segunda-feira, 11 de maio de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (IV.a)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

IV


     E o bando, pela planície rasa, toda branca de geada, sob o pálido sol de inverno, marchava, saindo da estrada, atravessando as plantações de beterraba.
     Na Fourche-aux-Boeufs, Etienne tomou o comando. Sem fazê-los parar, começou a gritar ordens e a organizar a marcha. Jeanlin corria na frente, emitindo com sua cometa uma música bárbara. Nas primeiras filas avançavam as mulheres, algumas armadas com paus, a de Maheu com um fulgor selvagem nos olhos, que pareciam procurar ao longe a cidade da justiça prometida; a Queimada, a mulher de Levaque e a filha de Mouque marchavam como soldados esfarrapados indo para a guerra. Em caso de encontro, queriam ver se os policiais ousariam bater nas mulheres. Em seguida vinham os homens, numa confusão de gado, formando uma retaguarda amplíssima, eriçada de barras de ferro, dominada por um único machado, o de Levaque, cujo gume reverberava ao sol. No centro, Etienne não perdia de vista Chaval, forçando-o a caminhar na sua frente, enquanto Maheu, atrás, sombrio, observava Catherine, única mulher entre aqueles homens, obstinando-se em marchar ao lado do amante, para impedir que lhe fizessem mal. Cabeças descobertas esguedelhavam-se ao vento; somente se ouvia o bater dos tamancos, semelhante a um tropel de gado solto, guiado apenas pelo toque selvagem de Jeanlin. 
     De repente, ouviu-se um novo grito: 

— Pão! Pão! Pão!

     Era meio-dia, a fome de seis semanas de greve despertava nos estômagos vazios, aguilhoada por essa marcha em campo aberto. As raras côdeas da manhã, as poucas castanhas da filha de Mouque já iam longe; e os estômagos gritavam, e esse sofrimento vinha aumentar a raiva contra os traidores. 

— Às minas! Nada de trabalho! Pão!

     Etienne, que em casa não quisera comer a sua parte, sentia no peito uma sensação insuportável de vazio, mas não se queixava. De tempos em tempos, apanhava seu cantil e tomava um gole de genebra, sentindo-se tão trêmulo, que julgava precisar daquilo para ir até o fim. Seu rosto se afogueava, uma chama iluminava seus olhos, mas a cabeça permanecia fria, pois ainda queria evitar estragos inúteis.
     Ao chegarem ao caminho de Joiselle, um britador de Vandame, que se reunira à turba por vingança contra seu patrão, levou os companheiros para a direita, gritando: 

— À Gaston-Marie! Vamos parar a bomba! Que as águas destruam a Jean-Bart!

     A multidão, arrastada, já se dirigia para lá, apesar dos protestos de Etienne, que lhes suplicava que deixassem o esgoto trabalhar. De que serviria destruir as galerias? Apesar de todo o seu ódio, isso era uma coisa que revoltava seu coração de operário. Maheu também achava injusto atacar uma máquina. Mas o britador continuava a lançar seu brado de vingança; foi preciso que Etienne gritasse mais forte: 

— À Mirou! Lá é que estão os traidores! À Mirou! À Mirou! Com um gesto fizera que a multidão entrasse no caminho da esquerda, enquanto Jeanlin, outra vez na vanguarda, tocava com mais força. Houve uma grande reviravolta, a Gaston-Marie, por ora, estava salva.

     E os quatro quilômetros que os separavam da Mirou foram vencidos em meia hora num passo acelerado, através da planície interminável. Este lado do canal era cortado por uma longa fita de gelo. Somente as árvores das margens, transformadas pela geada em candelabros gigantescos, rompiam a uniformidade monótona, que se prolongava e se perdia no céu do horizonte, como um mar. Uma ondulação do terreno ocultava Montsou e Marchiennes. Era a imensidade nua.
     Estavam chegando à mina quando viram um capataz colocar-se num passadiço da triagem para recebê-los. Todos conheciam muito bem o tio Quandieu, o decano dos contramestres de Montsou, um ancião com a pele e os cabelos muito brancos, que devia andar pelos setenta, um verdadeiro milagre de boa saúde nas minas. 

— Que é que vocês vêm fazer aqui, súcia de vadios? — gritou ele. O bando estacou. Esse não era um patrão, era um companheiro.

     Retinha-os o respeito por aquele velho operário. 

— Há homens trabalhando na mina — disse Etienne. — Manda-os saírem. 
— É verdade, há homens trabalhando, talvez umas seis dúzias, os outros tiveram medo de vocês, corja de biltres! — replicou o velho Quandieu. — Mas previno-os de que nenhum deles sairá, ou eu ajustarei contas com vocês!

     Houve exclamações, os homens empurraram, as mulheres avançaram. Descendo rapidamente do passadiço, o contramestre estava agora barrando a porta.
     Maheu decidiu intervir: 

— Velho, é o nosso direito. Como havemos de conseguir que a greve seja geral, se não forçarmos os companheiros a estarem do nosso lado?

     O velho permaneceu silencioso por um momento. Evidentemente sua ignorância em matéria de coalizão igualava a do britador. Finalmente, respondeu:

 — É o direito de vocês, não digo o contrário. Mas eu estou cumprindo ordens. Estou sozinho aqui. Os homens têm de trabalhar no fundo até as três horas, e trabalharão até as três horas.

     As últimas palavras foram abafadas pelas vaias. Ameaçaram-no com o punho, as mulheres berravam como loucas, soprando-lhe no rosto seu bafo quente. Mas ele mantinha-se firme, a cabeça erguida, em sua barbicha e seus cabelos de uma brancura de neve. E a coragem infundia-lhe tal vigor, que se podia ouvi-lo claramente, por cima da gritaria: 

— Vão para o inferno! Aqui não passam. Juro pelo sol que nos ilumina, prefiro morrer a deixar vocês tocarem nos cabos. Não empurrem, ou eu me atiro no poço na frente de todos. Houve um estremecimento e a turba recuou, amedrontada. Ele continuou: 
— Qual é o cachorro que não compreende isto? Eu não passo de um operário como vocês. Mandaram-me tomar conta disto aqui e eu tomo.

     A inteligência do velho Quandieu não ia mais longe, obstinado na sua teimosia do dever militar, o cérebro tapado, o olho míope pela tristeza negra de meio século de fundo de mina. Os companheiros olhavam-no, tocados, sentindo em si o eco do que lhes dizia, essa obediência de soldado, a fraternidade e a resignação no perigo. Acreditando que eles ainda hesitavam, repetiu: 

— Jogo-me no poço na frente de vocês!

     Um grande movimento fez girar o bando. Todos voltaram as costas e a correria recomeçou pela estrada reta, que se estendia pelo infinito, por entre as terras. De novo os gritos se elevavam: 

— À Madeleine! À Crèvecoeur! Nada de trabalho! Pão! Pão! No meio da multidão, no entusiasmo da marcha, houve uma algazarra. Era Chaval, diziam, que quisera aproveitar-se da história de Mirou para escapar. Etienne acabava de agarrá-lo por um braço, ameaçando-o de fazê-lo em pedaços ao menor sinal de traição. O outro debatia-se, protestando, enfurecido: 
— Então onde é que estamos? Não se é mais livre? Estou tiritando de frio há já uma hora, preciso lavar-me. Larga meu braço!

     Realmente, ele estava sentindo os efeitos do carvão grudado à pele, e seu suéter quase não o protegia do frio. 

— Caminha, ou somos nós que te lavaremos — respondeu Etienne. — Ninguém te mandou exagerar pedindo derramamento de sangue.

     Continuavam quase correndo; Etienne acabou por se voltar para Catherine, que ainda se mantinha ao lado do outro. Desesperava-o senti-la tão próxima, tão miserável, tiritando sob a velha jaqueta de homem, com as calças enlameadas. Devia estar morta de fadiga e contudo, não deixava de correr. 

— Tu podes ir embora — disse ele afinal.

     Catherine pareceu não entender. Seus olhos, ao encontrarem os de Etienne, brilharam somente com uma rápida chama de censura E não parou. Por que quereria que ela abandonasse seu homem? Chaval, na verdade, não era bom; até a espancava em certas ocasiões Mas era o seu homem, aquele que a possuíra primeiro. O que a enfurecia é que se atirassem mais de mil contra ele. Tê-lo-ia defendido, não por ternura, mas por orgulho. 

— Vai-te embora! — repetiu violentamente Maheu.

     A ordem do pai fez que diminuísse o passo. Tremia, as lágrimas enchiam-lhe as pálpebras. Depois, apesar do medo que sentia, voltou e tomou seu lugar, sempre correndo. Então deixaram-na.
     O bando atravessou a estrada de Joiselle, seguiu por um instante a de Cron, depois subiu para Cougny. Desse lado, chaminés de fábricas riscavam o horizonte plano, galpões de madeira, oficinas de tijolos, com portas enormes e cheias de poeira, desfilavam ao longo da estrada. Passaram sucessivamente pelas casas baixas de dois conjuntos habitacionais mineiros, o dos Cent-Quatre-Vingts, depois o dos Soixante-Seize. E de cada um deles, ao chamado da cometa, ao clamor lançado por todas as bocas, saíram famílias, homens, mulheres, crianças, também correndo, unindo-se à retaguarda dos companheiros. Quando chegaram diante da Madeleine eram bem uns mil e quinhentos. A estrada descia em declive suave, e a vaga marulhante dos grevistas teve de contornar o aterro, antes de se espalhar no pátio da mina.
     Nesse momento não deviam ser mais de duas horas. Mas os contramestres, advertidos, tinham apressado a subida, e, quando o bando chegou, a saída dos operários já estava terminando, tendo ficado no fundo da mina apenas uns vinte homens, que logo depois desembarcaram do elevador. Fugiram, tendo sido perseguidos a pedradas. Dois foram espancados, outro deixou a manga da jaqueta no local. Esta caça ao homem salvou o material: os cabos e as caldeiras não foram tocados. E já a vaga rolava em direção à mina vizinha.
     Esta, Crèvecoeur, encontrava-se a apenas quinhentos metros da Madeleine. O bando caiu novamente no meio da saída dos operários. Uma operadora de vagonetes foi apanhada e açoitada pelas mulheres, as calças rasgadas, as nádegas expostas diante dos homens, que riam. Os aprendizes recebiam tabefes, os britadores escaparam cheios de marcas azuis pelo corpo e o nariz sangrando. E nessa ferocidade crescente, nessa antiga necessidade de vingança cuja loucura fervia em todas as cabeças, os gritos continuavam, estrangulando-se, a morte aos traidores, o ódio ao trabalho mal pago, o rugido do estômago querendo pão. Puseram-se a cortar os cabos, mas a lima estava gasta, demorava muito, agora que estavam com a febre de seguir adiante, sempre adiante. Nas caldeiras uma torneira foi quebrada enquanto a água, jogada com grandes baldes nas fornalhas, fazia estourar as grelhas de ferro fundido.
     Fora falou-se em marchar sobre a Saint-Thomas. Esta era a mina mais disciplinada, a greve não a atingira; nela, cerca de setecentos homens deviam ter descido. Isto dava raiva, esperariam por eles armados de porretes em formação de batalha campal, para ver quem cairia primeiro. Mas correu o boato de que havia policiais em Saint-Thomas, os policiais da manhã, de quem tinham feito troça. Como sabiam? Ninguém podia responder. Não importa! Ficaram com medo e decidiram-se pela Feutry-Cantel. E a vertigem voltou a possuí-los, encontraram-se novamente na estrada, batendo tamancos, empolgados: à Feutry-Cantel! Os covardes de lá deviam ser, pelo menos, uns quatrocentos; iam se divertir à grande! Situada à distância de três quilômetros, a mina ficava oculta num vale, próxima do Scarpe. Já estavam subindo a ladeira dos Gessais, para além do caminho de Beaugnies, quando uma voz na multidão aventou a ideia de que talvez a cavalaria estivesse na Feutry-Cantel. Então, de uma ponta à outra da coluna, correu o murmúrio de que a cavalaria lá estava. Uma hesitação refreou o passo da marcha, o pânico começava a soprar naquela região adormecida pelo desemprego e que pareciam percorrer havia séculos. Por que não haviam encontrado os soldados? Esta impunidade os perturbava, misturando-se à ideia da repressão que sentiam aproximar-se.

continua na página 288...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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