sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Odisseia: Parte II (Canto V.b)

Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹ 
Canto V

A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses

    “Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento, salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)


continuando...

logo depois de sabida a mensagem que Zeus lhe mandara. 
Foi encontrá-lo assentado na praia. Corria-lhe a doce 
vida num pranto contínuo, que os olhos jamais se enxugavam, 
a suspirar pela volta, que a ninfa não mais lhe era grata. 
Era bem certo que à noite, forçado, dormia na gruta, 
participando, entediado, do leito da ninfa ardorosa. 
Mas todo o dia passava nos altos rochedos da praia, 
a alma desfeita em suspiros sentidos, e prantos, e dores. 
Lágrimas, pois, a verter, contemplava o infecundo oceano. 
Tendo-se a ele chegado, lhe disse a preclara das deusas:

“Basta, infeliz, de chorar. Não consumas, assim, a existência; 
sinto-me, agora, inclinada a deixar-te partir novamente. 
Vamos! Apresta uma grande jangada, lavrando com bronze 
troncos bem grossos. Estrado, depois, elevado lhe fixa, 
para que possa levar-te através do brumoso oceano. 
Água, e alimentos, e vinho vermelho hei de eu mesma trazer-te, 
em grande cópia, que possam livrar-te da fome na viagem. 
Vestes dar-te-ei; hei de ventos ponteiros mandar-te, igualmente, 
a fim que possas voltar para a pátria sem mais sofrimentos, 
caso o consintam os deuses que moram no céu estrelado,

que no pensar, não somente, nas próprias ações me superam.” 
   Estremeceu o divino e paciente Odisseu a tais vozes; 
pôs-se, em seguida, a falar, e lhe disse as palavras aladas: 
   “Outros desígnios, ó deusa, meditas, que não meu retorno, 
quando me ordenas cruzar em jangada o infinito das águas 
cheio de grandes perigos, que os próprios navios velozes 
jamais conseguem vencer, sem que Zeus lhes envie bons ventos. 
Nunca entrarei em jangada, se for contra tua vontade, 
a menos que te resolvas, ó deusa, a fazer juramento 
de que não tens intenção de outros males, agora, causar-me.”

Isso disse ele. Calipso sorriu-se, a divina entre as deusas; 
acariciou-o com a mão e, falando, lhe disse o seguinte: 
   “És, em verdade, um manhoso, que nunca vãmente excogita! 
Cheio de astúcia refletes e sabes dizer o que pensas. 
Pois tome a Terra ciência, bem como o Céu vasto de cima e 
a água do Estige, que se precipita — esta é a jura mais alta 
e mais terrível de todos os deuses bem-aventurados — 
de que não tenho intenção de outros males, agora, causar-te. 
Mas o que penso e proponho fazeres é como se eu própria 
me propusesse, se acaso me visse em igual conjuntura.

Equitativa é minha alma e à justiça inclinada; no peito 
não se me aninha um espírito férreo, senão compassivo.” 
   Tendo isso a deusa preclara enunciado, se pôs a guiá-lo 
rapidamente. Odisseu segue os passos da deusa donosa. 
Ambos, Calipso e o mortal, logo à côncava gruta chegaram, 
indo sentar-se Odisseu na poltrona em que há pouco estivera 
Hermes. A ninfa Calipso lhe serve variados manjares, 
de que comer e beber, de que os homens mortais se alimentam. 
Logo em seguida defronte do divo Odisseu foi sentar-se; 
Néctar e ambrósia na frente dos dois as criadas puseram.

Ambos as mãos estendiam, visando a alcançar as viandas. 
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado, 
pôs-se a falar, em seguida, Calipso preclara e divina: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
é, então, verdade que queres voltar para a pátria querida, 
sem mais delongas? Pois parte feliz, apesar do que sinto. 
Mas se pudesses saber o que o Fado te tem reservado 
de sofrimentos, primeiro que alcances a terra nativa, 
escolherias comigo ficar e guardar esta casa, 
como tornar-te imortal, apesar das saudades que sentes

longe da esposa, por causa de quem de contínuo suspiras. 
Mas me envaideço de em nada inferior ser à tua consorte, 
nem nas feições nem no porte, que aos seres mortais não compete 
vir disputar com os eternos na forma perfeita e na altura.” 
   Disse-lhe o muito solerte Odisseu o seguinte, em resposta: 
“Lusa potente, não queiras com isso agastar-te; conheço 
perfeitamente que a minha querida e prudente Penélope 
é de menor aparência e feições menos belas que as tuas. 
Ela é uma simples mortal; tu, eterna, a velhice não temes. 
Mas, apesar de tudo isso, consumo-me todos os dias

para que à pátria retorne e reveja o meu dia da volta. 
Mesmo que em meio do mar cor de vinho algum deus me atingisse, 
meu coração resistente isso tudo, decerto, sofrera. 
Já suportei muitas dores, passei numerosos trabalhos, 
tanto no mar que na guerra; que venham, por isso, mais esses.” 
   Disse, no tempo em que o Sol se deitou, vindo a noite em seguida. 
Para o interior ambos eles se foram da gruta escavada; 
dão-se aos deleites do amor, e bem juntos um do outro se ficam. 
   Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina, 
sem mais demora, Odisseu veste a túnica e o manto veloso.

Ela, Calipso, se adorna com peplo bem grande e luzente, 
belo de ver e mui fino, que aperta no corpo com um cinto 
de ouro e lavrado; por último, o véu na cabeça coloca. 
Passa a pensar na maneira de como Odisseu retornasse. 
Dá-lhe uma grande bipene de bronze, de fácil manejo, 
com duplo bordo cortante, na qual ajustara um mui belo 
cabo tirado de pau de oliveira e bem fixo no furo. 
Dá-lhe, depois, uma enxó bem-lavrada, e lhe serve de guia 
ao ponto da ilha postremo, onde espessa floresta crescera, 
com muitos choupos e amieiros e abetos, que o céu atingiam,

todos sem seiva e já secos, que leves no mar o levassem. 
Tendo-lhe o ponto mostrado em que as árvores grandes cresciam, 
para o palácio retorna a preclara e divina Calipso. 
Troncos derruba Odisseu; facilmente o trabalho arremata. 
Vinte, por tudo, abateu, e com o bronze dos galhos os limpa; 
mui habilmente os lavrou, as distâncias tomando com fio. 
Trados lhe trouxe, entrementes, a deusa preclara Calipso. 
Todos, com eles, furou, ajustando, depois, uns aos outros, 
encavilhando-os de jeito e travessas metendo a martelo. 
Quanto experiente armador, que constrói um navio de carga,

largo e espaçoso, lhe tira a medida da parte do fundo: 
tanto em largura a jangada media do herói astucioso. 
Põe-lhe, depois, um jirau, sustentando-o com vigas bastantes, 
para, por fim, concluir a armadura com troncos ao longo. 
Mastro, também, levantou, adaptando-lhe no alto uma verga. 
Leme aprontou e ajustou-lhe, porque fosse fácil guiá-la. 
Para das ondas ficar protegida, em redor reforçou-a 
com bem-trançados cipós, pondo o lastro com muita madeira. 
Pano de linho lhe trouxe, entretanto, a divina Calipso, 
para que a vela aprestasse. Com arte soube ele cortá-la,

nela prendendo, por fim, as adriças, escotas e braços. 
Com alavanca a jangada arrastou para as ondas sagradas. 
   No quarto dia o trabalho ficou concluído a contento, 
e no seguinte a divina Calipso mandou que se fosse 
da ilha, depois de o banhar e prover de vestidos odoros. 
Pôs na jangada dois odres, um de água, bem grande, e um
de vinho de cor escura. Num saco de couro depôs, de igual modo, 
muitos manjares de fino sabor e variada feitura. 
Fez que soprasse, em seguida, um bom vento propício e agradável, 
ao qual as velas o divo Odisseu satisfeito desfralda.

Sempre sentado, o timão dirigia com arte e destreza, 
sem ter as pálpebras nunca de sono pesadas, as Plêiades 
a contemplar e o Boeiro, que tarde costuma deitar-se, 
bem como a Ursa, também pelo nome de Carro chamada, 
que gira sempre num ponto e não deixa de a Orião ter em vista, 
e que entre todas é a única que não se banha no Oceano, 
pois fora expressa recomendação da divina Calipso 
que ele tivesse à sinistra este signo durante o percurso. 
Dessa maneira singrou pelo dorso no mar dezessete 
dias; mas no outro surgiram os montes escuros da terra

onde os Feácios demoram, bem próximo donde ele estava, 
que parecia um escudo deixado no oceano brumoso. 
   Eis que Posidon, de volta dos homens Etíopes, o enxerga, 
dos altos montes dos povos Solimos. De pronto o percebe, 
que pelo mar navegava. Ainda mais se exaspera com isso; 
move indignado a cabeça e a si próprio dirige a palavra: 
   “Oh! Por sem dúvida os deuses por modo diverso acordaram 
sobre Odisseu, quando estive em visita entre as gentes Etíopes. 
Vejo-o bem perto da terra Feácia, onde é força que escape 
do laço extremo do Fado que sobre ele pesa sinistro.

Penso, porém, que ainda posso causar-lhe outra série de males.”² 
   Tendo isso dito, congloba os bulcões, deixa o mar agitado 
com o tridente. Suscita, depois, tempestade violenta 
dos ventos todos e em nuvens envolve cinzentas a terra 
conjuntamente com o mar. Baixa a Noite do céu entrementes. 
Euro mais Noto se chocam, e Zéfiro desagradável, 
bem como Bóreas, que do éter provém, portador de ondas grandes. 
O coração de Odisseu se abalou, fraquejaram-lhe os joelhos. 
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala: 
   “Quão infeliz! Ai de mim! Que me falta passar de mais grave? 

Pois bem receio que a deusa tivesse a verdade anunciado, 
quando falou dos trabalhos que na água eu passar deveria 
antes de a pátria alcançar. Ora tudo, de acordo, se cumpre. 
Com quantas nuvens esconde ora o céu Zeus Olímpico! As ondas 
como levanta, também, suscitando furiosos remoinhos 
dos ventos todos! É força que a Morte imatura me colha. 
Três, quatro vezes felizes os Dânaos que lá na planície 
da grande Troia morreram, por simples amor aos Atridas! 
Bem preferira cumprir o Destino e morrer ali mesmo, 
naquele dia em que os Teucros, visando-me lanças aêneas

continua página 736...
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Prelúdio
Parte I
Parte II
Canto V.a / Canto V.b / Canto V.c /                    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Esta parte da Odisseia marca a transição decisiva entre o sofrimento solitário de Odisseu e sua reintegração ao mundo humano. Aqui, Homero reúne três núcleos narrativos:
- O cativeiro de Odisseu na ilha de Calipso
- O naufrágio e a chegada à terra dos Feácios
- A acolhida na casa do rei Alcínoo, onde Odisseu finalmente narra suas aventuras.
     É o momento em que o herói deixa de ser apenas personagem das histórias dos outros (como na Telemaquia) e volta a ser protagonista de sua própria narrativa.
Canto V
- Odisseu está preso há sete anos na ilha de Ogígia, retido pela ninfa Calipso, que lhe oferece imortalidade se ele aceitar ficar com ela.
- Os deuses decidem que é hora de libertá-lo; Hermes leva a ordem a Calipso.
- O herói constrói uma balsa e parte, mas Posídon, ainda irado pelo episódio com Polifemo, provoca uma tempestade.
- Odisseu sobrevive por pouco e é lançado ao mar, agarrado a pedaços da embarcação.
[2] Uma análise do trecho em que Posídon avista Odisseu a caminho da terra dos Feácios e decide atacá‑lo novamente. Este é um dos momentos mais tensos do Canto V da Odisseia, pois revela o conflito direto entre o deus e o herói.
* Contexto narrativo
     Posídon estava ausente — visitava os Etíopes — quando os deuses decidiram libertar Odisseu da ilha de Calipso. Ao retornar, vê o herói navegando em direção à Feácia, muito próximo de escapar definitivamente de seu ódio. Esse detalhe é crucial: Posídon não participou da decisão divina e, portanto, age movido por ressentimento e pela sensação de ter sido excluído.
* A visão de Odisseu e o aumento da fúria
     Ao avistar Odisseu “dos altos montes dos povos Solimos”, Posídon:
- Reconhece o herói imediatamente
- Percebe que ele está prestes a escapar
- Sente sua ira aumentar (“ainda mais se exaspera com isso”)
     A reação é instantânea e emocional. Posídon não é um deus racional: ele é impulsivo, vingativo e orgulhoso.
* A fala de Posídon: ressentimento e desafio
     Posídon diz: "Oh! Por sem dúvida os deuses por modo diverso acordaram sobre Odisseu, quando estive em visita entre as gentes Etíopes.” Aqui ele expressa:
- Ressentimento contra os outros deuses (Ele se sente traído: enquanto estava longe, os outros decidiram favorecer Odisseu.)
- Consciência do destino do herói 
     Posídon sabe que Odisseu está “perto da terra Feácia”, onde o Fado exige que ele escape.
     Isso é importante: Posídon reconhece que o destino de Odisseu é voltar para casa. Mas, mesmo assim, ele tenta atrasar ou dificultar esse retorno.
- A vontade de causar mais sofrimento
     “Penso, porém, que ainda posso causar-lhe outra série de males.” Essa frase revela a essência do conflito: Posídon não pode impedir o destino, mas pode prolongar o sofrimento.
* O tema do conflito entre destino e vontade divina
     Este trecho é exemplar da tensão central da Odisseia:
- O destino (Moira) determina que Odisseu deve voltar a Ítaca.
- Posídon, porém, tenta constantemente atrasar esse retorno.
     Posídon não é capaz de anular o Fado, mas pode:
- criar tempestades,
- destruir embarcações,
- prolongar o sofrimento do herói.
     Essa tensão entre o inevitável e o contingente é uma marca da poesia épica.
* A psicologia de Posídon
     Posídon é movido por:
a) Orgulho ferido - Odisseu cegou seu filho, Polifemo. Para Posídon, isso é uma afronta pessoal.
b) Desejo de vingança - Ele não quer apenas punir Odisseu: quer que o herói sinta o peso da ira divina.
c) Frustração - Ao ver Odisseu tão perto da salvação, Posídon percebe que sua vingança está ameaçada.
* Função narrativa do episódio
     Este momento cumpre várias funções:
a) Intensifica o drama - Odisseu está quase salvo, mas ainda enfrenta um último ataque.
b) Prepara o naufrágio - Posídon desencadeia a tempestade que destruirá a balsa de Odisseu.
c) Introduz a intervenção de outras divindades - A deusa Ínô-Leucótea aparecerá para ajudar Odisseu, equilibrando a balança contra Posídon.
d) Reforça o papel dos Feácios - Eles são essenciais para o retorno do herói — e Posídon sabe disso.
* Dimensão simbólica
     Posídon representa:
- As forças caóticas do mar
- O sofrimento inevitável da jornada humana
- A resistência do mundo contra o retorno ao lar
     Odisseu, por sua vez, simboliza:
- a perseverança,
- a inteligência,
- a capacidade humana de resistir ao caos.
* Conclusão interpretativa
     Este trecho mostra Posídon em seu momento mais humano: ressentido, frustrado, vingativo. Ele sabe que não pode impedir o destino, mas tenta atrasá-lo — e isso revela a complexidade do mundo divino na Odisseia. O conflito entre Posídon e Odisseu não é apenas físico: é moral, psicológico e simbólico.
     O herói está quase no fim da jornada, mas ainda precisa enfrentar a última tempestade — a última prova antes de ser acolhido pelos Feácios e finalmente retomar sua identidade e seu caminho para Ítaca.

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