em um salão onde se achavam reunidas muitas pessoas distintas, e bem colocadas na sociedade, e depois de versar a conversação sobre diversos assuntos mais ou menos interessantes, recaiu sobre o elemento servil.
     O assunto era por sem dúvida de alta importância. A conversação era geral; as opiniões, porém, divergiam. Começou a discussão.

— Admira-me, – disse uma senhora de sentimentos sinceramente abolicionistas; – faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no presente século, no século dezenove! A moral religiosa e a moral cívica aí se erguem, e falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santuário seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira!

     Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me:

— Para quê se deu em sacrifício o Homem Deus, que ali exalou seu derradeiro alento? Ah! Então não é verdade que seu sangue era o resgate do homem! É então uma mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois, olhai a sociedade... Não vedes o abutre que a corrói constantemente!... Não sentis a desmoralização que a enerva, o cancro que a destrói?

     Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e será sempre um grande mal. Dela a decadência do comércio; porque o comércio e a lavoura caminham de mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é forçado. Ele não tem futuro; o seu trabalho não é indenizado; ainda dela nos vem o opróbrio, a vergonha; porque de fronte altiva e desassombrada não podemos encarar as nações livres; por isso que o estigma da escravidão, pelo cruzamento das raças, estampa-se na fronte de todos nós. Embalde procurará um dentre nós, convencer ao estrangeiro que em suas veias não gira uma só gota de sangue escravo...
     E depois, o caráter que nos imprime e nos envergonha!
     O escravo é olhado por todos como vítima – e o é.
     O senhor, que papel representa na opinião social?
     O senhor é o verdugo – e esta qualificação é hedionda.
     Eu vou vos narrar, se me quiserdes prestar atenção, um fato que ultimamente se deu. Poderia citar-vos uma infinidade deles; mas este basta, para provar o que acabo de dizer sobre o algoz e a vítima.
     E ela começou:

— Era uma tarde de agosto, bela como um ideal de mulher, poética como um suspiro de virgem, melancólica e suave como sons longínquos de um alaúde misterioso.

     Eu cismava, embevecida na beleza natural das alterosas palmeiras que se curvaram gemebundas, ao sopro do vento, que gemia na costa.
     E o sol, dardejando seus raios multicores, pendia para o ocaso em rápida carreira.
     Não sei que sensações desconhecidas me agitavam, não sei!... Mas sentia-me com disposições para o pranto.
     De repente uns gritos lastimosos, uns soluços angustiados feriram-me os ouvidos, e uma mulher correndo, e em completo desalinho, passou por diante de mim, e como uma sombra desapareceu.
     Segui-a com a vista. Ela espavorida, e trêmula, deu volta em torno de uma grande moita de murta, e colando-se no chão nela se ocultou.
     Surpresa com a aparição daquela mulher, que parecia foragida, daquela mulher que um minuto antes quebrara a solidão com seus ais lamentosos, com gemidos magoados, com gritos de suprema angústia, permaneci com a vista alongada e olhar fixo, no lugar que a vi ocultar-se.
     Ela muda, e imóvel, ali quedou-se.
     Eu então a mim mesma, interroguei:

— Quem será a desditosa?

     Ia procurá-la – coitada! Uma palavra de animação, um socorro, algum serviço, lembrei-me, poderia prestar-lhe. Ergui-me.
     Mas, no momento mesmo em que este pensamento, que acode a todo homem em idênticas circunstâncias, se me despertava, um homem apareceu no extremo oposto do caminho.
     Era ele de cor parda, de estatura elevada, largas espáduas, cabelos negros, e anelados.
     Fisionomia sinistra era a desse homem, que brandia, brutalmente, na mão direita um azorrague repugnante; e da esquerda deixava pender uma delgada corda de linho.

— Inferno! Maldição! – bradara ele com voz rouca. — Onde estará ela? – e perscrutava com a vista por entre os arvoredos desiguais que desfilavam à margem da estrada.

— Tu me pagarás – resmungava ele. – E aproximando-se de mim:

— Não viu, minha senhora, – interrogou com acento, cuja dureza procurava reprimir, – não viu por aqui passar uma negra, que me fugiu das mãos ainda há pouco? Uma negra que se finge doida... Tenho as calças rotas de correr atrás dela por estas brenhas. Já não tenho fôlego.

     Aquele homem de aspecto feroz era o algoz daquela pobre vítima, compreendi com horror.
     De pronto tive um expediente. — Vi-a, tornei-lhe com a naturalidade, que o caso exigia; – vi-a, e ela também me viu, corria em direção a este lugar; mas parecendo intimidar-se com minha presença, tomou direção oposta, volvendo-se repentinamente sobre seus passos. Por fim a vi desaparecer, internando-se na espessura, muito além da senda que ali se abre.
     E dizendo isto, indiquei-lhe com um aceno a senda que ficava a mais de cem passos de distância, aquém do morro em que me achava.
     Minhas palavras inexatas, o ardil de que me servi, visavam a fazê-lo retroceder: logrei o meu intento.
     Franziu o sobrolho, e sua fisionomia traiu a cólera que o assaltou. Mordeu os beiços e rugiu:

— Maldita negra! Esbaforido, consumido, a meter-me por estes caminhos, pelos matos em procura da preguiçosa... Ora! Hei de encontrar-te; mas, deixa estar, eu te juro, será esta a derradeira vez que me incomodas. No tronco... no tronco: e de lá foge!

— Então, – perguntei-lhe, aparentando o mais profundo indiferentismo, pela sorte da desgraçada, – foge sempre?

— Sempre, minha senhora. Ao menor descuido foge. Quer fazer acreditar que é doida

— Doida! – exclamei involuntariamente, e com acento que traía os meus sentimentos. 

continua na página 163...
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A escrava - Em um salão
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Gupeva - V (Ao alvorecer do dia)

Maria Firmina dos Reis


Gupeva

V 


      Ao alvorecer do dia rebentou a tempestade há tanto ameaçada. O mar rugia com assustadora fúria, o vento raivoso sibilava por entre as enxárcias do infante de Portugal que, não obstante as ordens recebidas, não podia levantar âncora sem grande perigo de despedaçar-se todo de encontro a algum arrecife. Abrigado no ancoradouro ainda o comandante temia o furor da tempestade. O navio arfava inquieto: joguete das ondas, ele estalava como se houvera de desjuntar-se todo. Um sopro mais violento da tempestade e o pobre lenho seria aniquilado. A chuva desprendia-se em torrentes; o raio sibilava ameaçador; o mar era um lençol negro, e de sinistro aspecto. O mais corajoso tremia; só Alberto parecia insensível à voz do temporal. Sua fronte ardente, seus olhos requeimados pela vigília da noite, seu coração opresso pelo pressentimento de terrível sucesso, inquieto pelo temor de alguma desgraça irremediável, abatido, angustiado pela não aparição de seu louco e infeliz amigo, parecia não compreender a grandeza do perigo que os ameaçava. O mar cuspia-lhe, irritando as faces, o vento insinuava-se, rumorejando, por entre as madeixas de seus negros cabelos, e ele não atendia, nem aos insultos do mar, nem o raivoso perpassar do vento.
      Alberto pensava em Gastão. Tinha visto amanhecer sem que Gastão voltasse ao navio: era preciso que já não existisse para assim deixar de cumprir sua promessa!
      Alberto comunicou ao comandante seus receios, e o desassossego da sua alma: toda a oficialidade, e toda a marinhagem sentiram interesse pelo jovem francês.
     Ao meio-dia a tempestade serenou: o mar tornou-se calmo e pacífico, o vento conteve-se nos seus limites. Agora o azul das nuvens refletia-se nas águas da imensa baía, e as vagas se moviam mansamente, aniladas, e risonhas, como um ligeiro sorriso. Então o comandante deu suas ordens; um escaler bem tripulado recebeu o oficial português, que um momento depois pesquisava ansioso vestígios do seu infeliz colega. Incansável, devassava o moço todos os subúrbios da pequena habitação, incansável, percorria ele todas as sendas, todas as devesas, todos os recônditos lugares daquele vasto terreno; era embalde. Extenuaram de cansaço, ele e um velho marinheiro, que o seguia; enquanto outros investigavam outros lugares. Alberto chegou ao alto do outeiro, onde na noite antecedente deu-se a cena que acabamos de narrar.
     Oh! Que doloroso espetáculo!
     Sentado no tronco de uma árvore estava um velho tupinambá; brandia em suas mãos um tacape ensanguentado: a seus pés estavam dois cadáveres!... Reclinadas as faces ambas para a terra, Alberto não pôde reconhecer seu amigo, senão pelo uniforme de Marinha, que o sangue tingira, e que as águas, que se desprenderam à noite, haviam ensopado, e enxovalhado. O outro cadáver era o de uma mulher... Bela devia ser ela; porque seus cabelos longos, e ondeados, fáceis aos beijos da viração da tarde, esparsos assim sobre o seu corpo, davam-lhe o aspecto de uma Madalena.
     Alberto exclamou: — que horror! e cobriu o rosto com as mãos, caiu por terra.
     Depois erguendo-se com ímpeto raivoso e aproximando-se do índio, que imóvel parecia aguardá-lo, disse-lhe, apontando para o seu infeliz amigo:

 — Bárbaro!... Por que o assassinaste?

     Gupeva, pois era ele, soltou uma gargalhada, estridente, e descomposta, que lhe tornou o aspecto sinistro, e medonho, e disse:

 — Ah! Minha filha... não a vedes? – E de novo pôs-se a brincar com o tacape.

— Louco! – murmurou Alberto, – a minha vingança seria um crime.

     Os seus companheiros de pesquisa foram-se pouco e pouco reunindo, ele voltou pálido, e com a mágoa no coração para junto do cadáver do desditoso Gastão.
     Ninguém curou mais do louco.
    Quando iam porém deitar os cadáveres nas sepulturas, e viram o rosto da mulher adormecida ao lado do jovem oficial, voltaram para cima, todos os circunstantes agruparam-se, e curiosos procuravam ver tanta formosura. Alberto, surpreso, exclamou:

— Que extraordinária semelhança!

 — Eles não podiam deixar de ser irmãos, – exclamaram unanimemente os companheiros de Alberto.

     Ah! Era Épica, era a virgem das florestas, era o anjo dos sonhos mentirosos de Gastão; era ela que acabava de conduzi-lo a Deus, e que ia descer com ele à sepultura. Formosa ainda na palidez de morte, Épica levou Alberto a perdoar os extremos de seu infeliz amigo.
     Alberto ajoelhou-se à orla da sepultura, e orou; todos imitaram, e aquelas regiões selvagens guardaram respeitoso silêncio enquanto durou o ato religioso, enquanto a oração subiu da terra ao trono do Senhor.
     E quando eles deixaram no sepulcro aqueles que tão extremamente se adoravam, e quando lembraram-se novamente do velho tupinambá, e o olharam, ele tinha a face em terra, e o tacape lhe havia escapado das mãos.
    Então um velho marinheiro, tocando-o com a ponta do pé, e voltando--lhe o corpo para o lado, disse:

— Está morto!
Fim...

continua na página 163...
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Gupeva - V (Ao alvorecer do dia)

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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Gupeva - IV (Era alta noite)

Maria Firmina dos Reis


Gupeva

IV 


— Era alta noite, – prosseguiu ele, com uma voz cavernosa, – o vento ciciava entre os palmares, e a lua, prateando a superfície das águas, passava melancólica por cima destas árvores anosas. A sururina desprendia o seu canto harmonioso; na mata ondulava um vento gemedor, e o mar quebrava-se nas solidões da praia. Sobre o cume deste mesmo rochedo, mancebo, a essa hora da noite, silenciosa, e erma, um jovem índio, e uma donzela americana, que o céu, ou o inferno havia unido em matrimônio, naquele mesmo dia, em confidência dolorosa, tragava até as fezes o amargor da desonra, e da ignomínia. De joelho a mulher fazia a mais custosa, e triste confissão, que jamais caiu dos lábios de uma mulher.

— Gupeva! Meu Gupeva – exclamava ela. – Assim se chamava, senhor, o jovem esposo. — Meu irmão, meu amigo, poderás perdoar-me?

— Fala! – disse-lhe Gupeva, tremendo de furor.

— Vou merecer o teu desprezo, o teu abandono; mas ao menos peço que meu pobre pai ignore tudo. Gupeva, confiei em ti; talvez minha confiança te ofenda; mas tu conheces a meu pai... ele não poderia sobreviver à minha...

— Cala-te! Cala-te, mulher, – exclamou com desespero assustador o desgraçado esposo.

— Não, – continuou ela sem se perturbar. Tens sobre mim direito de vida, ou morte, mata-me Gupeva; mas ouve-me primeiro.

— Épica! Épica, oh! Se isto fora um sonho!

— Amei, – continuou ela, – amei com esse amor ardente, e apaixonado que só o nosso clima sabe inspirar, com essa dedicação de que só é capaz a mulher americana, com essa ternura, que o homem nunca soube compreender. E sabes tu que homem era esse?

— Basta!

— Oh! É preciso que me escutes até o fim, depois mata-me.

   Esquecida, prosseguiu Épica, de que o homem de suas afeições chamava-se o conde de..., — Gupeva, eu cometi uma falta, que mais tarde devia cobrir de opróbrio o homem que me recebesse por esposa. O amor não prendeu o coração do conde, ele esqueceu os extremos de meus afetos, e desposou uma donzela nobre de sua nação, sem sequer comover-se das minhas lágrimas.
   Ah! bem tarde conheci eu a grandeza do meu sacrifício; bem tarde reconheci a perfídia, e a indignidade no coração daquele que era até então o meu ídolo. A pequenez da minha origem apagou-lhe o amor no coração... O conde de..., Gupeva, era já esposo, e eu... eu trazia em meu seio um filho, que há de envergonhar-se do seu nascimento!...
   Ao nome do conde de..., proferido pelo tupinambá, um calafrio mortal percorreu os membros do jovem Gastão, que submergido em longas cogitações, ouvia a narração do índio: no fundo do coração despontava-lhe um tormento inqualificável.
   O índio prosseguiu: — Ela estorcia-se convulsa no leito de relva a meus pés; porque, senhor, esse esposo desventurado, que na primeira noite do seu casamento, ouvia semelhante confissão, esse homem que acabara de receber a mulher impura, e maculada pelo filho da Europa, esse homem enfim que devorado por um amor louco, e apaixonado, estampada em sua fronte o ferrete da ignomínia, o cunho do opróbrio, era eu.

— Vós! – exclamou Gastão, com um sentimento indizível.

— Sim eu!... Eu mesmo, – respondeu o cacique, com voz de trovão.

   E prosseguiu: — O que se passou porém nessa noite de tão amargurada recordação, só Deus e eu sabemos. O sedutor de Épica, mancebo, era um francês, um francês é um cristão; bem, desde essa hora eu deixei de o ser. Tupã não abandona seus filhos... mancebo, eu não amo o Deus dos Cristãos. O conde de... era filho da Igreja.
   Gastão tentou interrompê-lo; mas ele continuou:
   A vergonha, a dor, bem depressa levaram ao sepulcro a desgraçada Épica. Não segui de perto essa mulher por quem houvera dado todo o meu sangue, se disso dependesse a sua ventura, porque restavam-me penosas missões a cumprir. Penosas, mancebo, e bem árduas: vivi para cumpri-las; ouvis?
   Restava-me o dever de velar por essa menina, que tem em suas veias o sangue francês, velar pela filha do conde de..., velar finalmente por Épica, essa jovem donzela a quem pretendeis seduzir.

— Oh! – Exclamou Gastão, pálido como o sudário dum morto. – Meu Deus! Meu Deus, onde estou eu!...

— Inda uma outra missão me reteve a vida, continuou Gupeva, – a vingança...

   No momento em que no seio da sepultura se escondia para sempre os restos daquela a quem eu tanto amei, de joelhos, senhor, de joelhos jurei que havia de vingá-la. Anhangá escutava os protestos da minha alma. Um guerreiro amanhã desposará a minha Épica, e hoje, daqui a um minuto, eu terei vingado a mulher que lhe deu a vida. Agora, mancebo, estás em meu poder; eu podia prender-te; aqui está a suçurrama, podia apresentar-te a minha tribo, e fazer-te morrer como meu prisioneiro, mas não quero; duas razões que me obrigam a proceder ao contrário. Para dar-te essa morte honrosa era preciso dar a causa dela; minha desonra se tornaria manifesta; e por outra: tu, covarde europeu, hás de empalidecer em face da morte: quero poupar-me a vergonha de uma confissão, quero poupar a meus irmãos o espetáculo de um covarde. Prepara-te para morrer; ou mata-me...
   O que então se passava na alma do infeliz mancebo, a quem eram dirigidas tais palavras, não pôde a pena descrever. O mais doloroso golpe acabava de traspassar-lhe o coração; golpe o mais profundo, mais dilacerante, que jamais feriu o coração de um homem. Gastão não amaldiçoou a hora do seu nascimento; mas pediu a Deus a morte, o esquecimento. Todas as suas ilusões estavam dissipadas; desfeitos todos os seus sonhos. Já não era Gupeva que se interpunha entre ele e o seu amor, era Deus, era a natureza, era a sua própria consciência. Depois do amor, a morte... ele havia dito... Seria acaso um erro?

— Da minha vingança serás tu a primeira vítima, continuou o cacique: mais tarde o conde de...

— Eis-me, – disse Gastão, interrompendo. — Gupeva, eu sou filho do conde de... não me reconheceste então? Oh! Eu sou francês, sou o filho do sedutor da vossa esposa, sou irmão de Épica...

— Infame! – rugiu o velho tupinambá. — Infame filho do conde de..., não terei compaixão de ti. E brandindo o seu tacape, o cravou com fúria no peito do jovem oficial. E batia com os pés na terra; e fazia com gritos um alarido infernal.

   Gastão, levando a mão à ferida, obrigou-o por um instante a calar-se, e disse-lhe:

— Obrigado, Gupeva, eu queria a morte.

— Covarde! – exclamou o índio.

— Não me insultes na hora do passamento, – tornou-lhe o moço empalidecendo. — Cacique, eu podia matar-te; mas para que quereria eu a vida depois do que me acabaste de narrar?... 

   Nessa hora, a lua rompendo o negrume das nuvens aclarou com sua face pálida o cimo do outeiro. Era o meio giro da lua: a hora da entrevista tinha soado.
   E uma visão angélica, uma mulher vaporosa, apareceu no cume do outeiro, como um anjo mandado pelo Senhor para receber a alma do mancebo cristão, que ia partir. Era Épica.
   Ela soltou um grito de angústia à vista da cena, que mercê da lua, se apresentou a seus olhos. Esse grito, essa voz tão conhecida, tão amada, atraindo a atenção do moribundo, fez calar o guerreiro índio, que apupava a sua vítima.
   Ela avançou alguns passos, e olhando fixamente para seu pai, disse-lhe:

— Gupeva, por que o mataste? Cruel! Sabes acaso, que este é o homem a quem adoro?

   Gupeva, esse feroz Gupeva, esse bárbaro que se ufanava da sua vingança até na presença da morte, à voz da moça, cruzou os braços sobre o peito, e com um olhar que queria dizer: Perdão, exclamou com aflição:

— Épica!...

   Ela pareceu não ouvir essa única palavra, que em si resumia quanta ternura há no coração dum homem, seus grandes olhos negros como o azeviche fitavam-se desvairados no mancebo agonizante. Ondulavam à mercê do vento suas madeixas acetinadas: e seu corpo flexível, e mimoso como o leque da palmeira, cedendo a um vertiginoso ondular, caiu inerte sobre o jovem Gastão.
   Ele olhou-a com assombro, e disse-lhe:

— É um crime.

— Monstro! – tornou ela para Gupeva, que, com os olhos fitos no chão, não se atrevia a encarar a donzela. — Monstro! Foi para me rasgares o coração que me criaste em teus braços!... E voltando-se para o jovem francês, disse-lhe:

— Gastão, meu querido Gastão, vive para a tua Épica.

   Nesses olhos em que já se estampava a morte, um átomo de vida reapareceu.

— Épica, – disse ele, – o nosso amor era um crime... Épica, eu sou teu irmão!...

continua na página 160...
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Gupeva - IV (Era alta noite)
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Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, no Maranhão, no dia 11 de outubro de 1825. Filha bastarda de João Pedro Esteves e Leonor Felipe dos Reis. Foi uma escritora brasileira, considerada a primeira romancista brasileira.
Em 1847, aos 22 anos, ela foi aprovada em um concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, sendo assim a primeira professora concursada de seu Estado. Maria demonstrou sua afinidade com a escrita ao publicar “Úrsula” em 1859, primeiro romance abolicionista, primeiro escrito por uma mulher negra brasileira.
O romance “Úrsula” consagrou Maria Firmina como escritora e também foi o primeiro romance da literatura afro-brasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente. Em 1887, no auge da campanha abolicionista, a escritora publica o livro “A Escrava”, reforçando sua postura antiescravista.

Ao aposentar-se, em 1880, fundou uma escola mista e gratuita. Maria morre aos 92 anos, na cidade de Guimarães, no dia 11 de novembro de 1917.
Em 1975, Maria recebe uma homenagem de José Nascimento Morais Filho que publica a primeira biografia da escritora, Maria Firmina: fragmentos de uma vida.
A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX. Antes do Navio negreiro de Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”. Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres. 
Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.