segunda-feira, 29 de junho de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (I.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

I



     Transcorreu a primeira quinzena de fevereiro, um frio inclemente prolongava o duro inverno, sem piedade dos miseráveis. Outra vez as autoridades tinham percorrido as estradas: o prefeito de Lille, um procurador e um general. E os policiais não foram suficientes, a tropa viera ocupar Montsou, um regimento inteiro, com seus homens acampando de Beaugnies a Marchiennes. Destacamentos armados guardavam os poços, havia soldados diante de cada máquina. O palacete do diretor, os depósitos da companhia, até mesmo as casas de certos burgueses estavam cercadas pelas baionetas. Ao longo das ruas só se ouvia agora o lento desfilar das patrulhas. No aterro da Voreux, uma sentinela permanente dava guarda, vigiando a planície rasa, sob o látego gelado do vento que soprava lá em cima. E de duas em duas horas, como em país inimigo, ressoavam os gritos da sentinela: 

— Quem vem lá?... Passe a senha!

     O trabalho ainda não recomeçara em lugar nenhum. Pelo contrário, a greve agravara-se: a Crèvecoeur, a Mirou, a Madeleine tinham suspendido a extração, como a Voreux; a Feufry-Cantel e a Victoire sofriam com uma diminuição diária do seu pessoal; na Saint-Thomas, até então indene, os trabalhadores estavam faltando. A greve transformara-se numa obstinação muda diante daquela exibição de força, que exasperava o orgulho dos mineiros. Os conjuntos habitacionais pareciam desertos no meio das plantações de beterraba. Não se avistava um único operário; se por acaso um homem surgia, estava isolado, olhava de soslaio, baixando a cabeça diante dos calças-vermelhas. E sob essa grande paz pressaga, naquela teimosia passiva de encontro aos fuzis, havia uma resignação mentirosa, a obediência forçada e passiva das feras enjauladas, que mantêm os olhos fixos no domador, prontas para lhe saltarem na nuca no momento em que ele dê as costas. A companhia, que tal paralisação do trabalho estava arruinando, andava dizendo que ia contratar os mineiros do Borinage, na fronteira belga, mas não se atrevia. De maneira que a batalha estava nesse pé, entre os operários que se encerravam em casa e as minas vazias, guardadas pela tropa.
     A partir do dia seguinte à jornada terrível, produzira-se essa paz, de uma só vez, acobertando tal pânico, que se falava o menos possível sobre os estragos e as atrocidades. O inquérito aberto estabelecia que Maigrat morrera com a queda e a horrenda mutilação do cadáver permanecia inexplicada, já envolta em lenda. Por seu lado, a companhia não confessava os prejuízos sofridos, e os Grégoire não tinham a intenção de comprometer sua filha no escândalo de um processo, onde ela teria de testemunhar. Mas assim mesmo algumas prisões tinham sido efetuadas, de gente com papel insignificante nos acontecimentos, como sempre, de imbecis e pobres diabos que não sabiam de nada. Por engano, Pierron tinha ido algemado até Marchiennes, fato de que os outros ainda riam. Rasseneur também quase foi parar lá, entre dois policiais. Na direção contentavam-se em preparar as listas de demissão, devolviam as carteiras de trabalho em massa: Maheu recebera a sua, Levaque também, assim como mais trinta e quatro dos seus companheiros, só do conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante. E toda a severidade recaía sobre Etienne, desaparecido desde a noite da revolta, e que estava sendo procurado, sem que pudessem encontrar traço seu. Chaval, no seu ódio, denunciara-o, recusando-se a nomear os outros, devido às súplicas de Catherine, que queria salvar seus pais. Os dias passavam, todos sentiam que nada acabara, esperava-se o desenlace com o peito oprimido por uma angústia.
     A partir daí, os burgueses de Montsou acordavam aos sobressaltos todas as noites, ouvindo toques de alerta imaginários, as narinas invadidas pelo mau cheiro da pólvora. Mas o que acabou de transtorná-los foi um sermão do novo pároco, o Padre Ranvier, esse sacerdote magro, de olhos ardentes como brasas, que sucedia o Padre Joire. Como se estava longe da prudência sorridente deste, da sua única preocupação de homem gordo e bondoso, que era viver em paz com todo o mundo! Pois não é que o Padre Ranvier tivera o desplante de tomar a defesa dos detestáveis bandidos que estavam desonrando a região? Encontrava desculpas para as atrocidades dos grevistas e atacava violentamente a burguesia, sobre a qual lançava das as responsabilidades. Era a burguesia que, espoliando a Igreja das suas liberdades antigas em proveito próprio, transformara este do num lugar maldito de injustiça e sofrimentos; era ela, a burguesia, que prolongava as disputas, que empurrava a sociedade para uma catástrofe horrível com seu ateísmo, sua recusa em voltar à crença, às tradições fraternais dos primeiros cristãos. Ousou mesmo ameaçar os ricos, advertindo-os de que, se continuassem teimando em não escutar a voz de Deus, certamente ele se poria ao lado dos pobres, tiraria as fortunas dos ricos incrédulos e as distribuiria entre os humildes desta terra, para sua maior glória. As beatas tremiam, o notário declarou que aquilo era o pior socialismo, todos viam o padre como cabeça de um bando, brandindo uma cruz, demolindo a sociedade burguesa de 89 a grandes golpes.
     Quando o Sr. Hennebeau foi cientificado, contentou-se em dizer, dando de ombros: 

— Se nos incomodar demasiado, o bispo nos livrará dele.

     E, enquanto o pânico soprava de uma ponta a outra da planície, Etienne morava nas entranhas da terra, no fundo de Réquillart, na toca de Jeanlin. Era ali que ele se escondia, ninguém o julgava tão perto. A tranquila audácia daquele refúgio, na própria mina, na via abandonada do velho poço, tinha feito malograr as buscas. Em cima, as ameixeiras silvestres e os espinheiros, crescidos por entre os caibros caídos da torre do sino de rebate, tapavam o buraco; ninguém se arriscava a entrar por ali, para tanto era preciso conhecer muito bem a manobra, pendurar-se nas raízes da sorveira, deixar-se cair sem receio, para atingir os degraus ainda firmes. Havia outros obstáculos que o protegiam: o calor sufocante do fosso, cento e vinte metros de descida perigosa, depois o penoso rastejar por um quarto de légua, entre os muros estreitos da galeria, antes de chegar à infame caverna, cheia de rapinas. Ali ele vivia na maior abundância, encontrara genebra, o resto do bacalhau seco, provisões de toda a espécie. A grande cama de palha era excelente, não havia corrente de ar naquela temperatura igual, de uma tepidez de banho. Apenas a luz ameaçava faltar. Jeanlin, que se fizera seu provedor, com uma prudência e uma discrição de selvagem, encantado de enganar os policiais, chegava a trazer-lhe até pomada, mas não conseguia pôr a mão num pacote de velas.
     A partir do quinto dia, Etienne só acendeu a luz para comer. Não conseguia engolir no escuro. Essa noite interminável, total, sempre da mesma escuridão, era o seu grande sofrimento. Não adiantava dormir em segurança, estar aquecido, ter o que comer sentia como nunca sentira aquela noite pesando sobre sua cabeça. Tinha a sensação de que ela estava esmagando seus pensamentos! E agora, ainda por cima, vivia de roubos! Apesar de suas teorias comunistas, os velhos escrúpulos de educação acordavam; então contentava-se com pão seco, diminuía sua ração. Mas que fazer? Tinha de continuar vivendo, sua tarefa ainda não estava concluída Outro remorso o afligia ao lembrar-se daquela bebedeira selvagem da genebra emborcada a sangue-frio, com o estômago vazio, e que o lançara contra Chaval, de faca em punho. Isso revolvia nele todo um desconhecimento apavorante, o mal hereditário, a longa hereditariedade da embriaguez, não bebendo sequer uma gota de álcool sem cair no furor homicida. Terminaria como assassino? Quando se vira abrigado, naquela sossegada profundidade da terra, saciado de violência, dormira dois dias consecutivos com um sono de animal empanturrado, embrutecido. E a repugnância persistia, sentia-se moído, com a boca amarga, a cabeça doente, como numa interminável ressaca. Transcorreu uma semana; os Maheu, avisados, não puderam enviar uma vela; teve de renunciar à claridade, mesmo para comer.   
     Agora, horas a fio, Etienne permanecia deitado na sua palha. IdEias obscuras, que não julgava ter, atormentavam-no. Era uma sensação de superioridade que o colocava acima dos seus camaradas, uma exaltação da sua pessoa, à medida que se ia instruindo. Nunca refletira tanto, perguntava se a causa daquele fastio no dia seguinte ao da furiosa sarabanda nas minas. Mas não ousava responder, repugnavam-lhe as coisas de que se lembrava: a baixeza das cobiças, a grosseria dos instintos, o fedor de toda aquela miséria sacudida aos quatro ventos. Apesar do tormento das trevas, chegava a temer a hora em que teria de voltar ao conjunto habitacional. Que náusea, todos aqueles miseráveis amontoados, comendo no cocho comum! Nenhum com quem se pudesse falar seriamente sobre política, uma existência de gado, sempre o mesmo ar empestado do cheiro de cebola em que se sufocava! Queria descortinar-lhes um horizonte mais vasto, elevá-los ao bem-estar e às boas maneiras da burguesia, fazer deles os senhores... Mas que caminho a percorrer! Já não se sentia com coragem para atingir a vitória naquele desterro da fome. Lentamente, a sua vaidade de ser o chefe, sua preocupação constante de pensar por eles o distanciavam, insuflando lhe a alma de um desses burgueses que execrava.
     Uma noite Jeanlin trouxe um coto de vela, roubado da lanterna de um carroceiro, e isso foi um grande alívio para Etienne. Quando trevas começavam a embrutecê-lo, pesando-lhe sobre a cabeça a ponto de sentir que ia enlouquecer, acendia a luz por um instante. Mas assim que expulsava o pesadelo, apagava a vela, avaro daquela claridade tão necessária à sua vida como o pão. O silêncio zumbia nos seus ouvidos, ouvia apenas a fuga de algum bando de ratos, os estalidos do madeirame velho, o levíssimo ruído de uma aranha fiando sua teia. E, com os olhos abertos naquele vazio absoluto, porém tépido. voltava à sua ideia fixa, ao que estariam fazendo os companheiros lá em cima. Uma defecção sua ter-lhe-ia parecido a última das covardias. Se se escondia assim era para permanecer livre, para aconselhar e agir.
     Suas longas meditações tinham delineado sua ambição: enquanto o melhor não acontecia, quisera ser Pluchart, largar o trabalho, viver unicamente para a política, mas sozinho, num quarto limpo, sob pretexto de que o trabalho intelectual absorve a vida inteira e exige muita calma.
     No começo da segunda semana, como o menino lhe dissesse que os policiais acreditavam que ele tivesse atravessado a fronteira para a Bélgica, Etienne ousou sair da sua toca, assim que a noite desceu. Desejava estudar a situação, ver se deveriam continuar obstinando-se. Na sua opinião, a partida estava comprometida; antes da greve, duvidava do resultado; apenas cedera aos fatos; agora, após a embriaguez da rebelião, voltava à sua primeira dúvida, desistindo de fazer ceder a companhia. Mas ainda não queria confessá-lo a si próprio, a angústia o torturava quando imaginava os horrores da derrota, toda a pesada responsabilidade de sofrimento que cairia sobre ele. O fim da greve não seria o fim do seu papel, sua ambição derrubada, sua existência caindo outra vez no embrutecimento da mina e no asco do conjunto habitacional mineiro? E, honestamente, sem raciocínios baixos e mentirosos, esforçava-se em readquirir a fé, em convencer-se de que a resistência ainda era possível, que o capital ia destruir-se a si mesmo ante o suicídio heroico do trabalho.

continua na página 325...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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