Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sexta Parte
II
Durante dois dias a neve caíra; naquela manhã ela parara de cair,
mas um lençol branco cobria tudo. Essa região escura, de estradas negras,
com paredes e árvores cobertas de poeira de hulha, estava toda branca, de
uma brancura única, que se estendia ao infinito. O conjunto habitacional
dos Deux-Cent-Quarante jazia sob a neve, como que desaparecido. Nem a
mais leve fumaça escapava das chaminés. As casas sem fogo, tão frias
como as pedras dos caminhos, não derretiam a grossa camada de neve sobre
as telhas. O conjunto habitacional não era mais que um renque de lápides
brancas, uma visão de vila morta, envolta na sua mortalha. Ao longo das
ruas, só as patrulhas passando deixavam a marca lodosa dos seus cascos.
Nos Maheu, a última pazada de lascas de carvão ardera na véspera;
e procurar mais no aterro, com aquele tempo terrível, quando os próprios
pardais não encontravam um talo de erva, era impossível. Alzire, por ter
teimado em procurar na neve, estava morrendo. A mãe tivera de a enrolar
num trapo de coberta, enquanto esperava o Dr. Vanderhaghen, à casa de
quem já fora duas vezes sem o encontrar. A criada, no entanto, prometera
que ele passaria pelo conjunto habitacional antes do anoitecer, e a mulher
espiava agora pela janela, enquanto a pequena enferma, que tinha querido
ficar embaixo, tiritava sobre uma cadeira, com a ilusão de que ali estava
mais quente, perto do fogão apagado. O velho Boa-Morte, em frente, outra
vez com as pernas endurecidas, parecia dormir. Lénore e Henri ainda não
tinham voltado, andavam percorrendo as estradas em companhia de Jeanlin,
pedindo esmolas. Pela sala nua, só Maheu caminhava pesadamente,
tropeçando continuamente na parede, com o ar imbecilizado de um animal
que já não vê mais sua jaula. O querosene também acabara, mas o reflexo
da neve lá fora era tão branco, que iluminava vagamente a peça, apesar de
já ser noite.
Houve um barulho de tamancos, e a mulher de Levaque empurrou a
porta como um furacão, fora de si, gritando do portal para a vizinha:
— Então tu andaste dizendo que eu forçava meu inquilino pagar-me
vinte soldos cada vez que ele dormia comigo?!
A outra deu de ombros.
— Não chateies! Eu não disse nada... Mas quem te contou isso?
— Disseram-me que tu tinhas dito, chega! E disseste também que
escutavas, quando fazíamos a coisa, através das paredes, e que a sujeira era
enorme na minha casa porque eu estava sempre de pernas abertas... Ainda
tens coragem de negar? Fala!
Brigas como essa eram diárias, por causa da língua das mulheres;
sobretudo entre as famílias que viviam em paredes-meias, as desavenças e
reconciliações não duravam um dia. Mas nunca antes maldade tão desabrida
os atirara uns contra os outros. Desde a greve, a fome exasperava os
rancores, todos tinham necessidade de brigar, uma explicação entre duas
mulheres terminava sempre com uma luta de morte entre os dois maridos.
Justamente nesse momento chegou Levaque, arrastando Bouteloup.
— Aqui está o sujeito, que ele diga se já pagou vinte soldos à minha
mulher para dormir com ela.
O inquilino, que procurava esconder sua candura assustada com
grandes barbas, balbuciou protestando:
— Oh, não! Nunca, nunca paguei nada!
Subitamente Levaque tornou-se ameaçador, com o punho no rosto
de Maheu.
— Isso agora não passa, ouviste? Quem tem uma mulher assim
desanca-a de pancadas... Tu acreditas no que ela disse?
— Mas com mil raios! — exclamou Maheu, furioso por ter sido
arrancado do seu abatimento. — Vocês ainda encontram tempo para fazer
intrigas? Será que a gente já não tem miséria que chegue? Deixa-me em paz
ou eu te acachapo! Agora quero saber quem foi que disse que minha mulher
falou isso!
— Quem?... Foi a mulher do Pierron.
A mulher de Maheu deu uma gargalhada sarcástica, e, voltando-se
para a vizinha, disse:
— Ah, então foi ela! Pois bem, agora vou dizer-te o que ela me
disse. Ouve bem! Ela me disse que tu dormias com teus dois homens, um
por cima e outro por baixo!
A partir daí ninguém mais se entendeu. Todos estavam furiosos; os
Levaque respondiam aos Maheu que a mulher de Pierron tinha dito poucas
e boas a respeito deles: que tinham vendido Catherine e que estavam todos
podres, até as crianças, contaminados por uma sujeira que Etienne apanhara
no Volcan.
— Ela disse isso? ela disse isso? — berrou Maheu. — Pois tudo
bem, vou até lá, e, se repetir o que disse, rebento-lhe a cara.
Lançou-se para a rua, os Levaque o seguiram para assistir à briga,
enquanto Bouteloup, que tinha horror de disputas, voltava furtivamente para
casa. Excitada pelo bate-boca, a mulher de Maheu também ia saindo
quando foi retida por um gemido de Alzire. Cruzou as pontas da coberta
sobre o corpo trêmulo da menina e voltou para a janela, os olhos vagando.
E esse médico que não vinha!
À porta dos Pierron, Maheu e os Levaque encontraram Lydie
chafurdando na neve. A casa estava fechada, um fio de luz passava pela
fenda da janela e a criança, a princípio, respondeu constrangida às
perguntas: não, seu pai não estava, tinha ido ao lavadouro encontrar a
Queimada, para trazer a trouxa de roupa. Depois ficou confusa, não quis
dizer o que a mãe fazia naquele momento. Finalmente soltou a língua, com
um riso sorrateiro de rancor: sua mãe a pusera para fora porque o Sr.
Dansaert estava lá dentro e ela não os deixava conversar. O capataz passara
toda a manhã no conjunto habitacional, com dois policiais, tentando
recrutar operários, forçando os fracos, anunciando aos quatro ventos que, se
não voltassem até segunda-feira ao trabalho, a companhia ia contratar
mineiros belgas. E ao cair da tarde, tendo encontrado a mulher de Pierron
sozinha, mandou embora os policiais. Depois instalara-se ali, bebendo
genebra diante do fogo.
— Psiu! Fiquem quietos, vamos espiá-los — murmurou Levaque
com um riso impudente. — Em seguida tiraremos satisfações. Vai-te
embora, cadelinha!
Lydie recuou alguns passos enquanto ele punha um olho na fresta
da janela. Em seguida começou a abafar risinhos, suas costas se arqueavam
e fremiam. Por sua vez a mulher olhou também, mas disse, como se
estivesse para vomitar, que sentia nojo. Maheu, que a empurrara, querendo
ver também, declarou que já vira o bastante para poder desforrar-se. E os
três recomeçaram, em fila, a olhar, como no teatro. A sala, reluzindo de tão
limpa, era alegre graças ao belo fogo aceso na lareira; havia doces sobre a
mesa, uma garrafa e dois copos; enfim, uma verdadeira farra. Era tanta
coisa o que os dois homens viam que acabaram ficando exasperados com o
que noutras circunstâncias os teria feito rir por seis meses.
Que ela levantasse as saias e se empanturrasse de sexo até não
poder mais, ainda tinha graça. Mas, diacho! não era mesmo urna sem-vergonhice fazer isso diante de um fogo tão agradável e à base dos
biscoitos, quando os demais companheiros não tinham uma migalha de pão
ou uma lasca de carvão?
— Olha o papai! — gritou Lydie escapando.
Pierron voltava tranqüilamente do lavadouro, a trouxa de roupa
num ombro. Maheu foi logo interpelando-o:
— Escuta aqui, disseram-me que tua mulher tinha falado que eu
vendera Catherine e que lá em casa estávamos todos podres... E na tua,
quanto paga à tua mulher o homem que neste momento está fazendo uso
dela?
Atordoado, Pierron não compreendia, quando a mulher, assustada
com o vozerio, perdeu a cabeça a ponto de entreabrir a porta, para ver o que
se passava. Estava toda afogueada, com o corpete aberto e a saia ainda
levantada, presa à cintura, enquanto Dansaert, ao fundo, enfiava as calças,
em pânico. O capataz escapou, desapareceu, temendo que uma história
dessa chegasse aos ouvidos do diretor. Armou-se então um escândalo
terrível, com gargalhadas, vaias e injúrias.
— Tu que sempre andas dizendo que as outras são umas imundas
— berrava a mulher de Levaque — não admira que sejas limpa, tens os
chefes para te fazerem a limpeza.
— Ah! assenta-lhe como uma luva falar mal dos outros! —
continuou Levaque. — Pois não é que essa cadela disse que a minha mulher
dormia comigo e o inquilino, um por cima e o outro por baixo?! Tens
coragem de negar que disseste isso?
A mulher de Pierron, porém, já dona de si, enfrentava os palavrões
com um ar de desprezo, na certeza de ser a mais bonita e a mais rica.
— O que disse está dito, e deixem-me em paz! O que é que vocês
têm que ver com o que eu faço? Bando de invejosos, que nos odeiam só
porque depositamos dinheiro na caixa econômica! Podem ir falar à vontade,
meu marido sabe muito bem por que o Sr. Dansaert estava aqui em casa.
E realmente Pierron se excitava, defendia a mulher. A briga tomou
outros caminhos, chamaram-no de vendido, de espião, de lambe-botas da
companhia; acusaram-no de fechar-se em casa para encher a barriga de
guloseimas com que os chefes lhe pagavam as denúncias. Ele retrucava,
dizia que Maheu enfiara um papel com ameaças por baixo de sua porta,
onde estavam desenhadas duas tíbias em cruz, com um punhal por cima. E
tudo aquilo terminou, forçosamente, por uma pancadaria entre os homens,
como todas as intrigas de mulheres terminavam, visto que a fome punha
fora de si mesmo os mais calmos. Maheu e Levaque atiraram-se sobre
Pierron, massacrando-o; foi preciso separá-los. Quando a Queimada chegou
do lavadouro, o sangue corria aos borbotões do nariz do genro. posta a par
do que se passara, limitou-se a dizer:
— Esse porco é a minha desonra.
A rua ficou novamente deserta, nenhuma sombra manchava a
brancura da neve. E o conjunto habitacional, imerso novamente na sua
imobilidade de morte, estertorava de fome sob o frio intenso.
— E o médico? — perguntou Maheu fechando a porta.
— Não veio — respondeu a mulher, sempre em pé, à janela.
— As crianças chegaram?
— Ainda não.
Maheu voltou ao seu caminhar pesado, de uma parede à outra, com
o seu ar de boi encurralado. Entorpecido na cadeira, o velho Boa-Morte
nem sequer erguera a cabeça. Alzire também permanecia silenciosa,
procurava não tremer, para não os preocupar; mas, apesar de sua coragem
no sofrimento, por momentos tremia tanto, que se ouviam por baixo da
coberta os calafrios que percorriam seu corpinho esquelético de menina
enferma, enquanto, de olhos arregalados, olhava para o teto, observando o
pálido reflexo dos jardins todos brancos, que iluminavam a peça com uma
claridade de luar.
Entravam agora na última agonia, com a casa sem mais nada; era o
desenlace. Atrás da lã, tinha ido para o brechó a fazenda dos colchões;
depois foram os lençóis, a roupa branca, tudo aquilo que se podia vender.
Uma tarde, venderam por dois soldos o lenço do avô. As lágrimas corriam a
cada objeto doméstico de que tinham de se separar; e a mãe ainda se
lamentava por ter levado um dia, enrolada na saia, a caixa de cartão cor-de-rosa, antigo presente do seu homem, como se tivesse sido um filho que
abandonara a uma porta. Estavam nus, não tinham mais nada a vender a não
ser a pele, tão carcomida, tão estragada, que ninguém daria um centavo por
ela. Por isso nem se davam o trabalho de procurar, sabiam que não havia
mais nada, que era o fim de tudo, que não deviam esperar nem uma vela,
nem um pedaço de carvão, nem uma batata. Aguardavam apenas a morte; a
única pena que sentiam era pelas crianças, revoltava-os aquela crueldade
inútil, preferiam ter estrangulado Alzire a vê-la doente por causa deles.
— Até que enfim, aí vem ele! — exclamou a mulher.
Uma forma negra passou diante da janela. A porta se abriu. Mas
não era o Dr. Vanderhaghen... Reconheceram o novo pároco, o Padre
Ranvier, que não parecia surpreendido de ter entrado naquela casa morta,
sem luz, sem fogo, sem pão. Acabava de sair das três casas contíguas,
andava de família em família, recrutando homens de boa vontade, como
Dansaert com seus policiais. Foi logo explicando-se com sua voz febril de
sectário:
— Por que não foram à missa no domingo, meus filhos? Estão
errados, só a Igreja pode salvá-los... Vamos, prometam estar presentes no
próximo domingo...
continua na página 336...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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