Germinal
Émile Zola
Tradução de Francisco Bittencourt
Tradução de Francisco Bittencourt
Sexta Parte
I
Transcorreu a primeira quinzena de fevereiro, um frio inclemente
prolongava o duro inverno, sem piedade dos miseráveis. Outra vez as
autoridades tinham percorrido as estradas: o prefeito de Lille, um
procurador e um general. E os policiais não foram suficientes, a tropa viera
ocupar Montsou, um regimento inteiro, com seus homens acampando de
Beaugnies a Marchiennes. Destacamentos armados guardavam os poços,
havia soldados diante de cada máquina. O palacete do diretor, os depósitos
da companhia, até mesmo as casas de certos burgueses estavam cercadas
pelas baionetas. Ao longo das ruas só se ouvia agora o lento desfilar das
patrulhas. No aterro da Voreux, uma sentinela permanente dava guarda,
vigiando a planície rasa, sob o látego gelado do vento que soprava lá em
cima. E de duas em duas horas, como em país inimigo, ressoavam os gritos
da sentinela:
— Quem vem lá?... Passe a senha!
O trabalho ainda não recomeçara em lugar nenhum. Pelo contrário,
a greve agravara-se: a Crèvecoeur, a Mirou, a Madeleine tinham suspendido
a extração, como a Voreux; a Feufry-Cantel e a Victoire sofriam com uma
diminuição diária do seu pessoal; na Saint-Thomas, até então indene, os
trabalhadores estavam faltando. A greve transformara-se numa obstinação
muda diante daquela exibição de força, que exasperava o orgulho dos
mineiros. Os conjuntos habitacionais pareciam desertos no meio das
plantações de beterraba. Não se avistava um único operário; se por acaso
um homem surgia, estava isolado, olhava de soslaio, baixando a cabeça
diante dos calças-vermelhas. E sob essa grande paz pressaga, naquela
teimosia passiva de encontro aos fuzis, havia uma resignação mentirosa, a
obediência forçada e passiva das feras enjauladas, que mantêm os olhos
fixos no domador, prontas para lhe saltarem na nuca no momento em que
ele dê as costas. A companhia, que tal paralisação do trabalho estava
arruinando, andava dizendo que ia contratar os mineiros do Borinage, na
fronteira belga, mas não se atrevia. De maneira que a batalha estava nesse
pé, entre os operários que se encerravam em casa e as minas vazias,
guardadas pela tropa.
A partir do dia seguinte à jornada terrível, produzira-se essa paz, de
uma só vez, acobertando tal pânico, que se falava o menos possível sobre os
estragos e as atrocidades. O inquérito aberto estabelecia que Maigrat
morrera com a queda e a horrenda mutilação do cadáver permanecia
inexplicada, já envolta em lenda. Por seu lado, a companhia não confessava
os prejuízos sofridos, e os Grégoire não tinham a intenção de comprometer
sua filha no escândalo de um processo, onde ela teria de testemunhar. Mas
assim mesmo algumas prisões tinham sido efetuadas, de gente com papel
insignificante nos acontecimentos, como sempre, de imbecis e pobres
diabos que não sabiam de nada. Por engano, Pierron tinha ido algemado até
Marchiennes, fato de que os outros ainda riam. Rasseneur também quase foi
parar lá, entre dois policiais. Na direção contentavam-se em preparar as
listas de demissão, devolviam as carteiras de trabalho em massa: Maheu
recebera a sua, Levaque também, assim como mais trinta e quatro dos seus
companheiros, só do conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante. E toda
a severidade recaía sobre Etienne, desaparecido desde a noite da revolta, e
que estava sendo procurado, sem que pudessem encontrar traço seu. Chaval,
no seu ódio, denunciara-o, recusando-se a nomear os outros, devido às
súplicas de Catherine, que queria salvar seus pais. Os dias passavam, todos
sentiam que nada acabara, esperava-se o desenlace com o peito oprimido
por uma angústia.
A partir daí, os burgueses de Montsou acordavam aos sobressaltos
todas as noites, ouvindo toques de alerta imaginários, as narinas invadidas
pelo mau cheiro da pólvora. Mas o que acabou de transtorná-los foi um
sermão do novo pároco, o Padre Ranvier, esse sacerdote magro, de olhos
ardentes como brasas, que sucedia o Padre Joire. Como se estava longe da
prudência sorridente deste, da sua única preocupação de homem gordo e
bondoso, que era viver em paz com todo o mundo! Pois não é que o Padre
Ranvier tivera o desplante de tomar a defesa dos detestáveis bandidos que
estavam desonrando a região? Encontrava desculpas para as atrocidades dos
grevistas e atacava violentamente a burguesia, sobre a qual lançava das as
responsabilidades. Era a burguesia que, espoliando a Igreja das suas
liberdades antigas em proveito próprio, transformara este do num lugar
maldito de injustiça e sofrimentos; era ela, a burguesia, que prolongava as
disputas, que empurrava a sociedade para uma catástrofe horrível com seu
ateísmo, sua recusa em voltar à crença, às tradições fraternais dos primeiros
cristãos. Ousou mesmo ameaçar os ricos, advertindo-os de que, se
continuassem teimando em não escutar a voz de Deus, certamente ele se
poria ao lado dos pobres, tiraria as fortunas dos ricos incrédulos e as
distribuiria entre os humildes desta terra, para sua maior glória. As beatas
tremiam, o notário declarou que aquilo era o pior socialismo, todos viam o
padre como cabeça de um bando, brandindo uma cruz, demolindo a
sociedade burguesa de 89 a grandes golpes.
Quando o Sr. Hennebeau foi cientificado, contentou-se em dizer,
dando de ombros:
— Se nos incomodar demasiado, o bispo nos livrará dele.
E, enquanto o pânico soprava de uma ponta a outra da planície,
Etienne morava nas entranhas da terra, no fundo de Réquillart, na toca de
Jeanlin. Era ali que ele se escondia, ninguém o julgava tão perto. A
tranquila audácia daquele refúgio, na própria mina, na via abandonada do
velho poço, tinha feito malograr as buscas. Em cima, as ameixeiras
silvestres e os espinheiros, crescidos por entre os caibros caídos da torre do
sino de rebate, tapavam o buraco; ninguém se arriscava a entrar por ali, para
tanto era preciso conhecer muito bem a manobra, pendurar-se nas raízes da
sorveira, deixar-se cair sem receio, para atingir os degraus ainda firmes.
Havia outros obstáculos que o protegiam: o calor sufocante do fosso, cento
e vinte metros de descida perigosa, depois o penoso rastejar por um quarto
de légua, entre os muros estreitos da galeria, antes de chegar à infame
caverna, cheia de rapinas. Ali ele vivia na maior abundância, encontrara
genebra, o resto do bacalhau seco, provisões de toda a espécie. A grande
cama de palha era excelente, não havia corrente de ar naquela temperatura
igual, de uma tepidez de banho. Apenas a luz ameaçava faltar. Jeanlin, que
se fizera seu provedor, com uma prudência e uma discrição de selvagem,
encantado de enganar os policiais, chegava a trazer-lhe até pomada, mas
não conseguia pôr a mão num pacote de velas.
A partir do quinto dia, Etienne só acendeu a luz para comer. Não
conseguia engolir no escuro. Essa noite interminável, total, sempre da
mesma escuridão, era o seu grande sofrimento. Não adiantava dormir em
segurança, estar aquecido, ter o que comer sentia como nunca sentira aquela
noite pesando sobre sua cabeça. Tinha a sensação de que ela estava
esmagando seus pensamentos! E agora, ainda por cima, vivia de roubos!
Apesar de suas teorias comunistas, os velhos escrúpulos de educação
acordavam; então contentava-se com pão seco, diminuía sua ração. Mas que
fazer? Tinha de continuar vivendo, sua tarefa ainda não estava concluída
Outro remorso o afligia ao lembrar-se daquela bebedeira selvagem da
genebra emborcada a sangue-frio, com o estômago vazio, e que o lançara
contra Chaval, de faca em punho. Isso revolvia nele todo um
desconhecimento apavorante, o mal hereditário, a longa hereditariedade da
embriaguez, não bebendo sequer uma gota de álcool sem cair no furor
homicida. Terminaria como assassino? Quando se vira abrigado, naquela
sossegada profundidade da terra, saciado de violência, dormira dois dias
consecutivos com um sono de animal empanturrado, embrutecido. E a
repugnância persistia, sentia-se moído, com a boca amarga, a cabeça
doente, como numa interminável ressaca. Transcorreu uma semana; os
Maheu, avisados, não puderam enviar uma vela; teve de renunciar à
claridade, mesmo para comer.
Agora, horas a fio, Etienne permanecia deitado na sua palha. IdEias
obscuras, que não julgava ter, atormentavam-no. Era uma sensação de
superioridade que o colocava acima dos seus camaradas, uma exaltação da
sua pessoa, à medida que se ia instruindo. Nunca refletira tanto, perguntava
se a causa daquele fastio no dia seguinte ao da furiosa sarabanda nas minas.
Mas não ousava responder, repugnavam-lhe as coisas de que se lembrava: a
baixeza das cobiças, a grosseria dos instintos, o fedor de toda aquela
miséria sacudida aos quatro ventos. Apesar do tormento das trevas, chegava
a temer a hora em que teria de voltar ao conjunto habitacional. Que náusea,
todos aqueles miseráveis amontoados, comendo no cocho comum! Nenhum
com quem se pudesse falar seriamente sobre política, uma existência de
gado, sempre o mesmo ar empestado do cheiro de cebola em que se
sufocava! Queria descortinar-lhes um horizonte mais vasto, elevá-los ao
bem-estar e às boas maneiras da burguesia, fazer deles os senhores... Mas
que caminho a percorrer! Já não se sentia com coragem para atingir a
vitória naquele desterro da fome. Lentamente, a sua vaidade de ser o chefe,
sua preocupação constante de pensar por eles o distanciavam, insuflando
lhe a alma de um desses burgueses que execrava.
Uma noite Jeanlin trouxe um coto de vela, roubado da lanterna de
um carroceiro, e isso foi um grande alívio para Etienne. Quando trevas
começavam a embrutecê-lo, pesando-lhe sobre a cabeça a ponto de sentir
que ia enlouquecer, acendia a luz por um instante. Mas assim que expulsava
o pesadelo, apagava a vela, avaro daquela claridade tão necessária à sua
vida como o pão. O silêncio zumbia nos seus ouvidos, ouvia apenas a fuga
de algum bando de ratos, os estalidos do madeirame velho, o levíssimo
ruído de uma aranha fiando sua teia. E, com os olhos abertos naquele vazio
absoluto, porém tépido. voltava à sua ideia fixa, ao que estariam fazendo os
companheiros lá em cima. Uma defecção sua ter-lhe-ia parecido a última
das covardias. Se se escondia assim era para permanecer livre, para
aconselhar e agir.
Suas longas meditações tinham delineado sua ambição: enquanto o
melhor não acontecia, quisera ser Pluchart, largar o trabalho, viver
unicamente para a política, mas sozinho, num quarto limpo, sob pretexto de
que o trabalho intelectual absorve a vida inteira e exige muita calma.
No começo da segunda semana, como o menino lhe dissesse que os
policiais acreditavam que ele tivesse atravessado a fronteira para a Bélgica,
Etienne ousou sair da sua toca, assim que a noite desceu. Desejava estudar a
situação, ver se deveriam continuar obstinando-se. Na sua opinião, a partida
estava comprometida; antes da greve, duvidava do resultado; apenas cedera
aos fatos; agora, após a embriaguez da rebelião, voltava à sua primeira
dúvida, desistindo de fazer ceder a companhia. Mas ainda não queria
confessá-lo a si próprio, a angústia o torturava quando imaginava os
horrores da derrota, toda a pesada responsabilidade de sofrimento que cairia
sobre ele. O fim da greve não seria o fim do seu papel, sua ambição
derrubada, sua existência caindo outra vez no embrutecimento da mina e no
asco do conjunto habitacional mineiro? E, honestamente, sem raciocínios
baixos e mentirosos, esforçava-se em readquirir a fé, em convencer-se de
que a resistência ainda era possível, que o capital ia destruir-se a si mesmo
ante o suicídio heroico do trabalho.continua na página 325...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu.
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura.
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.
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