sexta-feira, 12 de junho de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (VI.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

VI



     Etienne, sóbrio graças às bofetadas de Catherine, permaneceu à frente dos camaradas. Mas, enquanto os lançava contra Montsou com uma voz enrouquecida, ouvia dentro de si uma outra voz, a da razão, que, espantada, perguntava o porquê daquilo tudo. Ele não tinha querido aquelas coisas... Como, então, tendo partido para a Jean-Bart com o plano de agir friamente e impedir um desastre, acabava o dia de violência em violência, sitiando a residência do diretor?
     E, contudo, era ele quem acabava de gritar: "Chega!" A princípio, sua única ideia fora proteger os depósitos da companhia, que falavam em ir pilhar. E agora, que as pedras já arranhavam a fachada do palacete, procurava, sem encontrar, a presa legítima sobre a qual devia lançar o bando, para evitar desgraças maiores. Como estivesse sozinho, impotente no meio da estrada, alguém o chamou, um homem parado à porta do botequim Tison, cuja proprietária se dera pressa em fechar as janelas, só deixando aberta a entrada. 

— Sou eu... Vem aqui.

     Era Rasseneur. Uns trinta, homens e mulheres, quase todos do conjunto habitacional dos Deux-Cent-Quarante, que permaneceram em casa durante a manhã, tinham vindo à tarde em busca de noticias, e, com a aproximação dos grevistas, haviam invadido aquele botequim. Zacharie e Philomène ocupavam uma mesa. Além, Pierron e a mulher, de costas, escondiam o rosto. Ninguém bebia, tinham-se refugiado ali, simplesmente.
     Etienne reconheceu Rasseneur e já se afastava quando este acrescentou: 

— Minha presença não te é agradável, já sei... Eu bem te preveni, as dores de cabeça vão começar. Agora vocês podem pedir pão, vão receber mas é chumbo.

     Ele, então, voltou e respondeu: 

— O que me desagrada são os covardes que, de braços cruzados olham, enquanto arriscamos a pele. 
— Então a tua ideia é pilhar aí em frente? — perguntou Rasseneur. 
— A minha ideia é ficar até o fim com meus amigos, até que nos matem a todos.

     Desesperado, Etienne voltou para o meio da turba, pronto para morrer. Na estrada, três crianças jogavam pedras e ele as afastou com um pontapé, gritando, para refrear os companheiros, que não adiantava nada quebrar os vidros.
     Bébert e Lydie, que acabavam de se reunir a Jeanlin, aprendiam com este a manejar a funda. Cada um lançava a sua pedra, para ver qual deles faria o estrago maior. Lydie, que ainda não tinha prática, quebrara a cabeça de uma mulher na multidão, e os dois meninos riam como loucos. Por trás deles, Boa-Morte e Mouque, sentados num banco, observavam-nos. As pernas inchadas de Boa-Morte doíam tanto, que a muito custo se arrastara até ali, sem que se soubesse que curiosidade o impelia, porque tinha a fisionomia terrosa dos dias em que não se podia arrancar-lhe uma palavra.
     Ninguém mais obedecia a Etienne. As pedras continuavam a chover, apesar das suas ordens em contrário. Ele sentia espanto, susto mesmo, diante daqueles selvagens que sublevara, tão lentos no começo e a seguir terríveis, de uma tenacidade feroz na cólera. Todo o velho sangue flamengo ali estava, pesado e calmo, levando meses para esquentar-se, atirando-se às violências mais inomináveis, sem querer ouvir nada, até que a besta ficasse ébria de atrocidades. No seu Meio-Dia, as multidões inflamavam-se mais depressa, mas trabalhavam menos. Teve de atracar-se com Levaque para arrancar-lhe o machado, não sabia mais como conter os Maheu, que atiravam pedras com ambas as mãos. Mas eram sobretudo as mulheres que o assustavam: a de Levaque, a filha de Mouque e as outras, possuídas de um furor assassino, os dentes e as unhas de fora, ladrando como cadelas, sob o comando da Queimada, que sobressaía dentre elas com seu corpo magro.
     Houve então uma parada súbita, a surpresa de um minuto impunha o pouco de calma que as súplicas de Etienne não podiam obter. Eram simplesmente os Grégoire que tinham decidido despedir-se do notário e dirigiam-se para a casa do diretor. E pareciam tão calmos, tinham o ar de acreditar numa simples brincadeira por arte dos seus bons mineiros, cuja resignação os alimentava havia século, que estes, espantados, tinham com efeito parado de jogar pedras, temendo atingir esse senhor idoso e essa velha dama, caídos do céu. Deixaram-nos entrar no jardim, subir as escadas, bater à porta fortificada, que não tinham pressa de lhes abrir. Mas, justamente nesse momento, Rose, a camareira, voltava do seu passeio, e ria aos operários furiosos, que conhecia muito bem por ser de Montsou. E foi ela quem, esmurrando a porta, acabou forçando Hippotyte a entreabri-la. Já não era sem tempo: mal os Grégoire desapareceram, a chuva de pedras recomeçou. Saída do seu pasmo, a multidão gritava mais forte: 

— Morte aos burgueses! Viva o socialismo!

     Rose continuava rindo, já no vestíbulo do palacete, como que divertida com a aventura, repetindo ao criado aterrado: 

— Eles não são maus, eu os conheço.

     O Sr. Grégoire pendurou metodicamente seu chapéu. Depois, tendo ajudado a esposa a tirar sua capa de fazenda grossa, disse, por sua vez: 

— Sem dúvida, no fundo não têm maldade alguma. Depois de gritarem bastante, irão jantar com mais apetite.

     Nesse momento o Sr. Hennebeau desceu do segundo andar. Assistira à cena e vinha receber seus convidados com seu jeito habitual, frio e polido. Só a palidez do semblante denunciava as lágrimas que o tinham agitado. Mas o homem já fora domado, só restava nele o administrador correto, resolvido a cumprir com o seu dever. 

— Sabem? — disse ele — as senhoras ainda não chegaram. Pela primeira vez uma inquietação apossou-se dos Grégoire.

     Cécile ainda não chegara! E como haveria de entrar se aquela brincadeira dos mineiros se prolongasse? 

— Pensei em fazer desimpedir a entrada — continuou o Sr. Hennebeau. — Acontece, porém, que estou sozinho aqui, e, aliás, não sei aonde enviar meu criado para trazer quatro soldados e um cabo para darem um jeito nessa canalha.

     Rose, que permanecera ali, atreveu-se a murmurar novamente: 

— Mas, meu senhor, eles não são maus...

     O diretor abanou a cabeça, enquanto o tumulto crescia do lado de fora e se ouviam os golpes surdos das pedras contra a fachada 

— Não lhes quero mal, até os desculpo, mas precisam ser muito estúpidos para acreditarem que queremos a sua desgraça. O caso é que sou responsável pela ordem. E dizer que os policiais, ao que me afirmam, estão percorrendo as estradas, e desde cedo não consegui um único!

     Interrompeu-se para deixar passar a Sra. Grégoire e continuou: 

— Passe, senhora, por favor, não fique aí, entre para o salão. Mas a cozinheira, exasperada, vindo do subsolo, reteve-os ainda alguns minutos no vestíbulo. Declarou não aceitar mais a responsabilidade do jantar, porque até agora esperava do pasteleiro de Marchiennes a massa para os pastéis, que encomendara para as quatro horas. Evidentemente o homem ficara pelo caminho, com medo daqueles bandidos. Talvez até tivessem roubado suas cestas. Via os pastéis bloqueados atrás de uma moita, sitiados, enchendo a barriga de três mil miseráveis que pediam pão. Em todo caso, o patrão estava prevenido, ela preferia atirar seu jantar ao fogo a vê-lo estragado por causa da revolução. 

— Tenha um pouco de paciência — disse o Sr. Hennebeau. — Nada está perdido, o pasteleiro ainda pode vir.

     E como se voltasse para a Sra. Grégoire, abrindo ele mesmo a porta do salão, ficou muito surpreso ao perceber, sentado na banqueta do vestíbulo, um homem que até o momento não tinha notado por causa do lusco-fusco. 

— Como? É você, Maigrat? Que aconteceu?

     Maigrat levantara-se e seu rosto apareceu, engordurado e lívido, descomposto pelo pavor. Tinha perdido seu aspecto de homem gordo e calmo. Explicou humildemente que viera até ali para pedir ajuda e proteção no caso de os bandidos assaltarem seu armazém. 

— Você bem vê que eu também estou ameaçado e não tenho ninguém para me proteger — respondeu o Sr. Hennebeau. — Teria feito melhor ficando em casa, para defender suas mercadorias. 
— Sim! Sim! Pus trancas de ferro e deixei minha mulher tomando conta.

     O diretor perdeu a paciência e não pode esconder seu desprezo. Que bela guarda, uma infeliz raquítica, saco de pancadas! 

— Já disse que não posso fazer nada, trate de se defender sozinho. Aliás, aconselho-o a voltar imediatamente para casa, porque eles já estão pedindo pão outra vez... Escute...

     Com efeito, o tumulto recomeçava e Maigrat chegou a ouvir u nome. Voltar não era mais possível, seria despedaçado. Mas ao esmo tempo a ideia da sua ruína transtornava-o. Encostou o rosto no vidro da porta, suando, tremendo, espreitando o desastre, enquanto os Grégoire se decidiam a passar para o salão.
     Tranquilamente, o Sr. Hennebeau fingia fazer as honras da casa. Em vão pediu aos seus convidados que se sentassem. A peça fechada, com barricadas nas janelas, iluminada por duas lâmpadas antes da noite, enchia se de terror a cada novo clamor chegado de fora. No abafamento das tapeçarias, a cólera da multidão retumbava muito mais inquietadora, prenhe de uma ameaça vaga e terrível. Mas assim mesmo conversaram, e, por mais que tentassem, sempre voltavam àquela inconcebível revolta. Ele admirava se de não a ter previsto; na verdade, seus informantes eram tão maus que se enfurecia sobretudo contra Rasseneur, de quem dizia reconhecer a odiosa influência. Mas os policiais tinham de chegar a qualquer momento, era impossível que o abandonassem dessa maneira. Quanto aos Grégoire, não pensavam senão na filha: pobrezinha! Assustava-se com tanta facilidade... Podia ser que, diante do perigo, a carruagem houvesse voltado para Marchiennes. A espera durou ainda um quarto de hora, exasperada pela algazarra da rua, pelo barulho das pedras batendo de vez em quando nas janelas fechadas e que ressoavam como tambores. A situação estava ficando intolerável, o Sr. Hennebeau disse que ia sair para enxotar sozinho os desordeiros e ir ao encontro da carruagem, quando Hippolyte surgiu gritando: 

— Sr. Hennebeau! Sr. Hennebeau! A senhora está aí fora, vão matá-la!

     Como o carro não pudera passar pela ruela de Réquillart por causa dos grupos que o ameaçavam, Négrel resolvera pôr em execução a sua ideia: fazer a pé os cem metros que os separavam do palacete e bater no portão do jardim que ficava ao lado das dependências de serviço; o jardineiro os ouviria, com certeza haveria alguém para abrir. No começo as coisas correram como o previsto; a Sra. Hennebeau e as senhoritas já batiam na entrada de serviço quando algumas mulheres, prevenidas, precipitaram-se para o beco. Nesse momento começaram as complicações. Ninguém abria o portão, Négrel tentou inutilmente arrombá-lo com o ombro. Havia cada vez mais mulheres, e ele, temendo não poder contê-las, tomou o partido desesperado de empurrar à sua frente a tia e as moças e chegar à entrada principal passando pelo meio da turba. Esta manobra, no entanto, teve resultado terrível: não os deixavam passar um grupo aos gritos os encurralou, enquanto o resto da multidão afluía de todos os lados, ainda sem compreender, espantado de ver aquelas damas bem vestidas perdidas no meio da batalha. Nesse momento foi tão grande a confusão que se deu um desses casos de desatino que não é possível explicar. Lucie e Jeanne, tendo chegado à escadaria, enfiaram-se pela porta que a camareira entreabria; a Sra. Hennebeau também entrou, seguida de Négrel, que voltou a pôr os ferrolhos, certo de que vira Cécile passar em primeiro lugar. Mas ela não entrara, tinha desaparecido no turbilhão, presa de tal medo que dera as costas à casa e se atirara no centro do perigo. Em seguida recomeçou o clamor: 

— Viva o socialismo! Morram os burgueses!

     Alguns, de longe, em razão do véu que lhe encobria o rosto, tomaram-na pela Sra. Hennebeau, outros por uma amiga dela, uma jovem casada com um industrial da vizinhança, odiada pelos seus operários. Mas isso pouco importava, eram seu vestido de seda, sua capa de peles, até aquela pluma branca do chapéu que os enlouqueciam. E estava perfumada, possuía um relógio, tinha uma pele fina de desocupada que não lidava com carvão. 

— Espera! — gritou a Queimada. — Vamos enfiar-te no rabo toda essa renda. 
— É da gente que essas cadelas roubam tudo isso — continuou a mulher de Levaque. — Enchem-se de peles enquanto nós morremos de frio... Arranquem tudo, que fique nua, vamos mostrar-lhe como se vive!

     Imediatamente a filha de Mouque investiu: 

— Claro, claro, e que leve uma boa surra!

     E as mulheres, naquela rivalidade selvagem, empurravam-se, agarravam-se pelos andrajos, cada uma querendo alguma coisa daquela moça rica. Na certa não tinha o traseiro mais bem feito do que qualquer outra. Muitas dessas elegantes até podres estavam por baixo dos atavios. A injustiça já estava durando demasiado, todas elas teriam de ser obrigadas a vestir-se como operárias, essas rameiras que tinham o desplante de pagar cinquenta soldos pela lavagem de uma saia!
     Em meio a essas fúrias, Cécile tiritava, as pernas paralisadas, balbuciando repetidamente a mesma frase: 

— Minhas senhoras, por favor, minhas senhoras, não me façam mal.

     Mas de repente soltou um grito rouco: umas mãos álgidas agarravam-na pelo pescoço. Era o velho Boa-Morte, para perto do qual fora empurrada pela multidão, que a segurava dessa maneira. Ele parecia estar ébrio de fome, embrutecido pela longa miséria, saído bruscamente do seu meio século de resignação, sem que se pudesse saber que impulso de rancor o fazia agir assim. Depois de ter durante sua vida, salvo da morte uma dúzia de companheiros, arriscando a pele no grisu e nos desabamentos, cedia a coisas até então desconhecidas para ele, a um desejo de fazer aquilo, à fascinação daquele pescoço branco de moça. E, como aquele era um dos dias em que não falava, apertava os dedos, com seu ar de velho animal enfermo, ruminando recordações. 

— Não! Não! — berraram as mulheres. — Queremos vê-la de bunda à mostra!

     No palacete, desde que se deram conta do que acontecia, Négrel e o Sr. Hennebeau abriram corajosamente a porta para correr em socorro de Cécile. Mas a multidão atirava-se agora contra a grade do jardim, e não era fácil sair. Começaram a lutar, enquanto os Grégoire, horrorizados, surgiam à porta. 

— Larga ela, velho! E a mocinha da Piolaine! — gritou a mulher de Maheu ao avô, quando reconheceu Cécile, a quem uma mulher rasgara o véu.

     Por seu lado, Etienne, chocado com aquelas represálias contra uma menina, esforçava-se por fazer o bando largar a presa. Tendo uma inspiração, brandiu o machado que tinha arrancado das mãos de Levaque. 

— Vamos para o Maigrat, que um raio o parta! Há pão lá dentro! Botemos o barraco de Maigrat abaixo!

     E, com presteza, deu a primeira machadada na porta do armazém. Alguns homens o seguiram, Levaque, Maheu e outros. Mas as mulheres não largavam a presa. Cécile caíra das mãos de Boa-Morte nas da Queimada. Engatinhando, e a mando de Jeanlin, Lydie e Bébert introduziam-se entre as saias, para verem como era o traseiro da dama. Já começavam os repelões, suas roupas se rompiam, quando apareceu um homem a cavalo, arrojando o animal, chicoteando os que não escapavam a tempo. 

— Canalhas! Vocês já chegaram ao ponto de bater nas nossas filhas!

     Era Deneulin que vinha para o jantar. De um salto estava em terra; agarrou Cécile pela cintura, enquanto com a outra mão manobrava o cavalo com uma destreza e uma força extraordinárias servindo-se dele como de uma cunha viva, fendendo a multidão que recuava diante dos coices. Na grade a batalha continuava, mas assim mesmo ele passou, esmagando membros. Esse socorro imprevisto veio na hora certa para Négrel e Hennebeau, que se encontravam em grande perigo, no meio de pragas e socos. E, enquanto o rapaz entrava finalmente, com Cécile desmaiada, Deneulin, que protegia o diretor com seu corpo enorme, no alto do patamar, recebeu uma pedrada que quase lhe quebrou o ombro. 

— Muito bem! — gritou ele. — Quebrem-me os ossos depois de quebrarem minhas máquinas!

     Com a rapidez de um raio, fechou a porta, e uma chuva de pedras bateu na madeira. 

— Que animais! — continuou ele. — Mais dois segundos e me rachavam o crânio como a uma cabaça vazia... É inútil tentar falar-lhes, vocês não acham? Estão loucos furiosos, só matando-os.

continua na página 314...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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