Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sexta Parte
I
continuando...
Havia, com efeito, em toda a região, um longo fragor de ruínas. A
noite, enquanto vagava pela planície escura como um lobo fora do
esconderijo, parecia estar ouvindo o estrondo das falências, de uma ponta à
outra do campo. À beira dos caminhos só encontrava fábricas mortas, com
seus edifícios apodrecendo sob um céu baço.
As que mais tinham sofrido eram as usinas de refinação de açúcar A
Hoton e a Fauvelle, após terem reduzido o número de seus operários,
haviam fechado uma atrás da outra. Na fábrica de moagem Dutilleul, a mó
que ainda trabalhava tinha parado no segundo sábado do mês, e a cordoaria
Bleuze, que fabricava cabos de minas fechara definitivamente suas portas
por falta de trabalho. Para o lado de Marchiennes a situação agravava-se
diariamente: todos os fogos apagados na vidraria Gagebois, demissões
contínuas nas oficinas de construção Sonneville, dos três altos-fornos das
Forjas só um aceso, nem mais uma bateria das fornalhas de coque ardendo
no horizonte. A greve dos mineiros de Montsou, nascida da crise industrial
que piorava havia dois anos, aumentara-a, precipitando a catástrofe. Às
causas da crise, como a suspensão das encomendas da América, o
estrangulamento dos capitais imobilizados num excesso de produção,
juntava-se agora a falta imprevista de hulha para as poucas caldeiras que
ainda permaneciam acesas — era essa a agonia suprema, a falta do pão das
máquinas que os poços não forneciam mais. Assustada com o mal-estar
geral, a companhia, diminuindo sua extração e esfomeando seus mineiros,
em fins de dezembro encontrara-se fatalmente sem um pedaço de carvão no
pátio das suas minas. Eram os elos de uma cadeia, o flagelo soprava de
longe, uma queda provocava a outra, as indústrias iam-se esmagando umas
às outras, numa série tão rápida de catástrofes, que as consequências
repercutiam até nas cidades vizinhas — Lille, Douai, Valenciennes —, onde
certos banqueiros em fuga arruinaram famílias inteiras.
Muitas vezes, na curva de uma estrada, Etienne parava na noite
gelada para ouvir choverem os escombros. Respirava profundamente as
trevas, deixava-se possuir pela alegria do nada, pela esperança de que o dia
raiaria sobre a exterminação do velho mundo, com todas as fortunas
arrasadas, o nível igualitário passado como uma foice, rente ao chão. Mas o
que mais interessava nesse massacre eram as minas da companhia. Punha
se de novo a caminho, cegado pelas sombras, visitando a todas elas, feliz ao
constatar algum estrago recente. Os desmoronamentos continuavam a
produzir-se, e cada vez mais graves, à medida que a não-restauração das
vias se prolongava. Por cima da galeria norte da Mirou, a aluição do solo
tomava tais proporções, que a estrada de Joiselle afundara num percurso de
cem metros, como se tivesse havido um tremor de terra. E a companhia,
sem regatear, pagava aos proprietários seus campos desaparecidos, tentando
aplacar os rumores que corriam a respeito de tais acidentes. Crèvecoeur e
Madeleine, de rocha muito desmoronadiça, estavam cada vez mais
entulhadas. Falava-se que dois contramestres tinham ficado soterrados na
Victoire; uma enchente inundara a Feutry Cantel; um quilômetro de galeria
na Saint-Thomas teria de murado, porque o escoramento, por falta de
reparação, estava rachando por todos os lados. Dessa forma, a todo
momento havia enormes despesas, brechas abertas nos dividendos dos
acionistas, uma rápida destruição das minas, que, com o tempo, terminaria
comendo os famosos dinheiros de Montsou, centuplicados em um século.
Diante desses golpes repetidos, a esperança renascia em Etienne,
acabava acreditando que com um terceiro mês de resistência daria cabo do
monstro, do animal cansado e farto, agachado como um ídolo lá longe, no
seu ignoto tabernáculo. Sabia que, com a revolta de Montsou, viva emoção
se apoderara dos jornais de Paris, uma violenta polêmica entre a imprensa
oficiosa e a imprensa da oposição, reportagens aterradoras que eram
exploradas sobretudo contra a Internacional, a quem o império temia,
depois de a ter encorajado. E, como a administração não podia continuar
fazendo ouvidos de mercador, dois dos administradores tinham-se dignado
vir para realizar um inquérito, mas de má vontade, sem parecerem inquietos
com o desfecho, tão desinteressados que três dias depois já estavam
partindo, declarando que tudo ia muito bem. Contudo, afirmavam-lhe, por
outro lado, que esses senhores, durante sua permanência em Montsou,
mantiveram-se em sessão permanente, desenvolvendo uma atividade febril,
mergulhados em discussões das quais as pessoas em torno deles não
quiseram falar. E Etienne acusava-os de simularem calma, chegava a
chamar sua partida de fuga precipitada, certo agora do triunfo, já que esses
homens terríveis tinham abandonado tudo.
Mas, na noite seguinte, ficou novamente desesperado. A companhia
era muito poderosa para ser abatida com tal facilidade, podia perder
milhões, mais tarde os reaveria por meio dos operários, cortando-lhes o pão.
Nessa noite, tendo ido até a Jean-Bart, deu-se conta da verdade, quando um
vigia lhe contou que se falava em ceder Vandame a Montsou. Ao que se
dizia, lavrava a miséria mais terrível na casa de Deneulin, a miséria dos
ricos, o pai doente por não saber o que fazer, envelhecido com a
preocupação do dinheiro, as filhas lutando com os fornecedores, tentando
salvar suas camisolas.
Nos conjuntos habitacionais famintos sofria-se menos do que nessa
casa burguesa, onde se escondiam para beber água. O trabalho ainda estava
suspenso na Jean-Bart, e fora preciso substituir a bomba da Gaston-Marie,
isso sem falar no começo de inundação apesar do conserto imediato,
exigindo grandes gastos. Deneulin apresentara enfim o pedido de
empréstimo de cem mil francos aos Grégoire, cuja recusa, já esperada,
acabou de abatê-lo. Os Grégoire diziam que, se recusavam, faziam-no por
amizade, para o pouparem de uma luta inglória, e, ao mesmo tempo,
aconselhavam-no a vender a concessão. Mas Deneulin, irredutível,
continuava a dizer não. Enfurecia-o ter de pagar pela greve, preferia morrer
primeiro com todo o sangue na cabeça, de apoplexia. Que mais podia fazer?
Já conhecia as ofertas. Chicaneavam com ele, depreciavam aquela presa
magnífica, o poço reparado, todo reequipado, onde só a falta de dinheiro
paralisava a exploração. Dar-se-ia por satisfeito se pudesse conseguir o
suficiente para pagar os credores. Durante dois dias batera-se com os
administradores acampados em Montsou, furibundo com o jeito tranquilo
com que eles exploravam suas dificuldades, gritando-lhes "nunca" com sua
voz poderosa. E as negociações ficaram nisso, os administradores voltaram
a Paris para esperar pacientemente seu último estertor. Etienne farejou essa
compensação de desastres, cheio de desânimo diante do poderio invencível
dos grandes capitais, tão fortes na batalha, que engordavam com a derrota
comendo os cadáveres dos pequenos, caídos ao seu lado.
No dia seguinte, felizmente, Jeanlin lhe trouxe uma boa notícia. Na
Voreux, o revestimento do poço ameaçava ruir, a água infiltrava-se por
todas as juntas, tiveram de pôr às pressas uma turma de carpinteiros para
fazer a reparação.
Até ali, Etienne tinha evitado a Voreux, temendo a eterna figura
negra da sentinela, postada no aterro por cima da planície. Não era possível
evitá-la, via tudo, era como a bandeira de um regimento drapejando no ar.
Lá pelas três horas da madrugada, o céu tornou-se sombrio e ele foi à mina,
onde alguns camaradas lhe explicaram o mau estado do revestimento; eram
de opinião que teria de ser todo refeito, o que suspenderia a extração por
três meses. Andou por ali longamente, escutando os martelos dos
carpinteiros batendo no poço. Alegrava-lhe o coração aquela nova ferida
que era preciso tratar.
Ao alvorecer, quando voltava, encontrou a sentinela sobre o aterro.
Desta vez, certamente, ela o veria. Foi-se embora pensando nesses soldados
tirados de entre o povo e que eram armados contra o povo. Como o triunfo
da revolução seria fácil, se o Exército, de repente se declarasse a seu favor!
Bastava que o operário e o e o camponês nas casernas se lembrassem de
suas origens. Esse era o perigo supremo, o grande pavor que fazia os
burgueses baterem o queixo quando pensavam numa defecção possível das
tropas. Em duas horas seriam varridos, exterminados, com os prazeres e as
abominações de suas vidas de iniquidades. Já se dizia que regimentos
inteiros estavam contaminados pelo socialismo. Seria verdade? A justiça
iria triunfar graças aos cartuchos distribuídos pela burguesia? E passando
para outra esperança, o rapaz começou a sonhar que as guarnições das
minas também entravam em greve, fuzilando a companhia inteira e
entregando enfim a mina aos mineiros.
Notou então que subia o aterro, levado por aquelas reflexões. Por
que não conversar um pouco com o soldado? Ao menos ficaria sabendo o
que pensava. Com jeito despreocupado continuou aproximando-se, como se
estivesse colhendo aparas de madeira abandonadas ali. A sentinela
permanecia imóvel.
— Que tempo dos diabos, hem, companheiro? — disse enfim
Etienne. — Acho que vamos ter neve.
Era um soldadinho muito louro, de rosto meigo e pálido, cheio de
sardas. Parecia enleado como um recruta com aquele capote.
— É, eu também acho — murmurou ele.
E com os seus olhos azuis esquadrinhou longamente o céu lívido, o
amanhecer fumacento, cuja fuligem pesava como chumbo sobre a planície
ao longe.
— Que ideia estúpida de porem vocês aqui, gelando até os ossos...
— continuou Etienne. — Como se os cossacos estivessem por atacar...
Além do mais, venta muito neste lugar.
O soldadinho tiritava sem se queixar. Havia ali uma cabana de
pedra solta, onde o velho Boa-Morte se abrigava nas noites de tempestade,
mas, como a ordem era para não abandonar o topo do aterro, o soldado não
se movia, com as mãos tão enregeladas que nem sentia mais a arma.
Pertencia à guarnição de sessenta homens que guardava a Voreux; e, como
aquele posto cruel já lhe tocara diversas vezes, estivera mesmo a ponto de
lá ficar, com os pés encarangados. Isso fazia parte da profissão, uma
obediência passiva tornava-o ainda mais entorpecido, respondia às
perguntas com palavras tartamudeadas de criança que dormita.
Durante um quarto de hora, Etienne tentou inutilmente falar de
política. Dizia sim, não, sem parecer estar compreende-lo, seus
companheiros falavam que o capitão era republicano; quanto a' ele, não
tinha opinião, era-lhe indiferente. Se o mandassem atirar , ele atiraria, para
não ser punido.
O operário escutava, invadido do ódio popular contra o Exército
contra esses irmãos a quem mudavam o coração, enfiando-lhe umas calças
vermelhas.
— Como é o seu nome?
— Jules.
— E é de que região?
— De Plogoff, longe.
Estendeu o braço apontando ao acaso. Era na Bretanha, só isso
sabia. Seu rostinho pálido animou-se, pôs-se a rir, entusiasmado.
— Tenho mãe e irmã. Estão-me esperando, claro. Ah, mas ainda
falta um bocado! Quando parti, elas me acompanharam até Pont-D'Abbé.
Os Lepalmec tinham-nos emprestado o cavalo, ele quase quebrou as patas
na descida do Audierne. O primo Charles nos estava esperando com uma
panelada de salsichas, mas as mulheres choravam tanto que a gente nem
podia comer... Ah! meu Deus! como estou longe de casa...
Seus olhos encheram-se de lágrimas sem que deixasse de rir. A
charneca deserta de Plogoff, a ponta selvagem de Raz, assolada pelas
tempestades, apareciam-lhe como uma miragem brilhando ao sol, na
estação cor-de-rosa das urzes.
— Será que — perguntou ele —, se eu não tiver punições, você
acha que eles me darão uma licença de um mês, daqui a dois anos?
Etienne então começou a falar da Provença, de onde saíra em
criança. Amanhecia, flocos de neve voltejavam no céu plúmbeo. Começou
a ficar nervoso ao vislumbrar Jeanlin que se esgueirava por entre as moitas,
estupefato de o ver ali. O menino chamava-o com acenos. De que servia
esse sonho de confraternizar com os soldados? Seriam ainda necessários
anos e anos, sua tentativa inútil deixou-o abatido, como se estivesse
contando com o êxito. Repentinamente compreendeu os gestos de Jeanlin:
vinham render a sentinela. Afastou-se correndo, foi enfiar-se em Réquillart,
o coração mais uma vez lacerado pela certeza da derrota, enquanto o garoto
corria ao seu lado, acusando o canalha do soldado de ter chamado a guarda
para atirar neles.
No topo do aterro, Jules permanecera imóvel, o olhar perdido na
neve que caía . O sargento aproximou-se com seus homens e os gritos
regulamentares foram trocados:
— Quem vem lá? Passe a senha!
E ouviram-se os passos pesados partindo de novo, soando como
terra conquistada. Apesar de já ser dia, ninguém se mexia nos conjuntos
habitacionais; os mineiros, calados, enfureciam-se sob o tacão militar.
continua na página 331...
____________________
Terceira Parte - (I.a) No dia seguinte / Quarta Parte - (I.a) / Quinta Parte - (I.a) / Quinta Parte - (I.b) /
Quinta Parte - (II.a) / Quinta Parte - (II.b) / Quinta Parte - (III) / Quinta Parte - (IV.a) / Quinta Parte - (IV.b) /
Quinta Parte - (V.a) / Quinta Parte - (V.b) / Quinta Parte - (VI.a) / Quinta Parte - (VI.b) / Sexta Parte - (I.a) /
Sexta Parte - (I.b) /
____________________
O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário