sexta-feira, 3 de julho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (I.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

I

continuando...

     Havia, com efeito, em toda a região, um longo fragor de ruínas. A noite, enquanto vagava pela planície escura como um lobo fora do esconderijo, parecia estar ouvindo o estrondo das falências, de uma ponta à outra do campo. À beira dos caminhos só encontrava fábricas mortas, com seus edifícios apodrecendo sob um céu baço.
     As que mais tinham sofrido eram as usinas de refinação de açúcar A Hoton e a Fauvelle, após terem reduzido o número de seus operários, haviam fechado uma atrás da outra. Na fábrica de moagem Dutilleul, a mó que ainda trabalhava tinha parado no segundo sábado do mês, e a cordoaria Bleuze, que fabricava cabos de minas fechara definitivamente suas portas por falta de trabalho. Para o lado de Marchiennes a situação agravava-se diariamente: todos os fogos apagados na vidraria Gagebois, demissões contínuas nas oficinas de construção Sonneville, dos três altos-fornos das Forjas só um aceso, nem mais uma bateria das fornalhas de coque ardendo no horizonte. A greve dos mineiros de Montsou, nascida da crise industrial que piorava havia dois anos, aumentara-a, precipitando a catástrofe. Às causas da crise, como a suspensão das encomendas da América, o estrangulamento dos capitais imobilizados num excesso de produção, juntava-se agora a falta imprevista de hulha para as poucas caldeiras que ainda permaneciam acesas — era essa a agonia suprema, a falta do pão das máquinas que os poços não forneciam mais. Assustada com o mal-estar geral, a companhia, diminuindo sua extração e esfomeando seus mineiros, em fins de dezembro encontrara-se fatalmente sem um pedaço de carvão no pátio das suas minas. Eram os elos de uma cadeia, o flagelo soprava de longe, uma queda provocava a outra, as indústrias iam-se esmagando umas às outras, numa série tão rápida de catástrofes, que as consequências repercutiam até nas cidades vizinhas — Lille, Douai, Valenciennes —, onde certos banqueiros em fuga arruinaram famílias inteiras.
     Muitas vezes, na curva de uma estrada, Etienne parava na noite gelada para ouvir choverem os escombros. Respirava profundamente as trevas, deixava-se possuir pela alegria do nada, pela esperança de que o dia raiaria sobre a exterminação do velho mundo, com todas as fortunas arrasadas, o nível igualitário passado como uma foice, rente ao chão. Mas o que mais interessava nesse massacre eram as minas da companhia. Punha se de novo a caminho, cegado pelas sombras, visitando a todas elas, feliz ao constatar algum estrago recente. Os desmoronamentos continuavam a produzir-se, e cada vez mais graves, à medida que a não-restauração das vias se prolongava. Por cima da galeria norte da Mirou, a aluição do solo tomava tais proporções, que a estrada de Joiselle afundara num percurso de cem metros, como se tivesse havido um tremor de terra. E a companhia, sem regatear, pagava aos proprietários seus campos desaparecidos, tentando aplacar os rumores que corriam a respeito de tais acidentes. Crèvecoeur e Madeleine, de rocha muito desmoronadiça, estavam cada vez mais entulhadas. Falava-se que dois contramestres tinham ficado soterrados na Victoire; uma enchente inundara a Feutry Cantel; um quilômetro de galeria na Saint-Thomas teria de murado, porque o escoramento, por falta de reparação, estava rachando por todos os lados. Dessa forma, a todo momento havia enormes despesas, brechas abertas nos dividendos dos acionistas, uma rápida destruição das minas, que, com o tempo, terminaria comendo os famosos dinheiros de Montsou, centuplicados em um século.
     Diante desses golpes repetidos, a esperança renascia em Etienne, acabava acreditando que com um terceiro mês de resistência daria cabo do monstro, do animal cansado e farto, agachado como um ídolo lá longe, no seu ignoto tabernáculo. Sabia que, com a revolta de Montsou, viva emoção se apoderara dos jornais de Paris, uma violenta polêmica entre a imprensa oficiosa e a imprensa da oposição, reportagens aterradoras que eram exploradas sobretudo contra a Internacional, a quem o império temia, depois de a ter encorajado. E, como a administração não podia continuar fazendo ouvidos de mercador, dois dos administradores tinham-se dignado vir para realizar um inquérito, mas de má vontade, sem parecerem inquietos com o desfecho, tão desinteressados que três dias depois já estavam partindo, declarando que tudo ia muito bem. Contudo, afirmavam-lhe, por outro lado, que esses senhores, durante sua permanência em Montsou, mantiveram-se em sessão permanente, desenvolvendo uma atividade febril, mergulhados em discussões das quais as pessoas em torno deles não quiseram falar. E Etienne acusava-os de simularem calma, chegava a chamar sua partida de fuga precipitada, certo agora do triunfo, já que esses homens terríveis tinham abandonado tudo.
     Mas, na noite seguinte, ficou novamente desesperado. A companhia era muito poderosa para ser abatida com tal facilidade, podia perder milhões, mais tarde os reaveria por meio dos operários, cortando-lhes o pão. Nessa noite, tendo ido até a Jean-Bart, deu-se conta da verdade, quando um vigia lhe contou que se falava em ceder Vandame a Montsou. Ao que se dizia, lavrava a miséria mais terrível na casa de Deneulin, a miséria dos ricos, o pai doente por não saber o que fazer, envelhecido com a preocupação do dinheiro, as filhas lutando com os fornecedores, tentando salvar suas camisolas.
     Nos conjuntos habitacionais famintos sofria-se menos do que nessa casa burguesa, onde se escondiam para beber água. O trabalho ainda estava suspenso na Jean-Bart, e fora preciso substituir a bomba da Gaston-Marie, isso sem falar no começo de inundação apesar do conserto imediato, exigindo grandes gastos. Deneulin apresentara enfim o pedido de empréstimo de cem mil francos aos Grégoire, cuja recusa, já esperada, acabou de abatê-lo. Os Grégoire diziam que, se recusavam, faziam-no por amizade, para o pouparem de uma luta inglória, e, ao mesmo tempo, aconselhavam-no a vender a concessão. Mas Deneulin, irredutível, continuava a dizer não. Enfurecia-o ter de pagar pela greve, preferia morrer primeiro com todo o sangue na cabeça, de apoplexia. Que mais podia fazer? Já conhecia as ofertas. Chicaneavam com ele, depreciavam aquela presa magnífica, o poço reparado, todo reequipado, onde só a falta de dinheiro paralisava a exploração. Dar-se-ia por satisfeito se pudesse conseguir o suficiente para pagar os credores. Durante dois dias batera-se com os administradores acampados em Montsou, furibundo com o jeito tranquilo com que eles exploravam suas dificuldades, gritando-lhes "nunca" com sua voz poderosa. E as negociações ficaram nisso, os administradores voltaram a Paris para esperar pacientemente seu último estertor. Etienne farejou essa compensação de desastres, cheio de desânimo diante do poderio invencível dos grandes capitais, tão fortes na batalha, que engordavam com a derrota comendo os cadáveres dos pequenos, caídos ao seu lado.
     No dia seguinte, felizmente, Jeanlin lhe trouxe uma boa notícia. Na Voreux, o revestimento do poço ameaçava ruir, a água infiltrava-se por todas as juntas, tiveram de pôr às pressas uma turma de carpinteiros para fazer a reparação.
     Até ali, Etienne tinha evitado a Voreux, temendo a eterna figura negra da sentinela, postada no aterro por cima da planície. Não era possível evitá-la, via tudo, era como a bandeira de um regimento drapejando no ar. Lá pelas três horas da madrugada, o céu tornou-se sombrio e ele foi à mina, onde alguns camaradas lhe explicaram o mau estado do revestimento; eram de opinião que teria de ser todo refeito, o que suspenderia a extração por três meses. Andou por ali longamente, escutando os martelos dos carpinteiros batendo no poço. Alegrava-lhe o coração aquela nova ferida que era preciso tratar.
     Ao alvorecer, quando voltava, encontrou a sentinela sobre o aterro. Desta vez, certamente, ela o veria. Foi-se embora pensando nesses soldados tirados de entre o povo e que eram armados contra o povo. Como o triunfo da revolução seria fácil, se o Exército, de repente se declarasse a seu favor! Bastava que o operário e o e o camponês nas casernas se lembrassem de suas origens. Esse era o perigo supremo, o grande pavor que fazia os burgueses baterem o queixo quando pensavam numa defecção possível das tropas. Em duas horas seriam varridos, exterminados, com os prazeres e as abominações de suas vidas de iniquidades. Já se dizia que regimentos inteiros estavam contaminados pelo socialismo. Seria verdade? A justiça iria triunfar graças aos cartuchos distribuídos pela burguesia? E passando para outra esperança, o rapaz começou a sonhar que as guarnições das minas também entravam em greve, fuzilando a companhia inteira e entregando enfim a mina aos mineiros.
     Notou então que subia o aterro, levado por aquelas reflexões. Por que não conversar um pouco com o soldado? Ao menos ficaria sabendo o que pensava. Com jeito despreocupado continuou aproximando-se, como se estivesse colhendo aparas de madeira abandonadas ali. A sentinela permanecia imóvel. 

— Que tempo dos diabos, hem, companheiro? — disse enfim Etienne. — Acho que vamos ter neve.

     Era um soldadinho muito louro, de rosto meigo e pálido, cheio de sardas. Parecia enleado como um recruta com aquele capote. 

— É, eu também acho — murmurou ele.

     E com os seus olhos azuis esquadrinhou longamente o céu lívido, o amanhecer fumacento, cuja fuligem pesava como chumbo sobre a planície ao longe. 

— Que ideia estúpida de porem vocês aqui, gelando até os ossos... — continuou Etienne. — Como se os cossacos estivessem por atacar... Além do mais, venta muito neste lugar.

     O soldadinho tiritava sem se queixar. Havia ali uma cabana de pedra solta, onde o velho Boa-Morte se abrigava nas noites de tempestade, mas, como a ordem era para não abandonar o topo do aterro, o soldado não se movia, com as mãos tão enregeladas que nem sentia mais a arma. Pertencia à guarnição de sessenta homens que guardava a Voreux; e, como aquele posto cruel já lhe tocara diversas vezes, estivera mesmo a ponto de lá ficar, com os pés encarangados. Isso fazia parte da profissão, uma obediência passiva tornava-o ainda mais entorpecido, respondia às perguntas com palavras tartamudeadas de criança que dormita.
     Durante um quarto de hora, Etienne tentou inutilmente falar de política. Dizia sim, não, sem parecer estar compreende-lo, seus companheiros falavam que o capitão era republicano; quanto a' ele, não tinha opinião, era-lhe indiferente. Se o mandassem atirar , ele atiraria, para não ser punido.
     O operário escutava, invadido do ódio popular contra o Exército contra esses irmãos a quem mudavam o coração, enfiando-lhe umas calças vermelhas. 

— Como é o seu nome? 
— Jules. 
— E é de que região? 
— De Plogoff, longe.

     Estendeu o braço apontando ao acaso. Era na Bretanha, só isso sabia. Seu rostinho pálido animou-se, pôs-se a rir, entusiasmado. 

— Tenho mãe e irmã. Estão-me esperando, claro. Ah, mas ainda falta um bocado! Quando parti, elas me acompanharam até Pont-D'Abbé. Os Lepalmec tinham-nos emprestado o cavalo, ele quase quebrou as patas na descida do Audierne. O primo Charles nos estava esperando com uma panelada de salsichas, mas as mulheres choravam tanto que a gente nem podia comer... Ah! meu Deus! como estou longe de casa...

     Seus olhos encheram-se de lágrimas sem que deixasse de rir. A charneca deserta de Plogoff, a ponta selvagem de Raz, assolada pelas tempestades, apareciam-lhe como uma miragem brilhando ao sol, na estação cor-de-rosa das urzes. 

— Será que — perguntou ele —, se eu não tiver punições, você acha que eles me darão uma licença de um mês, daqui a dois anos?

     Etienne então começou a falar da Provença, de onde saíra em criança. Amanhecia, flocos de neve voltejavam no céu plúmbeo. Começou a ficar nervoso ao vislumbrar Jeanlin que se esgueirava por entre as moitas, estupefato de o ver ali. O menino chamava-o com acenos. De que servia esse sonho de confraternizar com os soldados? Seriam ainda necessários anos e anos, sua tentativa inútil deixou-o abatido, como se estivesse contando com o êxito. Repentinamente compreendeu os gestos de Jeanlin: vinham render a sentinela. Afastou-se correndo, foi enfiar-se em Réquillart, o coração mais uma vez lacerado pela certeza da derrota, enquanto o garoto corria ao seu lado, acusando o canalha do soldado de ter chamado a guarda para atirar neles.
     No topo do aterro, Jules permanecera imóvel, o olhar perdido na neve que caía . O sargento aproximou-se com seus homens e os gritos regulamentares foram trocados: 

— Quem vem lá? Passe a senha!

     E ouviram-se os passos pesados partindo de novo, soando como terra conquistada. Apesar de já ser dia, ninguém se mexia nos conjuntos habitacionais; os mineiros, calados, enfureciam-se sob o tacão militar.

continua na página 331...
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Sexta Parte - (I.b) /   
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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