quinta-feira, 18 de junho de 2026

Émile Zola - Germinal: Quinta Parte - (VI.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quinta Parte

VI

continuando...

     No salão, os Grégoire choravam, vendo Cécile voltar a si. Não estava machucada, nem um arranhão sequer, apenas seu véu se perdera. Mas o desespero deles aumentou quando viram sua cozinheira, Mélanie, que contava como a turba tinha demolido a Piolaine. Morta de medo, ela viera correndo para advertir os patrões e entrara também pela porta entreaberta no momento da confusão, sem que ninguém tivesse dado por isso. E, na sua interminável narrativa, a única pedra de Jeanlin, que quebrara apenas um vidro, transformava-se num verdadeiro canhoneio que tinha destruído as paredes. O Sr. Grégoire já não sabia o que pensar. Estrangulavam-lhe a filha, punham sua casa abaixo... Então era verdade que esses mineiros podiam odiá-lo só porque ele vivia como homem decente, à custa do trabalho deles?
     A camareira, que trouxera uma toalha e água-de-colônia, repetiu: 

— E engraçado... Apesar de tudo isso, eles não são maus.

     A Sra. Hennebeau, muito pálida, sentada, não conseguia refazer-se das emoções por que passara; apenas conseguiu forças para sorrir quando felicitaram Négrel.
     Sobretudo os pais de Cécile agradeciam ao rapaz; o casamento, agora, era certo. O Sr. Hennebeau, em silêncio, corria os olhos da esposa para o amante, que ele tinha jurado matar ainda naquela manhã, fixando-se depois na moça que, sem dúvida, muito em breve, iria livrá-lo dele. Não tinha pressa, só temia uma coisa, ver sua mulher cair mais baixo ainda, talvez nos braços de algum lacaio. 

— E vocês, minhas queridas, não tiveram nada quebrado? — perguntou Deneulin às filhas.

     Lucie e Jeanne tinham tido muito medo, mas estavam contentes por terem visto tudo aquilo; agora riam.

— Irra! — continuou o pai. — Que belo dia! Se vocês querem dote, tratem de consegui-lo por suas próprias mãos, e preparem-se para, ainda por cima, dar-me de comer.

     Gracejava, com a voz trêmula. Seus olhos ficaram rasos de lágrimas quando as duas filhas se jogaram nos seus braços.
     O Sr. Hennebeau tinha ouvido aquela confissão de ruína. Um pensamento rápido iluminou seu semblante. Realmente, Vandame ia pertencer a Montsou, era a compensação esperada, o lampejo de sorte que o poria novamente nas boas graças da administração. A cada nova desgraça da sua existência, ele se refugiava na estrita execução das ordens recebidas, fazia da disciplina militar em que vivia a sua reduzida parcela de felicidade.
     Começavam a ficar calmos, o salão caía numa paz de exaustão, com a luz tranquila das duas lâmpadas e o morno abafamento dos reposteiros. Que estava acontecendo lá fora? Os desordeiros se calavam, as pedras já não batiam na fachada, ouviam-se apenas uns golpes surdos, iguais aos que soam nos bosques quando as árvores estão sendo abatidas. Quiseram saber, foram ao vestíbulo espiar pela vidraça da porta. Até as senhoras e as senhoritas subiram ao primeiro andar para olhar por trás das persianas. 

— Está vendo o patife do Rasseneur ali em frente, na porta daquela taberna? — perguntou Hennebeau a Deneulin. — Eu sabia, ele não podia faltar...

     Mas não era Rasseneur, e sim Etienne, quem abria a machadadas o armazém de Maigrat. E, enquanto arrombava, continuou chamando pelos companheiros: então não era verdade que todas as mercadorias que estavam ali dentro pertenciam aos mineiros? Será que não tinham o direito de reaver o que era seu desse ladrão que os explorava havia tanto tempo e os esfomeava a uma simples palavra da companhia? Pouco a pouco, todos foram esquecendo a residência do diretor e acorriam para pilhar o armazém que ficava ao lado. O grito de "Pão! Pão! Pão!" retumbava de novo. Encontrariam pão por trás daquela porta. Um furor famélico os impelia, como se, de repente, não pudessem esperar mais, sob pena de morrerem naquela estrada. Jogavam-se com tal força contra a porta que Etienne receou ferir alguém ao golpear com o machado.
     Enquanto isso, Maigrat, que deixara o vestíbulo do palacete refugiara-se na cozinha, mas dali não podia ouvir nada, começou a imaginar a horrível destruição da sua loja. Por isso, resolveu subir para esconder-se atrás da bomba, do lado de fora. Foi então que começou a ouvir claramente o arrombamento da porta, as vociferações dos assaltantes, onde seu nome surgia a todo instante. Então, não era um pesadelo: continuava não vendo, mas ouvia, seguia o ataque com um zumbido nos ouvidos. Cada machadada feria-lhe o coração. Um gonzo devia ter saltado, mais cinco minutos e o armazém seria invadido. A cena surgia na sua imaginação com imagens reais, assustadoras, os assaltantes atirando-se para dentro, as gavetas abertas, os sacos rasgados, tudo comido, tudo bebido, a própria casa carregada, nada sobrando, nem mesmo um cajado para sair mendigando pelos vilarejos. Não! não se deixaria arruinar; antes morrer! Desde que se postara ali, percebia numa das janelas da sua casa, na parede do lado, o perfil tristonho da esposa, pálida e assustada por trás dos vidros; sem dúvida ela assistia aos golpes abalando a porta com seu jeito calado de pobre animal acostumado a apanhar. Por baixo havia um galpão, colocado de tal forma, que do jardim do palacete podia-se chegar até ele subindo pela latada da parede-meia; depois, daí era fácil rastejar sobre as telhas até a janela. A ideia de entrar na sua casa dessa maneira o torturava, no remorso de ter saído. Talvez ainda tivesse tempo de fortificar o armazém com os móveis; chegava até a inventar outras defesas heroicas, como azeite fervendo ou petróleo inflamado, derramados em cima. Mas esse amor pelas mercadorias lutava contra seu medo, estertorava na sua covardia represada. De repente, a um golpe mais violento do machado, decidiu-se. A avareza era mais forte, ele e a mulher cobririam os sacos com seus corpos; antes morrer do que entregar um pão.
     Nesse momento ouviu-se uma gritaria: 

— Olhem! Olhem! Há um gatão lá em cima! Ao gato! Pega o gato! A turba tinha visto Maigrat esgueirando-se pelo teto do galpão. Na sua ânsia, apesar do seu peso, ele subira agilmente pela latada, sem se preocupar com as ripas que quebravam; e agora espichava-se ao longo das telhas, esforçando-se para atingir a janela. Mas a inclinação era muito forte, sua barriga o estorvava, suas unhas estavam sendo arrancadas. Assim mesmo ter-se-ia arrastado até a cumeeira, se não tivesse começado a tremer de medo de receber uma pedrada, já que a multidão, que ele não conseguia ver, continuava a gritar lá de baixo: 
— Pega o gato! Pega o gato! Vamos fazê-lo em pedaços!

     E bruscamente, suas duas mãos se soltaram, ele rolou como uma bola, bateu na biqueira e caiu atravessado na parede-meia, tão desastradamente que foi espatifar-se na rua, onde abriu o crânio no ângulo de um marco. O cérebro esguichou. Estava morto. Sua mulher no alto, pálida e assustada por trás dos vidros, continuava olhando.
     Houve um momento de estupor. Etienne tinha parado e o machado escorregara das suas mãos. Maheu, Levaque, os outros todos esqueceram o armazém, os olhos voltados para a parede, de onde escorria lentamente um filete vermelho. Os gritos tinham cessado, abateu-se um silêncio pesado, na escuridão que aumentava.
     Em seguida recomeçaram os gritos. Eram as mulheres que se precipitavam, presas da embriaguez do sangue. 

— A justiça tarda mas não falha! Ah, porco, morreste, enfim! Rodearam o cadáver ainda quente e começaram a insultá-lo com gargalhadas, chamando de coisa imunda sua cabeça despedaçada, berrando na cara da morte o longo rancor de suas vidas sem pão. 
— Eu te devia sessenta francos, já estás pago, ladrão! — gritou a mulher de Maheu, tão enfurecida quanto as outras. — Nunca mais vais negar-te a me vender fiado... Espera! Espera! Vou engordar-te mais ainda.

     Começou a cavar a terra com as duas mãos, tomou dois punhados e os enfiou violentamente na boca do cadáver. 

— Vai, come! Vamos, come, come, tu, que nos comias!

     As injúrias eram cada vez mais violentas, enquanto o morto, estendido de costas, imóvel, olhava com seus grandes olhos vidrados o céu imenso de onde descia a noite. Aquela terra, enfiada na sua boca, era o pão que ele tinha recusado. E, de agora em diante, só comeria desse pão. Esfomear os pobres não lhe trouxera felicidade.
     Mas as mulheres ainda queriam vingar-se. Rodeavam-no, farejando como lobas. Todas arquitetavam um ultraje que as desafogasse.
     Ouviu-se a voz áspera da Queimada: 

— Vamos castrá-lo como a um gato! 
— Vamos! Ao gato! Mãos à obra! Esse asqueroso já fez demais o que não devia!

     Imediatamente a filha de Mouque começou a abrir-lhe a braguilha e a puxar-lhe as calças, enquanto a mulher de Levaque levantava as pernas do morto. E a Queimada, com suas mãos secas de velha, abriu-lhe as coxas nuas e empunhou a virilidade morta Segurou tudo e fez tal esforço para extirpar o membro que suas costas magras se distenderam e seus braços enormes estalaram. Mas a pele mole resistia, ela teve de atracar-se novamente e acabou arrancando o despojo, um pedaço de carne cabeluda e sangrenta que agitou no ar com uma gargalhada de triunfo: 

— Pronto, aqui está!

     Vozes esganiçadas saudaram com imprecações o horrível troféu: 

— Ah, desgraçado! Não engravidarás mais as nossas filhas! 
— Chega! Não te pagaremos mais com a nossa carne! Nunca mais teremos de abrir as pernas para conseguir um pão! 
— Olha, eu te devo seis francos... Queres fazer uma brincadeira por conta? Eu estou pronta, se tu ainda podes!

     Este gracejo sacudiu-as com uma gargalhada feroz. Passavam umas às outras a carne pingando sangue, como um animal tinhoso que cada uma tivera de suportar e acabavam de esmagar, que agora tinham ali, inerte, à sua mercê. Cuspiam em cima, arreganhavam os dentes, repetindo, numa furiosa explosão de desprezo: 

— Ele não pode mais! Ele não pode mais! Já não é mais um homem que vai para a cova! Começa logo a apodrecer inútil!

     A Queimada, então, espetou o naco de carne na ponta da sua vara, e, levantando-o bem alto, como um estandarte, empreendeu a marcha, seguida pela debandada ululante das mulheres. O sangue gotejava sobre elas, o despojo horripilante pendia como um pedaço de carne no gancho de um açougue. No alto, à janela, a Sra. Maigrat continuava estática, mas, ao último raio do sol que se punha, os defeitos dos vidros deformavam seu rosto branco, que parecia rir. Espancada, traída a todo momento, curvada da manhã à noite sobre o livro de assentamentos, talvez mesmo risse quando a chusma de mulheres saiu estrada afora com o animal tinhoso, o animal decepado na ponta da vara.
     A espantosa mutilação fora realizada em meio a um horror estupefato. Nem Etienne, nem Maheu, nem os demais tiveram tempo de intervir; permaneceram imóveis ante o galopar das fúrias. Na porta do Tison assomaram algumas cabeças: Rasseneur, trêmulo de revolta, e Zacharie e Philomène, boquiabertos com o que viam. Os dois velhos, Boa-Morte e Mouque, sempre graves, balançavam a cabeça. Apenas Jeanlin ria, empurrando Bébert, forçando Lydie a olhar.
     As mulheres já estavam voltando e desfilavam sob as janelas do palacete. Por trás das persianas, as damas espicharam o pescoço. Não tinham podido ver a cena, que se desenrolara oculta pela rede, e agora mal enxergavam, com a noite já caída. 

— Mas o que é que elas têm na ponta daquele pau? — perguntou Cécile, que se enchera de coragem para olhar.

     Lucie e Jeanne declararam que devia ser a pele de um coelho. 

— Não, não — murmurou a Sra. Hennebeau. — Devem ter pilhado a salsicharia, deve ser um pedaço de porco.

     Com um estremecimento, calou-se. A Sra. Grégoire advertiu-a com o joelho. Ambas permaneceram atônitas. As moças, muito pálidas, não fizeram mais perguntas, seguindo de olhos arregalados aquela visão rubra no fundo das trevas.
     Etienne brandiu novamente o machado, mas o mal-estar não se dissipava, o cadáver obstruía a entrada e protegia o armazém. Muitos tinham recuado. Era como se um torpor tivesse caído sobre o bando. Maheu, que continuava sombrio, ouviu uma voz dizer-lhe ao ouvido que fugisse. Voltou-se e reconheceu Catherine, sempre vestindo o seu velho paletó de homem, negra e ofegante. Com um gesto mandou-a embora, não queria ouvi-la, chegou a ameaçá-la com pancadas. Ela então hesitou e, em desespero, correu para Etienne. 

— Foge, foge, os policiais vêm aí!

     Ele também a escorraçou, injuriando-a, sentindo o sangue subir-lhe novamente ao rosto, à lembrança dos tapas que recebera. Ela, porém, não desistiu, obrigou-o a jogar fora o machado, arrastando-o pelos dois braços com uma força irresistível. 

— Quando te digo que os policiais estão chegando, tens de me escutar! Se queres saber mais, Chaval foi buscá-los e já está vindo com eles. A mim isso me enojou, por isso estou aqui. Foge! Não quero que te prendam...

     E Catherine arrastou-o no momento em que um pesado galope vindo de longe fazia o chão tremer. Imediatamente explodiu a gritaria: "Os policiais!" E começou uma correria desabalada, um salve-se-quem-puder tão rápido que em dois minutos a estrada ficou vazia, absolutamente limpa, como que varrida por um furacão. Só o cadáver de Maigrat manchava de escuro a terra branca. Diante do Tison permanecera apenas Rasseneur, que, satisfeito, rindo, aplaudia a vitória fácil dos sabres, enquanto em Montsou deserto, sem luzes, no silêncio das janelas e portas fechadas, os burgueses, escorrendo suor, não ousando espiar, batiam queixo. A planície estava afundada na noite escura, só os altos-fornos e as fornalhas de coque iluminavam ao fundo o céu trágico. O galope pesado dos policiais se aproximava. Quando apareceram, eram uma massa sombria, não se podia distingui-los. E atrás deles, confiado à sua guarda, o carro do pasteleiro de Marchiennes chegava, enfim. Dele saltou um entregador que se pós tranquilamente a descarregar a massa para os pastéis.

continua na página 314...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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