quarta-feira, 7 de junho de 2017

Gente Pobre - 15. A ferida está ainda muito viva! - Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski


15.




20 de junho



Prezado Makar Alexeievitch:


Escrevo-lhe apenas meia dúzia de palavras à pressa. Estou a acabar um trabalho que tenho de entregar num prazo fixo, não dispondo por isso de mais tempo. 

Vou dizer-lhe, sem rodeios, o assunto de que se trata: surgiu uma oportunidade de efetuar um negócio vantajoso. Diz a Fédora que um conhecido dela se quer desfazer de uma farda quase nova — calças, casaco e boné — e que a vende barato. Se quiser comprar... O senhor agora tem dinheiro e não vive com dificuldades; garantiu-me até que tinha dinheiro de mais. Por isso, seja razoável e adquira esse fato, que precisa dele. O que traz está muito velho, como poderá verificar se se mirar ao espelho. É verdadeiramente horroroso! Está cheio de nódoas e, segundo me afirmaram, o senhor não tem outro, apesar de me garantir o contrário. Pelo menos, ninguém lho vê. Peço-lhe, por isso, que me obedeça uma vez e compre o fato! Faça-o por mim, se é que realmente me tem algum amor. 

O senhor mandou-me roupa branca. Devo dizer-lhe, Makar Alexeievitch, que é de mais. Se assim continua, arruinar-se-á, pode crer; o que já gastou comigo representa quase uma fortuna! Como pode esbanjar tanto? Eu não preciso de nada, todas essas prendas são exageradas. Sei, tenho mesmo a certeza de que me quer; é, portanto, supérfluo o seu empenho em demonstrar-me. a verdade do seu carinho, oferecendo-me umas coisas atrás de outras. Creia que me custa imenso aceitar os seus obséquios, porque sei bem os sacrifícios que eles representam. Deixe-se dessas coisas de uma vez para sempre, ouviu? Peço-lhe, suplico-lhe! 

Pede-me que lhe envie a continuação das minhas memórias e diz que devo terminá-las. Meu Deus! Se eu própria não sei como consegui escrever tantas coisas naquele caderno! Não; já não sinto coragem para falar do meu passado, não quero pensar mais nele. Essas recordações horrorizam-me. Especialmente referir-me à minha pobre mãe, cuja filha única, após a sua morte, foi vítima de tantos infortúnios, é superior às minhas forças! Sinto o meu coração sangrar quando evoco essas recordações, apesar de serem tão longínquas. A ferida está ainda muito viva! Além disso, não disponho de serenidade para pensar; já passou um ano sobre esses acontecimentos, mas não consegui ainda recuperar a tranquilidade. De resto, o senhor sabe tudo. 

Já lhe falei também das tenções com que anda agora Ana Fedorovna. Acusa-me de ingratidão e afirma não ter de modo algum interferido no caso do senhor Buikov. Diz que estou a viver de esmolas e que enveredei pelo mau caminho. Por isso convida-me a voltar para sua casa, prometendo levar o senhor Buikov a reparar o mal que fez. Chegou mesmo a dizer que ele me indemnizará dando-me um dote. Para longe com eles! Estou aqui muito bem sob a sua proteção e ao lado da boa Fédora, cuja afeição me faz lembrar a minha velha ama que Deus haja. Bem sei que o senhor é apenas um parente afastado, mas isso não o impede de olhar por mim e me proteger com o seu nome honrado e a sua boa fama. A essa gente, não a conheço, votá-la-ei ao esquecimento, se tal me for possível! Que mais querem de mim? Diz a Fédora que são simples artimanhas que eles empregam e que, por fim, hão de acabar por me deixar em paz. Deus o queira!



B. D.







21 de junho




Minha querida:



Desejo escrever-lhe, mas não sei por onde principiar. É deveras estranha a vida que ambos agora levamos! Quero com isto apenas dizer que nunca passei dias tão felizes! É como se Deus me tivesse dado um lar e uma família querida: Mas para que falou nas quatro camisas que lhe enviei? Sei que precisava delas, disse-mo Fédora. E, bem sabe, para mim constitui um prazer ser-lhe útil em qualquer coisa. É a maior alegria que posso ter na vida; peço-lhe por isso que me permita gozá-la e queira fazer-me feliz. Nunca experimentei nada de semelhante, querida. A vida que hoje levo é completamente diferente, muito outra, da anterior. 

Em primeiro lugar, vivo duplamente vivendo perto de si, o que é para mim uma verdadeira consolação espiritual, ao passo que, por outro lado, o meu vizinho de quarto, Ratazaiev — esse funcionário em cujos aposentos se dão serões literários, convidou-me para tomar chá. Esta noite, portanto haverá uma dessas reuniões onde serão lidos alguns trechos literários. Está a ver a minha vida? 

Bom, por hoje adeus! Já lhe escrevi bastante sem qualquer objetivo; apenas queria participar-lhe que me encontro bem-disposto. Mandou-me dizer pela Teresa que precisava de seda de cor para os seus bordados; esteja descansada, que eu vou-lha comprar amanhã, sendo para mim um grande prazer a satisfação de um desejo seu. Já sei onde poderei encontrar a seda da melhor qualidade. 

Entretanto, creia-me seu sincero amigo



Makar Dievuchkin





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Esse é o tipo de livro que modifica algo na gente. “Pobre gente” foi o primeiro romance de Dostoievski, começou a escrever em 1844 e terminou no ano seguinte. O personagem Makar Dévushkin, um auxiliar administrativo que leva trinta anos copiando documentos, mora numa pensão humilde, seu pequeno quarto fica ao lado da cozinha, é o que pode pagar com o seu salário também minúsculo. O frio e a frieza de uma sociedade que ignora os pobres. Crítica social contundente, comendo pelas beiradas narrativas. Segundo alguns historiadores, uma das obras que mandou o autor para a cadeia siberiana. Eram os 25 anos de um gênio então já se apurando na escrita, despertando assim, para sentir seu tempo e as humilhações da época, desesperos; um olhar sobre todas as coisas da sofrida gente. Triste narrativa pungente da condição humana em torno desses dois personagens, como vítimas de fatalidades da vida numa sociedade onde poucos conseguem realmente sair do ramerão, e onde muitos se movem numa crueldade austera entre si, forçada pelas inóspitas condições em que vivem. Makar e Varenka vivem um amor idílico ensombrado pelo que os circunda (Makar é muito mais velho que Varenka), agravando as suas próprias condições a um nível desesperador e quase doentio, mas sempre com alguma perspectiva de esperança fundadas em ilusões muitas das vezes patéticas, algo falsamente ingênuas, ilustrativas, no entanto, ao alcance do coração humano que tudo pode sonhar, sem se importar com as verdadeiras condições em que se encontra, principalmente nessas condições por assim dizer desprezíveis.



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Fiódor Dostoiévski

GENTE POBRE

Título original: Bednye Lyudi (1846)

Tradução anônima 2014 © Centaur Editions

centaur.editions@gmail.com


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Leia também:

Gente Pobre - 14. Qual será a maior virtude cívica? - Dostoiévski 

Gente Pobre - 16. O pequenito tinha nove anos - Dostoiévski
Gente Pobre - 01. Ontem fui feliz, excessivamente feliz - Dostoievski


segunda-feira, 5 de junho de 2017

33. O Livro dos Abraços - A última cerveja de Caldwell - Eduardo Galeano

Eduardo Galeano


33. O Livro dos Abraços




A última cerveja de Caldwell 

Era no entardecer de um domingo de abril. Depois de uma semana de muito trabalho, eu estava bebendo cerveja numa taverna de Amsterdam. Estava com Annelies, que tinha me ajudado com santa paciência em minhas voltas e reviravoltas pela Holanda. 

Eu me sentia bem mas, sem saber por que, meio triste. 

E comecei a falar dos livros de Erskine Caldwell. 

Começou com uma piada boba. Como minhas incessantes viagens ao banheiro entre cerveja e cerveja me davam vergonha, resolvi dizer que o caminho da cerveja conduz ao banheiro da mesma forma que o caminho do tabaco leva ao cinzeiro, e me senti muito arguto. Mas Annelies, que não tinha lido O caminho do tabaco, nem sorriu. Então expliquei a piada, que é a pior coisa que se pode fazer em qualquer circunstância, e foi assim que comecei a falar de Caldwell e de seus espantalhos do sul dos Estados Unidos; e não consegui mais parar.

Fazia mais de vinte anos que eu não falava dele. Eu não falava de Caldwell desde os tempos em que me encontrava com Horacio Petit, nas cafeterias e nos botequins de Montevidéu, e com ele andava vinhos e livros. 


Agora, enquanto falava, enquanto aquela torrente incessante brotava de minha boca, eu via Caldwell, via Caldwell debaixo de seu esfiapado chapéu de palha, numa cadeira de balanço na varanda, feliz por causa dos ataques das ligas de moral e bons costumes e dos críticos literários, mascando fumo e ruminando novas porcarias e desventuras para seus personagens miseráveis. 

E a tarde se fez noite. Não sei quanto tempo passei falando de Caldwell e tomando cerveja. 

Na manhã seguinte, li a notícia nos jornais: O romancista Erskine Caldwell morreu ontem, em sua casa no sul dos Estados Unidos.




Andanças/3

Helena sonhou que telefonava para Pilar e Antonio, e eram tantas as vontades de dar um abraço nos dois que conseguia trazê-los da Espanha pelo aparelho. Pilar e Antonio deslizavam pelo telefone como se fosse um tobogã, e caíam, suavemente, em nossa casa de Montevidéu.





Dizem as paredes/4

Em pleno centro de Medellín: A letra com sangue entra. Embaixo, assinando: Carrasco alfabetizador. Na cidade uruguaia de Melo: Ajude a polícia: torture-se

Num muro de Masatepe, na Nicarágua, pouco depois da queda do ditador Somoza: 

Vão morrer de saudades, mas não voltarão.




Invejas do alto céu

Os maias creem que no começo da história, quando os deuses nos deram nascimento, nós, os humanos, éramos capazes de ver além do horizonte. Então estávamos recém-fundados, e os deuses atiraram pó em nossos olhos para que não fôssemos tão poderosos. 

Eu pensei nessa inveja dos deuses, quando soube que meu amigo René Zavaleta tinha morrido. René, que tinha uma inteligência deslumbrante, foi fulminado por um câncer no cérebro. 

De câncer na garganta tinha morrido, meio século antes, Enrico Caruso.




Notícias

Os macacos confundem Gato Félix com Tarzã, Popeye devora suas latas infalíveis, Berta Singerman geme versos no Teatro Solís, a grande tesoura de Geniol corta os resfriados, de um momento a outro Mussolini vai invadir a Etiópia, a frota britânica concentra-se no canal de Suez. 

Página após página, dia após dia, o ano de 1935 vai desfilando frente aos olhos de Pepe Barrientos, na Biblioteca Nacional. Pepe está buscando sei lá qual dado na coleção do jornal Uruguay, a estréia de um tango ou o batizado de uma rua ou coisa parecida, e o tempo inteiro sente que esta não é a primeira vez, sente que já viu o que está vendo agora, que já passou por aqui, passou antes por aqui, por estas páginas, o cine Ariel estréia um filme de Ginger Rogers, no Artigas a pequena Shirley Temple dança e canta, uma flanela molhada em Untisal cura a dor de garganta, um navio arde em chamas a cento e cinqüenta milhas destas costas de Montevidéu, uma bailarina de reputação duvidosa amanhece assassinada, Mussolini pronuncia seu ultimato. Guerra! Vem aí a guerra!, clama uma enorme manchete. Sim, Pepe já viu. Sim, sim: esta foto, o goleiro feito pomba voadora atravessando a página, o chute de Cea dobrando as mãos do goleiro, essas letras: talvez na infância, pensa. Surpreende-se de tão longa viagem da memória: em 1935, há mais de meio século, ele tinha seis anos. E então, de repente, é tocado pelo medo, as unhas geladas do medo roçam sua nuca, e ele tem certeza de que deve ir embora, e tem certeza de que vai ficar. E assim continua. Poderia mudar de jornal, ou de ano, ou simplesmente poderia caminhar até a porta de saída, mas continua. Pepe continua, chamado, não pode ir embora, não pode parar, e o Penarol ganha e sua grande figura é Gestido, e foi firmada a paz entre o Paraguai e a Bolívia mas o problema dos prisioneiros ainda não foi resolvido, e uma tormenta afunda barcos no Canal da Mancha, e foi preso o assassino da bailarina, que era o seu amante e que levava oito centavos no bolso no momento de sua detenção, e o remédio Himrod é garantido contra a asma, e de repente a mão de Pepe, que acaba de virar a página, fica paralisada, e uma foto golpeia sua cara: uma foto aberta em seis colunas, o caminhão tombado e arrebentado, a imensa foto do caminhão, e ao redor do caminhão um enxame de curiosos vendo o fotógrafo, olhando para Pepe que olha os curiosos, que não os vê: Pepe com os olhos cegos de lágrimas vendo a foto do caminhão onde seu pai morreu esmagado numa trombada espetacular que comove o bairro La Teja, em Montevidéu, ao meio-dia do dia 18 de setembro de 1935.




A morte

Nem dez pessoas iam aos últimos recitais do poeta espanhol Blas de Otero. Mas quando Blas de Otero morreu, muitos milhares de pessoas foram à homenagem fúnebre feita numa arena de touros em Madri. Ele não ficou sabendo.





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Titulo original: El libro de los abrazos Primeira edição em junho 1991. Tradução: Eric Nepomuceno Revisão: Ana Teresa Cirne Lima, Ester Mambrini e Valmir R. Cassol Produção: Jó Saldanha e Lúcia Bohrer ISBN: 85.254.0306-0 G151L Galeano, Eduardo O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm 1. Ficção uruguaia. I.Título. CDD U863 CDU 860(895)-3 Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329. Texto e projeto gráfico de Eduardo Galeano © Eduardo Galeano, 1989


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Leia também:

32. O Livro dos Abraços - Os adeuses - Eduardo Galeano


1.O Livro dos Abraços - O mundo - Eduardo Galeano


sábado, 3 de junho de 2017

Série: Jazz Para Sempre 16 - lençóis melódicos

Lester Young



Quando você não sabe o que dizer... escute



Pennies from Heaven







Jammin the blues







Lester Young &Coleman Hawkins 1958






Charlie Parker & Lester Young - Embraceable You






'Pennies from Heaven' 1950







DB (Detention Barrack) Blues







Lester Young, (Lester Willis Young) (Woodville, Mississippi, 27 de agosto de 1909 - Nova Iorque, 15 de março de 1959) foi um saxofonista-tenor norte-americano.

Lester, cuja alcunha era "Prez", cresceu numa família família de músicos de relevo. O seu irmão, Lee Young foi um baterista notável e vários dos outros membros da família eram músicos profissionais. A família mudou-se para Nova Orleães, Luisiana, quando Lester era ainda uma criança. O pai ensinou-lhe a tocar trompete, violino e bateria além de saxofone. Saiu da banda familiar em 1927 porque se recusou a ir em tournée pelo Sul dos Estados Unidos, onde as leis de Jim Crow estavam em vigor.

Tornou-se proeminente nos anos 30, tocando num estilo relaxado que contrastava vivamente com a abordagem agressiva de Coleman Hawkins, o saxofonista-tenor mais importante da época. Com efeito, quando Young saiu da banda de Count Basie para substituit Hawkins na banda de Fletcher Henderson, o seu estilo aborreceu tanto os fãs de Henderson que rapidamente saiu para ir tocar com Andy Kirk. Mais tarde regressou à banda de Basie.

Visto que o jazz já tinha um "rei do swing" com Benny Goodman, um "duque" com Duke Ellington, e um "conde" com Count Basie, Lester Young ficou conhecido como Pres (diminutivo de "presidente"), nome que lhe foi dado por Billie Holiday. Ele devolveu o favor chamando à cantora "Lady Day".

Young virou-se para o bebop nos anos 40. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial começou a sofrer de problemas mentais e alcoolismo, em geral atribuídos a maus-tratos racistas que teria recebido durante a guerra no exército americano, onde era frequente não ser autorizado a tocar o seu saxofone. Apesar disso, manteve uma grande qualidade na interpretação. É geralmente considerado um dos maiores músicos de jazz de todos os tempos.












sexta-feira, 2 de junho de 2017

Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / XXIII

Júlio Verne



Viagem ao Centro da Terra/XXIII





Durante uma hora, fiquei imaginando em meu cérebro em delírio todos os motivos possíveis para o ato do tranqüilo caçador. As idéias mais absurdas confundiam-se em minha cabeça. Achei que ia ficar louco! Mas finalmente ouvi um ruído no fundo do abismo. Hans estava voltando. Uma luz incerta começara a insinuar-se pelas paredes, desembocando depois pelo orifício do corredor. Hans apareceu. Aproximou-se de meu tio, tocou seu ombro com a mão e acordou-o com suavidade. Meu tio levantou-se. 

- O que aconteceu? - murmurou.

- Vatten - respondeu o caçador.

Deve-se acreditar que, inspirado por sofrimentos violentos, todos se tornam poliglotas. Não conhecia uma única palavra de dinamarquês, mas instintivamente compreendi o que nosso guia estava dizendo. - Água, água! - gritei, batendo as mãos, gesticulando como um louco.

- Água! - repetiu meu tio. - Hvar? - perguntou ao islandês.

- Nedat - respondeu Hans.

Onde? Lá embaixo. Eu compreendia tudo. Pegara as mãos do caçador e apertava-as, enquanto ele me olhava com calma. Os preparativos para a partida não demoraram, e logo caminhávamos por um corredor cuja inclinação chegava a dois pés por toesa. Uma hora depois, andáramos mil toesas e descêramos dois mil pés. Naquele momento, ouvi distintamente um som inabitual correr pelos flancos da muralha granítica, uma espécie de mugido surdo, como o de uma tempestade distante. Como durante a primeira meia hora de caminhada não encontráramos a fonte anunciada, comecei a sentir-me novamente angustiado, mas meu tio indicou-me a origem dos ruídos.

- Hans não se enganou - disse. - Isso que você está ouvindo é o mugido de uma torrente.

- Uma torrente? - exclamei.

- Não há mais dúvidas. Um rio subterrâneo circula ao nosso redor.

Apressamos o passo, excitados pela esperança. Já não sentia mais o cansaço. Aquele ruído de água murmurante já me refrescava. Aumentava sensivelmente. Após ter-se sustentado por um período acima de nossas cabeças, agora a torrente corria pela parede da esquerda, mugindo e saltando. Eu ficava passando a mão na rocha, esperando encontrar vestígios de ressudação ou umidade, mas em vão. Mais meia hora se passou. Transpusemos mais meia légua. Tornou-se então evidente que, em sua ausência, o caçador não pudera prolongar suas pesquisas para além daquele ponto.

Guiado por um instinto próprio aos montanheses e hidróscopos, "sentira" a torrente através da rocha, mas com certeza não vira o precioso líquido; não desalterara. Também logo constatamos que, se continuássemos a andar, iríamos afastar-nos da corrente, cujo murmúrio tendia a diminuir. Recuamos. Hans parou no ponto preciso em que a corrente parecia mais próxima. Sentei-me perto da muralha, enquanto as águas corriam a dois pés de mim com extrema violência. Mas ainda estávamos separados delas por uma parede de granito.

Sem refletir ou perguntar-me se não existiria algum meio de obter aquela água, deixei-me levar por um primeiro momento de desespero. Hans olhou para mim, e acreditei ter visto um sorriso em seus lábios. Ele levantou-se e pegou a lâmpada. Acompanhei-o. Dirigiu-se para a muralha. Fiquei olhando para ele. Ele colou sua orelha na pedra e passeou-a, ouvindo com muito cuidado. Compreendi que estava procurando o ponto em que a torrente fazia mais barulho. Encontrou-o na parede lateral da esquerda, três pés acima do chão. Como eu estava emocionado! Nem ousava adivinhar o que o caçador queria fazer! Mas tive de compreendê-lo e aplaudi-lo, enchê-lo de carinho, quando vi que pegava sua picareta para quebrar a própria rocha.

- Estamos salvos! - gritei.

- Sim - repetia meu tio em frenesi. - Hans tem razão!

Ah, belo caçador. Não teríamos encontrado isso! Com toda a certeza, por mais simples que fosse esse meio, jamais teríamos tido essa ideia. Nada mais perigoso do que uma picaretada naquela estrutura do globo. Quem poderia garantir que não seríamos esmagados por algum desmoronamento? E se a torrente que surgisse pela rocha provocasse uma inundação? Não eram perigos imaginários. Contudo, naquele momento, o temor de desmoronamento ou inundação não poderia nos deter, e nossa sede era tão intensa que, para matá-la, teríamos escavado o próprio leito do oceano.

Hans começou a executar o trabalho que nem eu nem meu tio teríamos coragem de fazer. Levados pela impaciência, a rocha teria estourado sob nossos golpes precipitados. Ao contrário, calmo e moderado, o guia desgastou pouco a pouco o rochedo com uma série de picaretadas, cavando uma abertura de seis polegadas. Eu ouvia o barulho da torrente aumentar e já sentia a água benéfica em meus lábios.

Logo a picareta penetrou dois pés na muralha de granito. O trabalho durava mais de uma hora. Torcia-me de impaciência.

Meu tio quis empregar meios mais violentos. Foi difícil detê-lo, e já pegara sua picareta quando ouvimos um assobio. Um jato de água jorrou da muralha e foi quebrar-se na parede oposta. Um tanto alterado pelo choque, Hans não conseguiu conter um grito de dor. Consegui compreendê-lo quando mergulhei minhas mãos no jato líquido. Também soltei uma exclamação violenta. A água da fonte estava fervendo!

- Água a cem graus! - exclamei.

- Esfriará - respondeu meu tio.

O corredor enchia-se de vapores, enquanto se formava um riacho que ia perder-se nas sinuosidades subterrâneas; logo tomávamos o primeiro gole. Ah! Que prazer! Que voluptuosidade incomparável! O que era aquela água? De onde vinha? Não tinha nenhuma importância. Era água e, embora ainda quente, trazia de volta ao coração a vida que lhe fugia. Bebi sem parar, sem nem mesmo degustar. Somente depois de um minuto de deleite exclamei:

- Mas é água ferruginosa!

- É excelente para o estômago - replicou meu tio -, pois contém um alto grau de mineralização! Essa viagem acabou valendo por uma estação de águas em Spa ou Toeplitz!

- Ah, como é bom!

- Com toda a certeza, uma fonte a duas léguas sob a terra!

Tem um gosto de tinta nada desagradável. Que bela nascente Hans descobriu para nós! Proponho seu nome para esse saudável riacho.

- Concordo! - exclamei.

E adotamos imediatamente o nome de "Hans Bach". Hans não demonstrou maior orgulho. Após ter saciado a sede com moderação, encostou-se num canto com sua calma habitual.

- Agora - disse -, não devemos deixar que essa água se perca.

- Para quê? - respondeu meu tio. - Acho que a nascente é inesgotável.

- De qualquer modo, vamos encher nossos cantis e depois tentaremos tampar a abertura.

Meus companheiros acataram meu conselho. Em meio aos estouros de granito e estopa, Hans tentou obstruir o entalhe na parede, o que não foi fácil. Queimávamos a mão sem conseguir nada; a pressão era forte demais, e nossos esforços foram em vão.

- É evidente que os lençóis superiores desse curso de água localizam-se a uma grande altitude; como o seu jato é forte! - comentei.

Com toda a certeza - replicou meu tio. - Se a coluna de água tiver trinta e dois mil pés de altura, estamos diante de mil atmosferas de pressão. Mas acabo de ter uma ideia.

- Qual?

- Por que essa teima em tamparmos a abertura?

- Porque...

Não consegui encontrar uma boa razão.

- Temos certeza de que encontraremos água quando nossos cantis estiverem vazios?

- É claro que não.

- Então deixemos essa água correr! Ela descerá naturalmente e guiará aqueles que refrescará no caminho!

- Que boa ideia! - exclamei - e, com esse riacho por companheiro, não há mais nenhum motivo para que nossos planos não deem certo.

- Ah, você acaba de compreender tudo, meu caro - riu o professor.

- Não só compreendi, como também estou acompanhando tudo.

- Um momento, antes de mais nada, descansemos por algumas horas.

Esquecera-me completamente de que era noite. O cronômetro encarregou-se de informar-me. Logo todos nós, suficientemente refeitos e refrescados, caímos num sono profundo.





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Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / XXIV


Júlio Verne: Viagem ao Centro da Terra / I




Vai Passar, gente

Chico Buarque




O estandarte do sanatório geral
Vai passar








Vai Passar


Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo
Da velha cidade
Essa noite vai
Se arrepiar
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O carnaval, o carnaval
(Vai passar)

Palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
E os pigmeus do bulevar
Meu Deus, vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear

Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral vai passar
Ai, que vida boa, olerê
Ai, que vida boa, olará
O estandarte do sanatório geral
Vai passar



Composição: Chico Buarque / Francis Hime