quarta-feira, 15 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

II
continuando...

     Maheu, após examiná-lo, pôs-se outra vez a caminhar pesadamente, sem dizer palavra. Foi a mulher quem respondeu:

— À missa, senhor pároco? Para quê? Será que Deus não se esqueceu da gente? Veja a minha menina, por exemplo, ardendo em febre... Que poderia ela ter feito para ser castigada dessa maneira? Não chega a miséria que já temos de suportar, ele a põe nesse estado, quando nem sequer posso dar uma xícara de chá quente.

     O padre começou então a perorar. Analisou a greve, a miséria atroz, o rancor exasperado da fome, com o ardor de um missionário que catequiza selvagens, para maior glória da sua religião. Disse que a Igreja estava com os pobres, que um dia ela faria a justiça triunfar, fulminando com a cólera de Deus as iniquidades dos ricos. E esse dia estava próximo, já que os ricos tinham tomado o lugar de Deus e governavam sem ele, roubando impiamente o poder. Mas, se os operários queriam a partilha justa dos bens terrestres, deviam entregar-se sem demora nas mãos dos padres, da mesma maneira que, quando Jesus morreu, os pequenos e os humildes tinham-se agrupado em torno dos apóstolos. Que força imensa teria o papa, de que exército disporia o clero, quando comandasse a multidão inumerável dos trabalhadores! Em uma semana o mundo estaria purgado dos malvados, os patrões indignos seriam expulsos, enfim o verdadeiro reino de Deus triunfaria, cada um recompensado segundo seus méritos, a lei do trabalho regendo a felicidade universal.
     Escutando-o, a mulher julgava ouvir Etienne durante os serões do outono, quando este lhes anunciava o fim dos seus males. A diferença era que ela nunca tivera confiança nas batinas.

— Tudo o que o senhor diz é muito bonito — disse ela. — Quer dizer que então já não se entende mais com os burgueses... Todos os outros párocos que tivemos costumavam jantar com o diretor, e ameaçavam-nos com o inferno assim que reclamávamos pão.

     Ele recomeçou, falou do deplorável mal-entendido entre a Igreja e o povo. Com frases veladas atacou os padres das cidades, os bispos, o alto clero amante dos prazeres, cumulado de poder, pactuando com a burguesia liberal, na imbecilidade da sua cegueira, sem ver que era justamente essa burguesia que o espoliava do comando do mundo. A libertação viria dos padres de aldeia, que se levantariam para restabelecer o reino de Cristo, com a ajuda dos miseráveis. E ele já parecia estar à frente deles, empertigava sua estatura angulosa, como um chefe de guerrilhas, como um revolucionário do Evangelho, os olhos resplandecentes, iluminando a sala escura. A ardente prédica era toda feita de palavras místicas, aquela pobre família já não podia compreendê-lo.

— Chega de tanto falatório — grunhiu bruscamente Maheu. — Teria feito melhor trazendo-nos pão.
— Vão domingo à missa — exclamou o padre. — Deus cuidará do resto!

     E partiu, entrou na casa dos Levaque para catequizá-los, voando tão alto no seu sonho do triunfo final da Igreja, desdenhando a tal ponto os fatos, que percorria os conjuntos habitacionais mineiros sem uma esmola, de mãos vazias através daquele exército morrendo de fome, verdadeiro pobre-diabo que considerava o sofrimento como o incentivo da salvação.
     Maheu continuava a esquadrinhar a peça, seus passos faziam tremer o soalho. Houve um ruído de roldana enferrujada, o velho Boa-Morte escarrou no fogão apagado. Depois a cadência dos passos recomeçou. Alzire, prostrada pela febre, delirava baixinho, ria, julgando que fazia calor e brincava ao sol.

— Maldita sorte! — murmurou a mulher, após tocar-lhe as faces. — Agora está queimando de tanta febre. Já não espero mais esse canalha, decerto aqueles bandidos o proibiram de vir.

     Referia-se ao médico e à companhia. Contudo, soltou uma exclamação de alegria ao ver a porta abrir-se de novo. Mas seus braços voltaram a cair, permaneceu muito tesa, com a fisionomia carrancuda.

— Boa noite — disse Etienne a meia voz, após ter fechado cuidadosamente a porta.

     Costumava aparecer assim, com a noite fechada. Desde o segundo dia os Maheu foram informados do seu esconderijo, mas guardavam o segredo, ninguém nas redondezas sabia ao certo o que acontecera com o rapaz. Isso o envolvia em lenda. Continuavam acreditando nele, corriam rumores misteriosos: ia reaparecer à frente de um exército, com caixas cheias de ouro; era sempre a expectativa religiosa de um milagre, o ideal realizado, a entrada repentina na cidade da justiça que lhes fora prometida. Uns diziam tê-lo visto no fundo de uma caleça, em companhia de três cavalheiros, na estrada de Marchiennes; outros afirmavam que ainda por dois dias ficaria na Inglaterra. Com o correr do tempo, no entanto, começou a desconfiança, certos pulhas acusavam-no de esconder-se numa toca, onde a filha de Mouque o mantinha aquecido; essa ligação, conhecida de todos, prejudicara-o. Era, em meio à sua popularidade, uma lenta baixa de afeição, a surda maré dos convictos tomados de desespero, e cujo número, pouco a pouco, iria engrossando.

— Que tempo detestável! — acrescentou ele. — Como vai a coisa com vocês? Nada de novo? Sempre de mal a pior? Disseram-me que o Négrel tinha ido à Bélgica para contratar operários. Nem quero pensar... Se for verdade, estamos fritos!

     Fora percorrido por um arrepio ao entrar na sala gelada e escura, seus olhos tiveram de se acostumar para poder ver os infelizes, que julgava estarem na parte mais escura da peça. Sentia a repugnância, o mal-estar do operário que não mais pertence à sua classe, refinado pelo estudo, insuflado pela ambição. Que miséria, quanto mau cheiro, e os corpos amontoados, e a imensa piedade que lhe dava um nó na garganta! O espetáculo dessa agonia desesperava-o a tal ponto que não encontrava palavras para aconselhá-los à submissão.
     Mas Maheu colocara-se violentamente diante dele, gritando:

— Belgas? Que se atrevam, esses filhos da mãe! Que tragam belgas para trabalhar aqui, se querem que nós destruamos as minas.

     Constrangido, Etienne explicou que não poderiam fazer nada, que os soldados que guardavam as minas protegeriam a descida dos operários belgas. Maheu cerrava os punhos, irritado sobretudo, como ele dizia, por ter as baionetas apontadas para as suas costas. Então os mineiros já não eram mais donos de si? Eram tratados como forçados, obrigados a trabalhar, sob a mira de um fuzil? Gostava do seu poço, sentia falta dele, já fazia dois meses que não descia... Por isso, sentia o sangue fervendo quando pensava em tal desaforo trazerem estrangeiros para ali trabalhar. Mas, ao lembrar-se de que lhe tinham devolvido a carteira de trabalho, seu coração baqueou.

— Não sei por que me zango — murmurou ele. — Nada mais tenho que ver com isso... Quando me expulsarem daqui, posso ir morrer por aí.
— Deixa disso! — contestou Etienne. — Se quiseres, amanhã eles te recebem de volta. Operários como tu não são despedidos.

     Interrompeu-se, espantado de ouvir Alzire, que ria suavemente, no delírio da febre. Até então só distinguira a sombra rija do velho Boa-Morte, e essa alegria da menina doente o apavorava. Era demais se até as crianças começassem a morrer! Com voz trêmula, decidiu-se:

— Isso não pode continuar, estamos perdidos... Temos que nos render...

     A mulher de Maheu, até esse momento silenciosa e imóvel, explodiu de repente, gritando-lhe no rosto, tratando-o por tu e praguejando como um homem:

— O que é que tu estás dizendo? Tu dizes isso? Raios te partam! Ele quis apresentar suas razões, mas ela não o deixou falar.
— Não repitas isso, com todos os diabos! Ou eu, mesmo sendo mulher, te mando esta mão na cara... Então estamos aqui morrendo de fome há dois meses, vendi tudo o que tinha dentro de casa, meus filhos caíram doentes, para nada, para a injustiça recomeçar? Ah, só de pensar, o sangue me sobe à cabeça! Não e não! Prefiro queimar tudo, agora estou disposta até a matar em vez de me render.

     Com um grande gesto ameaçador apontou para Maheu no escuro.

— Escuta bem, se o meu marido volta para a mina, serei a primeira a esperá-lo na estrada para cuspir-lhe na cara e chamá-lo de covarde.

     Etienne não a via, mas sentiu o calor, um bafejo de animal latindo, e recuou assustado diante daquela fúria, que era obra sua. Achava-a tão mudada que não reconhecia mais nela a mulher prudente de outrora, que exprobrava a sua violência, dizendo que não se devia desejar a morte de ninguém, e agora não queria ouvir nada, fechada à razão, falando em matar gente. Já não era ele, mas ela que falava em política, que queria varrer de um golpe os burgueses, que pedia a república e a guilhotina, para limpar a terra dos ladrões ricos, engordados com o suor dos miseráveis.

— Era capaz de arrancar-lhes a pele com as minhas próprias mãos... Chega! é a nossa vez, como tu bem o dizias... Quando penso que o pai, o avô, o pai do avô e todos aqueles antes deles sofreram o que nós estamos sofrendo, e o que nossos filhos e os filhos dos nossos filhos sofrerão ainda, fico louca, tenho vontade de apanhar uma faca e sair por aí... No outro dia fomos muito comedidos. Devíamos ter arrasado Montsou, até o último tijolo. E, sabes? só lastimo uma coisa, não ter deixado o velho estrangular a moça da Piolaine... Eles não estão matando meus filhos de fome?

     Suas palavras cortavam como machados em plena noite. O horizonte fechado não quisera abrir-se, o ideal impossível se transformava em veneno no fundo daquele cérebro enlouquecido pela dor.

— A senhora não me compreendeu — pôde enfim dizer Etienne, que batia em retirada. 
— Devia-se chegar a um acordo com a companhia; sei que os poços estão muito danificados e sem dúvida ela aceitaria uma conciliação. 
— Não, isso nunca! — berrou ela.

     Nesse momento Lénore e Henri entraram, de mãos abanando. Um homem lhes dera dois soldos, mas, como a irmã passava todo o tempo dando pontapés no irmão, o dinheiro se perdera na neve. Até Jeanlin os ajudara a procurar, mas inutilmente.

— E onde está Jeanlin? 
— Foi embora, mamãe, disse que tinha o que fazer.

     Etienne escutava, desesperado. Tempos atrás, a mulher ameaçava matá-los se os filhos ousassem estender a mão. Hoje era ela mesma quem os mandava para as estradas e falava até em irem todos, os dez mil mineiros de Montsou, com o bordão e a sacola dos mendigos velhos, invadindo a região apavorada.
     A angústia foi ainda maior na peça escura com a volta dos pequenos famélicos, que queriam comer. Por que não lhes davam comida de uma vez? Começaram a chorar e a brigar entre si, acabaram caindo sobre os pés da irmã agonizante, que soltou um gemido. Fora de si, a mãe espancou-os, ao acaso das trevas. Depois, como eles gritassem ainda mais forte, pedindo pão, desfez-se em pranto, caiu sentada no chão, cingiu-os num só abraço que abarcou a pequena enferma. E assim, por muito tempo, correram-lhe as lágrimas, num relaxamento nervoso que a deixou mole, aniquilada, balbuciando vinte vezes a mesma frase, chamando a morte: "Meu Deus, leva-nos para junto de ti! Meu Deus, tem piedade, leva-nos uma vez, para terminar com isto!" O avô conservou-se imóvel, uma velha árvore batida pelo vento e a chuva, enquanto o pai continuava a percorrer o espaço entre o fogão e o guarda-comida, sem olhar para nada.
     De repente a porta abriu-se, e desta vez era o Dr. Vanderhaghen.

— Diabo! — exclamou. — Um pouco de luz não vai estragar os olhos de vocês... Vamos, vamos que estou com pressa!

     Resmungava, como de hábito, esfalfado pelo trabalho. Felizmente traria fósforos; Maheu teve de acender seis, um a um, para que ele pudesse examinar a doente. Sem as cobertas, a menina tiritava sob a luz vacilante, magra como um passarinho agonizando na neve, tão fraca que só se lhe via a corcunda. E, contudo, sorria, um sorriso alucinado de moribunda, os olhos saltados, enquanto as mãozinhas se crispavam no vazio do peito. E, como a mãe, sufocada, perguntasse se era justo levar, antes dela, a única filha que a ajudava no trabalho da casa, tão inteligente, tão meiga, o doutor perdeu a paciência.

— Pois aí está, expirou... Morreu de fome, a desgraçada. E ela não é a única; agora mesmo vi outra ao lado. Todos vocês me chamam, mas eu não posso fazer nada, é de carne que precisam para se curarem.

     Maheu, com os dedos queimados, soltara o fósforo, e as trevas voltaram a cobrir o pequeno cadáver ainda quente. O médico partira, correndo. Etienne ouvia apenas na peça escura os soluços da mulher, invocando a morte, numa lamentação lúgubre e sem fim:

— Meu Deus, chegou a minha hora, leva-me também! Meu Deus, leva o meu marido, leva toda a minha família, por piedade, para terminar com isto!

continua na página 342...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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